UOL Prime #133: Como a PF revelou o esquema de corrupção que dominava a mineração em MG
Duas operações da Polícia Federal em Minas Gerais, a Rejeito e a Parcours, desvendaram um esquema de corrupção dentro do bilionário setor de mineração, com tentáculos nos órgãos públicos mineiros e, também, na Agência Nacional de Mineração, órgão federal sediado em Brasília.
É sobre os detalhes dessas investigações, que resultaram no indiciamento de mais de 30 pessoas, entre elas grandes empresários e o diretor-geral da ANM, que José Roberto Toledo conversa com o colunista Fabio Serapião no novo episódio do podcast UOL Prime.
José Roberto Toledo
Fabio Serapião
- Operacoes PF Mineracao MG· PoliticaOperação Rejeito · Operação Parcours · Esquema de corrupção · Agência Nacional de Mineração (ANM) · Transição de governo
- Lavagem de DinheiroEmpresas de fachada · Criação de CNPJs · Holdings patrimoniais · Fundos de investimento · Ocultação de patrimônio
- Operações da PF e revelações recentesMenos prisões, mais bloqueio de bens · Ressaca da Lava Jato · Medidas cautelares diversas da prisão · Venda antecipada de bens apreendidos
A Polícia Federal faz mais de uma, mais de 5, talvez até mais de 10 operações por dia, mas poucas delas acabam virando manchete nos sites de notícia, na televisão, no rádio. O que acontece com esse fenômeno de muitas operações é que algumas operações que deveriam ser manchete às vezes não recebem a mesma atenção que deveriam. Nós vamos falar hoje sobre duas delas envolvendo mineração no estado de Minas Gerais. A notícia não passou despercebida pelo repórter e colunista do UOL, Fábio Serapião, com quem a gente vai conversar hoje.
Mas só para te dar uma ideia, essas operações indiciaram mais de 40 pessoas e pegaram um esquema de corrupção que vai tanto de algumas mineradoras, passando por intermediadores, pessoas que fazem lobby em nome delas, e muitos agentes públicos, muitos, a maioria deles do governo estadual de Minas Gerais, de vários órgãos, mas também da agência reguladora nacional do setor, da chamada ANM, Agência Nacional de Mineração. Muito bem-vindo de volta ao UOL Prime, Fábio Serapião.
Obrigado, Toledo, um prazer mais uma vez participar participar aqui do podcast UOL Prime.
Prazer é todo nosso. Se fosse só pelo número de operações, você não saía daqui, ia ter que ser um podcast diário, né, Fábio? Eu sou José Roberto Toledo e esse é o UOL Prime. Toda semana a gente conversa com os melhores repórteres sobre as melhores reportagens do UOL. Fábio, o que interessa mesmo, pelo que eu li nos seus textos, é que eles conseguiram, a Polícia Federal no caso, identificar e asfixiar financeiramente com mandados de busca e apreensão.
Prisão teve poucos, né? Depois você pode explicar melhor por quê. Mas eram esquemas muito complexos e que se estendem há décadas, né? Um negócio que tá assim muito incrustado ali dentro das montanhas de Minas Gerais, né?
Pois é, Toledo. Primeiro, Minas Gerais, né, do lado do Pará, os dois estados que têm mais exploração minerária no país, E a Polícia Federal lá em Minas vem de algum tempo já fazendo algumas operações, tanto que essas duas, a Rejeito e a Parkour, elas derivam de investigações anteriores que foram feitas lá. O diferencial dessa, pelo que a gente conversou com os investigadores, com pessoas que atuaram no caso, é que pela primeira vez assim a polícia conseguiu colocar no papel todo do esquema, né, principalmente na Operação Rejeito, que eram alguns projetos minerários ali, tanto em Belo Horizonte como em Ouro Preto, é que a Polícia Federal conseguiu mostrar todas as partes: o empresário que tinha interesse na terra, na propriedade, na exploração minerária, pessoas que intermediavam ali essa relação das empresas com os órgãos estaduais e federal, e também lá na ponta aqueles agentes públicos que teriam se corrompido para ajudar esses empresários.
