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Memória: dom, treino ou método? Missão Saber com PVC

08 de junho de 20261h55min
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Ouça Missão Saber às segundas-feiras

No episódio do Missão Saber desta semana, PVC e Murilo Garavello debatem livros que ajudam a entender como a mente humana memoriza histórias e informações.


Livros citados:

-Sagaz (2021) – Amishi P. Jha

-A Mente Organizada (2014) – Daniel J. Levitin

-O Oráculo da Noite (2019) – Sidarta Ribeiro

-Peak: Secrets from the New Science of Expertise (2016) – Anders Ericsson e Robert Pool

-A Arte e a Ciência de Memorizar Tudo (2011) – Joshua Foer

-Ficções (1944) – Jorge Luis Borges

Participantes neste episódio2
M

Murilo Garavello

HostDiretor de conteúdo do UOL
P

PVC

ConvidadoJornalista
Assuntos8
  • Home Office e Equilíbrio Trabalho-VidaA percepção da memória como dom · A importância do trabalho e esforço na memória · O papel da atenção na memória de trabalho · A viagem da mente no tempo e a perda de atenção · A influência do mau humor e estresse na memória · A importância de estar presente · A memória em tempos de inteligência artificial
  • Memória e NarrativasSagaz (Peak Mind) de Amishi Jha · A Mente Organizada de Daniel Levitin · O Oráculo da Noite de Sidarta Ribeiro · Peak: Secrets from the New Science of Expertise de Anders Ericsson e Robert Pool · A Arte e a Ciência de Memorizar Tudo de Joshua Foer · Ficções de Jorge Luis Borges · O Gênio do Crime de João Carlos Marinho · Chega de Saudade de Rui Castro
  • Memória e esquecimentoO Palácio da Memória · Associações e conexões neurais · A importância de anotar à mão · Síntese e resumo de informações · O método dos slots · Codificação elaborativa e multissensorial · O papel do esquecimento no pensamento · Treino deliberado e sair da zona de conforto
  • Editorial: Futebol Amador e MemóriaA memória de PVC para times e escalações · A origem do apelido PVC · A importância da precisão da informação no jornalismo · A carreira de PVC no UOL, SPN, Fox, Globo e Paramount · O arquivo pessoal de PVC · A história do Steaua București e o último time campeão da Champions sem estrangeiros · A história de Dukadam e o ciúme de Ceaușescu · A história de Hagi e a entrevista com PVC
  • Qualidade do SonoO sono como consolidador da memória · Sono NREM (redator) e Sono REM (editor) · Reativação viva das memórias durante o sono · Consequências da privação de sono na memória · O caso de Henri Gustave Mollison e a perda do hipocampo · Amnésia retrógrada e a série 'Doc, Nelle Tue Mani'
  • Modo Sobrevivência e Exaustão EmocionalA memória enviesada para o que é importante para a sobrevivência · A ligação direta entre memória e emoção · A força das emoções negativas na memória · A amígdala e a detecção de perigos · Memórias traumáticas e sua reescrita · A mistura de fatos cognitivos e não cognitivos
  • Depleção de recursos cognitivosO cérebro não foi feito para o volume de informação atual · Sobrecarga de informação e a memória funcional · A memória como reescrita, não replay · A importância de tirar trivialidades da cabeça · Multitarefa é um engano · A capacidade de processamento da mente consciente · Decisões consomem energia cognitiva · Categorizar é essencial para lembrar
  • Cinema e Memória AfetivaDivertidamente e a representação das memórias · Memórias centrais e ilhas de memória · A reescrita emocional das memórias · A distorção da memória no cinema
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Murilo Garavello:E aí, cê tá bom? Bom também. Eu sou Murilo Garavello, diretor de conteúdo do UOL, e esse é o Missão Saber, o podcast do UOL para quem é curioso e gosta de aprender. Tem jeito melhor de fazer isso do que lendo um bom livro? Eu acho que não tem. Então aqui o livro é o ponto de partida para um papo de bar, uma conversa descontraída sobre um assunto importante. No episódio de hoje, a gente vai falar de uma coisa que todos nós temos em maior ou menor medida, né? Vamos falar de memória. E para falar de memória, eu tenho talvez um dos maiores representantes, né, da memória brasileira, falando de futebol, PVC.

PVC:Tudo bem, Munir?

Murilo Garavello:Tudo bem? Tudo certo. Prazer te receber.

PVC:Prazer é meu. PVC, eu lembro quando eu conheci você.

Murilo Garavello:Ah, mas você lembra a data?

PVC:A data foi outubro de 2014. É 2014, porque depois eu saí da SPN no dia 7 de dezembro, dia 8 de dezembro foi a segunda-feira que eu pedi demissão da SPN. E aí logo depois eu vim para o UOL.

Murilo Garavello:Você veio para o UOL em 2015 ou foi 2014 ainda?

PVC:Não, janeiro de 2015. É porque quando a gente se conheceu, porque Você, o Flores, queriam que eu viesse para o UOL, tirasse meu blog do site da SPN na época. E eu dizia: cara, não vou sair do site da SPN porque a SPN tem sido minha casa. E aí, logo pouco depois, não foi outubro, foi um pouco, foi o primeiro semestre, logo depois eu recebi uma proposta da Fox e saí. E aí, aí eu queria vir para cá.

Murilo Garavello:E eu lembro, eu lembro também da outra vez que você veio para cá, eu lembro até onde eu tava. Eu tava, era pandemia, né, então eu tava fazendo home office em casa.

PVC:É porque aí foi já quando eu saí, porque eu tive que sair para Paramount, né, porque eu tive que sair, eu tive que sair não, eu saí da Globo para ir para Paramount. E aí eu queria voltar para o UOL.

Murilo Garavello:É porque ele me contou que ele também me ligou para falar tchau porque ele queria ir para Globo, né, quando foi isso?

PVC:Foi em 2019.

Murilo Garavello:Então vamos recapitular, você entrou no UOL janeiro de 2015, foi até janeiro 2020, tá? Janeiro de 2020.

PVC:Aí quando a Fox tava acabando pela fusão com a SPN, aí eu recebi uma proposta da Globo.

Murilo Garavello:Você foi para Globo um pouquinho antes da pandemia então?

PVC:40 dias, 40 dias antes da pandemia. E era uma coisa que é muito doida, que era assim, né, Murilo? Você passa a vida inteira, o cara falando para você: ah, você vai trabalhar na Globo? Você vai trabalhar na Globo? Foi um orgulho trabalhar na Globo, mas não foi o lugar que eu fui mais feliz. Fui mais feliz aqui, por exemplo. Sou mais feliz aqui.

Murilo Garavello:Ele vai falar isso quando ele voltar pra SP um dia, talvez, né?

PVC:Não sei o que vai acontecer da minha vida. A gente tá falando sobre o que a gente se lembra do que aconteceu e não sobre o que a gente não sabe se acontecerá.

Murilo Garavello:Aqui não é o livro do Siddhartha Ribeiro que a gente vai falar hoje, o oráculo da noite que fala de sonhos premonitórios, né? Não, hoje a gente vai falar de memória e eu acho que você tem um dom, né, PVC?

PVC:Eu tô fazendo piada porque essa história, se você entrar na plataforma da Casa Folha, você vai ver que tem hoje um curso que se chama O Poder da Memória, que o título é ideia do Iram Machado, maravilhoso.

Murilo Garavello:Você faz mechã então? Eu ouvi dizer que você não fazia mechã, mas auto-mechã pode?

PVC:Eu não gosto de fazer merchan, acho que não é papel de jornalista fazer merchan.

Murilo Garavello:Mas óbvio que o merchan é válido, né? E é uma causa nobre, Casa do Saber, né? É um curso sobre memória. E aí, na verdade, eu resolvi trazer o PVC pra cá porque ele me contou que ele ia fazer. Eu falei: pô, memória dá um episódio legal de podcast, né? Então, peraí, vamos por partes.

PVC:Começar pelo dom. Começar pelo dom.

Murilo Garavello:É, que história é essa?

PVC:A história é a seguinte, bom, Há muito tempo as pessoas falam da minha memória, não sei o quê. Eu nunca fui de me orgulhar da minha memória. E eu acho que a memória me ajuda muito, primeiro, a manter vivo o menino que existe dentro de mim, que foi o menino que sabia o Guarani de 78, o São Paulo de 81, e que queria, que quis ser jornalista esportivo. Esse menino, ele vive cada vez que eu me lembro de uma história, ou que eu me lembro de um time, ou que eu memorizo, quero manter vivo um time que foi campeão semana passada. Ah, mas e que me ajuda muito no ar não errar informação. Eu não me conformo que muita gente no programa ao vivo diz assim: o Corinthians tem 31 títulos paulistas, se não me engano. Cara, você já pensou abrir um jornal e o cara e ler no lead uma matéria da Folha de São Paulo?

Murilo Garavello:Mas não é mais honesto do que o cara falar com maior segurança do mundo uma coisa errada?

PVC:Não, acho mais honesto é se você errar, você corrigir. E o problema que você diz, quando você disse "não me engano", na minha opinião, e eu não sou dono da verdade, é que você está dizendo que você não sabe. Você tá dando uma informação e ao mesmo tempo dizendo que você não sabe. Então, por exemplo...

Murilo Garavello:Mas não é normal hoje você não saber? A gente tem que saber tudo.

PVC:Não, mas a gente é jornalista.

Murilo Garavello:Mas jornalista não sabe tudo.

PVC:Não, mas dá informação.

Murilo Garavello:Mas jornalista pode checar. Claro, mas eu falei daqui a pouco que se não me engano eu chequei aqui, são 30 meses, então 1 mês. Então tudo bem, mas aí você, se você for responder, que aqui eu falo vários se eu não me engano, porque a gente sai falando de um monte de coisa.

PVC:Mas é que tudo bem, eu entendo isso, só tô dizendo que a quantidade de vezes que a gente vê isso em televisão, se fosse absolutamente normal, o Jornal Nacional daria uma cabeça dizendo o presidente Lula completou nesta quinta-feira 80 anos, se não me engano.

Murilo Garavello:Não, mas a gente tá falando de formatos diferentes. Jornal Nacional tem ali 5 minutos para fazer, né, o determinado, uma grade muito engessada, tem um horário para entrar o anúncio, né. A gente tá falando aqui de, acho que então você provavelmente tá falando da TV, eu tô falando do podcast, que é uma coisa que se demorar 1 hora e meia, demorar 1 hora e 40, né, conversando, a gente tá conversando, é um outro meio, né.

PVC:Mas eu prefiro ter A informação precisa, e se eu errar, corrigir. Bom, enfim, isto posto, eu tava um dia, no período que eu morei no Rio de Janeiro, trabalhando na Fox e na Globo, um dia, final de tarde, tava tomando uma cerveja, quietinho, tranquilinho, lendo um negocinho, passou alguém, um senhor, e falou: "Parabéns!" A conversa foi mais longa. "Parabéns pela sua memória!" "Isso é um dom!" Eu falei: "Muito obrigado, é trabalho também." Ele falou: "Não! Isso é um dom!" E me deu uma bronca. Eu falei: "Cara, eu preciso fazer alguma coisa com isso, porque assim, as pessoas estão falando da minha memória seguidamente como se eu não trabalhasse, entendeu? Então não é que eu trabalhei e apurei uma informação." Você é um privilegiado, não que você é um trabalhador.

Murilo Garavello:No fundo é uma ofensa, né?

PVC:É claro, eu acho que tem um dom, Claro que tem um dom, mas tem trabalho também. Depois lá na frente nós vamos falar de um livro chamado Peak. Eu vou te contar uma história que tá no Peak.

Murilo Garavello:Sim, falaremos de dom, né?

PVC:Que é sobre dom versus—

Murilo Garavello:Mas aí você resolveu fazer um negócio sobre memória, e aí como que você teve a ideia de falar com a Folha?

PVC:Não, então aí eu resolvi montar uma palestra depois de um bom tempo, depois de um ano e meio disso. Eu falei, cara, eu preciso falar, porque as pessoas continuam falando, você anda na rua, o cara fala assim, como é que você lembra disso? Não, porque não sei o que Aí eu falei: eu preciso fazer uma palestra. Aí eu montei uma palestra e coloquei na mão de duas pessoas para ver se eles conseguiam arrumar lugares para fazer a palestra. Ninguém, não conseguiu.

Murilo Garavello:Aí, pessoal, segundo merchan da noite: PVC quer vender palestra.

PVC:Depois da Copa do Mundo, gostaria de entrar no mercado de palestra para falar sobre isso.

Murilo Garavello:Aí fica a dica.

PVC:E aí não tinha acontecido nada. E aí eu vi a Casa Folha, falei: nossa, o curso do Rui Castro, encontrei o Rui Castro aqui. Embaixo, no dia que ele gravou a Casa Folha, falei: "Cara, Casa Folha do Rui Castro sobre literatura é super legal, mas quem é que vai escrever um biografia dele sobre biografia?" Sim.

Murilo Garavello:É muito legal. Bom, esse podcast é de livro e eu, ao contrário do PVC, eu não sei direito o nome do livro da biografia do Rui Castro, mas a Bruna vai me ajudar, vai cantar para mim. Eu li, achei magistral, muito legal.

PVC:Ele tem biografias que não são de biografados, né? Como por exemplo, A Noite do Meu Bem.

Murilo Garavello:Então ele faz sobre tema, ele tem uma regra, ele não faz biografia sobre pessoas que estão vivas. Sim, que eu acho muito interessante. Mas esse livro é muito bom, daqui a pouco a gente diz o nome. Aí você viu Ruy Castro, também quero.

PVC:Não, eu vi o Pondé, falei, cara, legal, mas assim, é que eu fiquei pensando o seguinte: maravilhoso você ter um curso com Ruy Castro, mas eu não vou escrever. Alguém vai ter um curso para escrever biografia, ou é pela curiosidade. Falei: cara, tem um curso de memória para dar. Aí eu liguei para o Irá Machado, descobri que o Irá Machado era o editor da Casa Folha. Maravilhoso, Irá.

Murilo Garavello:Aliás, lançou um livro também sobre o Mequinho. Isso, né?

PVC:Estupendo. Entre Bispos e Reis.

Murilo Garavello:Entre Bispos e Reis, o Irá Machado. Acabou de sair, eu ganhei, mas ainda não tive tempo de ler.

