UOL Prime #127: Como Trump tenta usar a Copa para recuperar popularidade
Donald Trump não foi à abertura da Copa do Mundo de 2026. Ainda assim, o presidente americano tenta transformar o torneio em uma plataforma de projeção política.
Neste episódio do UOL Prime, Mariana Sanches, correspondente do UOL em Washington, explica a aproximação entre Trump e a Fifa, os efeitos das políticas migratórias americanas sobre a competição e a estratégia de usar o futebol para fortalecer sua imagem em um momento de desgaste político.
José Roberto Toledo
Mariana Sanches
- Copa do Mundo e FutebolTrump tenta usar a Copa para projeção política · Aproximação entre Trump e a FIFA · Políticas migratórias americanas e a competição · Estratégia de usar o futebol para fortalecer imagem · Trump como estrela da Copa · Donald Trump · FIFA · Gianni Infantino
- Copa do Mundo 2026Expectativa de Trump aparecer na final · Tentativa de roubar a cena · Estratégia de governos truculentos em Copas anteriores · Comparação com Super Bowl em grandiosidade · Donald Trump · MetLife Stadium
- Influência de Donald TrumpMelhorar imagem associando-se a eventos apreciados · Uso do Mundial de Clubes como ensaio · Entrega da taça ao Chelsea · Prêmio da Paz da FIFA · Donald Trump · FIFA · Gianni Infantino
- Trump e o UFCEvento de luta livre na Casa Branca · Relação de Trump com o UFC e Dana White · UFC · Donald Trump · Dana White
- Oposição interna ao Trump sobre guerra no IrãDesaprovação popular devido à guerra · Promessa de não iniciar novas guerras não cumprida · Fechamento do Estreito de Hormuz · Aumento do preço do combustível · Donald Trump · Irã
- Mentoria e Aprendizado com ExperientesModelo de comando de show e demissão de pessoas · Figura midiática e popular · Repetição do modelo na presidência · Donald Trump
José Roberto Toledo:Copa do Mundo costuma funcionar como uma espécie de vitrine para os países sede, mas em 2026 são 3 sedes: Estados Unidos, México e Canadá. Porém, nenhuma dessas sedes parece estar aparecendo tanto quanto um presidente de uma delas. Obviamente, estou falando de Donald Trump. Desde que ele voltou à Casa Branca, o Trump se aproximou da FIFA, que é o organismo que controla o futebol mundial, e também desse universo futebolístico em torno da Copa do Mundo. Ele parece enxergar na Copa uma versão futebolística do seu reality show já falecido, O Aprendiz, ou seja, uma ocasião que existe só para ele aparecer e fazer. Hoje a gente conversa com a correspondente do UOL nos Estados Unidos, a jornalista Maria Mariana Sanches, sobre como Donald Trump tenta se transformar na maior estrela da Copa do Mundo e aparecer mais do que a bola e do que os jogadores. Tudo bem? Muito bem-vinda de volta ao UOL Prime, Mariana Sanches.
Mariana Sanches:Oi, Toledo, muito obrigada, já tava com saudade de vocês.
José Roberto Toledo:Nós também estávamos com saudade suas, uma pausa longa demais. Vamos cuidar de acabar com isso e fazer você aparecer mais do que o Trump aqui. Eu sou José Roberto Toledo e este é o UOL Prime. Toda semana a gente conversa com os melhores repórteres sobre as melhores reportagens do UOL. Mariana, vou começar já fazendo a pergunta chave da sua reportagem: essa é a Copa Donald Trump?
Mariana Sanches:Olha, Toledo, é difícil dizer que será a Copa Donald Trump, mas certamente dá para dizer que ele vai tentar, ele vai tentar que esta seja a Copa Donald Trump.
José Roberto Toledo:Ele não foi à abertura da Copa que aconteceu no México, né, porque como eu disse na abertura, é uma Copa que tem 3 sedes, México, Estados Unidos e Canadá. Isso já aconteceu antes? Por exemplo, na Copa de 2002, que o Brasil ganhou inclusive, dividida entre Coreia e Japão, os japoneses e coreanos se entenderam?