A Operação Rejeita indiciou 34 pessoas, E a Parkour, 17 pessoas. Como eu disse, a Parkour é só um projeto específico na Serra do Curral. Quem vai pra Belo Horizonte, aquela serra bonita que algum tempo caiu no noticiário aí por causa justamente da exploração minerária lá. É um ponto turístico de Belo Horizonte, é um lugar que os mineiros ali defendem muito e que do nada começou a ser explorado novamente, porque lá na década, até a década de 80, 90, era liberado a exploração minerária ali.
Depois foi proibido e daí a Polícia Federal descobriu que ao invés de recuperar a área que era esse o acordo, um termo de ajustamento de conduta que tinha entre uma empresa e o governo, eles estavam usando esse, esse TAC, né, esse acordo para explorar. Em vez de recuperar a área, eles estavam continuando a explorar e estavam fazendo novamente aqueles buracos horríveis que a gente vê quando passa de avião ali em Belo Horizonte.
Eu li a tua reportagem, eu não acreditei, porque os buracos não é assim, né, um uma coisa que você faz com pá e picareta, né? São enormes máquinas, talvez as maiores máquinas que existam são empregadas na mineração. E é uma área de proteção ambiental, né? E os caras estavam explorando em vez de recuperar, ou seja, estavam escavando mais usando maquinário gigantesco em vez de plantar árvore. E precisou a Polícia Federal descobrir isso.
Nenhum órgão de fiscalização ambiental do Estado de Minas Gerais Se deu conta ou se deu conta e fez vista grossa?
Ao que parece, é como você mesmo disse, Toledo, qualquer um percebia o que tava acontecendo ali, mas talvez por causa dessa relação espúria entre os empresários e os órgãos de fiscalização, nada foi feito. E tem até as fotos, é interessante, no inquérito da Polícia Federal coloca a foto do antes e depois. Precisava recuperar aquela área, mas a vegetação ali já tinha crescido um pouco. Aí quando eles começam a fazer esse trabalho que em tese era para recuperar, sai a vegetação e volta todo aquele buraco.
E o motivo específico esse, no caso da Parkour, da mina que tem ali na Serra do Curral, é porque o minério ali é muito bom, é muito bom. Tem algumas mensagens que a Polícia Federal encontrou nos celulares ali na quebra telemática, Toledo, que mostra eles falando do grau de minério que tem ali, né, minério de ferro. É o melhor minério, a melhor área para se explorar que tem em Minas Gerais, segundo os investigadores, porque a concentração de minério de ferro é muito grande.
Eles já começaram a fazer esse plano de recuperação já sabendo que era bom. E quando eles começaram a cavar e ver os fios de minério ali, as mensagens mostram que eles ficaram ainda mais surpreendidos e perceberam que não teria por que recuperar e continuaram a explorar. E foi aumentando a cava, foi aumentando o buraco, e era questão de bilhões. Tem mensagem de que eles falam que poderiam lucrar cerca de 2 bilhões com o minério que tem ali nesse caso específico da Operação Parkour. Na Serra do Curral.
Eu vou repetir: 2 bilhões de lucro apenas numa cava, numa que é aquela que devia estar sendo recuperada e tava sendo explorada ilegalmente. Agora dá um pouco de nome aos bois. Quem eram? São muitos personagens, mas vamos centrar. Quem eram os empresários diretamente conectados? Quem fez o lobby? E quem eram os agentes públicos que foram supostamente corrompidos.
Na Parkour, que é essa, que é uma mina específica na Serra do Curral, era uma empresa que ao longo do tempo ela teve alguns donos, né? Um deles, o Lucas Callas, que é conhecido, foi sócio do Daniel Vorcaro em algumas, pelo menos do Banco Master, né? Isso, também mineiro assim como o Lucas Callas. Ele é dono da Cedro Participações por um período, por isso ele foi indiciado, ele era um dos donos. Mas na verdade eram 3 donos, era ele, o Franceschini, Luiz Franceschini, e um outro sócio que era somente um sócio investidor, pelo que a Polícia Federal coloca, não atuava muito no ramo.
No caso da Operação Rejeito, é um grupo ligado a um minerador chamado Allan Cavalcanti. O Allan também, na fase final dessa, da Parkour, nessa empresa que atuava ali na Serra do Curral, ele também entrou. E é por isso que tem uma ligação essas duas operações. A ligação é o Allan Cavalcanti, que a Polícia Federal coloca como o líder desse esquema todo. O ex-sócio do Lucas Callas, esse Luiz Franceschini, continua na sociedade, ele passa a administrar isso, e o Allan entra como uma espécie de player logístico ali.
