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UOL Prime #129: Os bastidores do envolvimento de Cláudio Castro no escândalo Master

02 de julho de 202628min
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O governo do Rio de Janeiro, na gestão de Cláudio Castro, foi a principal fonte de dinheiro público do Banco Master. De acordo com a Polícia Federal, por meio do Rioprevidência, cerca de R$ 3 bilhões foram para os cofres do banco de Daniel Vorcaro em operações de compra de letras financeiras e aportes em fundos.

É sobre os detalhes dessa relação, que resultou na busca e apreensão na casa de Cláudio Castro e na citação do ex-governador na proposta de delação de Vorcaro, que José Roberto Toledo conversa com o colunista Fabio Serapião no novo episódio do podcast UOL Prime.

Participantes neste episódio2
J

José Roberto Toledo

HostJornalista
F

Fabio Serapião

ReporterColunista
Assuntos7
  • Delação de Daniel Vorcaro e escândalo do Banco MasterBanco Master · Cláudio Castro · Daniel Vorcaro · Rioprevidência · Operações financeiras · Compra de letras financeiras · Aportes em fundos · Delação premiada
  • Caso Master e financiamento políticoFundos de pensão estaduais e municipais · Influência política em investimentos · Ricardo Magro · Grupo Refit · Secretário da Fazenda · Davi Alcolumbre · Amprev (Amapá)
  • Investigação e contato com VorcaroPolícia Federal · Proposta de delação · Ricardo Siqueira (Ricardo Gordo) · Mídias Promotora · Metanoin · Pagamento de propina · Empresas de fachada
  • Responsabilidades de políticos quanto a patrocínio de campanhaJantares em Nova York · Degustação de whisky · Bife de ouro · Cláudio Castro · Daniel Vorcaro
  • STF e Separacao de PoderesSTF (Supremo Tribunal Federal) · Dias Toffoli · Alexandre de Moraes · Davi Alcolumbre · André Mendonça · Gilmar Mendes · Eleições 2024
  • Investigacao Forense e ProvasQuebra de sigilo fiscal · Relatórios do COAF · Cellebrite (software de extração) · Celulares apreendidos · Daniel Monteiro (operador)
  • Mega Operação Rio de JaneiroGovernadores presos · Witzel · Cabral · Festa do guardanapo
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JRJosé Roberto Toledo

O caso Master tem tantas ramificações na política brasileira que é impossível não lembrar de uma frase popular lá na Grande Matão: "Cada enxadada é uma minhoca", porque parece que a fertilidade política do caso não tem fim. Não só em Brasília, mas também nos estados. A investigação da Polícia Federal mostra que no estado do Rio de Janeiro a influência do Banco Master também era muito grande. E quem vai contar pra gente o tamanho da influência da família Vorcaro no governo de Cláudio Castro é o repórter e colunista do UOL, Fábio Serapião. Tudo bem de volta ao UOL Prime, Fábio?

FSFabio Serapião

Tudo bem, Toledo? Mais uma vez, um prazer participar aqui do UOL Prime, dessa vez falando mais um pouquinho de Borcário e esse braço dele, o Rio de Janeiro, esse estado que tem uma característica muito importante para o país, que é ter muitos escândalos e muitos ex-governadores envolvidos em operações da Polícia Federal, né, Toledo?

JRJosé Roberto Toledo

Sem dúvida nenhuma, Fábio. É o recordista em governadores presos. Mas vamos detalhar isso daqui a pouquinho. Eu sou José Roberto Toledo e este é o UOL Prime. Toda semana a gente Conversa com os melhores repórteres sobre as melhores reportagens do UOL. Ô Fábio, o governo do Rio de Janeiro não só tinha influência do Vôrcaro, como também tinha muita influência de outro procurado pela justiça, que é o Ricardo Magro, dono do grupo Refit, né, que nomeou ali até o secretário da Fazenda, entre outros cargos.

Qual que era a relação do caso do Vorkaro com o governo Cláudio Castro? Eram por meio de pessoas que ele conseguiu nomear, como era no caso da Refit, ou ele tinha um esquema diferente?

