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UOL Prime #130: Como o Marajó virou alvo de fake news por interesses evangélicos

09 de julho de 202620min
0:00 / 20:08

No fim de maio, uma iniciativa itinerante do CNJ (Conselho Nacional de Justiça) passou por cidades do arquipélago do Marajó para oferecer orientações sobre direitos e regularização rural, entre outros pontos. 

Regularizar terras é uma das questões mais sensíveis no Marajó, conforme apurou o UOL in loco, em uma série de reportagens realizada com apoio do Pulitzer Center Rainforest Reporting Grant

No novo episódio do podcast UOL Prime, José Roberto de Toledo conversa com a repórter Juliana Sayuri sobre as disputas no maior arquipélago flúvio-marítimo do mundo durante o programa Abrace o Marajó. O projeto, idealizado e liderado pela então ministra de Direitos Humanos do governo Jair Bolsonaro, Damares Alves, foi revogado pelo governo Lula, sob suspeita de irregularidades.

Segundo o MPF (Ministério Público Federal), Damares usou fake news para justificar o programa: afirmou, sem provas, que no Marajó as meninas seriam sexualmente exploradas porque não usam calcinhas, seriam sequestradas e teriam os dentes arrancados.

Senadora atualmente, ela é alvo de ação sobre o assunto.

Participantes neste episódio2
J

José Roberto de Toledo

HostJornalista
J

Juliana Sayuri

ReporterRepórter
Assuntos4
  • Boninho· EntretenimentoDamares Alves · Governo Bolsonaro · Exploração sexual infantil · Fake news
  • Denúncias falsas sobre o MarajóDamares Alves · Ranking internacional inexistente · Meninas sem calcinhas · Dentes arrancados
  • Concessão de terras públicasTAUS (Termo de Autorização de Uso Sustentável da Terra) · Igrejas evangélicas · Interesses políticos e ideológicos · Marajó
  • Religiões PolíticasSeparação Estado-Igreja · Assembleia de Deus · Prefeito de Bagre · Missões estrangeiras
Transcrição59 segmentosassemblyai/universal-3-5-pro
JRJosé Roberto de Toledo

Em 2020, o governo Bolsonaro lançou um programa chamado Abrace o Marajó. O motivo do abraço era a suposta exploração sexual em massa de crianças na maior ilha fluvial do mundo. Então, ministra de Bolsonaro, Damares Alves, dizia que a situação era tão alarmante que exigia uma mobilização nacional. Só tinha um problema: a principal denúncia para justificar o programa era falsa. O suposto ranking internacional que colocaria Marajó entre os piores lugares do mundo para crianças vítimas de violência sexual simplesmente não existia.

O ranking era uma ficção. E as histórias chocantes contadas pela ministra Damares para descrever a realidade da ilha jamais foram comprovadas. Mesmo assim, o programa seguiu adiante e instituições religiosas foram beneficiadas com a destinação de terras públicas. Enquanto isso, os moradores conviviam com o estigma de crimes que nunca foram comprovados. A repórter do UOL, Juliana Sayuri, viajou ao Marajó para investigar o que era fato e o que era boato.

Hoje ela conta para a gente o que encontrou na ilha e como uma narrativa construída em Brasília continua produzindo efeitos na vida dos marajoaras. Muito bem-vinda de volta ao UOL Prime, Juliana Sayuri.

JSJuliana Sayuri

Bom estar de volta, Toledo.

JRJosé Roberto de Toledo

Eu sou José Roberto de Toledo e este é o UOL Prime. Toda semana a gente conversa com os melhores repórteres sobre as melhores reportagens do UOL. Juliana Sayuri, que que era, que raios era esse tal de Abraço e o Marajó?

JSJuliana Sayuri

Abraço e o Marajó foi um programa idealizado pela ministra Damares para sobretudo combater graves violações de direitos humanos no arquipélago. Mas entre 2020 e 2022, período em que ele esteve ativo de fato sob gestão da ministra, nenhuma iniciativa de fato foi feita para combater um problema que ela mesma alardeou ao longo desse tempo, que seria um suposto esquema gigantesco de exploração sexual, sobretudo infantil, no arquipélago.

Primeira coisa que a gente tem que lembrar sempre quando se fala do Marajó é que violência sexual é um problema, sim, existe lá, mas infelizmente como existe no resto do país, né?

JRJosé Roberto de Toledo

Não é só no Marajó, não é só no Marajó, mas especialmente maior lá.

