Episódios de UOL Prime

Michelle #1: Gênesis

07 de julho de 202647min
0:00 / 47:14

Antes de se tornar primeira-dama, Michelle Bolsonaro era uma figura quase desconhecida do público. Neste episódio, voltamos às origens para reconstruir sua trajetória: a infância marcada por dificuldades, a formação religiosa, o encontro com Jair Bolsonaro e a ascensão ao centro do poder. A partir de entrevistas e relatos inéditos de pessoas que conviveram com Michelle, investigamos como ela construiu a imagem pública que a transformou em uma das personagens mais influentes — e mais enigmáticas — da política brasileira.

#PodcastMichelle #ep01

Participantes neste episódio14
A

Adriana Negreiros

HostRepórter
A

Alexandre Garcia

ConvidadoJornalista
Á

Átila Maia

ConvidadoBrigadeiro da Aeronáutica
E

Elizete Malafaia

ConvidadoEsposa do pastor Silas Malafaia
J

Jair Bolsonaro

ConvidadoEx-presidente do Brasil
J

Juliana Fadu

ReporterRepórter
M

Marco Aurélio Biali

ConvidadoNeurocirurgião
M

Marie Lafayette

ConvidadoEstilista
M

Michelle Bolsonaro

ConvidadoEx-primeira-dama
P

Priscila Costa

ConvidadoVereadora
S

Silas Malafaia

ConvidadoPastor
S

Sostanes Cavalcanti

ConvidadoDeputado federal
V

Valdemar Costa Neto

ConvidadoPolítico
V

Vanderlei Assis

ConvidadoDeputado federal
Assuntos7
  • Relação com Família BolsonaroConhecimento no gabinete · Primeiro beijo · Casamento rápido · Pacto antinupcial
  • Michelle Bolsonaro e Alexandre de MoraesInfância e dificuldades · Família disfuncional · Ceilândia · Comunidade do Sol Nascente
  • Criação de empregosTrabalho como vendedora · Carrefour · Vinícola Aurora · Curso de sommelier · Câmara dos Deputados
  • Prisão domiciliar de BolsonaroPrisão de Jair Bolsonaro · Ceará · PL Mulher
  • Carreira Politica JairinhoDeputado Federal · Declarações polêmicas · Crescimento nas redes sociais · Apoio à candidatura presidencial
  • Relação abusiva e questões familiaresPrisão por tráfico de drogas · Indiciamento por falsidade ideológica · Acusação de agressão · Organização criminosa
  • Crise na família BolsonaroConflito familiar · Flávio Bolsonaro · Michele Bolsonaro
Transcrição137 segmentosassemblyai/universal-3-5-pro
?Voz A

Deus, pátria, família e liberdade. E é por isso que estamos aqui. Lula é um anistiado, como o Exército, e atendeu o chamado da nossa Michele Bolsonaro. Michelle Bolsonaro e eu estávamos no Ceará no dia em que Jair Bolsonaro foi preso pela Polícia Federal em Brasília.

?Voz B

Sábado, 22 de novembro de 2025, são 9 horas e 52 minutos da manhã.

?Voz A

Estamos ao vivo na cobertura da prisão do ex-presidente Jair Bolsonaro. Jair Bolsonaro Ele tinha tentado romper a tornozeleira eletrônica. O senhor usou alguma coisa para queimar isso aqui?

?Voz C

Eu tinha um ferro-quente aí, curiosidade.

?Voz A

Bolsonaro estava em prisão domiciliar desde agosto, depois de ser condenado a 27 anos e 3 meses de prisão por tentativa de golpe de Estado. Michele estava no Ceará para o encontro do PL Mulher em Calcaia, na região metropolitana de Fortaleza.

?Voz D

Um povo pelo qual nós dois temos um carinho muito especial. O povo cearense. E eu fui. O que aconteceu depois foi um dos dias mais difíceis da nossa vida.

?Voz A

A gente ainda não sabia, mas o Ceará ia virar o principal cenário na guerra da família Bolsonaro pelo espólio político de Jair. O estopim dessa guerra, ao menos publicamente, foi o apoio do PL ao Ciro Gomes para disputar o governo do Ceará. Dessa desavença nasceu o conflito que levou a ex-primeira-dama a publicar um vídeo atacando Flávio Bolsonaro, pré-candidato à presidência. Michele é considerada crucial para diminuir a rejeição de Flávio entre as mulheres e atrair o voto evangélico, ações que podem mudar o jogo nas eleições de 2026. Mas, em vez de apoio, ela jogou uma bomba no clã bolsonarista.

?Voz D

E é nesse momento que entra na história O meu enteado Flávio. Ele foi muito ríspido, me desrespeitou e me maltratou ao telefone. E eu não tinha feito nada contra ele.

?Voz A

Muita coisa aconteceu nos bastidores para que essa bomba fosse armada. E eu vou te contar os detalhes. Mas, para isso, a gente precisa voltar àquele 22 de novembro de 2025. Nós vamos ouvir a mensagem da Michele Bolsonaro, nós vamos enviar a nossa mensagem para o nosso presidente Bolsonaro. Michele era aguardada como uma grande atração em Calcaia por uma multidão de fãs e fiéis de igrejas evangélicas. Mas todos nós, eu inclusive, demos viagem perdida.

Na véspera, Michele tinha participado de uma reunião com lideranças locais do PL. Dentre elas, a vereadora de Fortaleza, Priscila Costa, que a gente ouviu no começo deste episódio distraindo a plateia de Calcaia enquanto não se sabia se Michele ia aparecer ou não. A ideia era que Michele acordasse bem cedo e seguisse para o evento. Mas teve um imprevisto.

?Voz D

E hoje cedo recebi a ligação às 6 horas da manhã que a polícia Estava em minha casa para conduzir o meu marido, o nosso líder, a maior voz da direita no país, aquele homem que Deus levantou para cuidar da nossa nação, estava sendo conduzido até a Polícia Federal. Muito obrigada pela presença de cada um de vocês, porque eu não tenho condições de estar aí hoje, o meu coração está com meu marido, com a minha filha.

