UOL Prime #134: O jogo de cartas marcadas nos planos de saúde
Uma carta anônima foi ponto de partida da investigação que revelou que planos de saúde validam laudos da junta médica antes que eles sejam enviados a pacientes, comprometendo sua independência.
Criadas há oito anos para garantir decisões mais técnicas sobre pedidos feitos aos planos, as juntas médicas funcionam como uma segunda instância de análise, mas a suspeita é de que tenham se tornado instrumento para endossar as negativas das operadoras.
A investigação do UOL levou a ANS (Agência Nacional de Saúde Suplementar) a abrir um procedimento administrativo para apurar o caso, e é sobre ela que o apresentador José Roberto Toledo conversa com o colunista Thiago Herdy no novo episódio do podcast UOL Prime.
José Roberto Toledo
Thiago Herdy
- Autonomia Médica e Planos de SaúdeMecanismo de intermediação·Período de acomodação regulatória·Indicação de médicos desempatadores·Terceirização do serviço·Medicina e ética·Bradesco
- Reajuste de planos de saúdeCarta anônima·Validação prévia de laudos·ANDES·Papel do Ministério Público Federal
- Diagnóstico e tratamento de câncer de mamaReconstrução mamária·Técnicas de reconstituição·Negativa de plano de saúde
- Judicialização da saúde no BrasilAumento de reclamações·Lucro dos planos de saúde·Presidencia da Alesp·Brincar e prazer
Quando o plano de saúde se recusa a pagar um tratamento para o seu cliente, esse cliente ou esse paciente tem uma chance antes de ter que recorrer à justiça para garantir o pagamento desse tratamento. Dependendo do caso, a possibilidade de um processo de intermediação, intermediação em tese independente. A decisão fica a critério de uma junta médica, ou seja, um grupo de médicos especialistas que é responsável por decidir quem tem razão, se o paciente ou a operadora do plano de saúde.
O mecanismo foi criado para resolver conflitos de forma técnica e, espera-se, imparcial. Mas Uma investigação do repórter e colunista do UOL, Thiago Erdi, revelou ou descobriu que parte das operadoras tinha acesso ao resultado desse laudo, laudo da junta médica, antes mesmo dele ser assinado pelo chamado médico desempatador, né, que é o terceiro médico, e de ser entregue ao paciente. Segundo a Agência Nacional de Saúde, a ANS, esse procedimento não tá previsto nas normas e, se confirmado, pode configurar sim uma irregularidade.
Nós estamos aqui hoje com o Thiago Erdi. Muito bem-vindo de volta ao UOL Prime, Thiago.
Obrigado, Dili, é um prazer receber seu convite.
Prazer é todo nosso. E a gente vai discutir com o Erdi primeiro como é que funciona esse sistema, que talvez a maioria dos, até dos usuários de plano de saúde desconheça, né? Como é, em que casos ele pode ser acionado, como é que ele funciona, quem é essa conta médica aí que decide o futuro, né, do tratamento ou não. E obviamente sobre a denúncia que ele investigou e que revelou esse acesso fora das 4 linhas, para citar um ex-presidente, das operadoras.
Eu sou José Roberto de Toledo e faço a apresentação do podcast UOL Prime. Toda semana a gente conversa com os melhores repórteres sobre as melhores reportagens do UOL. Tchau, Gerdie. Então vamos, antes de entrar na denúncia propriamente dita, como é que funciona esse esquema? Em quais casos o cliente, o paciente pode recorrer a essa junta médica para fazer essa intermediação?
Eu nunca tinha ouvido falar de junta médica na vida.
Nem eu, né? Para isso, pelo menos não.
Não sabia que existia essa possibilidade. E ela é prevista há pelo menos 8 anos pela ANS. Para aqueles casos em que o paciente solicita, beneficiário do plano de saúde solicita um atendimento, um procedimento específico, e esse procedimento é negado pelo plano de saúde. Essa negativa automaticamente leva à instauração dessa junta médica, que é um mecanismo formado por 3 pessoas. Uma pessoa é o médico do paciente, aquele que indicou o tratamento, indicou o procedimento para o paciente.