JSJuliana Sayuri

Não, não é, de acordo com as estatísticas. É uma realidade que infelizmente atinge mulheres e meninas lá e é Como a gente sabe, muitas fake news, elas nascem com um lastro de verdade. Foi a partir desse lastro que a ministra, como você disse, explorou uma narrativa com hipérboles e histórias que ela nunca provou. Histórias que inclusive são a causa do processo que ela enfrenta pelo Ministério Público Federal.

JRJosé Roberto de Toledo

A gente vai ter que infelizmente reproduzir pelo menos uma delas para dar a dimensão do que ela cometeu.

JSJuliana Sayuri

Abre aspas, palavras da ministra: no Marajó, meninas que meninas têm os dentes arrancados pra performar sexo oral se prostituindo com homens. Ou que meninas são estupradas no Marajó porque elas não usam calcinhas. Então uma solução pra esse problema seria levar uma fábrica de calcinhas pros marajoaras. Foi esse tipo de declaração, né, que ela fez.

JRJosé Roberto de Toledo

Quer dizer, então ela primeiro inventou um ranking, inventou estatísticas. Depois ela inventou histórias que não têm nenhuma base na realidade. Embora exista o problema, ele existe no Brasil inteiro. Às vezes talvez seja um pouco mais grave na região Norte, mas não especialmente no Marajó. E não bastasse toda essa série de mentiras que geraram um processo do Ministério Público, o programa Abrace não existia de verdade então?

JSJuliana Sayuri

O que que tá por trás, né? O que que tá na entrelinha dessa narrativa hiperbólica sobre o Marajó? É retratar aquele lugar, aquele arquipélago, que é maravilhoso, que é, enfim, que é lindo, retratá-lo como um inferno na terra. E o inferno na terra é uma expressão que eu escolhi pra falar sobre isso porque quando a ministra faz esse tipo de discurso, segundo os próprios marajoaras que a gente entrevistou quando esteve lá, ela trata como se fosse um povo selvagem que permite que seus cidadãos façam esse tipo de atrocidade com crianças e adolescentes.

JRJosé Roberto de Toledo

E por que ela queria pintar esse quadro mentiroso sobre uma população inteira de marajoaras?

JSJuliana Sayuri

Porque a resposta, a solução pra esse tipo de inferno seria ser salvo por Deus, ser salvo por missionários e lideranças integrantes de igrejas evangélicas como ela própria. Ao tratar um problema que existe como um problema de falta de fé, é deixar de ver o problema como um problema social de fato. O que de fato importa pra população marajoara? Ter acesso a todo tipo de direito? Para que se saia, né, daquela situação de pobreza, porque de fato é um dos lugares mais pobres do país.

JRJosé Roberto de Toledo

Você esteve lá. Primeiro, como é que você fez para chegar? Porque não é uma coisa trivial você chegar em Souza e nas principais cidades é tranquilo, mas chegar no interior do Marajó, nas áreas ribeirinhas mais distantes, é complicado. Então, primeiro, qual foi a dificuldade para chegar lá? E segundo, o que que você encontrou? Qual, como é que você descreveria essa falta de infraestrutura social, digamos assim, de serviços públicos para população?

JSJuliana Sayuri

Fomos os jornalistas Fabrício Venâncio, Talita Vespa e eu, com apoio do Pulitzer Center, pra Belém. De Belém pegamos um barco, uma viagem de mais de 12 horas pra Breves, que é uma das cidades do lado oeste do Marajó. Souris, Salvaterra, como você comentou, são as cidades das praias, né? As que estão do lado leste, que são super turísticas, que são conhecidas. Inclusive, a ministra e outras autoridades, quando vão pra lá, vão pro lado leste.

E o lado oeste é o Marajó das florestas, né? Então é onde realmente as ruas são os rios, todos os braços e furos dos rios. E a gente passou cerca de 10 dias por lá com objetivo específico. A gente queria ir ver onde é que estavam alguns beneficiários de terras que foram documentadas, né? Ou seja, que o governo federal passou uma documentação para eles que se chama TAUS, Termo de Autorização de Uso Sustentável da Terra.

JRJosé Roberto de Toledo

E por que você tava interessada nos tais TAUS.

JSJuliana Sayuri

Porque no fim de 2023, quando o governo Lula decidiu cancelar o programa Abraço Marajó, uma das justificativas utilizadas foi indícios de fraudes na emissão de um documento. Esse documento, TAUS. O governo tinha identificado uma emissão excessiva, não em relação ao número de documentos, mas em relação à quantidade de área.

JRJosé Roberto de Toledo

A área, o número de hectares concedidos pela União para entidades privadas.