PVC:Eu também. O Irá falou: pô, a ideia é boa, mas Isso precisa ter uma parte de ciência, porque não é você fazer como você, qual é a sua técnica, qual é o seu método. Tem uma parte de ciência. E aí ele foi me colocando na cara do gol para ir estudando. Ele fez um roteiro, a partir do roteiro eu fui me preparando para gravar os 8 episódios, 8 vídeos de 20 minutos aproximadamente, em que O episódio 3, 4, 5 e 6 são muito memórias de curto prazo. Você armazena no córtex frontal, você armazena memória de trabalho, é memória de longo prazo, primeiro no hipocampo, depois ela vai para o córtex cerebral.

Murilo Garavello:Eu preciso fazer um disclaimer aqui, eu não vi esse episódio da Casa Folha. Tem um roteiro aqui com vários livros, vou mostrar de onde eu tirei. Eu não plagiei a Casa Folha, se sair parecido vocês me perdoam.

PVC:Não, zero problema. Pois é, uma parte que eu fui aprender sobre isso, porque a ideia original era falar sobre o que estão falando sobre mim, a minha memória.

Murilo Garavello:Isso é uma coisa mais prática, né, de como você faz para lembrar, coisas desse tipo.

PVC:É porque, por exemplo, ele falou, vai ver a questão do Palácio da Memória. Você usa o Palácio da Memória, que é uma técnica?

Murilo Garavello:Não, eu não vou falar aqui também.

PVC:Eu não uso Palácio da Memória, eu faço associações. Ah, mas isso, isso tá tudo no curso. Mas eu fui aprender, o Irá me colocou, o Irá Machado me colocou na cara do gol para aprender coisas sobre memória.

Murilo Garavello:Muito legal. Nunca tenho aprendido tudo, não dá para aprender tudo, né? E aí, e é esse que é meu ponto quando eu digo que eu acho que às vezes é melhor jornalista ser honesto, né, e dizer não sei. A gente vê muito isso em reunião, né, daqueles caras que chega aí Falam, chuta um monte pro chefe. Não, porque tal pessoa tá com essa estratégia, ou tal veículo tá com aquela estratégia tal. E aí você fala, puts, meu, eu não sei, vou checar. E as pessoas falam muita bobagem, né? Mas eu acho que a gente tem que ser, antes de tudo, honesto, né?

PVC:Claro, claro. Mas é que eu acho que assim, a gente cria muletas. O se não me engano é uma muleta. Que se você tá numa reunião e você fala: "É tal coisa assim, mas eu vou checar", é uma coisa. Mas o recurso do "se não me engano", uma, duas, três, quatro, cinco, todo dia... Como jornalista, eu penso assim: um comentário num programa de televisão, dentro do possível, é uma matéria. Então, quando eu vou falar: que o Roger Machado foi contratado por um diretor executivo, Rui Costa, que o contratou no Grêmio e que também o demitiu no Grêmio, eu tenho que ter isso apurado. Como eu dizer, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva completou 80 anos no mês de outubro do ano passado.

Murilo Garavello:Sim, porque você tá entrando ali, você já sabe a informação que você dá, você estudou antes, né? Eu acho que isso é óbvio.

PVC:Eu me preparo, as pessoas perguntam: mas você sabe tudo isso de memória? Não, muita coisa. Eu me preparo pela pauta do dia.

Murilo Garavello:Você estuda e, né?

PVC:E aí eu não preciso, na medida do possível, não preciso dizer: o Rui Costa foi diretor do Grêmio, se não me engano. Não, ele foi diretor do Grêmio, ele contratou o Filipão, demitiu o Filipão, contratou o Roger Machado, demitiu o Roger Machado, contratou o Renato Gaúcho e montou o time do Grêmio que seria campeão da Copa do Brasil.

Murilo Garavello:Então, mas aí se eu chegar para você e falar assim: quando ele tava lá no Grêmio, o roupeiro quem que era?

PVC:Não sei.

Murilo Garavello:Aí você pode falar assim, não me engana. Não, não, eu vou dizer, porque aí você não tá preparado para aquilo, para esse detalhe que você não achou que o cara ia perguntar para nós.

PVC:Não é que eu não me lembro, é que eu não sei, entendeu? Assim, é isso, honesto, não sei essa informação.

Murilo Garavello:Eu vi uma entrevista sua com Márcio Bernardes de 2023.

PVC:20... Eu fiz no aeroporto essa entrevista.

Murilo Garavello:Não, era um tete a tete com ele. É um vídeo, eu vi só um corte dessa entrevista. E aí você tava dizendo... Você explicou a origem do apelido PVC. E aí você disse que na escola as pessoas falavam assim: "O Paulo sabe até qual era a cor da cueca do Platini nas quartas de final de 1986." E eu respondia: E você respondia, né?

PVC:Se o calção é branco, a sunga só pode ser branca.

Murilo Garavello:E aí, você sabe a cor da meia do Brasil em todas as Copas?

PVC:Eu sei que o Brasil jogou de meia cinza, mas é fácil isso. Copas de 30, 34, 38, o Brasil jogava de camisa branca ou camisa azul. E depois de 1954 foi que o Brasil— em 50 jogou todos os jogos de uniforme branco, camisa branca, calção branco, meia branca. Depois, a partir de 54, passou a jogar de camisa amarela, calção azul e meia branca. Primeiro jogo a partir do uniforme amarelo, primeiro jogo que o Diego de camisa azul e calção branco e meia branca foi a final de 58. E a partir daí o Brasil joga de camisa amarela, calção azul e meia branca, ou camisa azul e calção branco, tirando exceções. Brasil-Suécia semifinal de 94, jogou todo de azul. Isso eu sei. A primeira vez que eu vi o Brasil todo de azul, eu me lembro, foi Brasil e Alemanha, que é mais que eu— aí eu tô dizendo que eu me lembro, né? Brasil e Alemanha, semifinal olímpica de 88. Puta, Farel pega 3 pênaltis. Lembro. Ah, mas era aquele uniforme da Adidas, que era o uniforme do Comitê Olímpico do Brasil. E nem Copa do Mundo jogou todo de azul depois da camisa amarela. Primeira vez todo de azul foi contra a Suécia, semifinal da Copa de 94.

Murilo Garavello:E o que eu fiquei mais chocado é que o PVC sabe a numeração de todos os jogadores da seleção brasileira Não em todas as Copas, mas não em todas, não. Assim, vamos lá, você tem que ter o seu.

PVC:Camisa 14 de 1982, Juninho, zagueiro. 82 é o mais fácil porque eu tinha 12 anos, eu tinha 3 anos, eu tinha 12 anos. E eu falo uma coisa, bom, vamos lá. 82 era 1 Valdir Pérez, 2 Leandro, 3 Oscar, 4 Luizinho, 5 Cerezo, 6 Júnior, 7 Paulo Isidoro, 8 Sócrates, 9 Serginho, 10 Zico, 11 Éder, 12 Paulo Sérgio, 13 Edevaldo, 14 Juninho, 15 Falcão, 16 Edinho, 17 Pedrinho, 18 Batista, 19 Renato Permuxo, 20 Roberto Dinamite, 21 Dirceu, 22 Carlos. Mas isso é uma memória do moleque de 12 anos, que quando você tem 10, 12, 13 anos e você gosta muito de uma coisa, seja cinema para saber a ficha técnica de Casablanca, seja música para saber a primeira formação dos Sex Pistols, seja futebol, você sabe Porque você nunca viu nada igual. O menino de 12 anos nunca viu nada igual. O homem de 50 viu um monte de coisa igual. Aí você fala assim: antigamente a gente sabia o time do Santos do Pelé porque ele jogava 10 anos juntos. Mentira! O time clássico do Santos de Omar Lima, Mauri Dalmo, Zito e Calvé, Dorval, Mengálvio Coutinho, Pelé e Pepe jogou junto 10 vezes, 10 jogos, ganhou 9 e perdeu 1. E por que então que você se lembra? Porque o menino de 12 anos nunca viu nada igual. Se você perguntar, você tinha 3 anos em 82, então você tinha 13 em 92. Você lembra do time do Telê como nenhuma outra pessoa vai lembrar.

Murilo Garavello:Lembro muito bem, eu lembro, mas eu lembro também de derrota, né? Eu lembro da derrota de 90. Nossa, aquilo me deixou triste. Gol do Caniggia.

PVC:Você tinha 3 mais 7, 11 anos.

Murilo Garavello:Essa foi muito marcante.

PVC:3+7? Não, você tinha o echo, vocês não tão falando do mês, né?

Murilo Garavello:É, mas eu lembro. Bom, e você sabe a escalação do 15 de Piracicaba em 92?

PVC:Não, porque isso não tem relevância.

Murilo Garavello:Claro que tem relevância, pô! O time tinha um jogador de seleção que era o Doriva. É, o Doriva ia meter 3, o Júlio César também, que tinha sido do Guarani, era um cara bom, camisa 10.

PVC:Tem times, e tem times.

Murilo Garavello:Tinha um zagueiro que se chamava Biluca.

PVC:Você é de Piracicaba? Eu sou de Piracicaba. Igual o Cícero Pompeu de Toledo?

Murilo Garavello:Cícero Pompeu de Toledo é de Piracicaba?

PVC:É de Piracicaba.

Murilo Garavello:Não sabia, eu.

PVC:Você sabe o que é Dona Elisa de Moraes Mendes? Não. Que é o nome de rua em São Paulo? É mesmo?

Murilo Garavello:É. Lá é nome de rua em Piracicaba também.

PVC:E aqui em São Paulo também. Sai da Praça Pan-Americana e vai até a Rua Varginha, que vai sair na Serra do Corá.

Murilo Garavello:Eu pego essa, só tá lá Dona Elisa.

PVC:É de Piracicaba. Não sei o nome inteiro. Dona Elisa de Moraes Mendes é nome de rua porque ela foi a ilustríssima senhora sogra do Adhemar de Barros, que é de Piracicaba.

Murilo Garavello:O Adhemar de Barros também é?

PVC:Também.

Murilo Garavello:Roba my sauce.

PVC:E o Adhemar de Barros foi quem concedeu, a imobiliária dele era de Canduva, quem concedeu o terreno onde está construído o estádio do Morumbi, Cícero Pompeu de Toledo.

Murilo Garavello:Olha, não sabia da sua origem piracicabana, do São Paulo, mais um motivo. Mas assim, não lembro porque Não precisa lembrar, né?

PVC:É, não é que, por exemplo, eu gosto de lembrar times que são, por exemplo, São Paulo de 90, 91, 92, 93. Eu tenho a pretensão de que eu sei os times campeão paulista de 91, campeão brasileiro de 91, que são diferentes, campeão paulista de 92, campeão da Libertadores de 92, campeão da Libertadores 93, campeão do mundo 93. É muito relevante, mas eu vou saber o time do São Paulo campeão paulista de 98, mas o time vice-campeão da Copa do Brasil de 2000 eu não sei.

Murilo Garavello:Porque não precisa.

PVC:É, eu sei o time, eu sei o time campeão paulista de 2000, que é basicamente o mesmo time que perdeu a final para o Cruzeiro, só que o Wagner não jogou contra o Cruzeiro, né? 2000 era Rogério, não jogou, esse time era muito bom.

Murilo Garavello:Rogério, eu tava trabalhando no UOL já, a gente tava com a manchete pronta: São Paulo ganha a Copa do Brasil.

PVC:E aí tomou um gol do Giovani, é assim, é de falta, de falta, milha cabaja, por baixo da barreira.

Murilo Garavello:Que ódio.

PVC:Rogério, Beletti, Edmilson.

Murilo Garavello:Eu já trabalhava na redação do UOL, 2000.

PVC:Quantos anos você tinha? 20, 21. Rogério, Beletti, Edmilson, Rogério Pinheiro e Fábio Aurélio, Maldonado, Wagner. É isso mesmo. Edu e Raí, não, Edu e França na frente, Maldonado, Wagner, Marcelinho Paraíba e Raí, Edu e França. O Edu que foi jogar no Celta de Vigo, Edu de Jaú.

Murilo Garavello:É isso mesmo? Nossa, eu lembrava de alguns jogadores, eu não lembro escalações inteiras, isso é muito raro.

PVC:Eu gosto muito de lembrar porque me ajuda a manter vivo o menino que conheci antes.

Murilo Garavello:Que interessante.

PVC:E porque você, não é que você não sabe, porque 'Ah, você antigamente jogava 10 anos juntos.' Não é isso. Esse time não jogou 10 anos juntos, esse time não jogou 2 anos juntos. Você sabe porque você dava importância para isso, porque você nunca viu um lado igual.

Murilo Garavello:Interessante. Diz uma coisa, bom, a gente vai falar muito aqui de como das suas estratégias. O que eu queria saber é, você mantém ainda um arquivo incrível seu, ele se modernizou, porque dizem que você tinha as coisas em guardanapo de papel, né? Isso não tem mais.

PVC:Não, não é que tinha em guardanapo de papel, isso é uma brincadeira que se faz, que assim, uma vez a gente tava em 91, eu entrei na revista Placar em 91, e era uma delícia trabalhar no Placar, porque você, uma das maneiras de você, uma das razões de eu continuar lembrando é que eu não virei bancário. É, ou seja, se eu fosse bancário, ou se eu fosse professor de inglês, ou se eu fosse engenheiro ou médico, eu teria responsabilidades fora do futebol. Eu trabalhava em placar, eu olhava para trás e tava aqui a coleção inteira da revista. E eu li placar dos 10 aos 21, então sabíamos onde tava. Então você ia lá e pegava uma coisa, você pegava uma ficha de um jogo Santos e Palmeiras de 58, 7 a 6. Aí você pegava aquilo E aí eu anotei e coloquei um dia na carteira. Um dia eu tava no restaurante, o cara falou assim: não, aqueles 7x6 Santos e Palmeiras? Falei: não, a ficha tá aqui, 6 de março de 58. Aí ficou a lenda de que eu carregava as coisas na carteira. Eu tenho um.

Murilo Garavello:Mas por que que você tinha botado isso na carteira naquele dia?

PVC:Porque me importava aquilo e não tinha computador naquela época.

Murilo Garavello:Mas você que puxou o papo daí?

PVC:Não, alguém puxou.

Murilo Garavello:Do nada? Por que que aleatoriamente aquele jogo você tinha?

PVC:Aconteceu um acidente, tava na minha carteira.

Murilo Garavello:Alguma coisa.