Mariana Sanches:Pois é, a primeira vez em décadas, viu, Toledo, que os líderes políticos dos países anfitriões não aparecem no jogo de abertura. Em 2002, nessa Copa que você citou, que foi dividida entre a Coreia do Sul e o Japão, que são adversários geopolíticos na Ásia históricos, O primeiro-ministro japonês fez questão de aparecer na abertura da Copa, de marcar essa presença, o que não aconteceu agora. E claro, é inegável que existe uma tensão entre os três países que são os anfitriões desta Copa, né, a Copa da América do Norte, sediada por Canadá, México e Estados Unidos. Agora, um paralelo curioso é que em 94, a primeira vez em que os Estados Unidos sediaram a Copa do Mundo e eles eram a única sede, foi o mesmo ano em que foi criado criado o NAFTA, a área de livre comércio entre os três países da América do Norte. E dessa vez o USMCA, que é a atualização do NAFTA, está em risco de não ser renovado e o Donald Trump lançou uma guerra tarifária contra os seus vizinhos. Aliás, queria anexar como estado número 51 dos Estados Unidos. E quanto ao México, ele não planeja anexar, mas ele tem dito repetidamente que gostaria de bombardear o território mexicano nas áreas de cartéis e trocou o nome do Golfo do México para Golfo das Américas, né, da América, perdão, Golfo da América.
José Roberto Toledo:Porque América só existe uma na versão do Trump, né, que é a dele. Agora, além de ter feito esse precedente histórico de não ter ido à abertura da Copa, o que mostra a importância que ele dá ao evento, ele ainda foi a um evento concorrente, que foram as finais da NBA, que é a liga gringa de basquetebol, E foi numa partida em Nova York, é isso? Foi bem recebida?
Mariana Sanches:Pois é, eu diria que foi mais do que um evento concorrente que ele teve nessa semana de abertura da Copa do Mundo, Toledo. A abertura foi na quinta-feira e na segunda-feira à noite o Donald Trump foi a uma das finais da NBA, da liga de basquete dos Estados Unidos, num jogo num ginásio em Nova York, a casa dos Knicks, do New York Knicks, o time de basquete de Nova York. E o que aconteceu ali foi que ele acabou vaiado. Quando o rosto de Trump apareceu no telão, ele acabou sendo vaiado. Depois, inclusive, na saída do evento, ele chegou a dizer que não, era muito barulho, mas as pessoas estavam, na verdade, aplaudindo, enfim. Na verdade, elas aplaudiram o craque do time que apareceu logo na sequência, quando ficou claro que tinha dado ruim botar a imagem do Trump no telão. Agora, não deveria ser surpresa para ninguém que o Trump fosse vaiado ali em Nova York. Que é uma cidade com uma demografia muito claramente democrata, que acabou de eleger, aliás, um prefeito que se declara socialista, e que o basquete é historicamente um esporte ligado à população negra nos Estados Unidos, que também recusa Donald Trump, embora nas últimas eleições ele tenha tido um desempenho considerado bom para ele entre a população negra.
José Roberto Toledo:Quer dizer, além de não ir na abertura, de ir na final de outro esporte, ele ainda promoveu um evento de luta livre dentro da Casa Branca durante a Copa do Mundo, é isso?
Mariana Sanches:Pois é, foi um torneio de MMA comandado pelo UFC, né, foram 7 lutas no total e aliás, para construir a arena, né, porque essas lutas elas são disputadas num octógono, que foi construído ao longo de semanas ali no jardim sul da Casa Branca, era um espaço ali para 4 mil convidados de Donald Trump e houve 7 lutas, uma sequência de 7 lutas. Aliás, os brasileiros, alguns lutadores brasileiros participaram, 2 venceram, 1 perdeu. E o Donald Trump promoveu essa luta não só como um espetáculo, enfim, concorrente à Copa do Mundo, mas por um motivo central: porque neste domingo era aniversário de 80 anos dele. E a história do Trump com o UFC, ela não é uma história banal nem recente. Na verdade, Donald Trump foi dos primeiros a apoiar esse esporte há mais de 20 anos, quando essa luta era considerada sangrenta demais aqui nos Estados Unidos, rechaçada nos ginásios, rechaçada pela opinião pública. O Trump recebeu o torneio do Dana White no começo dos anos 2000 no seu hotel-cassino em Atlantic City várias vezes e ele ia pessoalmente assistir às lutas a noite inteira. Como fez ontem, aliás, 7 lutas seguidas em que ele ficou ao lado do octógono o tempo todo. E de lá para cá, enfim, essa relação com o Dana White só se fortaleceu. O Dana White é figurinha fácil no salão oval da Casa Branca e o Gianni Infantino até tentou trazer o Trump tão para perto assim, mas enfim, a história do Trump com futebol é bem mais frágil do que a dele com o UFC. Inclusive, politicamente, a gente sabe das ramificações do UFC com a extrema-direita, tanto aqui nos Estados dos Estados Unidos quanto do MMA, do jiu-jitsu, com a direita no Brasil.