O segundo é o médico do plano de saúde e o terceiro é um médico desempatador. Quem que é esse médico desempatador? Qual é a regra para se chegar a ele?
Porque na verdade a gente já sabe de antemão que dos três um voto vai ser contra, outro voto vai ser a favor, obviamente, né? Senão não teria sido impugnado o pedido do cliente. Logo, tá na mão de um médico.
Exato, é o juiz, né? É o árbitro do jogo, né? E esse árbitro, a escolha dele é definida da seguinte forma na legislação: O plano de saúde indica 4 nomes e encaminha esses nomes ao médico do paciente. E o médico do paciente tem o direito de escolher um desses nomes, que será então o médico desempatador. Essa junta médica, pela lei, ela pode acontecer presencialmente. E se acontecer presencialmente, o plano tem que pagar a passagem e as despesas do médico do paciente até o local onde vai estar o médico desempatador, para que, se isso for necessário acontecer, isso ocorra.
E esse médico desempatador vai solicitar em tese vai solicitar os dados do paciente ao médico do paciente, que são seus exames, os seus laudos que levaram à indicação daquele procedimento médico, ao plano de saúde também, ao médico do plano de saúde, o laudo que justifica aquela opção por não aceitar aquele pedido de tratamento. Só um parênteses, pode ser negativa parcial ou total. Nos dois casos existe a junta médica para atuar.
Só uma coisa, isso acontece em qualquer caso? Só em cirurgias ou coisas mais complicadas e caras?
Casos mais complexos, cirurgias, procedimentos médicos mais complexos. Não é uma consulta médica, não é uma terapia, são para procedimentos médicos.
Fazer um exame um pouco mais caro, um laboratório, não entra nesse caso?
Não, não entraria nesse caso, são para procedimentos mais complexos mesmo.
E é automático, o paciente não precisa fazer nada?
É automático e o procedimento tem que estar previsto no rol da ANS. Se não está previsto no rol da ANS, não vai haver debate na junta médica. Então, vamos dizer, é algo que está...
A ANS é a Agência Nacional de Saúde que regulamenta que regula em tese o setor.
Exatamente, é um órgão federal que em tese deve garantir que o direito dos pacientes seja observado por essas empresas, são empresas privadas e que hoje respondem por 55 milhões de pacientes no Brasil.
55 milhões de pacientes, poxa vida. Agora, a operadora então indica 4 nomes de médicos para o médico do paciente escolher um deles. E se os 4 forem credenciados plano de saúde.
Esse é um ponto de crítica de médicos em geral, que dizem que de partida a junta médica já tem um problema grave, que seria esse: um risco de indicação de profissionais que vão estar mais alinhados ao pensamento da operadora, já que eles são indicados pela operadora. A ANS, quando regulamentou essa norma, ela previu que esse médico fosse escolhido a partir de listas de associações médicas e de conselhos de medicina. Para que evitasse isso, que não fossem médicos do plano de saúde, médicos escolhidos com critérios, vamos dizer, mais técnicos, gente que seja de fora do mundo do plano de saúde.
Sei lá, se for um gastroenterologista, você vai na Associação de Gastroenterologia e pede para eles a relação de todo mundo e extrai os 4 nomes dali.
Só que tem um detalhe, a ANS recomenda que se faça isso.
Ah, não é obrigatório?
Não é obrigatório.
Ou seja, Nada, não vale nada.
A regra não existe.
E daí, quando chega lá na junta, o médico do paciente defende o tratamento, o médico da operadora fala contra, e esse desempatador aí, que foi sugerido pela própria operadora do plano de saúde, tudo bem, com aval do médico do paciente, mas se os 4 forem conveniados, você vai fazer o quê? Não posso querer um 5º? Ele não pode fazer isso, né?
Não pode.
E daí sai a decisão. E existem estatísticas para dizer em geral para que lado essa junta, ou melhor, o desempatador acaba decidindo?