PVC:Não puxei o assunto. Tem coisas que eu arquivei, por exemplo, quando começou a discussão sobre a unificação dos títulos brasileiros, em 2009 começou essa discussão, depois tem um livro chamado "Dossier da Unificação", em 2010. Eu era contra a unificação, eu acho que há argumentos plausíveis para defender a unificação e para não defender a unificação. Unificou-se, hoje eu acho que tem que falar com a unificação. Mas toda vez eu falo: "Palmeiras tem 12 títulos brasileiros de acordo com a unificação." Beleza. Quando eu percebi que eu ia perder o argumento, que eu ia perder o debate, o que é que eu fiz? Eu contratei um cara e pedi para ele, eu tinha um arquivo que eu tinha herdado de placar com todas as fichas no Excel de Campeonato Brasileiro de 71 a 2001, que virou 2002, que virou 2003, que foi sendo atualizado. Eu contratei um cara para botar nesse Excel todos os jogos de Taça Brasil de 59 e Robertão de 59 a 70.

Murilo Garavello:Para completar seu arquivo.

PVC:E aí completou meu arquivo. Hoje meu arquivo tá no computador, tá no backup, tá no outro computador. Então tem lá, hoje eu tenho todos os jogos do Campeonato Brasileiro de 37, porque foi unificado, e de 59 a 2025 em Excel. Mas eu atualizo No Word, eu atualizo no Word toda semana, toda rodada eu vou lá e pum, São Paulo 2, Corinthians 1.

Murilo Garavello:Mas já dá para usar uma Iazinha aí para ajudar você, hein? Ela atualizar lá para você.

PVC:Mas aí você não memoriza.

Murilo Garavello:Ah, é muito bom, é verdade. É um jeito de você ir memorizando.

PVC:Por que que o cara me perguntar a escalação do Coritiba, como tá jogando hoje, eu sou capaz de dizer? Por quê? Porque toda semana eu vou lá e digito. Coritiba, Pedro Rangel, Tinga, Michael, Maxi.

Murilo Garavello:Sai com a escalação de cada jogo da rodada.

PVC:Santos 0, Coritiba 0. Você põe lá o... É, a quarta-feira, que dia foi ontem? 22 de abril de 2026, Santos 0, Coritiba 0, 19:30. Local: Vila Belmiro. Árbitro: fulano. Renda: tanto. Público: tanto. Gols: ah, foi 0x0. Cartão amarelo: fulano. Expulsão: cicrano aos 10 minutos do segundo tempo. Santos: Gabriel Brazão— não, Gabriel Brazão não. Diógenes, Igor Vinícius, Lucas Veríssimo, Luan Pérez e Escobar, com tempo de substituição. Daqui a um ano eu vou buscar. Sem a mesma disciplina, eu coloco assim: a torcida do Corinthians fez ofensas racistas ao goleiro Carlos Miguel e o Corinthians perdeu um mando de campo por esse crime.

Murilo Garavello:Você tem um arquivo só desse tipo de ocorrência assim?

PVC:Você separa por ocorrência? Não, eu tenho por ficha.

Murilo Garavello:Casos de racismo?

PVC:Não tem? Às vezes tenho. Eu tenho fichas, por exemplo, Eu tenho todos os jogos da Alemanha, da Espanha, da Itália, da Argentina— da Argentina não, da Itália, da Espanha, da França, da Inglaterra, desde 2000, e do Brasil desde 94, e em livro desde sempre. Eu tenho arquivo, por exemplo, maiores transferências da história do futebol brasileiro, maiores transferências da história. Tem coisa que você hoje busca na internet, mas tem coisa que você não precisa buscar na internet, eu busco no meu arquivo, é mais rápido.—

Murilo Garavello:E mais confiável também, né?—

PVC:E mais confiável na maior parte das vezes. Não quer dizer que não vai ter um erro nunca, mas quando você digita, você memoriza também. É uma possibilidade de usar como técnica.

Murilo Garavello:E é isso que a gente vai começar a falar agora, assim, né? O primeiro livro, ele se chama Peak Mind. Não é o Peak do PVC, que vai vir depois. Esse é o Peak Mind. Em português, ele foi traduzido como Sagaz. É da Amishi Jha, que é da Universidade de Miami, e ela fez um longo estudo com marines americanos e ela explica um pouco como funciona a nossa atenção, que sem atenção não existe memória. Se você não prestar atenção, né? E ela usa duas metáforas que eu acho que são muito interessantes. Para ela, a nossa consciência, ela é que para um feixe de luz, é um holofote. Então a gente tá olhando aqui, tem a nossa visão periférica, mas a nossa atenção ela sempre é um holofote que a gente direciona para alguma coisa, né? Então, e às vezes você pode até direcionar para dentro de você. Esse holofote é para onde você tá colocando a sua, o macaco pulando de galho em galho, mas ele sempre Você tá olhando para um lugar, né? Para aquele galho, para aquele galho. Exato. E ela diz que a memória de trabalho é como se fosse uma lousa que você escreve e depois de um tempo acaba apagando o negócio ali, né? Então, é uma lousa que tem um espaço limitado. As coisas ficam ali por um tempo e depois elas se apagam. É aquela história de que a gente consegue se lembrar de 4 ou 5 coisas de uma vez só, a gente mantém na memória de trabalho, né? E ela diz que a raiz da falha de atenção e a raiz da falha da memória de trabalho é a viagem da mente no tempo, que ela diz, né? Ela diz o seguinte: "Nossos olhos não são apenas espectadores, mas projetores que estão o tempo inteiro criando uma segunda história em cima da imagem que temos diante de nós." Quantas vezes isso acontece com todos nós, né? Diz que metade do tempo a gente tá assim. Tipo, eu tô olhando, você tá me vendo falar, só que você já tá pensando ou na próxima coisa que você vai falar ou no programa que você vai gravar amanhã, ou—

PVC:Minha mulher tá dizendo que diz que eu tô brisando.

Murilo Garavello:É, todo mundo brisa, né?

PVC:Eu tô olhando através de você.

Murilo Garavello:Exato.

PVC:E não para você. Exato. Eu tô olhando pra você e tô vendo aquele quarto, aquela parede que tem os granuladinhos redondinhos e tô prestando atenção naqueles, como eles fazem triangulinhos, e eu já viajei, já não sei mais o que você falou.

Murilo Garavello:Então é exatamente assim que acontece. E aí, obviamente, o que eu falei nesse momento, que o mais importante era os triangulosinhos, você não vai lembrar de jeito nenhum, já era, né? E cada vez a gente tá menos presente, né? E como a gente não tá presente, a gente não vai conseguir reter.

PVC:Exatamente.

Murilo Garavello:É, então, e aí, claro, ela diz que a memória de trabalho, assim como atenção, ela sofre com alguma ameaça iminente, ela sofre com mau humor, com estresse, é tudo que degrada a sua atenção, degrada também a memória de trabalho, né? E ela diz que é irreal você achar que você pode chegar a ficar 100% do tempo no mesmo no momento presente. Mas ela diz no livro que você pode começar a ficar mais consciente. Nossa, não tô aqui, peraí, voltei. Isso, né? Assim como na meditação, né? Você começar a prestar atenção. Onde tá meu holofote? Não, tá no PVC. Não, tá aqui nessa conversa que a gente tá tendo, né?

PVC:É isso. Essa minha mulher fala que eu briso. Você tá brisando, você não tá aqui. "Não, eu tô aqui." Aí às vezes você fala assim: "Mas o que eu falei?" Aí você fala exatamente o que ela terminou de falar, se você tiver sorte.

Murilo Garavello:Porque várias vezes você tá brisando e você pescou ali, né?

PVC:Você conseguiu puxar de volta, mas muitas vezes não. E é um pouco dessa história que tava na origem da palestra que eu comecei a montar, que quando você começa a ouvir as pessoas dizendo assim: "Puxa, antigamente eu sabia o nome de todo mundo e hoje eu não consigo guardar o nome de ninguém." Sim, mas quando você perguntou o nome de alguém, você estava presente?

Murilo Garavello:Pois é, é exatamente isso. Eu várias vezes, acabou de acontecer, eu não lembrava o nome do menino que trabalha aqui, ele não é muito antigo, né? E ele me falou, esqueci, perguntei de novo para, e agora eu lembro, eu penso Henrique, eu tô vendo a cara dele.

PVC:Isso é antes do Casa Folha, do Irá, de dar esse título que virou O Poder da Memória, a minha ideia era falar sobre a sua memória importante em tempos de inteligência artificial. Em outras palavras, nós somos seres humanos. Então, por exemplo, quando eu pergunto o nome para uma pessoa, se eu não dei atenção, se eu não estava presente para essa pessoa que me respondeu o nome dela, É muito valioso que eu lembre o nome dela.

Murilo Garavello:Essa é um dos ensinamentos do como fazer amigos, influenciar pessoas. Não tem nada mais importante para pessoa, nenhum nó, como que é, nenhum som é mais agradável aos ouvidos da pessoa do que o próprio nome.

PVC:Deixa eu contar uma história aqui, é uma história linda, que eu acho uma história linda, e é de presença de uma pessoa linda que é o João Bosco, o cantor. Em 2009, eu trabalhava na SPN e o meu filho João Pedro tinha 9 para 10 anos e ele tava estudando João Cândido, o Almirante Negro. Tem uma música do João Bosco que Elis Regina gravou: Salve o navegante negro. Por que que é navegante negro e não almirante negro? Porque a censura proibiu se chamasse João Cândido de Almirante Negro, porque ele foi chamar de navegante, teve que chamar na música de navegante na época da censura, na época da ditadura. O certo é o João Cândido é o Almirante Negro, só que ele foi preso, né? Ele era um revolucionário. Bom, eu tô contando a história para o João Pedro estudando junto com meu filho, e aí Eu falei: tem uma música da Elis, do João Bosco. E aí eu botei a música para ele ver, para ajudar o ensinamento dele, o aprendizado dele. No dia seguinte, por uma enorme coincidência, eu tava de manhã na SPN e eu trabalhava na redação, mas eu era comentarista, mas trabalhava na redação. Então chegou um fax, uma comunicação qualquer, e o Trajano tava no estúdio, e o estúdio ficava no andar de cima. Eu subi a escada e daí veio o o recado para o Trajano, saí e fui descer a escadaria. O João Bosco, o programa do Trajano, tá subindo a escada, desde frente com João Bosco. O João Bosco me reconheceu e eu falei: nossa, João, que coisa incrível! Ontem eu tava estudando com meu filho João Pedro e ele tava estudando o Almirante Negro, e eu mostrei para ele sua música. Ele falou: nossa, que legal! 6 meses depois 7 meses depois eu encontrei o João Bosco em Congonhas, no aeroporto. João Bosco me cumprimentou, falou assim: "Como vai, João Pedro?" Nossa, como é que pode, né? Para quem essa história é mais relevante? Para ele, que lembra o nome do meu filho, ou para mim, que ouvi dele?

Murilo Garavello:Presente incrível, né? Pô, o cara guardou mesmo, né? Muito legal isso.

PVC:É valioso isso. Nós não podemos perder de vista, em tempo de inteligência artificial, que nós somos seres humanos e que a tecnologia está a nosso serviço e não o contrário.

Murilo Garavello:Sim, muito bacana isso. Eu confesso que eu preciso me aperfeiçoar nisso.

PVC:Precisamos todos, todos. Por que que as pessoas entram na comunidade da Vila do João? Por engano, e tem gente que é assassinada lá porque o cara confia cegamente no Waze. É muito melhor quando você usa o Waze conhecendo a cidade. Se ele me mandar ir para minha casa na Zona Oeste indicando um caminho pela Zona Leste, eu vou dizer: não, não, tá errado, o endereço que tá errado.

Murilo Garavello:Sim, porque eu conheço a cidade, confia logo, né?

PVC:Porque você conhece o lugar.

Murilo Garavello:Sim, quanto mais contexto você tiver, melhor você vai sair, né?

PVC:É outra coisa, tô falando demais, mas assim, eu acho isso aqui muito valioso também para nós que somos jornalistas. Murilo, informação é a coisa mais moderna que existe no mundo moderno. E eu não me conformo das pessoas falarem, jornalistas, jornalistas esportivos, por exemplo: não, não, agora é entretenimento. Bom, entretenimento é qualquer coisa. Isso que nós estamos fazendo aqui está nos entretendo. Sim. Quem está nos vendo também está se entretendo. Ler o livro A Mente Organizada é entretenimento. Ir ao cinema é entretenimento. Fazer uma caminhada é entretenimento. Tudo isso é entretenimento. Mas informação é a coisa mais moderna que existe no mundo moderno. Um advogado precisa de informação, uma jurisprudência.

Murilo Garavello:Sim.

PVC:Um médico precisa de uma informação, uma nova vacina. Um engenheiro precisa de informação, uma nova tecnologia. E aí vem um jornalista e me diz assim: "Não, não, agora é entretenimento." Sim, mas o que me entretém, o que me ocupa, o que me vicia e o que me move e o que é minha profissão é informação. E com a informação eu faço tudo. Até entreter.

Murilo Garavello:Sim, porque eu acho que tem uma outra coisa que é o formato, como você faz, né? Esse como pode variar. O problema, ou não é problema também, porque pode ter tempo para— tem gente que gosta de todos os tipos de coisa. E o bacana dos nossos tempos é essa democratização, né? Cada— tem público para o que for. É, mas acho que o jornalismo que não tem informação não Não é jornalismo, é conteúdo.

PVC:A chance dele não entreter é enorme.

Murilo Garavello:É enorme, sim. A nossa memória, ela é enviesada para o que é importante para nossa sobrevivência. Por isso, eventos que nos dão medo, o que provocam estresse, são mais proeminentes. A gente grava mais, né? Então, a memória está muito diretamente ligada à emoção. E a gente, a emoção negativa sempre É mais forte pra gente do que a positiva.

PVC:Por quê?

Murilo Garavello:Porque a nossa amígdala é treinada pra detectar perigos e agir pra garantir a nossa sobrevivência. Então se uma coisa é muito traumática, você vai lembrar pra caramba disso, até um pouco mais do que das alegrias.

PVC:Que é um pouco da origem da manutenção do ser humano na Terra até hoje.

Murilo Garavello:Pois é, e aí quando a gente faz, leva pro esporte, a gente grava derrotas, ficam ali, né, queimando, e às vezes tanto quanto vitórias. Acontece com você também ou não?