?Voz A

A situação era difícil, mas não era exatamente inédita. Aquela não era a primeira vez que Michele lidava com familiares sendo conduzidos até a prisão.

?Voz B

O tio da ex-primeira-dama Michele Bolsonaro foi preso suspeito de integrar um grupo criminoso.

?Voz E

É o Gilberto.

?Voz B

A ex-primeira-dama se manifestou hoje por meio de uma nota sobre a prisão. Michele Bolsonaro disse ter recebido a notícia com indignação e pesar.

?Voz F

A avó da Michele foi presa por ser traficante. Teve um tio da Michele que foi preso por estupro, outro por participar de uma milícia. A realidade do crime acaba permeando toda a família.

?Voz D

Vamos gritar o nome dela?

?Voz A

Michele Bolsonaro contrariou a trajetória convencional de uma ex-primeira-dama. Desde o fim do mandato do marido, ela não sai do noticiário. Da esquerda à direita, há um consenso sobre Michele: sua imagem não condiz com a de Bolsonaro. Se o ex-presidente é conhecido como um homem intempestivo, que fala o que vem à cabeça, quase descontrolado, Michele é reputada como sóbria e enigmática. Por isso, resolvemos mergulhar na história dessa mulher.

Queremos entender como foi a trajetória que a conduziu ao Palácio da Alvorada e como isso ajuda a explicar o poder de Michele, o que também ajuda a explicar o Brasil.

?Voz G

Isso aí dá uma novela, hein?

?Voz F

Diz que ela era miudinha, inexpressiva.

?Voz H

Pra Deus não existe pecado, pecadinho, pecadão. Mas quem é que não peca?

?Voz E

Ela falou que ele não sabia beijar e quem ensinou ele a beijar foi ela.

?Voz D

Pessoas que se diziam fiéis ao meu marido. Se apressaram em dizer que eu estaria cagando para o meu marido.

?Voz A

Descobri como Michele de Paula Fimo Reinaldo se tornou Michele Bolsonaro. Eu sou Adriana Negreiros, repórter especial do UOL, e este é Michele, um podcast original UOL Prime. Episódio 1: Gênesis. Quinta-feira, 8 de agosto de 2019. O cenário é a comunidade do Sol Nascente, em Ceilândia, Brasília. Naquele dia, Dona Maria Aparecida, de 78 anos, perdeu uma de suas galinhas. A casa de Dona Maria ficava numa rua de terra batida. Ela saiu por ali procurando a galinha, até que a encontrou na casa da vizinha, que tinha um cão pitbull.

Ele latiu para Dona Maria Aparecida, que se assustou e caiu de costas no chão. Ela foi resgatada por dois rapazes que passavam por perto. Dona Maria foi levada para o Hospital Regional de Ceilândia, onde passou 3 dias em uma maca improvisada no corredor. A espera longa é comum para os pacientes que procuram ajuda no único hospital que atende a comunidade Sol Nascente, a segunda maior do Brasil. Só perde para Rocinha, no Rio de Janeiro.

Mas era surpreendente que Dona Maria precisasse se submeter àquilo e que não tivesse recorrido à neta, que afinal de contas era uma pessoa bem importante. A avó da primeira-dama, Michele Bolsonaro, se recupera da cirurgia de emergência à qual foi submetida para correção de uma fratura na bacia. Maria Aparecida Firmo Ferreira, de 78 anos, foi atendida ontem no Hospital de Base do Distrito Federal. Questionado, Jair Bolsonaro não quis comentar o assunto.

Maria Aparecida não fala com a neta Michele Bolsonaro há 5 anos. Depois da situação ganhar as manchetes do Brasil, Dona Maria Aparecida foi transferida para o Hospital de Base do Distrito Federal para ser operada. Michele foi procurada pela imprensa e não quis falar sobre a avó. A ex-primeira-dama não tem o hábito de falar dos parentes ou de seu passado, mas quando fala dá a entender que se sente uma sobrevivente.

?Voz D

Nós não passamos fome, mas nós passamos muita dificuldade. Eu cresci no meio de traficantes e eram os meus amigos. Nós crescemos juntos ali, cada um tomou um caminho. Então eu vi vários amigos morrerem com 13, 14 anos.

?Voz A

Michele não costuma dar entrevistas exclusivas para a grande imprensa. Prefere interagir com canais com os quais se identifica ideologicamente. Essa entrevista ela deu para Alexandre Garcia, no canal dele no YouTube. Duas mulheres da linhagem direta de Michele tiveram problemas com a justiça. Dona Maria, a avó, foi presa por tráfico de drogas em 1997. Ela foi flagrada com 169 pacotinhos de merla, um subproduto da cocaína. Ficou presa por 2 anos e meio.

Maria das Graças, a mãe, foi indiciada por falsidade ideológica quando Michele tinha 6 anos. O caso foi arquivado. E quando Michele já era adulta, a mãe se envolveu com a polícia outra vez. Ela foi acusada de golpear com uma pedra um senhor de 62 anos, dono da casa em que morava. Maria das Graças estava com 3 aluguéis atrasados. A história não avançou para uma investigação formal. Michele tem ainda 2 tios maternos com sérios problemas com a justiça.

Um deles foi preso 3 vezes: primeiro pelo estupro de uma menina de 10 anos, sobrinha da esposa dele; depois por receptação de carros roubados e, por fim, por armazenar conteúdo sexual infantil. Outro tio, que é policial militar, foi condenado por fazer parte de uma organização criminosa envolvida com grilagem de terras, extorsão e homicídio na comunidade do Sol Nascente. Ela falou mais sobre isso no videocast Pode Atualizar.

?Voz D

Eu vim de uma família disfuncional. Não tinha pão, mas às vezes tinha um fubá e fazia um mingauzinho, sabe? Mas isso, sim, eu acho que isso foi um fator fundamental para a mulher que eu sou hoje. Michelle, na verdade, foi o encontro de um cearense com uma mineira e deu tudo isso.