FSFabio Serapião

Toledo, só para fazer uma historinha de como chegamos até aqui, como mais um governador do Rio de Janeiro está envolvido no escândalo, Cláudio Castro era o vice-governador do Witzel, que foi eleito naquela onda de Bolsonaro em 2018. E já era pra ele ter rodado com o próprio Witzel. Ali naquela investigação que tirou o Witzel do governo já tinha coisas dele, já tinha uma delação sobre ele. Só que naquela época, Cláudio Castro era um aliado do governo de Jair Bolsonaro, que tinha na Procuradoria-Geral da República Augusto Aras e a subprocuradora Lindora Araújo.

Então foi pra cima do Witzel e deixou o Cláudio Castro com uma investigação parada por anos e anos. Depois disso, quando o governo Lula assume, muda o procurador, essa investigação dá de andar e o relator atual do caso master, o André Mendonça, anula essa investigação contra o Cláudio Castro. Então, se ele tivesse sido lá atrás investigado corretamente pelo Augusto Aras, a gente não teria esse caso master envolvendo ele. Mas enfim, não foi investigado, a gente chegou nessa situação que a Polícia Federal aponta o Cláudio Castro como um dos principais parceiros de negócios do Banco Master, tendo colocado ao menos R$3 bilhões, né, o governo do Rio de Janeiro tendo colocado ao menos R$3 bilhões no Banco Master.

JRJosé Roberto Toledo

Esse era o modus operandi principal do Master, você me corrija se eu tiver errado, quando inclusive o pré-candidato a presidente pelo PL, o 01 do Bolsonaro, o Flávio, disse que não havia dinheiro público, ele no mínimo tá enganado, se não tiver mentindo, porque a origem do dinheiro real Não tô falando do fictício que o Banco Master fabricou, tô falando do dinheiro que efetivamente foi irrigar os caixas, eram sempre fundos de pensão, né, ou ligados a governos estaduais ou governos municipais.

Explica um pouquinho esse arcabouço do sistema Master para as pessoas entenderem do que a gente tá falando.

FSFabio Serapião

O Banco Master no primeiro momento ele tinha como fonte ali de dinheiro para inflar o seu patrimônio e poder emitir CDBs e Tudo mais, precatórios. Por volta de 2023, ali, o Banco Central dá uma enrijecida nessas regras de precatório. E aí o que ele percebe é que ele ia ter que buscar dinheiro em outros lugares. E essa hora que entra os fundos de previdência estaduais e municipais. Então, a partir de 2023, ali, para escapar dessa questão dos precatórios que ele não tava conseguindo mais por causa dessa regra do Banco Central, o banco master Daniel Vercaro começa a buscar dinheiro em fundos de previdência em governos estaduais.

E é nessa hora que aparece o fundo de previdência do Rio de Janeiro, o Rio Previdência, o do Amapá, também ligado a Davi Alcolumbre, presidente do Senado, e de várias cidades e outros estados. Então, a partir de 2023, 2024, esses fundos de previdência passaram a ser a principal fonte de renda aí para tentar melhorar a liquidez do Banco Master.

JRJosé Roberto Toledo

Toledo, esses fundos em geral, eles são mezzo calabresa, mezzo mussarela, né? Porque uma parte é privada, outra parte é governamental, e ele vai ir atrás dos políticos que têm influência sobre quem tá no assento do comando desses fundos. Só detalhe um pouquinho como é que é essa organização.

FSFabio Serapião

Justamente, normalmente o fundo de previdência é uma autarquia ligada ao Estado, só que é o governador que indica o presidente desse fundo de previdência, né? No caso do Rio de Janeiro, era o Davis Marcon, que foi indicado pelo Cláudio Castro e pelo Rueda, Antônio Rueda, presidente do União Brasil. Davis Já foi alvo, está preso. Ele é aquele cara que quando a Polícia Federal foi fazer uma busca nele, teve dinheiro saindo pela janela e depois ele tentou fugir quando estava voltando para o Brasil e a Polícia Federal prendeu ele.