PVC:Eu acho que as duas coisas podem ser valiosas, podem ter, podem gravar memórias. Acho que tem uma coisa que você tá falando que é muitas vezes os fatos, o caminho onde o homem, os nossos antepassados encontravam um leão, ele sabia que naquele caminho ele não podia passar porque o leão podia atacá-lo. Então você memorizava que ali não era seu caminho, era pelo outro lugar onde ia ter um macaco e não um leão. Tem uma outra questão que é a questão de fatos cognitivos e não cognitivos que se misturam. Então, por exemplo, tem um estudo sobre o 11 de setembro em que você Tem gente que tem relatos absolutamente perfeitos do 11 de setembro e no meio do caminho tem uma informação enviesada. Por quê? Porque misturou uma questão muito emocional com o fato, com o factual. Eu tenho um exemplo disso, que é o primeiro dia que eu fui ver um jogo de futebol. Meu avô Alexandrino me levou para ver Português e Juventus e eu lembro de tudo depois, de tudo daquele dia. Eu lembro de de a Portuguesa jogando de camisa branca e uniforme todo branco, e o Juventus de Grenat, calção branco e meia Grenat. Eu lembro do meu irmão do meu lado, eu lembro do meu avô conversando com um senhor do lado sobre o jogo, eu lembro de descer a escadaria do Canimbé, que era de madeira, e comprar Guaraná Caçulinha com a garrafinha verde. Eu lembro de tudo. E eu fui estudar o jogo e por saber a data E eu descobri que o jogo foi dia 29 de março de 75, e eu então eu tinha 5 para 6 anos. Eu sou de agosto de 69, e eu me lembro de voltar com meu avô e meu irmão para casa do meu avô e da minha avó, e chegar na sala da minha casa, da minha avó, e ter árvore de Natal.

Murilo Garavello:Juntou dois, dois, né?

PVC:Eu misturei uma questão afetiva, né, uma memória, uma memória emocional não cognitiva com cognitivo.

Murilo Garavello:E a gente vai dizer daqui a pouquinho porque que isso acontece, né? Mas você tem alguma derrota no futebol que te marcou pessoalmente?

PVC:Não tem algumas? Sim, a maior, dia 5 de julho de 82, Brasil e Itália. Foi também o último dia que eu vi minha avó. Nossa, porque minha avó viajou para Portugal e eu saí da minha casa no Parque Continental, fui buscar minha avó nas Perdizes para levá-la para o aeroporto. Ela foi passar 3 meses em Portugal, teve um câncer fulminante e morreu lá. Ela era portuguesa. E foi o último dia que eu vi minha avó. Tem outra questão que também eu tô misturando, não precisaria misturar. Eu lembro de, de 86, o dia que Palmeiras perdeu para Inter de Nimeira foi o dia que os meus pais se separaram.

Murilo Garavello:Nossa!

PVC:E eu tava vendo o jogo aqui e meus pais quebrando o pau aqui atrás. Então assim, quebrando o pau, modo de dizer, não teve nenhuma violência, tinha só discussões.

Murilo Garavello:Mas olha, duas derrotas que estão associadas a outras tristezas, né?

PVC:É, a questão da separação dos meus pais, eu tinha 17 anos, eu sempre entendi que era um problema dos dois, né? Foi um dos dois que afetou minha vida, mas era um problema dos dois, não era um problema meu. Eu tinha 17 anos, eu tinha já entendimento de que os dois tinham que resolver a vida dos dois, não a minha. Mas no caso da minha avó, minha avó não morreu naquele dia, ela morreu em setembro, mas foi o último, eu sei que foi aquele dia, foi o último dia que eu vi minha avó.

Murilo Garavello:Você assistia e aí esse dia ficou marcado, né? Vamos voltar para o conteúdo aqui. Situação prática: quando você vai para uma entrevista coletiva ou vai para uma palestra, para algum lugar, como que você toma nota?

PVC:No papel e caneta.

Murilo Garavello:Ó, é isso mesmo, tá aqui, ó, melhor estratégia: não usar notebook. E aí a autora explica por quê. Uma das coisas que fazemos naturalmente ao tomar notas à mão é a síntese. Prestamos atenção enquanto ouvimos e então analisamos o que foi dito para extrair ou resumir os pontos mais importantes. Somos obrigados a isso. Simplesmente não conseguimos escrever rápido o suficiente para transcrever cada palavra que ouvimos. E por isso a gente tem que ser estratégico. Ao fazer esse tipo de síntese, a gente é mais capaz de codificar essa informação de uma forma mais rica, completa, integrada e consequentemente mais duradoura. Anotar em laptops acaba sendo uma ótima maneira de obter uma boa transcrição de uma palestra em seu computador, mas uma péssima maneira de você transferir qualquer parte desse conteúdo para sua memória de longo prazo. Então fica o conselho para os nossos jornalistas, é muito comum hoje, né? Você vê a pessoa ali digitando que nem louca, é mais fácil ligar um gravador, até porque hoje existe transcrição. Claro. Então você pode ficar com as duas coisas, né? Você presta atenção, anota só o que você, né, a síntese, depois você pega a transcrição. Aí, parente disso, tem uma outra coisa que é: quantas vezes você vê num show as pessoas gravando o show inteiro ali no celular, né? E não tá vivendo o momento, não tá dançando, não tá aproveitando. Ou a pessoa vai naquele ponto turístico maravilhoso, aquele cenário incrível, e fica tentando buscar a melhor foto. E quem nunca, né, meu? Puta, eu faço isso também, sou humano. E isso é a maior cagada, porque primeiro, documentar algo exige a multitarefa, né? E o que a gente sabe é A gente sabe que o multitarefa ele não funciona, vou explicar isso também daqui a pouco. Na verdade o que você está fazendo é comutando a sua atenção de uma coisa que está fazendo para outra e tem um custo essa mudança de atenção. Você não está tirando uma foto e vivenciando o que está fotografando, você está tirando a foto ou vivenciando, é sempre uma escolha. Quando você está engajado na tarefa de tirar foto Não pode estar simultaneamente focado na atividade que está documentando. Isso é tão verdadeiro se você estiver em um lugar deslumbrante de férias tirando uma foto, quanto em uma sala de aula ou de conferência. E aí tem estudos que descobriram que mesmo quando a gente está realmente prestando atenção ao que está documentando, a maneira como a gente usa o dispositivo afeta como a gente processa e, portanto, como a gente lembra dessas experiências.

PVC:Tinha uma história do Cid Moreira no passado, que as pessoas sacaneavam o Cid Moreira, diziam que o Cid Moreira saía do ar e você perguntava pra ele: "Nossa, que coisa essa história do ataque do Irã, né?" E ele dizia: "O quê?" Eu já ouvi isso.

Murilo Garavello:Ele não sabia, né? Ele só tava lendo o teleprompter ali, né? E até teve essa mudança de geração, né? Quando botaram o William Bonner, ele era editor-chefe, né? Então ele sabia o que ele tava Dizendo que tinha mais propriedade, né? E aí ela diz: ninguém gosta de ouvir "guarde seu celular", mas quem é isso? Quem documenta suas experiências se lembra muito menos, né? Porque se a experiência não vai para sua lousa, você não vai lembrar dela do mesmo jeito, né? Então é um pouco... E ela diz: como faz para lembrar? Os caras acham que eu sou maluco.

PVC:Não que eu não seja, né?

Murilo Garavello:Qual que é a maluquice do momento? Olha isso! Canetas, canetas, canetas. É isso, qualquer pedacinho de papel você já Né?

PVC:Essa caneta aqui, essa caneta pifar, né? Acabar.

Murilo Garavello:Mas tem sempre o bloco de notas do celular, abre só o bloco de notas.

PVC:Não é igual, você acabou de ler que não é igual.

Murilo Garavello:Não, mas é diferente porque eu tô só anotando o pensamento lá, né?

PVC:Mas eu gosto da caneta, eu gosto até, você falou de ir para uma entrevista coletiva, por exemplo, às vezes uma pergunta bem feita Dependendo do assunto ser muito denso, escreve como você quer perguntar, porque uma palavra que você muda, muda a resposta do cara.

Murilo Garavello:Sim, sim. E sabe uma coisa que eu sempre, até é bacana falar isso publicamente, é Tem uma coisa que o Rui Castro ensinou e que os jornalistas não aprenderam, não leram, não viram, e que é muito comum na seleção, né? Aquela pergunta que o cara faz uma introdução de 2 minutos e aí pergunta: "O que você acha?" Aí o cara: "Nada a ver." Acabou, né? Próxima pergunta. Sim, você tem que fazer perguntas curtas, né? Abertas pra para tirar alguma coisa, para não poder responder sim ou não. Claro que tudo bem, tem situações e situações, né? Tem vários tipos de entrevista diferente, mas de uma maneira geral, quem tem que falar é o entrevistado, né? E você faz uma pergunta curta, aberta, e que faça com que ele, inclusive quando você está elaborando muito longamente o seu enunciado, ele está ali já pensando numa desculpinha que ele vai dar. Se você chega e já vai: direto ali, ele não tem tempo, ele vai, ele tende a ser mais sincero, né.

PVC:Eu lembro de uma pergunta que eu fiz para o Dunga na Copa do Mundo, na Copa América de 2015 no Chile. O Neymar tinha sido expulso contra a Colômbia e foi suspenso pelo resto da Copa América. E o Dunga, ele tava visivelmente incomodado com a decisão que tinha que existir se o Neymar ia ficar ou se o Neymar ia embora, e tava claro que o Neymar ia embora. E aí ele falou alguma coisa sobre o papel do capitão. O Dunga foi capitão da Seleção Brasileira campeã do mundo em 94. E eu perguntei para ele: você acabou de falar sobre o papel do capitão, você foi um grande capitão da Seleção Brasileira, na situação do Neymar o capitão tem que ficar? Aí ele titubeou, ele falou: depende do capitão.

Murilo Garavello:Pronto.

PVC:E assim, é muitas vezes isso assim, você pode ser muito rápido, mas às vezes a pergunta você precisa escrever. É bom você escrever para não deixar a vírgula que você vai usar, que é o escape da resposta.

Murilo Garavello:Exato, exatamente isso. Bom, para fechar esse livro aqui tem duas coisas. Primeiro, ela diz o seguinte: Qual que é a receita para lembrar? Ela diz: 1, repita. 2, elabore. Que é você justamente vincular informações que você já tem. E consolide, criando e consolidando a nova conexão neural. Que é aquela história, né? Quando você vai ensinar alguma coisa para alguém, você está reforçando o que você conhece, você até percebe o que você não. Não entendeu direito, e você pode se aplicar isso. Qual que é seu método?

PVC:Então, vamos lá. O que eu aprendi, que o Iram me forçou, o Iram Machado me forçou a aprender, e foi maravilhoso. Bom, então, memória de curto prazo você vai alojar no córtex frontal, o teu armazenamento vai se dar no hipocampo, e a memória vai se deslocar como memória de longo prazo para o córtex cerebral. Na hora de recuperar, as sinapses, as conexões neurais, você vai trazer de volta para o hipocampo. Por isso que quando você tem, como a questão do Alzheimer, você, o primeiro lugar a ser afetado é o hipocampo, por isso que você perde a memória recente. Sim. Por quê? Porque você armazena.

Murilo Garavello:É o primeiro estágio, é o hipocampo, né? E lá no córtex estão as coisas mais antigas.

PVC:Você vai continuar lembrando que você foi com seu avô no jogo da Portuguesa contra Juventus porque elas estão no mesmo córtex cerebral. Eu associo a, como é que você falou que ela disse, eu associo, eu elaboro e eu faço conexões de coisas como, por exemplo, centroavante tchecoslováquia vice-campeão do mundo de 62, que perdeu a final para o Brasil. O lateral direito era Tiki. Por que que eu sei que ele era Tiki? Porque eu tenho tique nervoso. E o centroavante era Kadraaba. Por que que era Kadraaba? Porque não é abracadabra, ele não era um mágico. Então eu associo. Mas aí você vai me perguntar, que o Iram me provocou, não entendi como é que você faz. Shroyke, Tiki, Pluhar, Popuhar e Novak, Masopuxi, Vazniak, Pospichal, Xerrer, Kadraaba e Gelinet.

Murilo Garavello:Claramente ele tá inventando, ninguém vai checar isso aqui. Faz um fact-check "Cheque aqui, pelo amor de Deus." Nossos ouvintes, teremos ouvintes dedicados que vão checar. "Shroff, Tiki, Pluhar, Po Pluhar e Novar." Aí ele vai falar: "Não, eu não falei Shroff, eu falei Frosh." Escolheu uma.

PVC:Mas aí eu tô falando assim, eu associo, mas aí a associação do Tiki eu tenho que ligar com o Pluhar. Pluhar eu pensei em Pluto, provavelmente, e eu vou conectando as coisas. É, eu queria, depois de um tempo, mais recente, eu me dei conta que assim, apesar de eu saber o time titular do Santos, o time clássico que eu já citei aqui: Gilmar Lima, Mauri Dalmo, Zito e Calvé, Dorval, Mengálvio, Coutinho, Pelé e Pepe, eu não sabia o time do pentacampeonato. Assim como eu sei o São Paulo campeão do mundo de 92 e campeão do mundo de 93, eu não sabia o Santos campeão da Taça Brasil de 61, de 62, de 63, de 64 e 65. Então o que eu fiz?

Murilo Garavello:Eu peguei o time titular base, que é o time que foi do dia do título.

PVC:Eu quero saber o time do dia do título.

Murilo Garavello:Então o Santos é tão importante, às vezes no dia do título, cara, não tá só por causa do pôster.

PVC:Não é por causa do pôster, é para saber o que aconteceu naquele dia. Então, por exemplo, o Santos Gilmar Lima, Mauridal, ele não jogou 10 anos juntos, ele jogou 10 jogos. Então tá, como é que jogou em 61 contra o Bahia quando foi campeão? Jogou Laércio, Lima, Mauridal, Musito e Calvé, Dorval, Tite, Coutinho, Pelé e Pepe. Como é que eu fiz isso? Eu sei o time base, são duas mudanças. O time de 62 que ganhou do Botafogo 5x0 no Maracanã é exatamente o time clássico. O time de 63 que ganhou do Bahia, de novo, era Gilmar, Ismael. Eu sei que Ismael era lateral direito do título mundial de 63. Então, Ismael, Mauro, Aroudo e Geraldino, Lima e Mengálvio, Dorval Coutinho.

Murilo Garavello:Você tem um pensamento visual? Você enxerga o campinho? Então você já sabe quem tá ali, né? Então, ah, tá faltando o lateral esquerdo aqui nessa posição.