Esse é o ponto, não tem estudo no Brasil, nem a ANS detém essa informação, nem os institutos, organizações que estudam a questão de plano de saúde, judicialização da saúde, vários temas relacionados a isso. Passei meses buscando dado que pudesse nos dar essa informação e não existe.
Não existe?
Não existe. As informações organizadas não existem. Você tem no máximo reclamações na ANS que menciona mencionam a junta médica como um dos temas de reclamação de um paciente. E só que é um dado superficial, não dá para garantir se o problema especificamente sobre como funcionou ou não a junta, enfim.
E eu pergunto, se a ANS não sabe se os médicos desempatadores estão decidindo mais a favor do paciente ou mais a favor da operadora, como ela pode avaliar se o mecanismo funciona?
Essa é uma ótima pergunta sua.
E a ANS não tem resposta, imagino.
De fato não tem. E seria algo para eles avançarem. Se quisessem de fato olhar para isso com dever que a lei exige deles, né, ser o órgão fiscalizador e regulador de todo um setor que mexe com a vida de muitas pessoas, muitas, se espera que eles, esperava que eles fizessem isso, né. E aí, Tônia, tem um detalhe que é interessante. Então você imagina que de repente os planos têm que criar uma operação que é extensa, né, tem muitas regrinhas, mandar a sugestão de um médico, o médico vai ter Tempo para poder tomar a decisão dele, solicitar exames.
O médico pode solicitar exames adicionais, esse médico desempatador, se ele está diante de uma divergência e fala, não, eu preciso de um exame adicional, ele pode solicitar, o plano de saúde tem que pagar, tem que fazer esse exame. E essa resposta tem que ser dada dentro de um prazo ao paciente. O que aconteceu no Brasil? As maiores empresas passaram a terceirizar esse serviço. As empresas mais importantes do Brasil, que hoje reúnem quase metade desses 55 milhões de pacientes que a gente mencionou, contratam o serviço de uma empresa.
Uma empresa especializada nessa junta médica aí.
Exatamente, especializada em fazer essa operação, mandar aos pacientes os números dos médicos, decidir quem é o desempatador, cobrar do desempatador o envio do laudo, se precisar pedir exame adicional, é ela que vai fazer esse trâmite, enfim. É uma empresa que presta esse serviço. Como chama essa empresa? Ela chama de Wise Health. Ela é a empresa que cresceu muito com esse serviço que eles prestam.
E é uma empresa independente, não está vinculada?
Em tese, ela não estava vinculada a nenhum plano até o ano passado, quando ela foi comprada pelo Grupo Bradesco.
Peraí, peraí, desculpa. A empresa que vai decidir quais são os médicos, que vai operacionalizar as regras da Agência Nacional de Saúde Suplementar, pertence a uma empresa, no caso o Bradesco, que é dona de um plano de saúde.
Isso, isso. E tem um detalhe: além desse serviço de junta médica, ela também presta um serviço de auditoria médica. O que que é? No primeiro pedido do paciente, quando for feito um procedimento, as empresas também terceirizam esse serviço com essa empresa também. Então você vai ter situações em que a primeira resposta ao paciente vai ser dada por essa empresa, por um médico dessa empresa, e a junta médica vai ser operacionalizada pela mesma empresa, por um outro médico da mesma empresa.
Ou seja, é como se a justiça tivesse sendo terceirizada. Não é justiça porque não é uma instituição, é uma câmara de intermediação, digamos assim. Mas ela já tem lado, ela é parte PRI, porque se ela já decidiu a favor ou contra lá no começo da operação não é exatamente imparcial.
Sim.
Agora vamos para o caso em questão aqui que levou a sua investigação. Você tava me contando antes da gente começar a gravar que tudo começou com uma denúncia anônima, uma carta.
É isso. Tem uma entidade que se chama ANDES, que é Aliança Nacional pela Defesa da Ética na Saúde Suplementar. Eles mandaram ao Ministério Público Federal um pedido de investigações com vários problemas da área, enfim, do ponto de vista do paciente, eles elencam vários temas que eles entendem que deveriam ser objeto de investigação do Serviço Federal. E no meio dessa investigação tem uma carta anônima escrita por um funcionário dessa empresa, da Advise.