Como ele já tinha outras minas e tal, ele tinha a parte da logística, ele que atuava também numa espécie de sociedade com o Franceschini, nesse caso da Serra do Curral. E na Rejeito, na Operação Rejeito, aí a Polícia Federal pega vários empreendimentos do Allan Cavalcanti, empreendimentos minerários, tanto em BH quanto em Ouro Preto ali, que daí é uma operação muito maior.
Quem já viu uma mina de ferro, ela fica muito claro que não é só a cava, que é uma coisa gigantesca, aqueles caminhões que a roda de um caminhão tem altura de 2 pessoas. Você tem toda uma operação de logística, como você estava dizendo, porque você precisa beneficiar esse minério, né? Ele não sai dali direto para o porto, precisa passar por uma série uma série de processos industriais. Não era uma coisa difícil de ser percebida, né, especialmente se o lugar era interditado, né.
Como é que eles faziam para conseguir fazer isso e não sofrer fiscalização, ou sofrer uma fiscalização fajuta? Qual que era o esquema propriamente dito de corrupção envolvido?
Nisso entra o núcleo que a Polícia Federal coloca como núcleo de agentes públicos, né. E aí você pega todo o setor ambiental de Minas Gerais, a Fundação Estadual do Meio Ambiente, o Instituto Estadual de Florestas, e o Conselho Estadual de Política Ambiental. Segundo a Polícia Federal, isso na Operação Rejeito fica mais claro, Toledo. Agentes de todos esses órgãos tinham algum tipo de ligação com o Allan Cavalcanti, com pessoas ligadas a ele, os sócios dele, enfim, para fingir que nada tava acontecendo e para ajudar, para facilitar, para adiantar informações sobre os órgãos de fiscalização, o que eles fariam.
É isso que propiciava que ninguém de alguma forma percebesse o que estava acontecendo nessas minas. Isso do ponto de vista estadual. Do ponto de vista federal, nas duas operações, a Polícia Federal coloca aí pessoas também da Agência Nacional de Mineração atuando de alguma forma em benefício desses grupos empresariais. No caso da Parkour, coloca diretamente o chefe, o diretor-geral da Agência Nacional de Mineração, que foi o Mauro Souza, que foi um dos indiciados.
Então, o que explica ninguém perceber ou fingir que não estava acontecendo nada É essa, como posso dizer, essa amizade, essa relação próxima aí com esses agentes públicos dessas agências.
Só para dar mais nomes às escavadeiras, isso aconteceu durante o governo Zema, é anterior ou posterior?
A parte dessas duas operações, igual eu falei, elas derivam de outras investigações, né? Isso não é algo que foi criado por um ou por outro governo. Mas no atual governo do Zema, nesse último governo de Minas Gerais, nas duas gestões dele, é que estão concentrados esses fatos que a Polícia Federal investiga e essa suposta corrupção nesses órgãos estaduais que eu citei. O período investigado é o período do governo Zema.
Eu vou fazer uma pergunta que vai soar meio ingênua, mas eu queria que você explicasse qual que é a lógica por trás disso. Mais de 40 indiciados. Quantos presos? Mas não responda agora, só depois do intervalo.
Michele Bolsonaro contrariou a trajetória convencional de uma ex-primeira-dama. Desde que Jair Bolsonaro deixou a presidência, ela não sai do noticiário.
Se o Bolsonaro não tivesse perdido a eleição, ela não seria presidente do PL Mulher.
Michele tem se tornado uma das figuras mais influentes da política brasileira, mas também uma das mais difíceis de acessar. Boa parte do que o público sabe sobre sua trajetória vem da própria versão que ela escolheu contar. Nós não passamos fome, mas nós passamos dificuldade. Mas o que existe para além dessa narrativa? Eu decidi que era hora de mergulhar na história de Michele.
Os filhos não consideram a madrasta como família.
Ele foi muito ríspido, me desrespeitou e me maltratou. E eu não tinha feito nada contra ele. Descobri como Michele de Paula Fimo Reinaldo se tornou Michele Bolsonaro. Este é Michele, um podcast original UOL Prime. Disponível no UOL, no YouTube do UOL Prime e em todas as plataformas de podcast.