José Roberto Toledo:Agora, Mariana, ele, o Trump, está tentando, vem tentando se aproximar aparentemente da FIFA, que é o órgão que administra o futebol mundial, né, e do presidente da FIFA, Infantino. E você conta na sua reportagem uma cena memorável que aconteceu na Casa Branca, no Salão Oval, com o Trump querendo levar a Copa do Mundo para casa. Conta direito essa história, por favor.
Mariana Sanches:Eu diria que são 3 personagens, um deles muito caro ao Brasil, porque é a taça, né, que a gente ergueu 5 vezes, enfim, a taça que em 94 o capitão do Brasil, Dunga, ergueu aqui nos Estados Unidos quando a gente foi tetracampeão. Essa taça chegou no Salão Oval pelas mãos de Gianni Infantino e a cena é a seguinte: ela acontece em agosto do ano passado no Salão Oval da Casa Branca O Donald Trump tá sentado na mesa dele de resoluções, onde ele assina os decretos, com um boné que diz "O Trump tem razão em tudo" e o terno dele. E ao lado dele, em pé, o Gianni Infantino, com a taça na mão, vem e diz ao Trump: "Essa aqui é só pros vencedores, mas como você é um deles, você também pode erguê-la." E passa a taça pra mão do Trump. E imediatamente o Trump já pega a taça e diz: "Não vou devolver não, vai ficar ótima aqui na parede, embaixo aqui dos anjinhos no Salão Oval. Eu não tô falando sério, não vou mais devolver não, uma belíssima peça de ouro." E o Infantino daí fica meio sem graça, diz: "É, eu acho que fica bem mesmo aqui, eu acho que você pode manter até a gente ter que dar para o próximo vencedor em 2026, na Copa do Mundo agora." Até 1970, a taça era a Jules Rimet, né, que seria dada em definitivo para quem conquistasse a Copa 3 vezes.
José Roberto Toledo:O Brasil foi a primeira seleção que conseguiu em 70, ficou com a Jules Rimet, botou lá na sede da então CBD, depois CBF, roubaram a taça e fundiram a taça, né? Não existe mais a Jules Rimet. E ela foi substituída por essa taça FIFA a partir de 74, que é transitória, e nunca mais nenhum país supostamente vai ficar com ela em definitivo. Só tem o direito de ficar os 4 anos depois de conquistar a taça, a não ser que o Trump mude essa regra. Agora, além dessa aproximação com a FIFA, o que mais que o Trump tem feito para tentar parecer que ele entende ou gosta alguma coisa de futebol, pelo menos para enganar?