E nessa carta, entre diversos pontos que ele coloca lá, ele fala: existe aqui um procedimento que nós sabemos que não é certo, que é quando um médico desempatador termina o seu laudo, vamos dizer, ele chegou à conclusão de que ou a favor ou contra ao pedido feito ao plano, né? Antes desse documento receber a assinatura do médico, Esse documento é enviado para revisão do plano de saúde.
Não, não pode ser, porque imagina na justiça, né, o réu faz uma revisão da sentença do juiz antes dela ser proferida. Isso é mais ou menos isso, porque se é antes de o médico assinar, significa, peraí, não assina não, porque você pode mudar de opinião, né?
Como isso, né? E que esse funcionário dizia que quando isso acontecia, quando o laudo ia para o médico revisar, eles não cuidavam de receber e continuar. Isso era tratado de outra de alguma forma dentro da empresa. Então vamos dizer, é algo que existia formalmente dentro da empresa, dentro do seu rito de trabalho, enfim, não era uma coisa feita às escondidas, era formalizada essa revisão, essa validação prévia. Esse é o termo que eles usam, validação prévia.
Como diria o outro, tem método.
Tem método, exatamente, tem método. E aí o que ocorre? Era uma carta anônima, né? Vamos dizer, a gente não tinha como acreditar naquilo. Qual foi o nosso trabalho na reportagem? É ir atrás de outros funcionários da empresa, E ouvi tentar procurar médicos, ouvi mais pacientes, pessoas. Eu tô para tentar entender se aquilo era verdadeiro. E o que a corporação comprovou? Que era verdadeiro.
Vocês ouviram mais gente que trabalha, que tem contato com essa operação, que confirmou essa versão?
Desde gente na ponta do atendimento ao paciente, tendo que informar que o procedimento não seria aceito de acordo com a decisão da junta, um trabalho difícil, até pessoas mais graduadas dentro da própria empresa. Elas confirmaram aquilo. E aí fomos à empresa, falamos, olha, nós temos aqui uma denúncia de que vocês estão fazendo algo que não está previsto na legislação, não tem como vocês fazerem isso, e que coloca em risco a independência desse médico desempatador.
A empresa primeiramente não quis comentar o assunto, mas quando a gente apresentou os elementos e com a força deles, eles acabaram comentando e aceitando falar sobre isso. E disseram, reconheceram que faziam isso, mas diziam que era uma revisão técnica, que era uma mera revisão de português, o que é uma coisa delicada, porque já ouviram falar em ChatGPT, alguma coisa assim, em DeepSeek, para não fazer propaganda de um deles? Queria só voltar um ponto aí, porque assim, a gente fala da junta, ah, ela já é viciada desde o início, mas por outro lado ela foi criada com outro propósito, e esse outro propósito é importante, que é de você obrigar um segundo médico a dizer por que que aquele procedimento não deve ser aceito.
E não é só dizer que não deve ser aceito, ele tem que embasar a decisão dele, entende?
Isso é muito importante, quer dizer, Não é só porque a operadora ela não te dá explicação nenhuma quando ela nega um pedido, certo?
Essa é uma reclamação muito frequente, que simplesmente a feita negativa como resposta lacônica, o médico tem que trazer um exame.
Por isso que é um laudo, falar não precisa por causa disso, disso, daquilo outro, tá? Você tem alternativa Y, X, Z e tal.
Esse é o ponto. Então se o paciente tá numa disputa com plano, esse laudo é importante. Se o plano nega e mesmo assim nega com argumentos ruins, na justiça ele vai poder levar aquilo como elemento importante. Entendi.
Quer dizer, a revisão Essa técnica aí não é só para eventualmente influenciar o que tá sendo decidido pelo médico desempatador, mas também os termos que ele está usando e os argumentos que ele tá usando, mesmo que seja a favor do plano e para negar o tratamento. Porque se não for sólido, pode ser um elemento do paciente na justiça para derrubar essa decisão.