Voltando então, Fábio Serapião, eu perguntei antes do intervalo, pô, mais de 40 indiciados, mas tem alguém preso?
Toledo, tem 2 presos, né, o Allan e a atual esposa dele, mas não por causa da corrupção em si, né, não por causa dessas questões minerárias. Ele foi preso há 2 semanas numa segunda fase da Operação Rejeito Que na primeira fase a Polícia Federal pegou o celular dele e da mulher dele, as quebras telemáticas também que foram feitas, e mostraram que ele tinha, não obviamente na proporção de Daniel Vorcaro, mas ele tinha uma estrutura ali que ele utilizava para investigar, levantar dados, para monitorar alguns adversários e pessoas envolvidas nos processos dele.
Tinha a turma do Vorcaro, que era uma espécie de milícia que atuava para coagir testemunhas, para investigar, bisbilhotar a vida de testemunhas, em fazer invasões de computadores. E tinha uma coisa em menor escala também do Alan Cavalcanti, é isso?
Isso. No caso dele, o Vercário tinha dentro da própria empresa esse setor, né, com a turma ali, com o tal Cicário. No caso dele, ele terceirizava. Ele tinha uma empresa que ele— as mensagens mostram ele e a esposa conversando com pessoas de uma empresa de investigação privada que monitorava pessoas Tem ali algumas mensagens ele tentando contratar até uma blitz para fazer uma blitz policial contra a ex-mulher dele, para ver se pegava ela dirigindo embriagada.
Tinha ele, ele entrou com um recurso de um desses processos e foi parar com um determinado juiz. Tem ele pedindo os dados desse juiz para saber endereço, telefone, enfim, dados sobre essa autoridade. E também eles conversando ali sobre o que essa empresa poderia fazer. Quebra de sigilo telefônico para saber com quem, para quem ligou, quebra de sigilo bancário. Enfim, tinha uma planilha ali sobre os valores para cada tipo de serviço dessa empresa.
Então os dois estão presos hoje por causa dessa questão, que é uma obstrução de justiça, não por causa da questão minerária.
Ótimo. Quer dizer que é mesmo o mesmo caso do Vorkar e da família dele, né? O pedido de prisão é porque eles estão impedindo, atrapalhando as investigações. Então é o mesmo caso aí que você acabou de descrever do Allan Cavalcanti e da atual esposa. Agora, por que que a Polícia Federal diminuiu nos últimos meses ou anos, acho que anos, né, a frequência com que ela pede a prisão desses investigados? Ela chegou à conclusão de que mais atrapalha do que ajuda?
Sempre converso com os investigadores, esse é um tema que já foi alvo até de matéria, Toledo. Tem uma questão de uma ressaca de Lava Jato ainda, né? Melhor não ter medidas mais gravosas e tentar fazer ali pegar o dinheiro, um sequestro de bens, uma busca para pegar o celular. Tem isso, uma ressaca. E tem uma questão que realmente hoje é muito mais difícil, né? A justiça é muito mais conservadora no sentido de dar prisão, né? Então tem outras medidas cautelares diversas da prisão.
No caso de agente público, afastar, que tem tido muito afastamento de agentes públicos. No caso do empresário, de sequestrar os bens. E hoje já tem uma lei nova que você pode já vender esses bens antes do fim do processo. E também tem a questão de que com a pessoa presa você tem que acelerar a investigação, o Ministério Público tem que ter um prazo para oferecer a denúncia. Então, do que eu converso com os investigadores, hoje em dia é melhor você focar no dinheiro em medidas que são mais efetivas em relação ao bloqueio de bens do que pedir prisão.
E isso realmente tem caído mesmo, e por isso que a gente tem visto menos operações com alvos de medidas de de prisão mesmo, né? E a tornozeleira eletrônica, né? Depois da tornozeleira eletrônica também saiu um pouco de moda a prisão.
É, não é que essas pessoas vão ficar impunes até após a conclusão do inquérito e a eventual condenação pela justiça. Elas forem condenadas, eventualmente elas podem ir para cadeia, só não vão antes de terminar o trâmite da investigação e transitar em julgado o processo, não é isso? Porque é meio contra-intuitivo isso que você acabou de— essa história que você acabou de contar. Mas eu acho que faz muito sentido, porque se prender resolvesse, o PCC não existiria, né?