Mariana Sanches:Pois é, Toledo, é importante a gente lembrar o seguinte contexto: o Donald Trump está vivendo o pior momento dele no poder nos 2 mandatos, né? O nível de desaprovação dele chega a 62% em alguns institutos de pesquisa, o que é extremamente alto. E o que se explica, entre outros motivos, mas talvez um dos principais nesse momento, seja justamente a guerra do Irã, que é uma guerra que os americanos não entendem, que o eleitor do Trump votou nele muito por conta da proposta dele, da promessa que ele fez em várias campanhas de não iniciar novas guerras, e que ele não cumpriu e nem conseguiu convencer o seu eleitorado, a população do país, de que era necessário lançar essa guerra que vai completar 4 meses esse mês. Então agora a gente vê uma assinatura recente de algum memorando de entendimento para desfazer o básico do que a guerra causou, que é o fechamento do Estreito de Hormuz, esse canal marítimo por onde escoa um quarto da produção global de petróleo. Mas o fato é o seguinte, que diante da impopularidade, do aumento do preço do combustível na bomba de gasolina aqui do americano médio chegou a mais de 40%, esse aumento. O Trump tá precisando fazer o que alguns cientistas políticos chamam de "sportswashing". O que que é isso, né? É basicamente melhorar a sua própria imagem usando essa possibilidade de se associar a algo que as pessoas apreciam e com as quais elas têm uma relação que é muitas vezes emocional, né, para melhorar a sua própria popularidade. Então, no ano passado, O Trump usou o Mundial de Clubes, cuja final foi aqui nos Estados Unidos, para fazer um ensaio do que seria a possibilidade dele usar a Copa do Mundo para se projetar, né. Então, ao dar a taça para o Chelsea, né, ele estava no palco para entregar para os jogadores, enfim, as suas medalhas, os seus troféus. Ele não só não saiu do centro do palco quando eles levantaram a taça, como ele também embolsou a medalha na cerimônia de entrega, que depois o Gianni Infantino disse que era um presente para ele mesmo.
José Roberto Toledo:Esse negócio de embolsar a medalha não dá certo, viu, Mariana Sanchez? Porque o último que embolsou a medalha aqui no Brasil foi o então presidente da CBF, José Maria Marim, que acabou preso aí nos Estados Unidos, né?
Mariana Sanches:Pois é, e acho que até por esse presságio negativo, depois o Gianni Infantino arrumou um prêmio maior pro Trump, né? Que foi o tal do Prêmio da Paz da FIFA, um prêmio inédito, aliás, que o Infantino criou sem consultar a sua diretoria, inclusive, e que ele concedeu no ano passado, logo depois que o Trump deixou de de ganhar o Nobel da Paz, que ele perdeu para a opositora venezuelana Maria Corina Machado, né, e que ele fez questão de dizer que esperava ter ganhado, né. E então o Infantino socorre com esse prêmio da paz da FIFA semanas antes dele mandar a incursão militar que retirou Nicolás Maduro da presidência da Venezuela à força, e meses antes do início da guerra do Irã.
José Roberto Toledo:Você faz um paralelo na sua reportagem entre o desempenho do Trump como suposto anfitrião, que não apareceu para a partida inicial da Copa, com a função dele como apresentador do Aprendiz, aquele programa de televisão que na verdade aumentou muito a popularidade e a projeção do Trump. Você acha que ele tá tentando reeditar o Aprendiz usando a Copa de cenário? Mas não responda agora não, só depois do intervalo.
Voz C:No cantinho do Parque Fantástico onde eles ficavam refugiados, cantavam: o Cleo morreu, a mancha se Em 1988, um assassinato do lado do estádio do Palmeiras marcou a história das torcidas no Brasil. A rivalidade entre as principais organizadas aumentou e a forma de torcer dentro e fora dos estádios nunca mais foi a mesma. Na terceira temporada de UOL Esporte Histórias, os repórteres Adriano Wilkson e Daniel Lisboa descobriram documentos inéditos que revelam detalhes dos primeiros anos das organizadas. Uma jornada cheia de festas, brigas, reviravoltas e despedidas precoces. Você pode ouvir o UOL Esporte Histórias sobre Meninos e Porcos no UOL, no YouTube do UOL Esporte e em todas as plataformas de podcast.
José Roberto Toledo:Então, Mariana, é aprendiz 2 a missão?
Mariana Sanches:Pois é, Toledo, o Trump é reconhecido e ficou muito conhecido dos americanos no geral e no mundo, diga-se, não só pelas atividades empresariais dele, Ele trouxe alguma controvérsia, ele chegou a ter um cassino que faliu, enfim. Mas por quê? Por 14 edições ele comandou aquele programa O Aprendiz, que depois foi inclusive importado para o Brasil, em que basicamente ele tinha que demitir pessoas de maneira serial. Então foi assim que o Trump se tornou uma figura muito midiática e muito popular nos Estados Unidos. Na verdade, o programa era do chefe, né, e o chefe era ele. E esse é um modelo que o Trump repete à exaustão na presidência, né? Ele comanda o show. Tanto é assim que os outros líderes, chefes de Estado, têm um certo temor de aparecer na Casa Branca diante das câmeras de TV, porque ninguém sabe de que maneira o Trump vai conduzir o seu programa nesse dia. Ele pode demitir o presidente da Ucrânia, demitir o presidente da África do Sul.