?Voz A

É isso. O cearense é Vicente de Paulo Reinaldo, motorista de ônibus aposentado. A mineira é Maria das Graças Firmo Ferreira, a Gracinha, ex-faxineira. Gracinha e Vicente se mudaram para o Distrito Federal nos anos 70. Vicente levava uma vida pacata de soldado do Exército, do Batalhão de Ceilândia. Foi em Ceilândia, aliás, que ele e Gracinha se conheceram, namoraram e viram nascer a filha Michele, no dia 22 de março de 82. A família vivia na comunidade do Sol Nascente, que fica quase na divisa com Águas Lindas de Goiás.

A vida ali já era difícil quando Michele nasceu e continua até hoje. O IDH, Índice de Desenvolvimento Humano, da região fica abaixo da linha da pobreza. Só 30% das ruas ali são asfaltadas. A repórter Juliana Fadu, que fez junto comigo a apuração para este podcast, foi até lá na tentativa de conversar com algum parente ou conhecido de Michele.

?Voz I

É uma rua tranquila, bem cidade do interior, que não tem nada a ver com o DF, essa coisa meio branca, séptica. A rua que ela cresceu é bem cidade do interior mesmo. O que me chamou atenção é que as ruazinhas, elas são tranquilas, mas o entorno tem muitos usuários de droga. Eles estão assim, eles usam ao ar livre, não tem mais muitos moradores antigos que conviveram com a família da Michele. Falei assim com uma outra pessoa, eles não lembram direito da Michele, mas eles lembram muito bem da família. A família era muito conhecida.

?Voz A

O casamento de Vicente e Gracinha terminou quando Michele tinha 4 anos. Foi ele quem decidiu sair de casa. Vicente se mudou para uma casa a menos de 1 quilômetro da antiga. Casou novamente com Maísa Torres, que tinha um menino de 3 anos, Eduardo, a quem passou a tratar como filho. Em 88, eles tiveram outro garoto, Diego. Mudou também de ocupação. Os anos de vida pacata no Exército tinham ficado para trás e nessa época ele vivia uma rotina puxada, dirigindo ônibus e vendendo roupa na feira.

?Voz D

Foram momentos bem difíceis, Porque o meu pai tentava ajudar, mas ela não aceitava, tinha um orgulho muito grande, né? Tipo, você saiu de casa, então também não aceito um real, um cruzeiro na época.

?Voz A

Gracinha também casou novamente com Wilton, um mecânico, com quem teve outras duas filhas, Suyane e Giovanna, e um menino, Yuri. A família era extensa, a grana era curta, e ali por volta dos 12 anos, Michele começou a trabalhar vendendo laranjas em um semáforo no centro de Ceilândia.

?Voz D

Minha mãe era dona de casa, depois teve que começar a fazer faxina. E eu queria, eu não queria dar continuidade, né, ver que aquilo ia perpetuar, como eu via nos meus primos, nas minhas tias, aquela vida. Eu queria trabalhar, eu queria ter as minhas coisas, né? E eu também não queria ceder ao tráfico.

?Voz A

Entre as vendas, a escola pública e a Igreja Batista, que já frequentava na época, Michelle ia à casa do pai. Todos os 6 filhos dos casamentos dos pais de Michelle cresceram juntos em Ceilândia e se tratam como irmãos. A família de Michelle não costuma dar entrevistas. Eu e Juliana tentamos entrevistar os irmãos, mas só ouvimos nãos. Uma razão para isso teria sido uma entrevista que a mãe, a avó e uma tia de Michelle deram em 2018, cerca de um mês antes de os Bolsonaros se mudarem para o Palácio da Alvorada. Qual foi a última vez que a senhora viu?

?Voz H

Foi no dia do enterro do meu marido.

?Voz A

Ela veio, né? Do seu marido e dela, né? Ela que pagou o enterro inteiro. Essa que a gente tá ouvindo é a Dona Maria, avó de Michele. O episódio citado por Dona Maria Aparecida aconteceu em março de 2015. Na época dessa entrevista, Gracinha, mãe de Michele, se queixou do distanciamento entre ela e a filha. Eu sei que É as coisas de Deus, mas a gente não pode ter mais aquele dinheiro que a gente tinha. Hoje mesmo eu vendo na televisão, falei, meu Deus, tem hora que eu não acredito que é minha.

A tia de Michele contou que a sobrinha chegou a fazer alguns trabalhos como modelo.

?Voz D

Ela andava muito comigo, assim, era muito apegada a mim.

?Voz A

Eu desfilava, eu levava ela para fazer abertura assim dos desfiles. A mãe prossegue dando mais detalhes dessa breve carreira de Michele nas passarelas. Uma época ela recebeu um convite, ela foi sorteada, ela desfilou para o Paulo Zulu e para Michele Magri. Ela ia ser modelo, né? Mas como ela tinha que emagrecer, aí ela não quis. Aliás, depois dessa experiência, Michele conseguiu um trabalho em que não precisava nada da aparência. O primeiro emprego da primeira-dama, então senhorita Michele, foi no Carrefour.

?Voz F

Depois ela foi para concorrência. Eu não vou falar qual era a atividade dela no extra.

?Voz A

De vez em quando, a foto de Michele fantasiada de pacote de macarrão Pene, para ser mais precisa, surge nas redes sociais. Ela se virava para pagar as contas com trabalhos como esse quando, aos 20 anos, engravidou de Letícia, fruto de um relacionamento com o engenheiro eletricista Marco Santos da Silva, um camarada muito discreto. Letícia tinha 2 anos quando Michele conseguiu um emprego no escritório da Vinícola Aurora, em Brasília.

No setor em que trabalhava, de vendas, Michelle tinha que, de vez em quando, fazer um serviço mais pesado. O ano era 2005.

?Voz G

Isso aí dá uma novela, hein? Vamos de capítulo em capítulo. Isso aqui a gente vai para a Rede Globo lá fazer a novela das 9.