JSJuliana Sayuri

Na verdade, esses documentos, eles não deveriam ser concedidos para entidade nenhuma. Eles deveriam ser concedidos para ribeirinhos, né, para a população local que vive da terra, né, e que teria ali então de fato literal uso sustentável. Só que acontece é que a lei estabelece que esse ribeirinho, essa pessoa de população tradicional, quilombola, enfim, indígenas, eles teriam direito a um raio de 500 metros ao redor da casa do cidadão.

JRJosé Roberto de Toledo

Quer dizer, se a gente computar 500 metros pra um lado, 500 metros pro outro, no máximo 1 quilômetro de distância de um ponto extremo ao outro da área concedida. Não uma área com 300 hectares, que dá muito mais do que isso.

JSJuliana Sayuri

Porque o TAUS, ele não é um documento que dá terra, né? A terra continua sendo da União.

JRJosé Roberto de Toledo

Não é propriedade, é só direito de uso.

?Voz C

Isso.

JSJuliana Sayuri

Só que durante o governo Bolsonaro, durante a vigência do Abraço e o Marajó, foram emitidos quase 50 milhões de metros quadrados de terra. Pra você ter ideia, um dos TAOs que a gente teve acesso, tudo via Lei de Acesso à Informação, ele tinha cerca de 2 milhões de metros quadrados. Isso é equivalente a 10 vezes o estádio do Maracanã, no Rio de Janeiro.

JRJosé Roberto de Toledo

Uma das emissões deu 200 hectares de usufruto da terra pra uma pessoa?

JSJuliana Sayuri

Sim. Outra tinha 3 milhões, ou seja, 300 hectares, que é o equivalente ao dobro do Parque Ibirapuera. Isso surpreendeu o governo, E quando a gente esteve no Marajó e bateu à porta dos ribeirinhos que tinham alguns desses tals gigantes, eles também se surpreenderam, porque eles também não sabiam que tinham sido atribuídos áreas tão grandes.

JRJosé Roberto de Toledo

Quer dizer que você tá dizendo então que vocês foram lá, acharam o ribeirinho que tinha recebido tal, e ele não sabia que tinha recebido tal?

JSJuliana Sayuri

Ele sabia, porém não dessa dimensão.

JRJosé Roberto de Toledo

Mas não conte agora Quem sabia o tamanho dessa dimensão? Vamos para um breve intervalo e a gente volta já já.

?Voz C

Michele Bolsonaro contrariou a trajetória convencional de uma ex-primeira-dama. Desde que Jair Bolsonaro deixou a presidência, ela não sai do noticiário.

JRJosé Roberto de Toledo

Se o Bolsonaro não tivesse perdido a eleição, ela não seria presidente do PL Mulher.

?Voz C

Michele tem se tornado uma das figuras mais influentes da política brasileira, mas também uma das mais difíceis de acessar. Boa parte do que o público sabe sobre sua trajetória vem da própria versão que ela escolheu Nós não passamos fome, mas nós passamos dificuldade. Mas o que existe para além dessa narrativa? Eu decidi que era hora de mergulhar na história de Michele.

JRJosé Roberto de Toledo

Os filhos não consideram a madrasta como família.

JSJuliana Sayuri

Ele foi muito ríspido, me desrespeitou e me maltratou, e eu não tinha feito nada contra ele.

?Voz C

Descobri como Michele de Paula Fimo Reinaldo se tornou Michele Bolsonaro. Este é Michele, um podcast original UOL Prime, disponível no UOL, no YouTube do UOL Prime e em todas plataformas de podcast.

JRJosé Roberto de Toledo

Antes do break você tava contando que vocês acharam pelo menos um ribeirinho que tinha recebido um tal gigantesco e que não sabia que o tal dele tinha esse tamanho. Me explica esse mistério.

JSJuliana Sayuri

Foram vários ribeirinhos, na verdade, que a gente visitou e a gente se apresentou e disse que tava tentando entender a geografia do Marajó, né? E curiosamente Você não vai adivinhar o que a gente encontrou além de povos ribeirinhos naquelas áreas gigantescas assinaladas nesses taus. A gente encontrou igrejas. E como bem disse um pastor que a gente entrevistou por lá, onde o poder público não chega, a igreja chega. Na verdade, a gente descobriu que em alguns casos esses ribeirinhos foram abordados por igrejas evangélicas e decidiram doar um pedaço de terra para que se construíssem templos ali.

Eu digo doar entre aspas, porque de novo essa terra não é dele, essa terra continua sendo terra da União.