Ele está preso até o momento. Embora o Davis e o grupo de diretores, coordenadores, gerentes do Rio Previdência fossem os que faziam ali as transações, mas é um cargo político, né? E o que aconteceu foi justamente isso. Segundo a Polícia Federal, Quando começou essa parceria do Master com o Cláudio Castro, o Cláudio Castro troca toda a direção do Rio Previdência e a partir daí começam essas compras de letras financeiras, que foram R$970 milhões em letras financeiras e mais de R$2 bilhões investidos diretamente em fundos do Master. E aí que chega todo esse dinheiro público lá.

JRJosé Roberto Toledo

Esses fundos de pensão, essas autarquias estaduais, elas são irrigadas com dinheiro dos futuros aposentados, dos servidores públicos que fazem a sua contribuição mensal E tem uma contrapartida do governo também para aumentar esse bolo. Aí esse dinheiro, que é um grande volume de dinheiro, precisa ser investido, né? Precisa dar retorno financeiro. E aí é que entra a influência política para dizer: investe aqui, não investe lá. É por aí.

FSFabio Serapião

Justamente, esse dinheiro tá parado lá, obviamente muito dinheiro, que um estado como Rio de Janeiro tem milhares de servidores. E esse dinheiro é como se fosse uma empresa mesmo, investindo para ter um retorno o maior possível, para isso voltar para os aposentados. O problema é quando o investimento é decidido a partir de uma questão política e não de uma questão financeira. E acontece o que aconteceu agora, que até o momento, pelo menos, se não houver um acordo, a polícia conseguir reaver esse dinheiro, esses aposentados vão ficar sem todos esses 3 bilhões que foram aportados no banco do Daniel Vorkaro.

JRJosé Roberto Toledo

Vamos explicar por que que esse dinheiro corre risco. O Vorkaro queimava dinheiro, né, fazia aquelas festas bife de prato, bife de ouro, viagem para Alpes franceses para um senador, mesada para o mesmo senador, compra apartamento para outro senador, para familiares, etc., etc., justamente para aparentemente ter influência política, poder indicar pessoas ou poder convencer o governador que era legal botar no fundo dele. Só que quando o dinheiro entrava no banco, esse dinheiro praticamente desaparecia, porque o banco praticamente quebrou, quer dizer, foi liquidado, né?

FSFabio Serapião

Primeiro momento é isso, é o dinheiro entrando no banco, né, Rio Previdência, Amprev, que é do Amapá, ou mesmo da venda de CDBs, né. E aí um segundo momento é outra parte que a Polícia Federal investiga desse dinheiro sendo desviado do próprio Master pela família do Daniel Vaccaro, indo para parentes, indo para amigos e para fundos aí que a Polícia Federal tem tentado seguir o caminho para saber onde foi parar essa grana. O fato é que no Master não ficava, né, isso tá bem claro.

JRJosé Roberto Toledo

Vamos pegar um aposentado, né, ou um servidor público que vai se aposentar. Ele fazia sua contribuição mensal, o dinheiro ia para esse fundo de previdência do Rio de Janeiro, 3 bi desse fundo, por ordem do Cláudio Castro e dos seus prepostos, vai ser colocado dentro do master e lá no master ele vai sumir e, portanto, esses 3 bi não existem mais.

FSFabio Serapião

Pois é, e ao contrário dos CDBs, que até os R$250 mil o Fundo Garantidor de Crédito "Vai pagar? Já pagou um tanto?" No caso disso não tinha garantia. Tem uma mensagem que a Polícia Federal coloca no pedido de busca que fez contra o Cláudio Castro, que o próprio Forcário pergunta para um funcionário do banco se esse dinheiro do Rio Previdência tinha algum tipo de garantia e o cara responde: "Esse não tem." Logo, esse não vai ser custeado nem pelo FGC, nem por ninguém.

Somente se a Polícia Federal conseguir achar onde está esse dinheiro. Ou Daniel Vercaro, nessas tentativas de acordo de colaboração dele, devolver esse dinheiro, talvez no final do processo o Rio Previdência receba de volta. Caso contrário, e o que é mais factível, vai ficar sem ver esse dinheiro.