?Voz A

Esse é Átila Maia, que hoje é brigadeiro da Aeronáutica. Recentemente, ele anunciou sua pré-candidatura à presidência da República pelo Partido Democrata. Na época em que conheceu Michelle, Átila Maia era piloto da Força Aérea. Essa é a primeira vez que ele fala em detalhes sobre a relação dele com a ex-primeira-dama para a imprensa.

?Voz G

Eu conheci a Michelle no dia 17 de janeiro. Um amigo esteve lá na loja onde ela trabalhava, uma lojinha da Vinícola Aurora, aqui em Brasília. Não sei se você conhece Brasília, mas é na Asa Norte, na 714 Norte. E aí, como ele sabia que eu era um degustador de vinhos, me chamou para que eu passasse lá.

?Voz A

Ele me contou que quando viu Michele, achou que ela merecia um emprego melhor.

?Voz G

Uma jovem, uma moça muito bonita, muito, digamos assim, bem tratada, unha da mão feita, unha do pé. Não era para estar carregando caixa de vinho, subindo e descendo escada. E aí voltei outras vezes lá na loja, né? Sempre eu ia comprar vinho e foi criando ali o nosso a nossa amizade, o nosso relacionamento. E logo no comecinho eu perguntei se ela não gostaria de trabalhar em outro lugar, na Câmara dos Deputados, por exemplo. E nessa ocasião disse-me ela que ela achava que não teria condições de trabalhar num ambiente desse porque não tinha qualificação.

Então ela não operava o Word, Excel, essas coisas. E enfim, de início ela não quis assumir um compromisso desse tipo. E daí a gente continuou ali com as conversas. Bom, então vamos ver se eu consigo te ajudar de outra maneira.

?Voz A

O brigadeiro me disse que pagou um curso de sommelier para Michele e proporcionou a ela uma experiência inédita. Viajar de avião.

?Voz G

Eu sou piloto e aí eu organizei uma viagem para ela para Salvador. Foi o primeiro voo da vida dela e embora ela nunca tivesse feito um voo, se comportou super natural, não teve problema nenhum. Estivemos nas praias em Salvador, também praia, ela nunca tinha colocado o pé numa praia. Bom, aí o que mais eu fiz com a Michelle? Eu resolvi levá-la ao Rio Grande do Sul, aquela região de Caxias do Sul, e nós visitamos todas as vinícolas ali da região, de Caxias do Sul, Flores da Cunha, tudo aquilo ali a gente rodou.

?Voz A

Ele me contou que aos poucos a amizade se transformou em um relacionamento de amor.

?Voz G

Era quase inevitável, mas eu tinha uma vamos dizer assim, uma restrição, porque tinha uma diferença de idade para mim, na minha visão, um pouco grande. Eu sou um ano e pouco mais novo do que o Jair Messias Bolsonaro. Eu faço 70 anos este ano e a Michele tem 44, porque ela é de março, né, de 22 de março de 82.

?Voz A

Na época, ele tinha 48 anos. Michelle tinha acabado de fazer 23. Ele acompanhou de perto as iniciativas profissionais dela e tentou ajudar em algumas. Lembrou, inclusive, de uma ocasião em que Michelle tentou empreender.

?Voz G

Ela sempre ia ao salão de beleza e desenvolveu uma amizade muito grande com uma pessoa, uma amiga dela, que tinha um salão de beleza pequeno lá na Ceilândia. O nome é Fran, deve ser de Francisca. E aí a Michele veio um dia com uma conversa que elas queriam colocar ali a possibilidade de fazer aquele bronzeamento artificial, ela e a Fran, e se eu também não podia dar uma ajuda aí, vamos fazer o troço funcionar. E aí comprei esse tal desse compressor e não deu certo.

?Voz A

O relacionamento começou a enfrentar problemas quando os filhos do Brigadeiro, ele era recém-separado, quiseram morar com ele.

?Voz G

E aí realmente isso virou um problema muito grande para mim, porque de repente eu já estava me vendo eu com, em vez de 2, 3 crianças e mais uma quase adolescente que era a Michelle. Aí eu falei, poxa, eu nem tenho condições financeiras, porque evidentemente que ia cair muito o meu padrão de vida, né? Então eu disse, poxa, eu tenho que conseguir solucionar aqui a vida da Michelle.

?Voz D

Ele procurou um amigo e caí no Congresso, caí de paraquedas no Congresso.

?Voz A

O amigo do Brigadeiro Átila era um médico com veleidades artísticas. Ele se apresentava como artista plástico que cumpria seu primeiro e único mandato como deputado federal.

?Voz G

Falei, Vanderlei, eu preciso que você me arrume aí uma vaga em seu gabinete para contratar uma moça para trabalhar aí, para que não houvesse problema da falta de conhecimento, de habilidade dela. Só coloca atendendo os telefones, e aí, à medida que ela for desenvolvendo, você vai ver, ela é esperta, ela vai aprender rápido, e aí depois tá contigo, aí você direciona como você quiser.

?Voz A

Vanderlei Assis compunha o baixíssimo clero dentro da Câmara. Ele tinha sido eleito em 2002 com apenas 275 votos pelo PRONA de São Paulo, embora morasse e trabalhasse no Rio de Janeiro. Foi puxado pelo fenômeno Enéas Carneiro, o ex-candidato à presidência que teve 1 milhão e meio de votos, popularizado pelo bordão Meu nome é Enéas. Michele foi contratada como secretária. Nessa função, ela não lidava com os assuntos mais espinhosos, do gabinete, como o fato de seu chefe ter o nome envolvido no escândalo dos sanguessugas. Era um esquema de fraude em licitações para compra de ambulâncias.

?Voz F

Ela disse que trabalhava na Câmara, eu nunca vi ela na Câmara, não conheci ela. Diz que ela era miudinha, ela era assim inexpressiva.