É isso, isso é um ponto importante que você toca, é esse alinhamento de atuação, né, do médico desempatador, o médico independente do juiz, ele não pode servir a esse propósito que você foi no ponto. Esse é o risco, esse é o risco que ocorre, isso que faz com que a junta médica pareça um teatro se o laudo não vem de um médico que decide por conta própria aquilo sem que isso passe por qualquer tipo de reanálise do plano de saúde, não é?
Vocês encontraram algum caso concreto específico assim?
É, tem um caso, a gente até abre a matéria, um paciente, uma paciente que prefere não se identificar porque para ela é uma situação delicada. Ela é uma cirurgiã de mama, ela teve câncer em 2010, passou um tempo, o câncer voltou e ela precisou fazer uma segunda cirurgia, agora retirando completamente as duas mamas. E aí o médico da paciente, ao solicitar o plano de saúde, indicou duas técnicas possíveis para fazer a reconstituição dessa mama e indicou que escolheria aquela que fosse mais adequada no momento da cirurgia.
Não sabia nem que ia ter que retirar toda a mama, mas quando você vai fazer uma cirurgia dessa, o médico toma a decisão ali sobre o que precisa ser feito em relação ao câncer teria que tomar decisão sobre qual procedimento se adotar, um ou o outro. O plano aceitou um, não aceitou o outro.
O outro era o quê?
Não, o outro era técnica de reconstituição. Uma era uma técnica específica, outra era uma outra.
Quer dizer, se for fazer reconstituição da mama, teria que ser nessa técnica aqui.
Só que as duas são autorizadas pela legislação. E o que que acontece? A paciente, nitidamente, era um erro isso, né? Devem ter achado que estavam querendo fazer as duas, talvez uma decisão automatizada das duas, dois procedimentos para uma coisa só, não precisava. E aí quando isso vai para junta médica, em tese o médico tentador vai olhar para o caso e falar: não, peraí, aqui é uma confusão, né? Ele está dizendo que é um ou outro, os dois são autorizados, esses dois materiais estão disponíveis.
Então era para se resolver, mas não se resolveu, se deu a negativa automática. A paciente fez a cirurgia, o marido dela pagou com o próprio bolso essa segunda técnica, acabou se optando pela técnica que tinha sido negada inclusive, mas ele comprou porque falou: não vou permitir que isso aconteça com minha esposa. Imagina o estresse, imagina o que se passou. Isso é o caso de uma pessoa, né, Tô? De milhares mil pessoas. E aí, 15 dias depois, o plano de saúde entra em contato dizendo: olha, estávamos errados, vamos te reembolsar sua despesa.
Enfim, a junta médica poderia ter resolvido esse problema, tá certo? E não fez nada.
Só aguardei. Me diga uma coisa, e pelo que vocês apuraram, dá para saber pelo menos com que volume, com que frequência isso acontece? Mas não responda agora não, responda só depois do intervalo.
Michele Bolsonaro contrariou a trajetória convencional de uma ex-primeira-dama. Desde que Jair Bolsonaro deixou a presidência, ela não sai do noticiário.
Se o Bolsonaro não tivesse perdido ter tido eleição, ela não seria presidente do PL Mulher.
Michele tem se tornado uma das figuras mais influentes da política brasileira, mas também uma das mais difíceis de acessar. Boa parte do que o público sabe sobre sua trajetória vem da própria versão que ela escolheu contar. Nós não passamos fome, mas nós passamos dificuldade. Mas o que existe para além dessa narrativa? Eu decidi que era hora de mergulhar na história de Michele.
Os filhos não consideram a madrasta como família.
Ele foi muito Me desrespeitou e me maltratou, e eu não tinha feito nada contra ele. Descobri como Michele de Paula Fimo Reinaldo se tornou Michele Bolsonaro. Este é Michele, um podcast original UOL Prime, disponível no UOL, no YouTube do UOL Prime e em todas as plataformas de podcast.