PVC:Eu tenho, por exemplo, Aroudo era um zagueiro alto negro, eu lembro, eu visualizo ele. Sim, entendi. Ajuda, ajuda a entender que o time de 63 tinha Aroudo e que de 64 tinha Modesto e Aroudo. Mauro não O jogo do título Santos e Flamengo, o Mauro não jogou. Santos 4x1 no Flamengo. Associando, elaborando, vai fixando melhor. Você tem que ir fazendo conexões.

Murilo Garavello:Agora eu quero falar de um livro, é esse aqui: A Mente Organizada. Eu li esse livro faz uns, sei lá, uns 10 anos talvez. E ele tá todo grifado, eu nunca fiz isso com livro, eu meio tenho cuidado, que eu falo: "Não, depois outra pessoa vai ler." E esse aqui eu grifei, saí grifando.

PVC:E você não lembra por que você grifou?

Murilo Garavello:Eu lembro porque eu achei ele genial, eu não lembrava que eu tinha grifado, porque eu tenho ao longo do tempo, eu fui fazendo muitos métodos, eu tenho vários livros que são fichados, aí hoje em dia eu leio muito no celular usando o aplicativo do Kindle, daí eu grifo as coisas, então hoje em dia eu vou lá, pego tudo que eu separei do livro, né, Então, pra fazer os podcasts aqui, tá fácil. Esse aqui eu tinha tudo grifado. É um livro que eu tava revendo aqui, ele continua sensacional, e eu vou trazer algumas coisas que são do episódio e uma ou outra que nem são, mas que eu achei que valia a pena. Bom, primeira coisa que ele, como já dizia muito tempo atrás, antes de ter essa aceleração ainda maior que teve nos últimos anos, que tá rolando ainda essa aceleração, Que o nosso cérebro não foi feito pra lidar com o volume de informação que a gente tenta enfiar nele, né? Essa é a primeira constatação. O Daniel Levitin, que escreveu, ele é neurocientista e ele é músico também. Interessante essa... O cara estuda o cérebro e ele também é músico, provavelmente uma coisa ajuda a outra, né? Mexe com os dois lados do cérebro. E aí ele diz uma coisa, falando de memória, que memória não é replay, é reescrita. Então por isso que quando você vai lá lembrar do jogo que seu avô, que foi em março, mas para você era no Natal, porque a gente guarda fragmentos de fatos, a gente guarda padrões, a gente guarda associações, significados, e na hora de lembrar o cérebro faz uma nova reconstrução, ele vai uma sinapse ali, né, é um circuito elétrico pluga coisas que não estão juntas.

PVC:Eu tenho anotado aqui, que eu anotei naquele papel, famoso, aquele guardanapo, mas aí eu fotografei, coloquei no celular, para não perder palavras-chave, que você usou uma palavra-chave diferente da que eu tenho. A memória não é gravação estática, são reconstruções. Isso, é exatamente a mesma coisa de outra forma, né, com outras palavras.

Murilo Garavello:E é por isso que ela é intrinsecamente Falha editável e enviesada. E ela é autoconfiante, você tem certeza, porque você lembra. Não, eu lembro.

PVC:Era no Latao.

Murilo Garavello:A gente saiu de lá e já tinha árvore, eu lembro.

PVC:Já tinha árvore na tronca da vovó.

Murilo Garavello:E tem certeza, né? É assim que ela funciona, né?

PVC:E por isso é bom você fazer, um editor-chefe que eu tive, que foi o Sérgio Martins, na revista Placar, Sérgio Martins é o autor da matéria da máfia da loteria esportiva. O Juca Kfouri era diretor da revista, o Sérgio Martins era o repórter, e o Ronaldo Cocho, repórter fotográfico, apurou muita coisa junto com o Sérgio Martins. O Sérgio Martins foi meu editor e ele falava: não confia na sua memória. E ele tinha toda razão. Tem que checar. Claro. Lógico. E até hoje eu vou escrever, eu vou checar. Sim. É a melhor maneira de eu não escrever se não me engano.

Murilo Garavello:Sim, sim, sim. Essa é boa. Aí tem uma coisa aqui que eu notei que é pra mim, ó. Você não fica mais inteligente consumindo mais conteúdo, você fica mais raso e esquece mais. Por quê? Porque a sobrecarga destrói a nossa memória funcional, né? Então é aquela coisa, tá? Cada 10 segundos livres que eu tenho, já leio alguma coisa, já vejo alguma coisa, já converso com um, converso com outro, converso com outro. Chega no fim do dia, é tanta coisa que derrete.

PVC:Derrete, né? Derrete é uma forma de dizer, né?

Murilo Garavello:Evidentemente. Não é tudo que é muito isso, porque a memória de trabalho é um gargalo. Você tem, é um pouco que cabe ali, né? E aí é por isso que ele diz que é uma, é uma das coisas que ele mais recomenda, é que você tire as trivialidades da sua cabeça. Então, por exemplo, qualquer coisa que você tem que fazer que seja to-do list, etc., anota, seja no celular, dispositivo que você quiser, põe, tira da sua cabeça, pra você não ficar lembrando: "Nossa, preciso comprar aquele negócio, nossa, preciso... minha mulher me falou que eu precisava fazer não sei o quê." Cria algum sistema de organização que você vai tirar da sua memória pra ele não ficar lembrando. Por quê? Porque quando fica te lembrando, é mais uma coisa que faz você sair do presente. Você tá ali, né, com aquela trivialidade, 'Puta, por que que você precisa lembrar 57 vezes que a sua mulher pediu para você comprar pão?' Não, tem um sistema que você vai olhar ali, você, né, registrei, tá aqui, vou comprar e acabou. Não vai ficar voltando para minha cabeça.

PVC:Só esqueci de olhar o registro do sistema, porra, cara, na cozinha.

Murilo Garavello:É, então tá, aí tem o seu sistema que tá falho na sua cabeça, mas ele que é como se fosse uma extensão do seu cérebro, que senão você desperdiça a capacidade cognitiva tentando lembrar de uma coisa que não é.

PVC:Você sabe que o aniversário do seu melhor amigo, do aniversário da sua mulher é dia 4 de julho, você só não lembra que hoje é dia 4 de julho.

Murilo Garavello:Hoje é dia 4 de julho, exatamente, né. Então, mas aí você pode botar um alarme, alguma coisa desse tipo assim, né, já deixar lá setado.

PVC:É, hoje em dia para muita gente isso chama Facebook.

Murilo Garavello:Só que eu não uso mais.

PVC:Só que assim, só que a gente precisa lembrar que a gente é um ser humano e que a gente usa a tecnologia a nosso favor e não o contrário.

Murilo Garavello:É isso. Então bota um lembrete ali que pum, pisca na sua tela. Aí ele fala, eu lembro até que eu lembro muito bem disso porque eu tenho várias amigas que elas acham que elas são multitasking, né? "Nossa, multitasking e tal, homem não consegue fazer duas coisas ao mesmo tempo." Quantas vezes você já ouviu isso, né? Eu já ouvi, e em geral são minhas amigas. E aí eu lembro que eu li isso aqui, cheguei, ó, tá aqui o cara falando, ó: multitarefa é engano. O cérebro tem um sistema comutador de atenção e ele se esgota. A gente fica cansado e ineficiente mais rapidamente. Por quê? Porque cada troca de atenção destrói eficiência e memória. Eficiência e memória. Então, se você acha que você tá fazendo 4 coisas ao mesmo tempo, ah não, eu digitei alguma coisa aqui, depois eu venho para cá, depois eu venho para cá, daí eu converso com alguém, daí eu volto para cá, volto para cá, você tá consumindo uma energia muito maior do que se você fizesse isso, depois isso, depois isso, depois isso.

PVC:Então não faça um monte de coisa. Daniel. É, mas ele é homem, levitinho.

Murilo Garavello:É, vai ver que é isso, né? A capacidade de processamento da mente consciente foi calculada em 120 bits por segundo. Para compreendermos alguém que esteja falando conosco, precisamos processar 60 bits de informação por segundo, sendo o limite de processamento 120 bits por segundo. Significa que não dá para compreender direito duas pessoas falando conosco ao mesmo tempo. Então, por isso que duas pessoas falando, opa, né, é você ou é você, né, senão a gente não consegue. Aí outra coisa que ele disse, que decisão também consome muita energia cognitiva. E aí entra uma coisa, não interessa se é uma decisão complicada ou não, você tem um determinado número de decisões que você consegue tomar no mesmo dia. Isso quando eu li eu falei: nossa, por isso que eu só tô usando preto, porque aí não tem essa, né? Tem outras pessoas que fazem isso, eu não preciso perder tempo. Ai, que roupa que eu vou pôr? Já um preto qualquer, porque eu falei preto todo dia, uma questão a menos para ter que decidir.

PVC:Não sei se você já tinha ouvido falar disso, tanto faz uma decisão pesada, uma decisão Não, não pensei nisso, mas assim, eu acho que a gente tem que tomar decisões, e são decisões, ou seja, vamos lá, você pode ter uma decisão do trabalho séria e aí você vai pegar o carro para ir para praia, litoral norte, você vai pela Imigrantes ou você vai pela Ayrton Senna? Você precisa tomar uma decisão.

Murilo Garavello:Ah, o Waze toma, eu vou por ele. Não, porque é esse método mesmo que você fala assim: E é uma coisa que comigo acontece muito. Em geral, no meu dia, tomo muitas decisões. As pessoas vêm e tem várias coisas que você precisa ir resolvendo. E aí, muitas vezes em casa, eu sou meio, ai, aí, que você quer comer, meu? Escolhe aí. Meus filhos, mulher, namorada, seja lá o que for, pode escolher. Ah, mas você não escolhe nada, tal. Você soubesse a quantidade de coisa que eu escolho, já "Ah, tá bom, né?" Então é isso, tem um limite, né? E ele diz que o nosso cérebro não sabe priorizar as decisões. É como se o nosso cérebro fosse configurado para tomar um determinado número de decisões por dia. Chegando a esse limite, não pudéssemos decidir qualquer coisa a despeito de sua importância. No nosso cérebro, a rede de tomada de decisões não determina prioridades. Eu já tinha falado. Ele diz outra coisa, que categorizar é essencial para lembrar. Então funciona melhor o nosso cérebro quando você define categorias para encaixar cada coisa, para não ser um caos, né? Será que você faz isso de alguma maneira?

PVC:Categorizar? Sim.

Murilo Garavello:Conscientemente não, né?

PVC:Não, conscientemente não. Mas eu, por exemplo, quando as pessoas falam: "Ah, você lembra de tudo." E aí eu esqueci que Hoje é dia 19, eu comecei a namorar com a Adriana no dia 19, então dia 19 eu falo feliz dia 19. Aí eu simplesmente esqueci que hoje é dia 19, por exemplo. Aí eu só lembro no dia 20, falo assim feliz dia 19 ontem. E aí ela fica louca da vida. Não, não necessariamente.

Murilo Garavello:Mas ela sempre lembra?

PVC:Não, ela nem sempre fala, mas ela não precisa dizer que ela não lembrou, né, porque a obrigação é minha de lembrar. Porque eu sou mais ou menos a escalação do que Piracicaba, você lembra, né?

Murilo Garavello:E aí ele fala uma outra coisa para terminar, sair desse. Ele tem vários outros insights, mas eu vou— que o sono consolida a memória. E aí a gente vai entrar no livro do Siddhartha Ribeiro, que chama O Oráculo da Noite. Siddhartha Ribeiro é um professor titular de neurociência E ele é fundador e vice-diretor do Instituto do Cérebro da Universidade Federal do Rio Grande do Norte. E, cara, esse livro ele é uma aula, assim, ele combina biologia molecular, neurofisiologia, psicanálise, antropologia e literatura para decifrar as origens e os mistérios do sonho. E aí, o que ele diz é que o cérebro utiliza o sono para processar memórias e simular probabilidades. Preparando-nos continuamente para os desafios do amanhã. Então, é porque é para isso que a gente lembra, né? É para preparar a gente para o que vai acontecer. E por que que o sono é tão importante? Porque é onde o processo de reverberação da atividade neural da memória acontece. E é uma coisa que ele diz aqui, que a gente tem esse processo durante o dia também. Só que durante o dia a gente tem tanto estímulo que não é eficiente. E quando a gente dorme, ele fala assim, parafraseando Freud: "Sonhos são como as estrelas, estão sempre lá, mas só podemos vê-los durante a noite." Então, tanto o processo do sonho quanto o processo de formação de memória, ele está ativo durante o dia, mas é tanto estímulo que a gente tem e são todos feixes e feixes, um turbilhão de eletricidade rodando pelo nosso cérebro, me perdoem a minha ignorância científica, mas é um pouco esse...

PVC:Não, mas é isso, a questão do...

Murilo Garavello:não é ignorância, a gente não tá usando os termos científicos, mas o que acontece é meio isso, são muitos estímulos, né? E aí uma coisa que eu acho que é interessante assim, É uma metáfora com jornalismo. A gente tem 3 tipos de sono, né, mas basicamente são 2 os principais, que é o sono NREM, que é o sono de ondas lentas, e o sono REM. O sono NREM, ele é como se ele fosse o redator. Ele tá pegando tudo que aconteceu no seu dia e tá registrando, tá passando, mandando lá, aqui no hipocampo ele tá, né? Ele tá ali fazendo um monte de coisa. E aí o REM, o sono REM, ele é como se fosse o editor. O editor vai lá e ele seleciona desse monte de coisa o que que vai descartar e o que que ele vai puxar, o que que ele já vai associar com outras coisas, o que que ele vai grifar de coisas do passado com aquele novo negócio. E ele é muito criativo, então ele às vezes junta coisas outras, ele faz você sonhar coisas que, né, tem um pouco de verdade, um pouco de não, mas é nesse processo que a memória, que as conexões são consolidadas, né. E aí uma coisa, vou ler um pedacinho do que ele diz aqui, que a reativação de memórias durante o sono não as evoca perfeitamente como uma gravação sendo executada repetindo conteúdos da vigília, ao contrário, traga-se Trata-se de uma reativação viva, como uma banda tocando ao vivo e de memória. Por isso mesmo, o som é mais sujo, com o ruído das reverberações que disputam a atividade neuronal produzida durante o sono. O resultado final é mais jam session do que cópia exata, mais vinil do que MP3. Então, essa acontecendo, essa efervescência, exatamente isso.