José Roberto Toledo:É verdade. Agora, há expectativas de que em algum momento ele vai pisar num está no estádio só se os Estados Unidos vencerem, se for uma barbada, certeza que os Estados Unidos vão ganhar. Tem algum planejamento quanto a isso?
Mariana Sanches:Há uma expectativa de que ele vai aparecer com certeza na final, que vai ser disputada no dia 19 de julho em Nova Jersey, no estádio chamado de MetLife Stadium. Inclusive Nova Jersey, que é também onde o Brasil está passando a sua fase de grupos, a maior parte da sua fase de grupos. A expectativa é que o Trump vai estar sim na final, e que ele vai tentar roubar a cena ali mais uma vez, né, como já ensaiou fazer com o Mundial de Clubes no ano passado.
José Roberto Toledo:Além de roubar a taça, vai roubar a cena também. Agora, havia muita preocupação antes do início da Copa se todos os jogadores, especialmente os iranianos, conseguiriam visto para poder entrar e disputar as partidas em território americano, né. Como é que tá sendo levada essa questão, né? A política imigratória do Trump é extremamente restritiva. Todo mundo que precisava entrar, todo mundo que vai participar, sejam jogadores, comissão técnica, árbitros, todo mundo que precisava entrar conseguiu entrar ou teve alguém foi barrado?
Mariana Sanches:Longe disso, né, Toledo, muito longe disso, né. A política imigratória do Trump é extremamente restritiva. Aliás, ele se elegeu prometendo realizar a maior deportação em massa da história dos Estados Unidos, né. Administração até agora Tem feito entre 30 e 40 mil deportações por mês de imigrantes indocumentados, algumas dessas pessoas vivendo nos Estados Unidos há décadas. Portanto, não foi uma surpresa. Inclusive, eu conversei com o Departamento de Estado e eles disseram que não mudaram em absolutamente nada as regras que a administração Trump impôs a uma série de países. E aí é o seguinte, né, o caso do Irã ficou mais evidente, mas 39 países neste momento estão impedidos de obter visto de turista para os Estados Unidos. Quer dizer, nem que você queira, tenha dinheiro para bancar os ingressos caros da Copa do Mundo, você não pode, simplesmente não vai conseguir. Se você é, por exemplo, da Costa do Marfim, um dos países que disputa a Copa, aliás, ou se você é do Haiti, ou se você é do Senegal, pronto, não vai conseguir porque você está na lista de países banidos por Donald Trump. É o caso da Somália. A Somália não foi que faz parte da Copa do Mundo, não é uma seleção que está na Copa do Mundo, mas a gente viu que o árbitro somali Omar Artan, que aliás foi eleito o melhor árbitro de toda a África no ano passado, pousou em Miami, ficou 11 horas sendo interrogado pelos agentes de imigração e acabou deportado sumariamente, embora tivesse não só passaporte diplomático como credencial da FIFA, estivesse escalado para apitar jogos, nada disso adiantou, né? Então a política de imigração do Donald Trump tá dando suas caras como sempre, com toda certeza. E além desses 39, Toledo, tem mais de 50 países em que você só consegue um visto de entrada nos Estados Unidos se você deixar um depósito, caução, no consulado de 5 mil a 15 mil dólares, que só são devolvidos para você depois que você sair do país, para garantir que você não vai ser um imigrante indocumentado. É o caso da Venezuela, da Nicarágua, de Cuba, enfim, a lista vai longe, né? Portanto, é mais do que, é preciso ter mais do que dinheiro para estar aqui na Copa do Mundo de 2026 do Donald Trump, né? Você tem que vir de um país que ele escolheu deixar entrar, né? E no geral esses daí são os europeus.