Então, de volta aqui, eu tinha te perguntado se a gente tem uma ideia do volume de casos que passam por situações como essa que você acabou de descrever.
É interessante, Toredo, que você falou no início, né, como era importante que a ANS tivesse dados consolidados e verídicos, verdadeiros, que ela poderia solicitar esses planos todos, né, que informassem a ela sobre isso. E ela disse que não tem. Quem tem é a empresa privada. Eles se autointitulam a empresa que atende a 24 milhões de pessoas. Então eles detêm essa informação. Eu solicitei a eles.
Isso é ouro, né?
Né?
Claro. Imagina você ter a ficha médica de todos os problemas, por mais íntimos, pessoais e intransferíveis que sejam, de 24 milhões de pessoas, e a ANS, que supostamente fiscaliza o setor, não tem.
Não tem. A empresa, isso, eles têm empresa, e a empresa alegou que não poderia disponibilizar esses dados por questões de confidencialidade.
Mas confidencialidade não, né? Interesse comercial, porque você não tá pedindo o nome de ninguém.
Isso, eu pedi, não quero o dado de cada um dos seus clientes, cada operadora, dê um dado geral dos pedidos de junta, quantos que vão com a operadora e quantos que o paciente reverte, né? Agora, na conversa com pessoas do setor, a empresa não nos deu os dados oficiais, mas a estimativa é de algo de menos de 10%, 5%, é muito pouca a alteração do quadro já dado pela operadora.
E aí quando eu perguntava para algumas pessoas, ou seja, a taxa de vitória, entre aspas, da operadora seguradora nesses casos em que vai para junta é de 80 a 90%, para mais segundo estimativa, tá? Eu não tenho dado correto, mas se eles não oferecem o dado, né, vamos com a estimativa. Eles que desmintam então aparecendo com o dado real.
E eles reconhecem a estimativa, conversa com algumas pessoas do setor e também conheço funcionários até justificando: não, é negativo porque já vem um bom laudo negando o procedimento, já muito bem embasado. Vai fazer uma defesa de que as operadoras já estariam atuando direitinho, por isso que só se repetiria a negativa. Mas esse é um ponto de vista da empresa, do setor.
Existe algum dado, algum estudo científico sobre a etapa seguinte? Ou seja, se 80%, 90% tem o seu pedido negado, inclusive pela junta, ou seja, desempatadora sempre a favor, quase sempre a favor da operadora, só resta ir à justiça, né?
É, só vai à justiça. E aí o que nós temos hoje no Brasil é uma explosão da judicialização, né, da saúde, O presidente da ANS, que é o Waldir D'Amuso, não sei se você se lembra dele, advogado do Rio de Janeiro, muito próximo do presidente Lula na época da Lava Jato.
Foi deputado federal, né?
Foi deputado federal, acompanhou ele na época da prisão em Curitiba, ele quase todos os dias visitava o presidente. Vamos dizer, é uma pessoa que tem o ponto de vista da política, né, muito próximo do presidente Lula. Então o discurso público dele vai muito nesse sentido de que a ANS precisaria agir, atuar para evitar que que só restasse ao cidadão o Judiciário para buscar ter os seus direitos atendidos. Ele propõe no discurso uma mudança na relação da agência com o paciente, reconhecendo seus direitos com mais vigor do que hoje acontece.
Ele diz que a agência, com os seus conselheiros, não são independentes, são indicados para temporadas longas, seriam muito influenciados pela força econômica de um setor que é bilionário, que é o setor de saúde. Então esse é o discurso dele, mas na prática Na prática, a gente não tem visto da ANS, pela própria forma como a gente tratou aqui da questão da junta médica, essa mudança de comportamento.
Muito se diz sobre o fato de haver abusos por parte de alguns pacientes no uso do plano de saúde, etc., etc. Porém, se você imaginar que são milhares, dezenas de milhares, talvez centenas de milhares de casos que os planos de saúde têm que defender na justiça o seu lado, né, contra os pacientes, deve ter plano aí que deve ter mais advogado do que médico, né, porque para atender um volume de casos e reclamações tão grande, e obviamente isso só encarece o sistema sem dar nenhum benefício para ninguém.