?Voz A

Esse que a gente acabou de ouvir é Valdemar Costa Neto, ex-deputado federal e presidente do PL, partido de Michele e de Jair Bolsonaro. Como Valdemar contou nessa entrevista para Juliana Fadul, a Michele não era exatamente uma profissional de destaque na Câmara. Com o fim do mandato de Assis, ela precisou contar mais uma vez com a ajuda do Brigadeiro Átila. Ele a apresentou a um conhecido recém-chegado a Brasília.

?Voz C

Meu nome é Marco Aurélio Biali, sou conhecido como Doutor Biali, sou neurocirurgião e fui deputado Federal por 2 mandatos. Com certeza eu sou centro-esquerda, eu sou socialista convicto.

?Voz A

O doutor Ubialli me contou como Michele começou a trabalhar no gabinete dele.

?Voz C

Tinha uma vaga da secretária, da pessoa que receberia as pessoas. Eu fui procurado por um, fui visitado pelos assessores parlamentares da Aeronáutica e um brigadeiro chamado Brigadeiro Átila me falou: Olha, doutor, eu tenho uma moça que tá precisando de emprego, tem uma filha e ela precisa trabalhar.

?Voz A

Doutor Ubialli não pensou duas vezes antes de contratar Michele.

?Voz C

Ela era uma moça educada, bonita, muito recatada, e ela sentava numa mesinha na frente.

?Voz A

Ubialli era um deputado de primeiro mandato e seu gabinete foi definido por um sorteio. Acabou ficando com uma sala que considerava pequena. Mas era antenado e usou um truque clássico da decoração para dar a sensação de amplitude para o espaço.

?Voz C

Aí eu falei assim, você quer saber? Eu vou colocar um espelho nessa parede aqui para aumentar a dimensão do gabinete. E coloquei o espelho. Quem vinha vindo pelo corredor via a Michele sentada em frente ao espelho e o gabinete do Bolsonaro era do lado do meu.

?Voz A

Esse charme demais, foi decisivo na história que a gente tá contando.

?Voz C

Então, eu ter tido a ideia de colocar o espelho e colocá-la em frente a esse espelho acabou fazendo com que ele a visse com frequência e chamasse atenção dele.

?Voz A

Segundo o Dr. Ubialli, inspirado pelo que viu refletido no espelho, Bolsonaro se permitiu uma ousadia.

?Voz C

Pensa numa coisa grande. Era uma coisa enorme. Um dia eu chego lá, tem um buquê de flor enorme em cima da mesa, assim, extremamente exagerado, ocupava quase que a mesa dela toda. Eu falei, uai, que que é isso, né? Assim, brincando com os funcionários e os assessores que estavam lá. Assim, não tenho absoluta certeza, porque já se faz alguns anos isso, mas me lembro que me chamou muita atenção, era um ramalhete de rosas vermelhas vermelhas com umas florzinhas brancas, com algumas florzinhas brancas no meio. Quer dizer, a paixão foi realmente muito avassaladora para o Bolsonaro.

?Voz A

O Brigadeiro Átila também tem lembranças do início do namoro.

?Voz G

E a Michele, quando ia para o gabinete lá do Ubialli, passava na frente do gabinete do Bolsonaro. E aí ele viu a Michele e se encantou por ela. Mas isso é outra realidade também, o Bolsonaro e a incapacidade dele de dialogar. Aí ele mesmo mandou me chamar um dia. E aí ele me chamou, e qual era a conversa? Diz que tinha visto, que gostou, que se apaixonou e que queria Michele. Eu disse, Bolsonaro, você quer Michele para quê? Qual que é o negócio aí?

Me explica isso. Não, quero casar. Então tá bom, então deixa comigo que eu vou resolver essa Ele me contou que intercedeu junto à Michelle em favor de Jair. E aí a conversa que eu tive com a Michelle é o seguinte: Michelle, porque ela não queria saber do Bolsonaro inicialmente, e aí eu fui extremamente objetivo. Michelle, o cara quer casar, de um lado pode ser a solução de todos os seus problemas, agora cabe a você dar uma assimilada e ver se realmente vale a pena ou não.

E isso aí é você quem tem que fazer, eu não vou fazer. Eu não sei se eu faria isso no seu lugar. Essa avaliação aí é sua, mas eu acho que vale a pena. E se vai casar, se vai morar no Rio de Janeiro...

?Voz A

Embora estivesse no 5º mandato como deputado federal, Bolsonaro era um político de pouca expressão. Mal aparecia nos jornais e quando aparecia não era de um jeito muito lisonjeiro. Em maio daquele ano de 2007, por exemplo, ele foi destaque na Folha de São Paulo por empregar parentes de sua segunda esposa, Ana Cristina Siqueira Michele, mãe do filho 04, Jair Renan. O casal já tava em crise.

?Voz G

Adriana, eu vou te falar aqui porque tudo, pelo menos aqui, nós estamos nos conhecendo, nos vendo hoje, mas o jogo é aberto. Mas por favor, contenha-se na hora de colocar as coisas. É mais porque o objetivo é Michele, mas não tem como falar da Michele também sem o Bolsonaro. E um detalhe que também talvez você não saiba O Bolsonaro emocionalmente ele é um cara muito fraco e ele tinha tido um problema com a segunda esposa e ele tava passando por um momento meio depressivo.

O cara totalmente fragilizado, aí passa a moça linda maravilhosa. Aqui é que eu vou, é aqui é nessa boia que eu vou me jogar aqui que eu não afundo.

?Voz A

Entrevista à TV Michele lembrou dos primórdios do romance.

?Voz F

Foi rápido, você diria?

?Voz D

Foi rápido, foi rápido. Nos conhecemos, namoramos, noivamos e nos casamos em 5 meses.

?Voz A

Você já mãe?

?Voz D

Mãe.

?Voz F

Ele pai de 4?

?Voz D

Sim.

?Voz A

Michele passou pouco tempo sendo refletida no espelho do gabinete do Dr. Ubialli.