JRJosé Roberto de Toledo

Isso aconteceu depois do lançamento do Abraço e o Marajó ou já tinha acontecido antes? Eles só estavam, digamos, aspas, legalizando a situação?

JSJuliana Sayuri

Segundo os entrevistados, foi depois.

JRJosé Roberto de Toledo

Quer dizer, a Damares e o Bolsonaro lançam o Abraço e o Marajó, que de abraço não tem nada, é só uma concessão de uso de terras da União para particulares, concede áreas muito maiores do que deveria para ribeirinhos, e esses ribeirinhos depois são abordados por igrejas para dizer: olha, você acabou de receber uma área aí, me dá um pedaço. É isso?

JSJuliana Sayuri

Sim, foi isso. E a gente sabe que o Marajó, ele tem terras que são muito cobiçadas, cobiçadas pelo agronegócio, cobiçadas para mercado de carbono e tudo mais, inclusive os próprios rios de lá, né, para o escoamento de produtos. E aí a gente ficou um pouco surpreso também com a presença dessas igrejas, porque não é algo exatamente rentável, digamos, ou não teria um interesse financeiro, digamos, né, da instalação delas ali. Foi aí que a gente percebeu também que teria um interesse político, ideológico-político, de longo prazo, que é justamente de formar novas gerações politicamente alinhadas à própria ministra.

JRJosé Roberto de Toledo

Entendi. Quer dizer, seria um instrumento de proselitismo com ajuda da União, cedendo o terreno para instalação dessas igrejas no quintal dos ribeirinhos beneficiados. E qual que é o impacto social disso? O que que vocês presenciaram lá? Pelo que você tá descrevendo, a presença do Estado é muito rarefeita, se é que existe. E aí você passa a ter um vizinho, uma igreja. Como é que isso— qual que é o resultante social disso?

JSJuliana Sayuri

A presença religiosa ali, ela é antiga. Na verdade, havia na década de 90 e no início dos anos 2000 uma atuação muito forte de católicos, inclusive um bispo que denunciou pela primeira vez a questão da violência sexual contra meninas marajoaras, né? Isso foi instalada uma CPI no Pará, depois foi instalada uma CPI em Brasília pra discutir o assunto. Esse histórico foi aproveitado agora com uma roupagem religiosa diferente, num sentido em que política e religião acabam se misturando mais do que deveriam.

Um exemplo disso, além da presença, né, como você disse, dessas igrejas nos quintais dos ribeirinhos, é a realização de reuniões para se discutir tals politicamente no Templo da Assembleia de Deus da cidade de Bagre, no centro da cidade, uma cidade bem empobrecida em que as ruas não são asfaltadas, muitas casas não têm uma infraestrutura mínima, e existe um prédio espelhado gigantesco avaliado em R$2 milhões onde são realizadas cerimônias como a cerimônia de posse do prefeito.

JRJosé Roberto de Toledo

Peraí, peraí, peraí, desculpa. O prefeito de Bagres, dentro da Ilha do Marajó, assume o mandato dentro da igreja da Assembleia de Deus. Separação Estado-igreja passou longe ali. Isso é meio uma constante nessa região?

JSJuliana Sayuri

Tornou-se uma constante nos últimos, nos últimos anos, dada, né, o avanço da influência evangélica.

JRJosé Roberto de Toledo

E o programa Abrace o Marajó consolidou essa situação que já era crescente.

JSJuliana Sayuri

Consolidou, inclusive, além das igrejas instaladas lá atualmente, o que nós observamos também, por acaso, num dos vários barcos e navios que a gente pegou ao longo desses dias, é a vinda de missionários, inclusive estrangeiros, para fazer ações sociais, levar cestas básicas para povos ribeirinhos mais isolados.

JRJosé Roberto de Toledo

Bom, em 2023, o governo Lula acaba com o Abraço e o Marajó porque Afinal de contas, a premissa do programa tava— era uma mentira e o que ele prometeu fazer ele não fez, só distribuiu terras. Que que os órgãos públicos responsáveis disseram a respeito?

JSJuliana Sayuri

O Ministério dos Direitos Humanos atual considerou também a possibilidade de fraude. É algo que tá sendo investigado. Órgãos como a Defensoria Pública da União e a SUDAM, a Superintendência Regional de Desenvolvimento da Amazônia, eles já tinham emitido alguns pareceres, algumas notas técnicas Levantando algumas questões sobre o Abraço e o Marajó. Depois da publicação da reportagem, a Secretaria de Patrimônio da União, que é o órgão responsável por olhar esses TAOs, eles abriram uma investigação, uma apuração para ver caso a caso qual, se foi erro, se foi, enfim, o que que aconteceu nesses documentos.