JRJosé Roberto Toledo

Agora, Fábio, para um fundo investir, no caso é queimar, jogar fora, 3 bilhões, obviamente os gestores sabem que estão correndo um risco, né? Logo, imagino que tenha havido algum tipo de contrapartida que não seja apenas a ordem dos chefes, né, dos políticos que mandam neles, que nomeiam eles, para que fizessem isso. Já está comprovado que houve algum tipo de contrapartida, ou seja, pagamentos feitos por empresas ou pessoas ligadas ao esquema do Banco Master para quem operava essa grana?

FSFabio Serapião

Num primeiro momento, na parte, tirando a a colaboração premiada do Vôrcaro, que ainda não foi homologada, não foi nem aceita, né, já teve duas tentativas e ainda não foi aceita. No material que a Polícia Federal já investigou, que deu origem à busca e apreensão contra o Cláudio Castro, ela já tinha descoberto ali alguns caminhos, principalmente um que é por meio de um cara chamado Ricardo Siqueira, vulgo Ricardo Gordo, que é um operador antigo, já foi alvo da Lava Jato, já tinha sido investigado em outras operações.

A Polícia Federal encontrou nas mensagens ali que ele era o captador dos valores na na Previdência. Então ele era o lobista que atuava pelo Master ali. E essa empresa que é ligada a ele recebeu R$126 milhões do Banco Master. Isso é o que a Polícia Federal tinha até então em dinheiro bruto pago para o grupo ali, né, para pessoas envolvidas. Além disso, tem aquelas famosas mensagens e conversas do Daniel Vaccaro mostrando que o próprio governador Cláudio Castro recebeu alguns mimos, né.

JRJosé Roberto Toledo

Que mimos foram esses? Rememora que são tantos mimos que a gente precisa exumar os A Polícia Federal coloca pelo menos 3 eventos ali, né?

FSFabio Serapião

O primeiro, um durante um evento em Nova York, o Cláudio Castro tava lá, o Vuorcaro pagou para ele um jantar num restaurante muito chique, aquele da carne de ouro, enfim, que aquele chefe sempre aparece nos vídeos colocando ouro ali, fazendo aquela pose, que deu cerca de R$60 mil aquele jantar ali. Isso em 2023. 2024 tem outro evento lá em Nova York também e tem esse outro jantar nesse lugar. E tem um caso que é muito explorado pela Polícia Federal, Toledo, que é uma degustação também em Nova York, uma degustação de whisky que o Vaccaro convidou o Cláudio Castro.

E ela é importante para a Polícia Federal porque ela acontece num dia em maio de 2024. No dia seguinte, o Rio Previdência libera um aporte milionário para o Master. Então, pelo menos esses três, e fora eventos no Rio de Janeiro, encontros que a Polícia Federal cita do Vaccaro indo no Palácio casa das Laranjeiras, na sede do governo. Então, até o momento, é sem a delação, é isso, né? Essa segunda proposta de delação que o Vercaro apresentou e que também foi negada, a gente teve acesso a ela e deu origem à matéria que a gente fez pro Uol Prime.

Tem ali, além dessa empresa, a Mídias Promotora, que eu te falei, ligada ao Ricardo Gordo. O Vercaro coloca uma outra empresa lá chamada Metanoin, que também recebeu cerca de R$102 milhões. Então, no total, são R$228 milhões duas empresas que o Vorkaro aponta como intermediária de propina para o grupo político do Cláudio Castro. Então são R$228 milhões que ela teria recebido entre 2023 e 2025, no período desses aportes do fundo e do fundo de previdência no Banco Master.

JRJosé Roberto Toledo

Você sabe que eu sou meio lento, né? Então eu vou por etapas ali. Então, se eu entendi bem, o Vorkaro depositava para esse intermediário, Ricardo Gordo, numa empresa dele, mas o dinheiro ele provavelmente era distribuído por ele para outras pessoas que viabilizariam essa operação financeira de aporte do dinheiro do fundo de previdência no Banco Master. É isso?