?Voz C

Mas eu sei que logo depois, passado talvez uns 2 ou 3 meses, talvez ela Ela pediu demissão porque ela foi para uma vaga de assessoria na liderança do PP. Na época, o Bolsonaro era do PP, ele conseguiu essa vaga para ela lá. Era um salário muito maior do que eu pagava lá no meu gabinete.

?Voz A

Na liderança do PP, Michele ocupava o cargo de assistente técnica. Também não passou muito tempo ali, foram 2 meses e meio, até ser transferida em setembro de 2007 pro gabinete do próprio Bolsonaro como secretária.

?Voz E

Acho que vocês estão fazendo um podcast dela, eu sugiro que você pergunte como eles começaram a namorar.

?Voz A

Esse é o deputado federal Sostanes Cavalcanti, que conversou comigo em Brasília. A gente queria ter feito essa pergunta pra Michele, como sugeriu o deputado, mas ela não quis nos dar entrevista. Sostanes, no entanto, nos deu alguns bastidores do começo do romance.

?Voz E

Eu só vou te dar uma palhinha de que ela falou que ele não sabia beijar e quem ensinou ele beijar foi ela. Falou, você beija mal para caramba no primeiro beijo. E ela ficou dando aula para ele aprender a beijar na boca porque ele não sabia. Ela foi perseverante e é hilário ela te contar toda a história com riqueza de detalhes que só a Michelle tem.

?Voz A

9 dias após ser contratada por Bolsonaro, Michele firmou com ele um pacto antinupcial rigoroso: separação total de bens, mesmo aqueles constituídos na vigência do casamento. Eles se casaram de papel passado 2 meses depois. Com a certidão de casamento já assinada, Michele ficou 1 ano empregada pelo marido. Uma reportagem publicada pela Folha de São Paulo revelou que a contratação e uma promoção que Michele recebeu no gabinete do marido fizeram o salário dela quase triplicar, se comparado ao que recebia na liderança do PP.

Mas sua ascensão profissional em Brasília não duraria muito tempo. A gente já volta para te contar por quê.

?Voz B

Você já ouviu falar do Missão Saber? É o não tão novo podcast do UOL que parte de livros. Vamos recomendar muitos livros para falar de vários assuntos. Já pensou ouvir a Daniela Lima falando de ansiedade?

?Voz A

Por conviver com o processo da ansiedade há tanto tempo, eu entrei numa espécie de vigília constante, assim.

?Voz B

O PVC sobre memória, o Facundo Guerra sobre China, Maria Prata sobre educação dos filhos, Sakamoto e os evangélicos.

?Voz F

Muita gente esperava que o número de evangélicos seria ainda maior.

?Voz B

Eu sou Murilo Garavello e apresento Missão Saber. O podcast para quem é curioso e gosta de aprender.

?Voz D

Tudo na vida a gente acha um equilíbrio ali, consegue viver e ao mesmo tempo entender as problemáticas e ao mesmo tempo se amar.

?Voz B

Tem tudo isso e muito mais, muita coisa legal para você. Busca Missão Saber no YouTube, no Spotify ou na sua plataforma de podcasts favoritos, ou fica atento no canal UOL. Assista o Missão Saber toda semana no canal UOL.

?Voz A

Tudo corria bem na vida profissional de Michele. Até que, em novembro de 2008, ela foi exonerada. Foi quando o STF editou uma súmula proibindo o nepotismo no serviço público. Bolsonaro não se importava com eventuais comentários sobre o fato de contratar a própria mulher. Afinal, ele tinha experiência em lidar com esse tipo de cobrança. Na época em que empregou os familiares de Ana Cristina Valle, Bolsonaro disse que, na prática, eles não eram seus parentes.

O argumento era que, embora estivessem juntos, no papel ele não era marido de Ana Cristina. Ainda estava casado com Rogéria Bolsonaro, mãe de Flávio, Eduardo e Carlos. Um parênteses: Rogéria Nantes Nunes Braga, nome de solteira da mãe de seus 3 filhos mais velhos, Foi a primeira mulher do então deputado. Com o apoio dele, ela foi eleita vereadora no Rio de Janeiro nos anos 90 e cumpriu 2 mandatos. Voltando à Michele, quando ela deixou o emprego na Câmara, Leitícia tinha 6 anos.

Os 4 filhos de Jair já estavam quase todos criados. Flávio, com 27 anos, era deputado estadual no Rio. Carlos, aos 26, estava prestes a iniciar seu terceiro mandato como vereador no Rio. Eduardo, aos 24, cursava o último ano da faculdade de Direito. O caçula Jair Renan tinha 10 anos. Embora a família já fosse extensa, Michele queria mais.

?Voz F

E quando ele foi escondido dos filhos para o Hospital Militar para desfazer a vasectomia—

?Voz A

Ele te falou isso?

?Voz F

Você estava acompanhando na torcida, é isso?

?Voz D

Sim, foi uma prova de amor, né? Até porque para convencê-lo— Então eu vi que realmente ele me amava e que ele queria realmente ter uma família comigo.

?Voz A

Depois de ser pai de 4 homens, Bolsonaro teve uma menina. Ele trataria dessa novidade em sua vida com mais uma polêmica numa frase que seria explorada por seus adversários para mostrar a maneira como ele vê as mulheres.

?Voz F

O quinto deu uma fraquejada, né? Foram 4 homens, a quinta deu uma fraquejada, veio uma mulher.

?Voz A

Pouco tempo depois, Michele defendeu o marido, dizendo que era o jeitinho dele, outra criação, outra geração. Diz que ele era inocente, puro e, abre aspas, um leão por dentro, por fora um gatinho de olhos azuis, fecha aspas. Laura nasceu em 2010 e foi batizada 10 anos depois na Igreja Batista, a mesma que a mãe frequentava na infância em Ceilândia, ao lado dos irmãos. No Rio de Janeiro, Michele foi fiel da Assembleia de Deus Vitória em Cristo, na Barra da Tijuca.