E um grupo de advogados, Grupo Prerrogativas, levou o caso também à PGR, Procuradoria-Geral da República, pedindo a instalação de uma investigação e providências. Evidências contra a ministra.

JRJosé Roberto de Toledo

E a ex-ministra Damares Alves, atual senadora da República, diz o quê sobre isso?

JSJuliana Sayuri

Ela foi procurada mais de uma vez. Nós pedimos entrevista e ela não tinha agenda disponível, mas ela disse em nota via assessoria de imprensa que negar a situação que acontece no Marajó é ter uma postura negacionista, e que qualquer pessoa que criticasse o Abrace o Marajó estaria fazendo interesses políticos.

JRJosé Roberto de Toledo

E sobre os interesses políticos dela na região, ela não falou nada?

JSJuliana Sayuri

Não.

JRJosé Roberto de Toledo

Muito bem. E Juliana Saori, você desde a publicação da reportagem já contou que teve algumas consequências, né? A perspectiva de haver, de como esse caso vai evoluir?

JSJuliana Sayuri

Por enquanto não, Toledo, por enquanto não. Porque, e principalmente porque essas pessoas, esses ribeirinhos que receberam esses documentos Eles não estão errados, né? O documento que está errado. Em todas as portas que a gente bateu, de fato, eram ribeirinhos morando ali. Então, o nó é o documento que não condiz com a realidade deles. E uma das fontes levantou uma suspeita, que também deve ser investigada pelos órgãos competentes, de que uma vez que esses documentos foram emitidos com essas áreas gigantescas, esses documentos fazem essas áreas existirem no mapa, no mapa do governo, no mapa de quem quer que se interesse por esse tipo de direito à terra.

Isso faz com que essa terra esquente, ou seja, uma vez que ela existe no mapa, que ela existe no banco de dados, ela tá também existindo aos olhos de pessoas que podem ter aqueles interesses que a gente comentou para o agronegócio ou para o mercado de carbono.

JRJosé Roberto de Toledo

Só para entender, outro documento que já é usado exatamente dessa maneira que a pessoa levantou a hipótese é o Cadastro Ambiental Rural, o CAR, né? A partir dele, muitos posseiros, gente que ocupa ilegalmente uma área, ou às vezes nem ocupando, só delimitando ela no mapa, né, por coordenadas geográficas, usa isso como prova, entre aspas, de posse daquela área, de usufruto daquela área, para reivindicar a propriedade, o título de propriedade daquela área.

Então a hipótese que você tá descrevendo é que isso foi concedido para que alguém viesse no futuro a especular com essas terras e reivindicar não só a posse, mas também a propriedade, o título.

JSJuliana Sayuri

Exatamente. Só que isso é algo que eu imagino que a gente só vai ver ao longo do tempo.

JRJosé Roberto de Toledo

Tá certo. Então já tá combinado aqui que você vai voltar para contar para a gente o final dessa história. Quando as pessoas quiserem ler a sua reportagem, onde é que elas encontram?

JSJuliana Sayuri

A série de reportagens está publicada no uol.com.br/prime.

JRJosé Roberto de Toledo

E tem vídeo também, né? Temos um vídeo que tá no canal do UOL no YouTube. É isso? Muito obrigado, Juliana Sayuri, e muito obrigado a você que ficou conosco até agora. Quem assina o UOL pode acessar e ler esta e muitas outras reportagens especiais na íntegra. Os assinantes também têm acesso a todo o acervo jornalístico do UOL e ainda opinião e análise dos colunistas. E você também consegue aproveitar descontos em ingressos de cinema, em em peças de teatro, em festivais de música, tudo através da assinatura do UOL.

E ainda dá acesso ao UOL Play e muito mais. Confira lá em assine.uol.com.br. Eu sou José Roberto Toledo e faço a apresentação do podcast UOL Prime. Conversei hoje com a repórter do UOL, Juliana Sayuri. O roteiro é da Clara Gelstab, a operação de vídeo é do Fernando Moretti, a montagem é do Lucas A trilha sonora original foi composta por João Pedro Pinheiro e a trilha sonora incidental é da Epidemic Sound. A coordenação é da Lígia Carriel e da Laura Kapeljusznik.

A coordenação de operações é do Danilo Esperandil e do Eduardo Bonavita. E a supervisão é do Murilo Garavello, diretor de conteúdo do UOL. Até o próximo episódio.

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