PVC:O sono é o que ajuda a consolidar a memória. E que se você tiver questões que vão atrapalhar o seu sono, não o álcool, a droga, ou simplesmente supressão de sono, dormiu pouco porque, né, falta de sono, tudo isso vai dificultar a consolidação da tua memória.

Murilo Garavello:Exatamente isso. Por isso que é uma, aquela coisa, né, que todo mundo diz para, para as crianças, que é pros filhos, né? Fundamental, tão fundamental quanto estudar, dormir, né? Eu vejo lá meus filhos estudando para prova até de noite para caramba. Não, tem que dormir, senão você não vai lembrar de nada amanhã, né? Sem sono, as memórias simplesmente deixariam, desapareceriam rapidamente sem deixar vestígios, né? E aí ele conta o caso de um paciente chamado Henri Gustave Mollison, que ele tinha crises epiléticas e aí tiraram os dois hipocampos dele, o direito e o esquerdo, e aí ele teve uma amnésia profunda e irreversível para novas memórias, então ele não conseguia mais decorar nada, ele conseguia saber seu nome por alguns minutos enquanto estava na memória de trabalho, mas como ele não tinha hipocampo ele não conseguia E foi por causa dele que fizeram vários avanços nessa ciência. Mas ele lembrava de coisas muito antigas que estavam cristalizadas no córtex.

PVC:Pra quem não tiver a noção do que a gente está falando, o hipocampo é uma área do cérebro que vem aqui da têmpora até aqui atrás das orelhas, aproximadamente, né?

Murilo Garavello:Isso, é exatamente isso. Tem uma série na Amazon Prime Video chamada Doc, Nelle Tue Mani, é uma série italiana O personagem principal é um médico que toma um tiro e ele quando acorda ele perdeu 12 anos da vida dele. E aí então ele é como se ele tivesse ido para o hospital naquela época, né? E ele acorda e: "Cadê meu filho?" e tal, não sei o quê. E ele não sabe que o filho dele morreu na verdade e ele não sabe que ele não é mais casado com a ex-mulher. E aí é super interessante a série, é meio estilo Dr. House. Cada episódio tem um paciente diferente e tal. É baseado numa história verídica de um médico italiano que sofreu um acidente de carro e perdeu a memória, justamente isso, 12 anos, né? Chama amnésia retrógrada grave. O cérebro preserva várias das capacidades, ele só não se lembra de muita coisa que aconteceu. E aí o que explicam é que não é É meio ficcional a série da Amazon.

PVC:Por quê?

Murilo Garavello:Porque você nunca apaga exatamente 12 anos e você não lembra nada só desse período. É tudo muito difuso. Tem coisas que você se lembra porque a nossa mente é essa coisa irregular, né? Não é um filme: "Ah, queimou a partir do minuto 20", né?

PVC:Não é uma fotografia.

Murilo Garavello:Não é uma fotografia. Você tem lacunas, ilhas de memória, confusões, né? Mas é justamente o que falha nele, é o hipocampo.

PVC:Que a senhora, que assim, de novo, da gente voltar para aquela questão que a gente disse agora pouco, não é uma fotografia, são fragmentos, é colcha de retalhos. Mas ao mesmo tempo, quando a gente fala na consolidação da memória, é quando ela é impressa no cérebro. É incrível, é engraçado, porque assim, tem palavras que são complementares. Ela não tá fotografada, mas você imprime como se fosse um jornal, né? Você imprime no cérebro e fica lá registrado no córtex cerebral. E primeiro vai pro hipocampo. É muito, é muito fascinante você ficar descobrindo como é que você tem uma máquina dentro do seu próprio corpo.

Murilo Garavello:É muito fascinante.

PVC:Que na verdade Ou em outras palavras, como você é uma máquina.

Murilo Garavello:Sim, sim. Não, e é inclusive, tem outro episódio aqui do meu podcast, que a biotecnologia hoje ela usa células humanas, mecanismos celulares humanos para armazenar dados computacionais, né? É justamente, tá virando uma coisa só. Fundindo e emprestando tecnologia do corpo humano. Eu queria falar também de Divertidamente, porque acho, quando a gente fala de memória, o Divertidamente é um desenho animado. PVC não viu, né?

PVC:Eu, assim, eu não, eu sou muito indisciplinado com os desenhos, porque assim, meus filhos cresceram.

Murilo Garavello:Não, mas esse é aquele filme de desenho que os adultos gostam, porque ele é bonitinho.

PVC:Tem as emoções, né? Tem a tristeza, tem alegria.

Murilo Garavello:Sim, e o que tem de legal é que eles, eu não sei profundamente da história, mas eu lembro de ter lido que eles, se não me engano, não, mas eles tiveram consultoria de neurocientistas, etc., para fazer uma coisa que eles têm licenças poéticas, então tem coisas que são verdade, tem coisas que não. Então eu queria até entrar para dizer onde ele acerta, né? Lá as memórias são esferas, né? Então cada experiência vira um objeto visual, fica guardadinho assim, né? Com a cor da emoção dominante, né? Aí você tem as memórias centrais, que são tipo como se fossem as ilhas, né? Então você tem a ilha da família, a ilha das amizades, que tem várias, são as suas grandes, digamos, todo mundo tem, né? Ah, eu tenho o trabalho, tenho meus filhos, tenho mulher, tenho o que eu gosto de fazer, né? Então você tem lá as suas ilhas, as memórias são armazenadas em prateleiras, como se tivesse lá, né, cada coisa na sua gavetinha assim, e as memórias antigas vão lá, são jogadas para o esquecimento, viram pó. Então tem uma coisa interessante, tem também a reescrita emocional, que as memórias podem virar, podem mudar de cor, enfim, tem toda essa... E aí, onde ele acerta, né, que a memória não é um replay fiel, então no filme, né, as memórias mudam de cor, então dependendo do que de como você sente uma coisa, de como você passa a interpretar uma coisa, muda o objeto, muda o sentimento associado àquela coisa. Então, isso acontece na nossa vida, né? Eventualmente, um dia que tava sendo, que você lembra como triste, depois acontece uma outra coisa que reconfigura esse dia.

PVC:Ou o contrário, né?

Murilo Garavello:Ou o contrário, exatamente. Por exemplo, se o Brasil tivesse ganhado da Itália, seria um dia feliz.

PVC:Aí depois você vai lembrar: "Pô, foi o último dia que eu vi minha avó." É uma coisa que provavelmente, eu não sei, teria até perguntado meu pai, mas minha avó paterna, Maria Emília, é mãe do meu pai, era mãe do meu pai. Eu tenho quase certeza que meu pai não sabe que foi no mesmo dia. O último dia que ele viu a mãe dele foi o dia. Eu tenho quase certeza que não, nunca perguntei isso para ele, mas acho que tenho quase certeza que não. Para mim é muito forte. Eu lembro muito do caminho que eu fiz do Parque Continental até a Perdizes. Eu saio, o caminho que a gente fazia, eu lembro do caminho, eu lembro de descer a Rua Piracuruã. Não, eu lembro direitinho desse dia. A gente viajou dali. Eu lembro do meu irmão chorando. Eu nunca chorei por causa de futebol. Então, bom, aí falando futebol, amo futebol, mas nunca chorei por causa de futebol.

Murilo Garavello:Nunca chorou?

PVC:Nunca chorei por causa de futebol, por causa de futebol. Posso ter chorado porque morreu um personagem ligado ao futebol, mas por uma derrota, eu não acho que chorar mesmo, não chorei, mas já fiquei triste para caramba.

Murilo Garavello:Sim, mas já tive tristeza de dias assim. O que que o filme distorce? Que não é bem assim, né? Não tem prateleiras de memórias, né, como a gente tá dizendo aqui, são fragmentos, são fluídas, né? É assim, as emoções elas não são tão definidas, né? Você não consegue pegar uma, essa aqui é uma memória feliz. Tem várias coisas que são agridoces, tem nuances, tem, né? As coisas são mais complexas, né?

PVC:Você pode ter lembranças de um sentimento, uma sensação que você teve que misturou Raiva e amor.

Murilo Garavello:Exato, exato. Então, e aí a outra coisa que a memória, depois que ela é armazenada, ela não é estática, que não é replay.

PVC:É história do 11 de setembro ou do trauma, né? O estudo da Elizabeth Loftus que fala sobre traumas a partir de uma experiência dela, porque ela viu a mãe morta na piscina da casa dela, e depois ela entendia por que que ela não lembrava da cena, não conseguia se lembrar. E o tio dela disse: porque você foi a primeira pessoa a ver. Aí ela foi recuperar a história, e quando ela entendeu, decifrou o que tinha acontecido com ela, o tio dela disse: me enganei, você não foi a primeira pessoa a ver. E ela foi estudar a partir dali as memórias traumáticas. A Elisabeth Loftus foi chamada a depor no julgamento da Elisabeth Maxwell, da Guinette Maxwell. Ah, não é Guinette, primeiro nome dela, Maxwell, que era companheira do Epstein, porque a defesa da Maxwell argumentava que as vítimas do Epstein tinham memórias traumáticas e que confundiam coisas, e que portanto ela não era culpada, a Guinette Maxwell. E ela foi depor, o depoimento dela não mudou a sentença, porque ela foi condenada, a Maxwell. E a Maxwell, que foi companheira do Epstein, é filha de um cara chamado Robert Maxwell, foi um grande picareta do futebol inglês nos anos 80. É, quando começou a se falar mais e mais e mais do caso Epstein, eu fui me aprofundar e fui lembrar da história da companheira dele, da Maxwell, e falei: mas quem é essa moça? Britânica, filha do Robert Maxwell. Robert Maxwell, o dono do Oxford. Aí eu fui ver o dono do Oxford, ele comprou o Oxford, promoveu o Oxford da terceira divisão para primeira divisão, foi campeão da Copa da Inglaterra em 35. E aí ele tentou comprar o Reading, e aí ele tentou fazer a fusão do Oxford com o Reading, as torcidas não aceitaram, ele quebrou o Oxford. E ele tentou comprar o Manchester United, os caras disseram: não, não, amigão, aqui não, aqui você não vem não. E ela é a companheira do Epstein que foi condenado, Ghislaine Maxwell. Filha do Robert Maxwell e se pegou o estudo da Elizabeth Loftus para tentar inocentar a Ghislaine Maxwell. Não se conseguiu inocentar porque ela, vou dizer, tinha outros elementos também. Exatamente.

Murilo Garavello:Vamos entrar no livro que o PVC tava dizendo, e por causa dele eu fui atrás. Eu li metade dele e tô gostando, tô achando interessante. Chama Peak: Secrets of the New Science of Expertise. Deve ter versão em português, né?

PVC:Tem versão em português que fala que é mais ou menos o segredo de ser o melhor no que você faz.

Murilo Garavello:E aí ele conta o caso, eles pegaram, né, o jovem Mozart, né, como exemplo. Você lembra disso tudo?

PVC:Eu lembro, porque a história é que assim, você fala sobre o estudo do ouvido absoluto.

Murilo Garavello:Isso, exatamente.

PVC:É impressionante. E aí o Akaiyo Sabaki Kara, Ayako Sakakibara. Ele, bom, primeiro que você entende que você tem, quem tem ouvido absoluto, uma pessoa em cada 10 mil pessoas pode ter ouvido absoluto.

Murilo Garavello:Ouvido absoluto, para quem não sabe, é você ouve um assobio e você sabe que o assobio tá em dó maior, né? Você consegue distinguir absolutamente os sons, você consegue saber qual é nota. E é difícil.

PVC:E é difícil a ponto de que Mozart tinha, mas Brahms não tinha. Frank Sinatra tinha, Miles Davis não tinha.

Murilo Garavello:Sim.

PVC:E assim por diante. Então uma pessoa em cada 10 mil tinham.

Murilo Garavello:E o que que se imaginava? Que ter ouvido absoluto é ter um dom.

PVC:Isso é um dom?

Murilo Garavello:Não é um dom, é trabalho. E foi isso que a psicóloga japonesa, né? Ayako.

PVC:Ayako.

Murilo Garavello:É difícil o nome dela. Sakakibara.

PVC:Sakakibara.

Murilo Garavello:Tenho colinha aqui. Ela é da escola de música de Ishionkai, em Tóquio, né? E ela fez um estudo com 24 crianças entre 2 e 6 anos. E durante alguns meses elas participavam de 4 a 5 sessões curtas por dia. Apenas alguns minutos cada, e cada criança continuou no treinamento até conseguir identificar os 14 acordes selecionados pela professora.

PVC:Eram 24 crianças.

Murilo Garavello:24 crianças, 14 acordes durante 2, durante alguns meses.

PVC:Não, teve gente que conseguiu chegar mais rápido, teve gente que chegou em 1 ano e meio.

Murilo Garavello:Sim, mas todo mundo chegou, todas as 24 crianças estavam com ouvido absoluto depois desse treinamento. Esse treinamento deve ser bom, mas não só dentro desse trabalho.

PVC:Exato, que é uma coisa que você pensar que uma em 10 mil pessoas tem e 24 de 24 conseguiram, isso é um dom, é claro, mas não é apenas.

Murilo Garavello:Exato. E aí, qual, o que que o livro diz, né? Claro que dos 2 aos 6 o cérebro muito mais maleável, né, muito mais neuroplástico do que depois. Mas depois continua tendo neuroplasticidade, que você continua capaz de aprender essas coisas dos números, do cara que não conseguia estudar, guardar uma sequência de 6 números. Sim.

PVC:E depois ele começa a guardar. Depois ele guardava sequências de 13, depois de 14, depois de 15, e com treinamento. E assim chegou num ponto que ele não conseguia passar do oitavo número, e de repente ele, 9, 10, 11, 12, 13, 14, 15, como se fossem listas telefônicas.

Murilo Garavello:Ele chegou a 82 números seguidos. Mas é, qual que era o truque dele? Ele lembrava sequências. Então ele junta, é que nem aquela coisa, eu lembro quando tinha que decorar telefone E aí eu tinha um telefone que terminava com 1180. Até hoje, acho que o telefone da casa dos meus pais termina com 1180. Qual que é o truque? 4 números viraram 2, né?

PVC:Então é uma 5345217. Esse foi o telefone que eu telefonei para Editora Abril no dia que eu arrumei um emprego na revista Placar. Era um número que depois eu dividi a mesa, foi a minha mesa, mas tinha duas mesas E nas duas mesas tinha um número de telefone só, 534-5217. Com quem eu dividi a mesa? Celso Muzelti.