?Voz F

Eu passei então a conhecê-la mais, na verdade, a partir do relacionamento dela com Bolsonaro, que ela frequentava a nossa igreja na Barra da Tijuca. Então eu, como tinha relacionamento com Bolsonaro, aí a conheci a partir mesmo desse momento. Mas ela já era membro da nossa igreja anos atrás, no período do meu sogro, o pastor José Santos, a quem eu substituí. Quem batizou ela foi meu sogro.

?Voz A

Esse é o pastor Silas Malafaia, líder da Assembleia de Deus Vitória em Cristo e figura importantíssima na vida de Jair e Michele Bolsonaro.

?Voz F

As primeiras lembranças que eu tenho da Michele, ela trabalhando na igreja. Ela sempre gostou de trabalhar na igreja, servir mesa, sabe, trabalhos sociais. Então essa é a minha primeira lembrança da Michele, que ela sempre fez esse papel, sabe, porque a igreja recebe um visitante, recebe um pastor de fora, aí oferece uma janta, um café. Ela tava sempre servindo às mesas e também nessa questão de ajuda em áreas sociais.

?Voz A

A esposa do Malafaia, que é a filha do pastor José Santos, que batizou Michele, é Elizete. Ela conversou com a Juliana Fadu.

?Voz H

Como é que eu conheci a Michele? Eu conheci a Michele numa das nossas igrejas lá na Barra, que quando ela frequentava lá, né, ela não era nem casada com Bolsonaro, ela tava namorando com ele.

?Voz A

Jair Bolsonaro não era e continua não sendo evangélico, mas transitava bem no segmento. Ele e Silas Malafaia, que apoiou Lula nas eleições de 2002 e 2006, tinham se aproximado fazia pouco tempo. Malafaia encontrou em Bolsonaro um aliado na defesa de pautas conservadoras no Congresso, como o ataque a um projeto de lei que criminaliza a homofobia. Quando Michele entrou na vida de Bolsonaro, ele ficou ainda mais integrado aos evangélicos e, desse modo, aos Malafaia.

Elisete se tornou uma defensora de Michele, alguém disposto a defendê-la de ataques e maledicências.

?Voz H

E uma coisa que eu quero deixar bem aqui para você que tá ouvindo, vocês entenderem: para Deus não existe pecado, pecadinho, pecadão. Para Deus, pecado é pecado. Deus não olha, sabe, o que a gente tá fazendo. Ele vê que saiu do alvo. A gente é que quantifica e qualifica pecado, Deus não. Saiu do alvo é pecado, e ele perdoa independente de qual seja o pecado. Se você se arrepender, confessar e deixar, ele te perdoa e não lembra mais.

Olha que coisa linda, né? Nós é que ficamos lembrando e querendo jogar na cara das pessoas. Mas quem é que não peca?

?Voz D

Todos pecaram.

?Voz I

Qual seria o pecado dela?

?Voz H

Não, não é o pecado dela. Eu tô dizendo de acusação que fazem contra ela, as pessoas acusando, sabe? Como eu vi no Twitter, uma mulher acusando, falando tanta baixaria, que eu falei, caramba, e é uma mulher falando de outra. Ela até botou a mulher na justiça e fez muito bem, que eu também colocaria, né? Agora, uma mulher— e que mulher é essa que não defende a outra? Para você ver a que ponto chega, né? Por causa de política, acusando, falando coisas que— coisas que se aconteceu ou não, não importa.

Quem não erra? Quem não peca? Se arrependeu, deixou, acabou. Você é uma pessoa nova, acabou. Não fica vivendo de passado.

?Voz A

Elizeth e Silas ficaram tão próximos de Michelle e Jair que começaram a dar taco na vida íntima deles.

?Voz H

Aí o Silas um dia falou, vem cá, cara, quando é que tu vai casar, né? A sua esposa tá aqui na igreja, né?

?Voz A

Aí chamou Bolsonaro na chincha.

?Voz H

Foi, chamou. Ele fala isso, chamou na chincha. Você vai ficar aí enganando a menina aí esse tempo todo? Não, vamos casar, meu filho, né? Ela quer casar, vocês não estão juntos aí, não se amam, né?

?Voz A

Em conversa comigo, ele confirmou a versão da Elizeth.

?Voz F

Foi eu que fiz o casamento deles, né? Acho que a mulher, ela tem aquele sonho de fazer uma cerimônia, uma festa. O homem é muito racional e a mulher é mais emocional, nós sabemos disso. Então acho que ela tinha um desejo de um ato, né, de casamento. Então eu fiz o ato do casamento numa casa de eventos ali em São Conrado, aqui no Rio de Janeiro, né? E fiz o casamento deles, que era um desejo. Eu falei, cara, você tem que fazer um casamento oficial.

Isso é o desejo da mulher, rapaz. Aí ele falou, quando eu falei: tu tem que fazer isso, camarada. Ele falou: você faz meu casamento? Eu falei: faço, é só marcar. Aí marcou e eu casei.

?Voz A

A cerimônia foi marcada para o dia 21 de março de 2013, aniversário de 58 anos de Jair e véspera do dia em que Michele completaria 31 anos. Ao som de Jesus, Alegria dos Homens, de Yohann Sebastian Bach, Com vestidos de renda francesa, Michele disse sim a Jair.

?Voz H

Ela queria um vestido mais fluido, um vestido, né, que remete mais essa parte dela, mais dessa simplicidade que ela tem. Então, vestido de musseline, tinha um leve drapeado, sabe, umas aplicações delicadas de renda bordada com cristais, um vestido muito suave, muito delicado.

?Voz A

Essa é Marie Lafayette, estilista responsável pelo look da noiva, que foi entrevistada pela Juliana Fadul. O vestido da Marie e outros detalhes do casamento foram notícia na edição de número 20 da revista Festejar Noivas, do Rio de Janeiro. Michelle é a capa da publicação. Em conversa com a revista, Bolsonaro contou que se aproximou de Michelle para buscar novamente a felicidade depois de ter se separado de Ana Cristina. Já Michelle, relatou que estava vivendo um amor que foi conquistado aos poucos.