José Roberto Toledo:E o Infantino, que não se perca pelo nome, ele não tem vergonha de ter dado um troféu da paz para o Trump na véspera do Trump impedir um árbitro da FIFA funcionário dele, Infantino, de entrar para fazer o seu trabalho como já tava previsto. Quer dizer, não foi surpresa nenhuma, o cara não foi convocado de última hora, né? Já tava previsto há muito tempo. Quer dizer, a FIFA tá tudo bem, toda essa discriminação, a ausência do Trump do jogo, a FIFA tá feliz com isso, né? Deixou a taça lá em garantia como se fosse o consulado americano e tá tudo bem.
Mariana Sanches:Olha, o Infantino, quando foi questionado sobre isso, ele basicamente lavou as mãos, né? Diz que o país anfitrião é italiano sobre a política imigratória que adota e que, enfim, a FIFA quer que o torneio seja o mais inclusivo possível, mas que, enfim, cabe aos chefes de estado a decisão sobre quem eles autorizam ou não dentro do seu próprio país. E aí, nesse sentido, enfim, todo mundo diz que é de um grande cinismo do Infantino, inclusive essa conversa de inclusão no momento em que a FIFA pela primeira vez adotou a chamada tarifa dinâmica, pros preços dos ingressos, né? São os ingressos mais caros da história da Copa do Mundo, justamente porque o Infantino tinha como plano original obter 11 bilhões de dólares com essa Copa do Mundo. E as projeções atuais são que, na verdade, ele inclusive supere a sua própria meta de sucesso, que já era muito alta, que já era histórica, sem precedentes, e arrecade entre 13 e 15 bilhões de dólares.
José Roberto Toledo:É o que virou o futebol do ponto de vista da imagem. Voltando à questão inicial, se essa vai ser ou não a Copa Donald Trump, quais indicadores você tá acompanhando? Você acha que são importantes a gente olhar para saber se ele vai conseguir roubar além da taça, roubar a cena também?
Mariana Sanches:Pois é, Toledo, já começou meio mal para ele, porque é claro que ele tinha intenção de estar na abertura dos jogos da Copa do Mundo, ao menos naquele primeiro jogo dos Estados Unidos, que foi em Los Angeles, Estados Unidos e Paraguai, para o qual, aliás, veio o presidente paraguaio Santiago Peña, que é um aliado de primeira hora do Trump, também uma figura de direita na região, enfim, um cara que se alinhou, por exemplo, ao chamado Escudo das Américas lançado pelo Trump, que foi aí essa tentativa de de criar um alinhamento em todas as Américas em relação à sua agenda política, né. Então havia uma expectativa de que ele aparecesse e o que aconteceu foi que, na verdade, o Trump não conseguiu fechar um acordo para um cessar-fogo mais duradouro com o Irã até o início dos jogos, até a sexta-feira em que os Estados Unidos jogaram. Tanto que ele acabou mandando o secretário de Estado, Marco Rubio, para chefiar essa delegação e se encontrar com o Penha lá. Deu errado o plano. Porque Trump estava ameaçando ataques massivos contra o Irã. Aliás, o Irã, que no começo da semana chegou a bater um helicóptero Apache dos Estados Unidos, o que retomou o ataque entre os dois países pela primeira vez em dois meses. Então os países se envolveram em ataques diretos. E quando eu digo diretos, quer dizer, o Irã atacou bases americanas ali na região do Golfo, né, em vários países: Jordânia, Kuwait. Bahrain. E aí o Trump teve que sair do palco da Copa do Mundo e voltar para sua sala de situação para tentar forçar o fechamento de um acordo com o Irã, um memorando de entendimento que desfaça aí pelo menos parte dos problemas que ele tem. E o principal deles é justamente o fechamento do Estreito de Hormuz, que é uma pressão enorme inflacionária para os Estados Unidos. São 3 meses 3 meses de inflação subindo no país, 3 meses consecutivos, e o Donald Trump vai enfrentar eleições de meio de mandato em novembro, em que ele está arriscado de perder a maioria nas duas casas. Então a gente sabe que no começo, nesses primeiros dias de Copa do Mundo, os planos do Trump deram errado de tentar trazer para si essa Copa. Agora, é certo que ele tem tempo, né, são 39 dias de jogos, e até a final, que vai ser a grande apoteose aí do evento, Trump vai ter condição de tentar trabalhar essa Copa em favor da sua popularidade, né? Certamente algo que ele pretende fazer.