FSFabio Serapião

Em tese é isso. E esse é um ponto também que a Polícia Federal aponta como uma fragilidade da proposta de colaboração, porque o Vercaro aponta essas duas empresas, né, essa ligada ao Ricardo Gordo e uma outra que está no mesmo endereço, sediada no mesmo endereço que ela, em Bangu, na zona norte do Rio de Janeiro. Mas não dá mais detalhes sobre, olha, a partir dessa empresa foi para quem, de que forma foi para o Cláudio Castro, de que forma foi para o secretário da Casa Civil, de que forma foi para o próprio presidente da Rio Previdência, que estava autorizando esses repasses.

Então é um dos pontos da Polícia Federal citar como a proposta como sendo frágil ainda, insuficiente, sem nenhum tipo de elemento de corroboração. Essa falta desses detalhes, Toledo. Só tem ali que foram para as empresas. Aí você pega a quebra de sigilo fiscal do Master e realmente tem lá esses valores, os 228 milhões indo para elas, mas não tem detalhado a partir dali para onde isso foi, como foi, quem são os beneficiários finais desse dinheiro.

JRJosé Roberto Toledo

Entendi. Agora, Fábio, a gente imagina que se a delação foi assim pela metade, né, só deu o primeiro passo, É porque ela tinha por intenção não revelar, pelo menos num primeiro momento, tudo o que o Vôr-Caro sabe, né? Porque efetivamente, no fundo, dependia tudo dele, né? A polícia tem como avançar nas investigações e descobrir os beneficiários finais sem que ele delate? Mas não responde agora não, que a gente vai pro break, você responde logo depois, vamos fazer um pouquinho de suspense aqui.

?Voz C

Você já ouviu falar do Missão Saber? É o não tão novo podcast do UOL Que parte de livros, vamos recomendar muitos livros pra falar de vários assuntos. Já pensou ouvir a Daniela Lima falando de ansiedade? Por conviver com o processo da ansiedade há tanto tempo, eu entrei numa espécie de vigília constante assim. O PVC sobre memória, o Facundo Guerra sobre China, Maria Prata sobre educação dos filhos, Sakamoto e os evangélicos.

JRJosé Roberto Toledo

Muita gente esperava que o número de evangélicos um valor que seria ainda maior.

?Voz C

Eu sou Murilo Garavello e apresento Missão Saber, o podcast para quem é curioso e gosta de aprender.

FSFabio Serapião

Tudo na vida a gente acha um equilíbrio ali, consegue viver e ao mesmo tempo entender as problemáticas e ao mesmo tempo se amar.

?Voz C

Tem tudo isso e muito mais, muita coisa legal para você. Busca Missão Saber no YouTube, no Spotify ou na sua plataforma de podcasts favoritos, ou fica atento no canal UOL. Assista o Missão Saber Toda semana no Canal UOL.

JRJosé Roberto Toledo

Voltando do break, Fábio, então eu tinha te perguntado: a polícia tem como avançar sem a delação?

FSFabio Serapião

Essa é a aposta dos investigadores, Toledo. Eles têm os celulares, eles têm a quebra de sigilo e eles têm relatórios do COAF e podem pedir outras quebras para tentar seguir esse dinheiro. Conversando com investigadores, seja da Procuradoria-Geral da República, seja da Polícia Federal, a tese que eles defendem é justamente essa, que uma delação igual essa que tem sido proposta pelo Vôrcaro, que num detalhe, que principalmente não traz elemento de corroboração que a polícia já tem.

Que que é o elemento de corroboração? Fala: olha, eu paguei para essa empresa, mas tô aqui, ó, tem essa mensagem mostrando que desses 228 milhões, 20 milhões foi direto para uma conta do Cláudio Castro, ou teve uma entrega de dinheiro para o Cláudio Castro. Gasto. Como não tem esse elemento de corroboração, a Polícia Federal entende que o que ela tem já é valioso e não vale ter um benefício para o Borrachado se ele não acrescenta a investigação.