Você tem razão, o paciente fica muito exposto a uma vulnerabilidade absurda. Você pensar que, 2 dados interessantes do setor, né, comparando 24 e 25, são dados mais recentes, o lucro líquido dos planos de saúde saltaram de R$11,24 bilhões para quase R$25 bilhões em 2023, dobrou, 120% maior. E as reclamações sobre procedimentos, cobertura contratual, desrespeito aos atendimentos previstos na ANS, passou de 35 mil para 42 mil nessa mesma comparação.
Não é uma relação de causalidade, mas tem uma relação de uma correlação clara, né? Quanto mais reclamação, mais eu lucro.
Tá acontecendo, né?
Essa é a conclusão dos números. Tudo bem, só dois números, mas se a lógica for essa, nós estamos— o sistema faliu, né?
Eu não pago o procedimento, vou deixar reclamar, deve ser mais barato.
O advogado deve ser mais barato que o médico. Muito bom, Thiago. É muito ruim, na verdade, mas muito bom.
A gente tem que continuar falando sobre esse assunto, né? Esse que é o problema. Isso chamou muita atenção como repórter. Ninguém fala sobre esse assunto. Tem que haver cobrança da sociedade para que os órgãos façam, porque não dá para desistir do sistema diante do poder econômico, entende?
Pois é. Depois que nós gravamos com o autor da reportagem, com o Thiago Erdi, essa história das juntas médicas contando antes para o plano de saúde o que que vão decidir quando há disputa com uma pessoa que contratou os serviços dos planos. A Agência Nacional de Saúde Suplementar abriu um procedimento administrativo para investigar a atuação dessas juntas médicas contratadas pelos planos de saúde do país. E eu vou tomar liberdade de Vamos ver o que que a agência ANS escreveu.
As denúncias apresentadas pela reportagem podem levar a sanções para operadora, como aplicação de multas, e também funcionam como elementos para adoção de medidas administrativas, como a realização de visitas técnicas e instauração do regime especial de direção técnica. Ou seja, a reportagem teve consequência. Thiago, as pessoas vão querer ler essa reportagem para ver todos os detalhes, porque deve ter muita gente na mesma situação, né? Onde é que elas podem encontrar?
noticias.uol.com.br/colunas/thiago_herdy.
Herdy, H-E-R-D-Y.
É isso. Vai no Google, bota lá NS Junta Médica, vai ser mais fácil.
Então tá bom, a gente vai botar também na nossa página assina no UOL o link para tua reportagem. Muito obrigado, Thiago, parabéns pela reportagem e já tá convidado para voltar aqui quando a ANS der uma resposta, né, para saber se a investigação se confirmou ou se a junta médica lá decidiu o contrário.
Vamos ver o que eles dizem.
Muito bom. Quem assina o UOL também pode acessar, ler e Essa e muitas outras reportagens investigativas e especiais, seja no UOL Prime, seja na coluna dos nossos colunistas. Os assinantes têm acesso a todo o acervo jornalístico do UOL e também conseguem aproveitar benefícios como descontos em cinemas, peças de teatro, festivais musicais, e têm acesso ao UOL Play e outros serviços. Confira em acine.uol.com.br. Eu sou José Roberto de Toledo e faço a apresentação de podcast UOL Prime.
Conversei hoje com o repórter e colunista do UOL, Thiago Erdi. O roteiro é da Clara Hjelstab. A operação de vídeo é do João Lins. A montagem é do Lucas Zacarias. A trilha sonora original foi composta pelo João Pedro Pinheiro. A coordenação é da Lígia Carriel e da Laura Kapeliusznik. A coordenação de operações é do Danilo Esperandil e do Eduardo Bonavita. A foto de capa do podcast é da Daniela Toviansky. A diretora de política e economia é Renata Agostini, e a supervisão é do Murilo Garavello, diretor de conteúdo do UOL. Até o próximo episódio.
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