Abre aspas: Hoje posso dizer sem dúvidas que ele é meu grande amor. Fecha aspas. O casamento aproximou ainda mais os Malafaia dos Bolsonaro, mas em 2016 a relação azedou. Foi quando Silas Malafaia foi investigado pela Polícia Federal por lavagem de dinheiro.

?Voz F

Operação Timóteo, uma covardia violenta contra mim. E Bolsonaro ficou caladinho, não falou nada. Aí eu na igreja, depois que eu cheguei na igreja, no domingo seguinte eu falei, é, tem gente que mostra o que é na hora da crise, gente que eu sempre ajudei. Daí fiquei também um tempo sem falar com ele.

?Voz A

Michele não apenas ficou do lado do marido, como saiu da Igreja de Malafaia, mudou-se para a Igreja Batista Atitude, também na Barra. Quando ela saiu da Vitória em Cristo, pastor, o senhor não se chateou com isso? Não ficou?

?Voz F

É um direito. Eu sou um camarada que eu aprendi que pastor não é dono de ninguém e as pessoas têm que se sentir bem onde elas acham que vai desenvolver a sua fé da melhor maneira.

?Voz A

Tempos depois, Silas e Jair fizeram as pazes, mas Michele não acompanhou o marido. Ela guarda mais rancor do que o marido, pelo visto.

?Voz F

Isso é de vocês, não é guardar rancor, é da natureza emocional da mulher. É, aí depois, lá na frente, numa manifestação dessa, não sei se foi um 7 de setembro, ele ainda era presidente, mas lá na frente, 3 anos depois, eu acho que Bolsonaro como presidente. Aí aqui teve uma, olha aqui, eu acho, eu acho que a conversa, tô aqui me lembrando que é o tempo, é uma coisa terrível, foi na viagem do enterro da Rainha Elizabeth. Que eu fui.

Então a gente conversou muito no avião e conversamos lá e tal. Aqui que eu tô me lembrando, ali foi um, foi um fator de reparar essas histórias todas.

?Voz A

Repararam as histórias, mas Michele não voltou para a Igreja de Malafaia. Permanece na atitude até hoje. Jair Bolsonaro passou quase 3 décadas como deputado federal pelo Rio de Janeiro. Ao longo desses anos, ele se destacou muito mais pelas falas polêmicas do que pela atuação legislativa. Sempre defendeu abertamente a ditadura militar e chegou a elogiar figuras como o coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra, apontado como torturador durante o regime.

Pela memória do coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra, Bolsonaro acumulou processos por declarações ofensivas, como o episódio em que disse à deputada Maria do Rosário que ela não merecia ser estuprada. Também fez declarações consideradas homofóbicas e racistas em entrevistas e programas de TV, consolidando uma imagem pública controversa. Michele nunca criticou publicamente o marido por nenhuma dessas falas. Até meados da década de 2010, Bolsonaro tinha pouca influência no Congresso.

Isso começou a mudar com o crescimento das redes sociais, o avanço do antipetismo e o impacto da Operação Lava Jato. Muita gente tinha dificuldade em imaginar um político como ele ocupando o cargo mais importante da República.

?Voz D

Quando eu casei, jamais imaginaria casar com político, até porque eu tinha aversão. A político.

?Voz A

Se casar com um político não tava nos planos de Michele, tornar-se a primeira-dama do país parecia algo tão improvável que chegava a abalar sua fé.

?Voz D

E aí um dia ele chegou, tava no banheiro, e falou, Mi, eu tô achando que eu vou me candidatar. Aí eu falei, você tá maluco, porque se você ganhar você não vai conseguir governar. Ali realmente eu fui uma mulher de pouquíssima fé. Eu não acreditei no meu marido.

?Voz A

No próximo episódio de Michelle.

?Voz D

O Jair, ele é um ser humano maravilhoso. Quem conhece, quem convive, sabe que ele é assim. É o meu amor, né?

?Voz A

Jair não é, tá quase lá, mas eu sou a auxiliadora dele e a festa tá comigo.

?Voz E

Eu me lembro que uma das conversas que a gente fez foi justamente Ela falando, se aproxima do Jair, eu quero que ele também se torne um evangélico junto comigo, você pode me ajudar nisso?

?Voz D

Tá falando também de uma igreja, Assembleia de Deus Pentecostal, não só em plena ascensão, mas em plenas condições de disputar politicamente qualquer coisa.

?Voz F

E aí a Michele começou a marcar e nomear o pessoal nos estados e começou a visitar os estados. Aí, como surpresa para Cada dia que passava, ela melhorava mais. Os filhos não consideram a madrasta como família. Isso gera tensões.

?Voz A

Michelle é um podcast original UOL Prime. A apresentação é de Adriana Negreiros. A reportagem é de Adriana Negreiros, Juliana Fadu e Mariana Sanches. O roteiro é de Clara Fabi e Adriana Negreiros. O tratamento de roteiro é de Laura Kapelusznyk. A coordenação é de Lígia Carriel e Laura Kapelusznyk. A montagem, desenho de som e finalização são de João Pedro Pinheiro. Trilha sonora original de João Pedro Pinheiro. Trilhas adicionais do Epidemic Sound.

A direção de arte é de Gisele Pungan. A arte de capa é de Yasmin Ayun. O podcast é um produto do UOL Prime, com edição de Luiz Weber e Vanessa Batista. A gerência geral é de Irineu Machado. A supervisão é de Murilo Garavello, diretor de conteúdo do UOL. Esse episódio usou áudios do UOL, do G1, do Poder 360, do podcast Pode Atualizar, da TV Brasília, do Estado do Pará Online, da Rádio Bandeirantes, da Record TV, da Rede Super de Televisão, do canal de Alexandre Garcia e do canal do Partido Liberal.

Michelle #1: Gênesis | Castnews Index — Castnews Index