Então, em tese, a Polícia Federal diz que ela consegue avançar nessa investigação, tanto que já realizou busca, já conseguiu convencer o juiz do caso, o ministro André Mendonça, a liberar busca e quebras de sigilo e tudo mais. Então eu acho que o tempo vai dizer se realmente eles conseguem isso ou se também há uma implicância com essa delação premiada derrapada aí, que a gente vê que tá derrapando, derrapando e não vai para lugar nenhum.

JRJosé Roberto Toledo

Você teve acesso à delação que foi proposta pelo Vôrcaro na íntegra ou só essa parte do relativo ao Rio de Janeiro?

FSFabio Serapião

A íntegra do Rio de Janeiro, do Cláudio Castro, e tive alguns detalhes do Alcolumbre e consegui ver algumas coisinhas ali do PT da Bahia, enfim, algumas coisas mais laterais, e do Silveira também, o ministro aqui de Minas e Energia, mas o total não. O total são cerca de 35 anexos, mas infelizmente tô tentando, ainda não consegui ver a totalidade.

JRJosé Roberto Toledo

E nessa parte que você teve acesso, por exemplo, ao PT da Bahia, essa denúncia contra o que motivou a operação contra o líder do governo no Senado, Jax Wagner, já aparecia ali ou era menos do que a polícia revelou depois?

FSFabio Serapião

Também de uma forma muito superficial e contando a história que todo mundo meio que já sabia da questão do Sexta, de como Augusto Lima criou essa relação com o PT da Bahia, mas também sem os detalhes que a Polícia Federal acha que são necessários para aceitar o acordo, né? No caso da Columbre, a mesma coisa, também sem detalhes. Nem se cita o caso da Previdência do Amapá, para você ter uma noção, no anexo dele nem falava da Previdência lá.

JRJosé Roberto Toledo

Agora, qual que pode ser a estratégia dos advogados do Vôrcaro ao omitir tanta coisa que a polícia já sabe? Sinaliza WhatsApp para os políticos dizendo: olha, estou segurando a sua barra aqui, me ajude. Não consigo entender qual que é, o que que ele ganha com isso.

FSFabio Serapião

Olha, Toledo, essa acho que é uma pergunta que todo mundo aqui em Brasília tá tentando responder nas últimas, nos últimos meses, né? Sábado agora eu completei 10 anos de Brasília, acompanhei toda a negociação de acordos de Odebrecht, das principais empreiteiras, JBS, e ali obviamente tinha a questão do sigilo que sempre dificulta, mas você conseguiu entender mais ou menos quais forças estavam voando, né? Nesse caso do Master, tá bem complicado.

Aí você tem de um lado os interesses, obviamente, do próprio Forcaro, né, que ao que parece tenta ganhar tempo ali enquanto negocia, até para ver como que se as forças políticas se acomodam nesse ano eleitoral, né? Então parece que tem uma vontade dele de entender e dar um tempo para saber o que vai acontecer. De outro lado, você tem Polícia Federal e Procuradoria-Geral da República. Polícia Federal que tá conduzindo a investigação, os delegados da ponta tocam a investigação normalmente, mas tem uma direção também que obviamente deve sofrer sua as pressões políticas.

Na Procuradoria-Geral você já tem um outro cenário, que é uma Procuradoria-Geral que é muito próxima do grupo político de ministros do STF, que não querem de forma alguma que esse acordo cite algumas pessoas. Essas pessoas, obviamente, os dois ministros do STF que já apareceram nas mensagens ali, Dias Toffoli e Alexandre de Moraes, e uma terceira pessoa que é Davi Alcolumbre, que é o fiador da relação entre Congresso principalmente Senado e STF, nesse contexto do bolsonarismo, né, de querer sempre o impeachment de um ministro.

Sempre o Alcolumbre foi quem segurou a onda ali de não pautar esses pedidos e de alguma forma fazer com que o Senado tivesse uma boa relação com o Supremo. Então tem essas forças no Supremo atuando e você tem o relator do caso, relator do caso que é um ministro que não é desse grupo, é o ministro André Mendonça, indicado por Jair Bolsonaro, não é desse grupo de Alexandre de Moraes, de Dias Toffoli, e que também fica ali no meio tentando entender o que está acontecendo e atuando como pode.