Murilo Garavello:É mesmo?

PVC:534-5217.

Murilo Garavello:Não esquece nunca mais, né?

PVC:Você condensou uma parte. Gilmar Lima, Mauri Dalmo, Zito e Calvé, Dorval Mengávio Coutinho, Pelé e Pepe.

Murilo Garavello:Você já juntou Gilmar, Gilmar, não. Não, não, isso aí poderia soltar.

PVC:Laércio Lima, Mauri Dalmo, Zito Calvé, Dorval Tite, Coutinho Pelé.

Murilo Garavello:Vê que ele vai desenhando no campinho dele ali.

PVC:No WM, é.

Murilo Garavello:Tem outro estudo bacana que aparece no livro, que é o dos taxistas de Londres, né? Porque, pra... Eu não sei se esse estudo ainda existe, será que essa prova ainda existe? Que antigamente, pelo menos na época do livro, para ser taxista em Londres você tinha que conhecer 25 mil ruas lá e tal, e tinha que saber vários itinerários seguidos, né? E aí ela foi pegar o hipocampo dos taxistas de Londres, era mais desenvolvido do que quem não era taxista. Aí comparou com motorista de ônibus. Motorista de ônibus faz sempre o mesmo caminho. Hipocampo menor. Aí ela falou: não, então vamos pegar quem tá começando agora, né, a fazer o treinamento para virar taxista. E aí ela fez quem ela foi pegando, quem ia melhorando ia crescendo hipocampo, quem saiu é porque o hipocampo era menor, né, e quem passou, hipocampo era maior. E aí pegou, tá não satisfeita, ela também pegou ex-taxistas e o hipocampo já tinha sido reduzido.

PVC:Então é uma coisa que ficou meio provado, né? Um amigo meu chamado Jonas que costumava fazer essa brincadeira e ele fazia em São Paulo. Ele e o irmão dele conheciam todas as ruas de São Paulo. Ele era diagramador e taxista. E aí eu fui morar no Rio de Janeiro, entrei no carro da Fox pra ir pro Maracanã no dia da final da Olimpíada de 2016 e falei: "Agora você vai morar aqui?" "Vou, vou morar aqui." "Você conhece o Rio de Janeiro?" "Não." Eu conheço o Rio de Janeiro. Não, você conhece o Rio de Janeiro? Você tá morando aqui agora. Eu falei assim, cara, eu e minha mulher conhecemos todas as ruas do Rio de Janeiro. Aí, você tá brincando comigo? Tá de sacanagem? Falei, fala uma. Aí ele falou Raul Pompeia. Eu falei, em Copacabana. Ele falou duas, três, quatro, cinco, acertei todas. Aí ele falou Joana Angélica. Eu falei, essa daí é minha mulher que conhece.

Murilo Garavello:Yes.

PVC:Sim, eu não conheço, mas assim, eu sempre gostei muito dessa história, dessa brincadeira, por causa justamente disso, que o taxista é um motorista profissional, né? Os motoristas de Londres são motoristas profissionais, acho que até hoje são. Eles podem não precisar decorar mais 25 mil ruas porque eles vão usar a tecnologia a favor deles. Mas eles precisam conhecer o mínimo da cidade para não entrar na vila do João.

Murilo Garavello:Sim, sim. E o livro tem uma coisa interessante, né? Os dois autores, eles— eu não sei se foi esse livro que foi— não, acho que não foi esse livro que foi base. Acho que eles fizeram outro livro que foi base para um livro do Malcolm Gladwell, fez muito sucesso, que é aquelas que ele trouxe história do Outliers, o livro do Malcolm Gladwell, das regras, da regra das 10 mil horas, que aquela história, se você treinar 10 mil horas você vai ficar bom em qualquer coisa. E aí o livro fala, opa, não foi, não foi isso que eu disse, né? Ele bota pingos nos is, assim. Então eu acho que é interessante porque muita gente já falou, então sempre uma oportunidade de esclarecer o mal-entendido vale a pena, né?

PVC:Que eu acho que Também tem uma questão do seu interesse, da sua vocação. Eu acho que assim, a gente está chegando num ponto, chegamos nesse ponto, né, da história do Fallon, de que, ou da história do Pequeno Mozart, que é um dom, mas não é só. Se você juntar trabalho A chance de dar certo é muito grande. Você não pensar assim: ah, eu não tenho, eu não consigo me lembrar porque eu não tenho esse dom. Não é bem assim. Ah, mas então se eu trabalhar eu vou ter esse dom? Não, você vai melhorar muito. Se você tiver presença, atenção, você vai melhorar muito. Ah, então vou resolver todos os problemas? Não, não é só um dom. E também não é só trabalho, mas trabalho é grande parte.

Murilo Garavello:Sim, o que ele diz e que ele enfatiza muito é que não pode ser 10.000 horas do mesmo que você tá fazendo a mesma coisa que não tem nenhuma dor de crescimento. Na verdade é treino deliberado, né? Então ele até diz aqui as lições práticas, né? Você precisa praticar fora da sua zona de conforto. Então precisa ser uma coisa que se você faz o que tá confortável não serve. Você precisa aprender alguma coisa nova, você precisa ter de preferência alguém que tá te orientando e ensinando você adquirir habilidades novas ou técnicas novas, ou tá fazendo você avançar em direção aonde você precisa estar, né?

PVC:Qual foi o ano que nasceu, que foi assinado o Tratado de Tordesilhas?

Murilo Garavello:Tordesilhas foi 1500 e alguma coisa, né? 1600?

PVC:Não, 1494.

Murilo Garavello:Antes da—

PVC:6 anos antes da descoberta do Brasil. Você falou de desafio, de se desafiar, embora esteja me desafiando com a mesma coisa, né? Dukkadam, Jovan, Bombesco, Barbolesco e Balan. Magiaro, Balint, Belodedici e Bologna. Magiaro, Bologna, Belodedici e Balint. Lakatus e Victor Piturca, técnico emeréque de Genei. Esse é o Steaua București, que ganhou a Copa da Europa, Champions League de 1986, contra o Barcelona em Sevilha. Foi o último time campeão da Champions League, Copa dos Campeões da Europa, sem nenhum jogador estrangeiro. Nossa, é uma delícia! Serve para quê? Serve para eu saber, serve para eu ter o conhecimento. Todo time. Qual foi o último time da Libertadores que ganhou a Libertadores sem ter nenhum jogador estrangeiro? O River Plate de 2018. E daí na Europa? 1986, Steaua Bucarest. Tem uma história do Kadã que é maravilhosa porque foi uma entrevista que eu fiz com Jorge Raje na Copa de 94. O Brasil jogou com os Estados Unidos dia 4 de julho e o Juca no dia seguinte ia para Dallas com o Pedro Martinelli. E eu falei, eu não vou, Juca, eu vou ficar aqui. Por quê? Porque eu vou entrevistar o Hagi. Pronto, o Hagi naquele momento ele tava de final, o melhor jogador da Copa. E eu era camisa 10 da Romênia, e o Hagi tinha jogado na Itália, e eu falo italiano, e tinha jogado no Real Madrid, espanhol é mais fácil. E eu telefonei, e o Juca não sabia disso, tinha telefonado para o hotel do Raj, tinha pedido para transferir para o quarto do Raj, e o hotel transferiu. E eu falei com ele, ou em italiano ou espanhol, acho que espanhol, e ele falou: "Ah, pois não, vem aqui às 2 da tarde." E eu fui entrevistá-lo às 2 da tarde. E o Juca foi para Dallas, e eu fui no dia seguinte. O Juca aprendeu. Beijo, Juca! O Juca aprendeu a me respeitar muito nesse episódio, velho. E aí fomos eu e o Nelsinho Coelho, fotógrafo, e a gente chegou meia hora antes, 15 minutos antes, toquei na recepção, ninguém atendeu no quarto dele. Falei com alguém, o cara falou: aquele ali que é o assessor de imprensa. Vou falar com o assessor de imprensa. Ele me distratou, disse: pode esquecer que ele não vai falar, o técnico mandou descansar. Vou fazer o quê? Dar um murro na cara do cara? Sentei, fiquei esperando. 2 da tarde em ponto, abre o elevador, sai o Raj na minha direção, o assessor de imprensa vai na direção dele e falou assim: não, não, eu vou falar. Ele veio para mim e falou assim: vamos ficar atrás daquela parede porque o assessor não quer que a gente fale, o técnico não quer que a gente fale, mas eu já combinei com você. Aí sentamos ali e ficamos ali. Aí eu perguntei para ele sobre o Dukadam. Dukadam, Jovan Vumbesco Barbulescu, Maggiaro, Bologna, Belo de Dite e Balint. Victor Lakatus e Victor Piturca. Mário Lakatus e Victor Piturca. É verdade, Raj, que o Duca Adán teve as mãos marteladas a mando do Nicolae Ceaușescu, o ditador? Ele falou: não, não é verdade. Mas essa história corre muito na Romênia, e é verdade que o Ceaușescu tinha um ciúme maluco dos jogadores e dos atletas. Nadia Comaneci morria de ciúme dos jogadores campeões da Champions de 86, do Steaua București, morria de ciúme. E o Ducadam pegou 3 pênaltis do Barcelona, e o Barcelona, o Steaua București foi campeão em Sevilha contra o Barcelona porque o Ducadam pegou 3 pênaltis na decisão por pênaltis. Então muita gente fala que ele mandou martelar as mãos do duca mesmo, mas não é verdade. O duca Dant teve uma doença circulatória nas mãos e precisou parar de jogar futebol precocemente. Mas é por isso, pelo ciúme do Ceaușescu, que quando caiu a ditadura eu disse para mim mesmo: vou falar com jornalista que quiser falar comigo no mundo inteiro, porque esse é meu trabalho, divulgar o meu trabalho. Por isso que eu tô aqui falando com você. Olha que legal. E eu lembro dessa história do Dukadam, porque eu conheci o Dukadam e eu fui aprender que o Steaua București foi o único time, o último time a ganhar a Champions League sem nenhum jogador estrangeiro.

Murilo Garavello:Aí merece guardar o nome mesmo, né?

PVC:E aí assim, é muito doido porque a gente fala de consolidação da memória, chega uma hora que é uma hora que a memória tá consolidada num nível que não é mais memória, é conhecimento.

Murilo Garavello:Sim, aí nesse caso você tem conhecimento direto de pelo menos 2 jogadores. Vamos para o livro que você citou, né? É um dos livros do Palácio da Memória, chama Moonwalking with Einstein, mas aqui no Brasil é A Arte e a Ciência de Memorizar Tudo, do Joshua Fowler. Ele é um jornalista que foi cobrir um campeonato de de memória nos Estados Unidos. Ele foi achando assim, cara, quem são esses gênios, né? Vou encontrar uns caras aqui que são. E ele foi lá, viu que eram uns caras normais, tal. Porra, será que qualquer um pode fazer isso? E aí ele assumiu, ele aceitou o desafio de alguém e falou, não, vou tentar virar um campeão de memórias, né? Tem campeonato lá. E aí ele pegou um dos caras que era veterano desse tipo de competição para ser o tutor dele, né? E aí ele conta a história e vai explicando de onde vem, etc., etc., etc. Essa técnica é uma técnica de mais de 2500 anos. Diz a lenda que vem do poeta grego Simônides, e diz que ele saiu de um banquete bem antes do teto desabar. E ele, quando fechou os olhos, ele conseguiu reconstruir mentalmente a disposição de cada vítima, né? Então ele sabia, ele foi ele que identificou os mortos. Essa é a lenda, como passou pela história.

PVC:Passa a ser uma, você usa como cada objeto que você quer identificar, você identifica com um pedaço da casa.

Murilo Garavello:É, a teoria é o seguinte, é o método dos slots, né? Criar um espaço imaginário bem conhecido. Então você pega, por exemplo, pega uma casa da sua infância, né? E aí você deposita imagens bem vívidas e bem distintas em cada pedacinho. E aí você vai deixar lá, né? Então, sei lá, você cria no seu quarto uma árvore de Natal com uma cabeça de bode. Que significa alguma coisa e ela tá ali. Então sempre que você for pra lá, você vai ter a sequência das imagens, mais ou menos.

PVC:É, você tá falando isso, que é uma técnica que eu não uso, que é uma estratégia que eu não utilizo, que eu vou— você tá falando isso, eu tô pensando na minha casa de que eu vivi dos 8 aos 13 anos. Eu tô pensando no quintal onde tinha, eu jogava bola no dia que eu comprei figurinha do Botafogo. Ou o quarto onde eu li o primeiro livro que uma professora da 5ª série me deu.

Murilo Garavello:Então, e aí você pode, a partir daí, porque qual que é a pegadinha, né? Que o nosso cérebro, ele é muito bom com espaços e imagens, né? Ele é péssimo com listas abstratas, números e nomes. Então, se você transforma o que ele não consegue guardar tão bem, em alguma coisa que ele é melhor em guardar, é um pouco esse é o que tá por trás da técnica, né? Então você cria imagens vívidas depositadas em lugares conhecidos. Então aí ele dá um exemplo aqui, né? Você tem que— quanto mais é uma codificação elaborativa, então quanto mais ganchos associativos uma informação tem, cheiro, sabor, movimento, amor, erotismo, mais firme ela tem, mais forte ela é, mais, mais maior a chance dela cristalizar. Então ele fala assim, ó, o Ed pede para o Fowler, né, usar a casa onde ele cresceu, não uma construção imaginária, um espaço íntimo e já mapeado no seu cérebro. Então digamos que a sua é onde você lia as revistas. O percurso deve ser fixo e ter uma lógica espacial clara. Aí ele fala assim, porque ele fez uma lista de compras, né? Ele fala assim, por exemplo, na entrada da garagem, o item é picles de alho. Imagine um grande frasco de picles de alho exatamente onde o carro deve ser estacionado. Processe multissensorialmente, sinta o cheiro do alho, imagine o sabor, exagere nas proporções. Então você faz um alho do tamanho do mundo na entrada Porta da garagem, porque é a lista de compras para eles, né? Aí, porta da frente, o item queijo cottage. Imagine uma enorme piscina rasa de queijo cottage. Agora imagine a Claudia Schiffer nadando nua e cheia de creme. Imagine bem a Claudia Schiffer no cottage nua, nua. Esse tipo de bizarrice assim para você, né?