José Roberto Toledo:Muito bem, Mariana Sanches. Vamos ter que esperar, né? Vamos ver qual vai ser o desempenho da seleção americana, vai ser o desempenho das forças de segurança imigratórias americanas, e principalmente como é que vai ser o desempenho do Trump no golfe, onde ele anunciou ali um acordo, só que imediatamente já houve novos ataques. Ô Mariana, você já fica convocado sem trocadilho, para voltar aqui para fazer um balanço ao final da Copa, né, para dizer se foi ou não foi a Copa Donald Trump e se ele devolveu a taça, principalmente, que eu tô preocupado, viu, Mariana? Fiquei muito preocupado com essa informação.
Mariana Sanches:Eu volto sim, até porque a gente precisa ver, né, Toledo, se de fato o que a força de segurança da Copa do Mundo prometeu, por exemplo, que era ausência de blitz de deportação do ICE nos estádios e nos arredores, até agora não houve, tá? Até agora não houve. Os especialistas dizem que é também parte da estratégia do Trump, porque essas cenas das batidas do ICE, elas derrubaram muito a popularidade dele, mesmo entre republicanos. São cenas muito truculentas, muito dramáticas, que ele não quer projetar para o mundo. Aliás, um dos cientistas políticos que eu entrevistei, o Julius Boykoff, que é também ex-jogador olímpico dos Estados Unidos, ele traçou um paralelo entre o que fez o Mussolini sediou, quando a Itália sediou a Copa em 1934 e a junta militar argentina em 1978. Segundo o Roy Kof, nas duas edições da Copa, tanto na Argentina quanto na Itália, os governos truculentos da época arrefeceram as suas ações justamente para projetar uma imagem de grandiosidade, mas não de truculência. E é o que ele aposta que o Donald Trump vai tentar fazer agora, né? Olha, é uma Copa extremamente maximalista, Tanto que a força-tarefa da Casa Branca diz que a ideia que eles têm é 78 Super Bowls, né, aquele show de final da NFL, né, da liga de futebol americano, que é conhecida pela grandiosidade. Enfim, então que os Estados Unidos façam dos 78 jogos da Copa que eles comandam espetáculos midiáticos parecidos com o que é o Super Bowl, mas que não cenas dramáticas de repressão, porque isso seria ruim para imagem de Donald Trump.
José Roberto Toledo:Mariana Sanchez, então até a volta. Estou esperando o final da Copa e espero que você traga a Copa para gente, tá?
Mariana Sanches:Olha, mas aí milagre não faço, né, Toledo? Vamos ver, isso depende do Ancelotti.
José Roberto Toledo:Depende do Trump, mais do que do Ancelotti, depende do Trump, viu, Mariana? Então tá bom, obrigado.
Mariana Sanches:Obrigada, tchau.
José Roberto Toledo:Quem assina o UOL pode ler essa reportagem da Mariana Sanches e todas as outras reportagens investigativas especiais do UOL Prime na íntegra. O assinante tem acesso a todo o acervo jornalístico do UOL, além da opinião e análise dos nossos colunistas. Também consegue aproveitar benefícios como descontos em cinema, peças de teatro, festivais musicais, e tem acesso ao UOL Play e a outros serviços. Confira lá em assine.uol.com.br. Eu sou José Roberto de Toledo e faço a apresentação do podcast UOL Prime. Conversei hoje com a jornalista e correspondente do UOL nos Estados Unidos, Mariana Sanches. O roteiro é da Clara Realstab, a operação de vídeo é do João Lins, a montagem do Lucas Zacarias, trilha sonora original composta por João Pedro Pinheiro, coordenação da Lígia Carriel e da Laura Kapeliusznik. A coordenação de operações é do Danilo Esperandil e do Eduardo Bonavita. Foto de capa do podcast é da Daniela Toviansky. Podcast é um produto UOL Prime e a gerência geral é do Irineu Machado. A supervisão é do Murilo Garavello, diretor de conteúdo do UOL. Até o próximo episódio.