Teve aquela discussão dele e do Gilmar Mendes ali no plenário do Supremo e fica claro ali que há uma tensão e há uma disputa de poder envolvendo o acordo.

JRJosé Roberto Toledo

Ele foi explícito como poucas vezes a gente viu numa sessão aberta do Supremo um ministro ser, porque ele disse: Ministro Gilmar, eu recebi uma oferta, não lembro agora exatamente o adjetivo que ele usou, mas escabrosa, do tipo... De uma delação seletiva para excluir ministros do Supremo. Quer dizer, ele abriu o jogo praticamente, né? Quer dizer, você tem um jogo de poder que pode estar determinando, você tem o Vôrcaro querendo ganhar tempo para ver para que lado o vento sopra, quem vai ganhar a eleição, portanto com quem que ele tem que se acertar, né?

Você falou, tem os celulares. Me corrija se eu tiver errado, mas pelo que eu me lembro são 3 celulares do Vôrcaro que a Polícia Federal apreendeu. É verdade que quer dizer que tudo que vazou até agora é apenas de um deles?

FSFabio Serapião

Sim, é o primeiro celular e é o mais importante, que é o que ele usou por um período maior, porque os outros que foram apreendidos é porque ele teve aquela prisão dele em novembro, que apreende esse primeiro celular, depois ele é alvo de busca de novo, então apreende um segundo, depois ele é preso de novo, né? Então esses outros celulares ele usou por um tempo menor, então obviamente pode ter alguma coisa ali, mas o grosso tá desse primeiro celular aí dele, que tá sendo analisado há um tempo já.

JRJosé Roberto Toledo

E até onde você sabe, aquele software que a Polícia Federal assina, o Cellebrite, né, se não me engano o nome, é capaz de quebrar todos esses 3 celulares? Porque me dizem que os modelos mais novos, como o iPhone 17, é um pouco mais difícil, pode ter mais dificuldade. O problema, a questão não é essa, não é ter acesso ao conteúdo.

FSFabio Serapião

O que tinha para extrair já conseguiram chegar Sim, do celular dele, desse primeiro, tudo foi extraído já. E a notícia que a gente tem é que de todos já foram extraídos. É muito menos o modelo do celular e mais o tempo. O celular chegar quente, não for muito tempo, porque se você demora muito tempo ele desligado, ele assona alguns sistemas internos, principalmente o iPhone, que depois dificulta muito mais. Mas você consegue já tirar, já tem uma equipe boa de extração ali, já extraiu o material no local da busca, facilita muito o acesso aos dados.

E no caso do Master, os principais celulares a Polícia Federal já acessou. E também tem alguns que são quebras de nuvem, né, que quando tem alguns gênios, né, lembrando Mauro Cid, que fazem o backup de tudo que estão falando. Mas no caso do Workaro e do Master, da apuração que eu tenho, os principais celulares foram acessados.

JRJosé Roberto Toledo

Então, se não é do celular, e depende para investigação avançar de ou eles conseguirem novas provas por outras buscas e apreensões, por outros meios, ou de uma delação não seletiva.

FSFabio Serapião

Ou a Polícia Federal continua na investigação, que é o que ela defende, que acha que no momento, com as provas que tem, ela não precisa da delação no momento, ainda mais uma delação que é tímida, seletiva e que não acrescenta nada. Mas por outro lado, tem outros personagens secundários que também podem fazer um acordo e indicar outros caminhos, né? Você tem operadores igual esse Ricardo Gordo, Você tem outro operador que é muito importante do Vorkaro, que é o Daniel Monteiro, que é um advogado, que todos até agora que apareceu, seja do cara do BRB, seja do Jacques Wagner, é sempre ele que opera o pagamento da propina ali.

É um cara que é importante também. Você tem outros funcionários do banco. Então não existe só a possibilidade do acordo do Vorkaro, tem outras pessoas que podem também de alguma forma ter algum tipo de prova para acrescentar.