PVC:Não, então assim, eu tenho os meus bizarrices, mas essa palavra memória, para mim, ele é muito abstrato, ele é muito difícil. Eu, por exemplo, falei o ponta-direita desse 4-4-2 do Stéphane Bucharest, ele não era húngaro, ele era romeno, mas ele é magiaro. Magiar é húngaro, não, ele não é húngaro, ele é romeno, então ele é magiaro. Eu transformei para uma coisa que funciona para mim. A Claudia Schiffer, não funciona para mim.

Murilo Garavello:Mas é que isso aí não é uma imagem, né? Isso aí é uma— você funciona trocando nomes, é associação.

PVC:É uma associação, porque senão adianta. Eu acho que é muito, é muito maravilhoso a gente saber que existe a técnica do Palácio da Memória, é muito extraordinário, sensacional, fascinante a gente entender como foi criado o Palácio da Memória. Mas se o Palácio da Memória é uma técnica confirmada, mas que não serve para você, Exato, mas também tem o seguinte, né, ninguém pode só ouvir eu falando aqui e, ah, puta, isso aí não serve, eu vou lembrar para sempre de vocês falando da Claudia Schiffer.

Murilo Garavello:Então, mas você precisa treinar um pouquinho, né, não é que no primeiro dia que você testar já, puff, né, já virei um mestre da memória porque agora tem essa técnica. Como tudo, você precisa de prática, né, não Não tem milagre, né? Acho que isso é exatamente. E aí tem uma coisa interessante aqui, ele contou de um personagem, né, que ele gravava tudo. É o engenheiro Gordon Bell da Microsoft, né? E há décadas ele grava literalmente tudo, ele guarda cada e-mail, cada telefonema, cada documento, ele anda com uma câmera digital presa que ele faz no pescoço, ele faz um live logging. Então ele tem tudo que já aconteceu na vida dele. Eu acho que isso é cada— tem cara de futuro assim, né? Acho que até tem no Black Mirror da Netflix, deve ter isso, aquela coisa tipo se a gente tivesse um— o nosso olho tivesse filmando tudo e virasse tudo que você já viu tá sendo processado e guardado num arquivo lá, e depois você consegue buscar por inteligência artificial. Acho que vai ser um pouco isso que vai acontecer daqui um tempo.

PVC:Pode ser, mas ao mesmo tempo, como você tem uma ideia, para quê, né? Então, pois é, porque a máquina, a câmera, ela vai ter um limite de memória, então, né? Ou se ela não tiver um limite de memória, se ela tiver um limite de memória, ela vai ter que esvaziar, como o nosso cérebro faz com sono.

Murilo Garavello:Máquina, talvez não precise. Máquina pode ser que ele tem um jeito de armazenar armazenar aqui, né?

PVC:Esse aqui não chega uma hora que nem tem um limite?

Murilo Garavello:Esse aqui tem, então, mas o que estão criando aí, o limite tá cada vez maior. Sim, é tudo bem, tá na cloud lá, é bom custo, mas tá caindo também. Mas aí entra no, no outro livro, Borges, clássico, classicíssimo, nesse Ficções, que é o livro mais conhecido dele, de 1942.

PVC:Tem um curso, Borges, aquele que jogou no Palmeiras 83. Não, não é, não é o campeão pelo São Paulo, no Cruzeiro, claro, e no Santos. Não, ele é muito mais São Paulo que qualquer outro.

Murilo Garavello:Não conta, ganhou, foi, ele tava nos 3 do São Paulo, acho que tava.

PVC:Não, só no oitavo, só no de 2008, só o último, só o penúltimo. Não, não, penúltimo era, era da Roberta Luiz. Vamos fazer os 3 times? Puta, aí você me quebra.

Murilo Garavello:Eu acho que eu lembro.

PVC:Rogério, Cinho, Fabão, Miranda e Júnior. É, 3 zagueiros, pelo amor de Deus. Não, não, e 6. Foi campeão contra o Atlético Paranaense 1x1 jogando com linha de 4. Ah, o último jogo. É, o jogo do título. Rogério, Cinho, Fabão, Miranda e Júnior.

Murilo Garavello:Sempre tem 3 zagueiros, time do Muricy.

PVC:Aí era Josué Mineiro, Souza e Danilo. Leandro e Aloysio, 2006. Em 2007, São Paulo 3, América de Natal 0, era Rogério, Alex Silva, não, Rogério, Breno, André Dias, Miranda e Júnior. Da direita para esquerda: Leandro, Hernanes, Richardson e Jorge Wagner, da Roberto e Aloysio. Depois saiu Júnior, Jorge Wagner vira Alan. Não, aí em 2007, mas depois, mais tarde, Em 2008, que é o time campeão contra o Goiás lá em Goiânia, 1x0, gol do Borges, é Rogério, André Dias, Rodrigo e Miranda, Joilson, Hernanes, Richarlison, era Dianma, na final jogou Richarlison, Hugo e Jorge Wagner, era aí Jorge Wagner, Tartarugo, gente, sou mau com meus amigos, ele era devagar, mas ele chutava bem, Dagoberto e Borges. E o Santos da Libertadores era Rafael, Danilo, Edu Dracena, Durval e Léo, Adriano, Adriano e Adriano e Arouca, Elano, Ganso, Neymar e Borges na frente. O Borges foi campeão brasileiro pelo Cruzeiro em 2003.

Murilo Garavello:Ele era melhor do que as pessoas pensam, né?

PVC:Não, o ataque do Cruzeiro de 2013 era da Goberto e Borges. Era da Goberto e Borges. Da Goberto, ponto esquerdo. É assim, mudei tudo que a gente falou do Borges.

Murilo Garavello:Borges, não, mas vamos voltar pro Borges.

PVC:Borges muito mais importante.

Murilo Garavello:Esse é mais importante que aquele.

PVC:José Luis Borges.

Murilo Garavello:E aí tem um conto aqui que se chama Funes, o Memorioso, que vem a calhar pro nosso episódio aqui. E é um personagem uruguaio que ele caiu do cavalo, na verdade o Borges conta essa história, é ficções, né, então não é uma história real, mas conta-se que era um menino que tinha 19 anos e ele caiu do cavalo, e depois que ele caiu do cavalo ele ficou, ele não esquecia mais nada, ele retinha absolutamente tudo que ele via. E daí ele falava que o cachorro, que o cachorro de agora, de 2:14, não é o mesmo cachorro de 2:15, porque 2:14 ele viu o cachorro de frente 2:15, ele já viu, deixou de lado. É, e aí, olha isso, vou passar um trecho bem— diz que ele era o relógio humano porque ele sabia as horas, qualquer hora que fosse, porque ele tava, ele sabia tudo, né? Ireneu começou por enumerar em latim e espanhol os casos de memória prodigiosa registrados pela Naturalis Historia. Ciro, rei dos persas, que sabia chamar pelo nome todos os seus soldados de seus exércitos. Mitrídates Eupátro, que ministrava justiça nos 22 idiomas de seu império. Simônides, aquele inventor da mnemotécnica, que é a técnica do palácio da memória, né? Metrodoro, que professava a arte de repetir com fidelidade o que escutar uma única vez. Com evidente boa-fé, se maravilhava de que tais casos pudessem maravilhar. Duas ou três vezes tinha reconstituído um dia inteiro. Cada reconstituição tinha exigido um dia inteiro, porque ele lembrava de absolutamente tudo. Disse-me: eu sozinho tenho mais lembranças que terão tido todos os homens desde que o mundo é mundo. Minha memória, senhor, é como um monte de lixo. Aí ele tinha, tinha aprendido sem esforço. O inglês, o francês, o português, o latim. Suspeito, contudo, que não fosse muito capaz de pensar. Pensar é esquecer diferenças, é generalizar, abstrair. No mundo entulhado de funes não havia senão detalhes quase imediatos. Ou seja, o cara tinha tanto detalhe na cabeça que ele não conseguia desenvolver um raciocínio. E aí o autor do livro do Palácio da Memória, eu achei muito bacana o que ele faz, que ele diz, que é: o ato de esquecer é talvez mais importante que o de lembrar. Porque se você não esquecer, você não consegue pensar.

PVC:Se você tiver uma máquina que um dia consiga detectar tudo que tá em toda a sua vida e tenha capacidade de guardar tudo, como a gente falou do computador mais moderno, Provavelmente isso não vai servir para nada, porque a gente vai ter que selecionar e saber o que foi de fato mais relevante ou que foi menos relevante, né? Para mim, mas é que aí tem, é o que tem significado para gente.

Murilo Garavello:Exato, vai mostrar um filme, mas né, o que marca a gente é justamente o que é humano.

PVC:O que me marca É o depoimento do Raje sobre o Dukadam. E para mim importa saber o time em que jogou o Dukadam que marcou o Raje.

Murilo Garavello:Para mim, para você, é exatamente isso, né? E aquela história, duas pessoas podem estar na exata mesma cena e recordar dela de uma maneira completamente diferente. E essa é a dificuldade e a beleza ao mesmo tempo.

PVC:Exatamente.

Murilo Garavello:É, estamos chegando no quadro final aqui. Eu peço para as pessoas citarem, né, o livro que você leu, livro que você recomenda, que um dos melhores da sua vida.

PVC:Ai, cara, a gente leu um monte de coisa, eu leio muita coisa de futebol, mas assim, eu leio muita coisa, 100 anos de solidão. Mas eu lembro de uma coisa que você falou do Palácio da Memória e me levou para minha casa, que eu morava num parque continental dos 8 aos 13 anos. E eu lembro do quarto onde eu li um livro que minha professora de 5ª série me deu para ler. Eu estudava na escola pública e era um livro branco com as letras em preto na capa, que era um livro infanto-juvenil chamado O Gênio do Crime.

Murilo Garavello:Eu li também. Que eu me lembro que meu filho leu também.

PVC:E um dia eu tive a felicidade de encontrar o João Carlos Marinho e dizer para ele: João, Cara, o seu livro é maravilhoso e foi o primeiro livro que uma professora na escola me deu para fazer uma prova, para eu ler, que depois ia ter uma prova sobre ele. E eu lembro do Bolacha.

Murilo Garavello:Eu também.

PVC:É, o Bolacha era o goleiro que defendeu uma coisa que mandaram para ele no sequestro das figurinhas, porque eles tinham que recuperar as figurinhas e a figurinha do Rivellino, que era figurinha A casa invada. E eu lembro da cena do bolacha. E eu lembro de eu estar no meu quarto rindo, rindo, rindo muito, muito, muito alto. E meu pai perguntou para minha mãe: mas o que é que está acontecendo? E ele tava lendo o livro, que é um livro que pode ser muito bom para você indicar para o seu filho de 10 ou 11 anos de idade. Talvez um dia ele se lembre dele, como a gente se lembra desse A gente pode se lembrar de muitas outras coisas. Eu posso me lembrar de ter lido Chega de Saudade, do Rui Castro. Foi o primeiro grande sucesso literário do Rui Castro, que é um livro extraordinário sobre a história da Bossa Nova. Ou a gente pode lembrar de 100 Anos de Solidão. A gente pode se lembrar de— Mas eu me lembrei do quarto do Palácio da Memória, no Parque Continental, na Rua Caetanópolis, onde eu li O Gênio do Crime.

Murilo Garavello:Que legal! Que livro você tá lendo?

PVC:Nesse momento eu não tô lendo, devia tá lendo alguma coisa, mas não tô. Tô lendo o Pic, terminando, lendo de novo o Pic para ver o que fala.

Murilo Garavello:Um livro que você não recomenda?

PVC:Então, não recomendo, ah, não sei, muito ruim isso, não recomendar um livro, porque é muito ruim, porque se você, eu posso não gostar de um livro e você gostar.

Murilo Garavello:É, eu tenho uma relação com o livro também que é assim, eu, para mim não tem muito gostar ou não gostar, eu sempre tento, já que eu tô vendo, vou tirar alguma coisa daqui, sabe? E aí eu até nesse programa que às vezes eu falo de uns livros que são meio ruim, mas que tem lição, tem lição, né? Acho que sempre tem alguma coisa para você, para você tirar, para fazer você pensar. Acho que o livro sempre faz você, é, toma contato com coisas diferentes Então eu leio várias vezes livros sobre universos que não são o meu, né, de coisas que não me interessam tanto também. Sabe aquela coisa de pegar o que tem na mão ali, você sai lendo e acho que sempre tem alguma coisa para tirar.

PVC:Eu tô lendo sim, mas assim, eu parei essas últimas duas semanas. Tô lendo o livro do Lionel Scaloni por causa da Copa do Mundo, que é o técnico campeão do mundo com a Argentina. Chama Lionel Scaloni.

Murilo Garavello:É uma biografia dele?

PVC:É uma biografia dele. Eu tinha pequenininho, não, a história da seleção argentina no período Scaloni. Ah, importante demais. E eu li O Sonho, que é o livro do Ancelotti, que tem uma coisa incrível, né? Porque o Ancelotti fala que o maior jogo da carreira dele como técnico foi Milan 3, Liverpool 3, que ele ganhava de 3 a 0 no primeiro tempo. E ele fala que ele tomou o primeiro gol com 6 minutos, tomou 3 gols em 6 minutos, e tomou o primeiro gol e falou assim: cara, olhando para trás hoje, eu tinha que ter mexido no time porque eu teria mexido na estrutura do jogo jogo, mas eu fiquei tão atônito. O time tava jogando bem e de repente tomou o segundo e o terceiro em 6 minutos. Nós tomamos 3 gols e o jogo mudou. Eu falei, cara, é o Filipão de 2014, do 7x1. Nós estamos indo para uma Copa do Mundo confiando no técnico que tem o mesmo trauma do Filipão, só que o Filipão tomou 4 em 6 minutos e ele tomou 3 em 6 minutos. Mas, cara, são histórias diferentes. O Filipão foi um grande técnico de outra esfera e o Ancelotti é um grande técnico, mas é incrível, né, se pegar eu lembro do texto do livro, um pedaço, ele fala assim: cara, ele tem o mesmo drama do Felipão no 7x1, ele tomou 3 gols em 6 minutos.

Murilo Garavello:Mas nem todo mundo vai lidar com o drama do mesmo jeito. É, ninguém vai ficar atônito, ninguém vai guardar os mesmos memórias. Bom, agora é hora de ir embora, obrigado.

PVC:De ir embora?

Murilo Garavello:Hora de ir embora, de Piracicaba. Obrigado, semana que vem outro episódio. Um beijo, abraço, valeu, PVC!

PVC:Valeu, obrigado, amigo! Valeu!