JRJosé Roberto Toledo

Só para encerrar, a gente já tá chegando no nosso timing, infelizmente, aqui nosso tempo limite, mas você mencionou de novo o Ricardo Gordo como uma possibilidade de investigação e falou mais cedo que as duas empresas que receberam centenas de milhões de reais do Master para ele, que é um intermediário junto ao governo do Rio, ficavam em Bangu. Que endereço é esse? Que que tinha lá?

FSFabio Serapião

Pois é, pelo jeito não tinha nada. Até já tinha sido alvo de uma matéria da Folha, se não me engano, dos colegas da Folha lá atrás, antes de saber que essas empresas eram intermediárias de propina, mas elas estavam já no ranking das que mais receberam do master, né? Aí os colegas lá apuraram e enfim descobriram que era no mesmo lugar. A gente, quando foi fazer a matéria, procurou também e parece um imóvel de uma empresa de fachada em nome de Laranjas.

Um deles recebia auxílio, enfim, é aquele típico esquema de empresa de fachada para receber o valor e depois depois escoar os valores para algumas outras contas para dificultar o mapeamento pelos investigadores.

JRJosé Roberto Toledo

Muito bom. Faltou alguma coisa importante que eu te perguntar? Alguma história que eu, que você tem para contar que eu não perguntei?

FSFabio Serapião

Não, eu acho que é isso, né? E também, obviamente, essa parte, o que tem mais grave até o momento, sem ser esses milhões, o que mais aproxima o Cláudio Castro, essa questão que a gente viu, né, de mudou, né? Lembra Época do Cabral tinha a festa do guardanapo, né? Agora no caso do Cláudio Castro é a festa do whisky, a festa do bife de ouro. Enfim, só mudou o tipo de comida e o tipo de restaurante, né? O país do restaurante, mas o mesmo modo de pagar benefícios, pagar dinheiro para o político para depois ele te ajudar quando você deseja.

JRJosé Roberto Toledo

Muito bom, Fábio. Onde que as pessoas podem ler a sua reportagem?

FSFabio Serapião

Lá na nossa coluna no UOL, né? Www.wall.com.br/fabioserapião e também no Wall Prime, no Tab, a gente sempre tá publicando em todos os lugares aqui do portal Wall.

JRJosé Roberto Toledo

Tá certo, muito bom, Fábio, muito obrigado mais uma vez aí pela sua participação. Tenho certeza que você vai voltar em breve, né, porque como eu disse, cada enxadada é uma minhoca e parece que eles estão fazendo uma horta no minhocário ali, né, que é impressionante a quantidade de minhoca que já minhoca apareceu. Então já fica aqui o convite para você voltar assim que tem mais uma minhoca aparecendo, tá bom?

FSFabio Serapião

Tenho certeza que não vai demorar. Toledo, um abraço!

JRJosé Roberto Toledo

Um abraço! Lembrando que se você quiser ler a reportagem do Fábio Serapião, assine o UOL, porque assim você vai ler, ouvir e acessar todas as reportagens investigativas, as reportagens especiais lá no UOL Prime na íntegra, né? Além disso, os assinantes têm acesso a todo o acervo jornalístico do UOL e a opinião e análise dos nossos colunistas. Também pode aproveitar benefícios como descontos em cinemas, peças de teatro, festivais de música e tem acesso ao UOL Play e a outros serviços.

Confira lá em assine.uol.com.br. Eu sou José Roberto Toledo e faço a apresentação do podcast UOL Prime. Conversei hoje com o repórter editora e colunista do UOL, Fábio Serapião. O roteiro é da Clara Hrelstab. A operação de vídeo é do João Lins. A montagem do Lucas Zacarias. Trilha sonora original composta por João Pedro Pinheiro. Coordenação da Lígia Carriel e da Laura Kapilishnik. Coordenação de operações é do Danilo Esperandil e do Eduardo Bonavita.

A foto de capa do podcast é da Daniela Tomviansky. O podcast é um Produto do All Prime e a gerência é do Irineu Machado. A supervisão é do Murilo Garavello, diretor de conteúdo do All. Até o próximo episódio.

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