No entanto, ele é gerido de dentro da cadeia. Muito mais importante asfixiar financeiramente essas organizações do que botar um ou outro ali. Até porque muitas vezes quem vai preso não é nem o mais importante, né? Agora, só para a gente entender um pouquinho melhor, me dá um exemplo de como funcionava esse esquema. Eles tinham empresas de fachada? Como é que eles corrompiam os agentes públicos, era em dinheiro. Você conta lá, tem um caso inacreditável, o cara pagou o título de sócio do Cruzeiro, do clube de futebol, para o funcionário.
Isso é na Operação Parcuz, o Lucas Callas, né? A Polícia Federal coloca ali um indício de corrupção de um agente público de um órgão estadual de Minas Gerais, e ele comprou os títulos ali de sócio torcedor do Cruzeiro para ele. Essa parte da corrupção, a Polícia Federal coloca algumas mensagens. Tem um sócio do Callas, né, o Francisquinho, que depois assume a parte ali da Serra do Curral quando o Callas sai. Tem umas mensagens dele com o diretor-geral da ANM, da Agência Nacional de Mineração, eles adiantando alguns pareceres.
Então eles estavam precisando, tava com uma questão específica no órgão estadual ali de Minas e precisava de um parecer para ANM. Então ele vai lá, como era amigo, conversa com o presidente da ANM, o presidente garante para ele que até determinada data já ia ter o parecer, que falou com tal pessoa, com tal pessoa interna da NM. Então, para Polícia Federal, a relação era isso: era afrouxar a fiscalização, dar informações privilegiadas para essas pessoas e, de alguma forma, ajudar essas empresas a conseguir a documentação que precisa para poder explorar determinada área minerária.
Isso na parte de corrupção de agente, né? Além disso, eles a Polícia Federal percebeu isso mais no Allan Cavalcanti, na Operação Rejeito, uma série de criações de empresas, de estruturas de CNPJ. Depois que começaram a ser investigados lá na operação anterior que deu origem a elas, a Polícia Federal percebeu que depois que teve a primeira operação, eles abriram cerca de 42 empresas. Isso obviamente em nome de laranjas, de terceiros, criando camadas para dificultar o acesso dos investigadores ao dinheiro, né, aos bens deles.
E além dessas empresas também a criação de holdings, né, holding patrimonial, que aí aquele modelo que tem sido muito utilizado, a Polícia Federal já pegou várias operações que tem esse tipo de holding, que é para ocultar os valores, né, o patrimônio, e evitar, né, que é o que a gente viu no nível muito maior também no caso Master, por meio dos fundos, né. É uma forma de se dificultar o acesso dos investigadores, da Receita Federal a esses bens para que eles sejam sequestrados, bloqueados e de alguma forma pagar o prejuízo que essa turma causa.
Ouvindo você falar, para mim é inevitável lembrar de uma frase que eu ouvi do pessoal da Receita Federal, que também participa dessas investigações, dizendo que para eles o mais importante é descobrir como é que funciona o esquema, porque esses esquemas são como vírus, eles tendem a se reproduzir e são copiados. Porque esse esquema que você acabou de descrever, no caso da operação envolvendo mineração ilegal, é exatamente igual não só o do Master, mas também o esquema da Refit para fazer refino fajuto de petróleo, usando a refinaria de Manguinhos.
É sempre o mesmo esquema, você cria um monte de empresas, tem lá umas holdings, você oculta o beneficiário final, usa eventualmente fundos para ocultar ainda mais, criar mais uma camada dificultando. Corrupção de, no caso do petróleo, é a ANP, Agência Nacional de Petróleo. No caso do minério, a ANM. E por aí vai, né? É como se a gente tivesse contando a mesma história o tempo todo, só que mudam os personagens.
Justamente, Toledo. E é interessante, no caso da Parkour, a Polícia Federal até coloca lá que precisa ter uma continuação na investigação em relação ao Lucas Callas e a famosa REAG, porque eles acharam algumas mensagens, algumas informações ali no material que mostra eles falando alguma coisa de uso de fundos da Real. Então isso deve seguir em uma outra investigação. E é isso. E até um pouco, pra gente que cobre, né, eu cubro operação da Polícia Federal há 13 anos diariamente, não muda muita coisa.
Você via na Lava Jato, era um modelo específico de doleiros, de empresa de fachada noteira. Depois, como isso foi muito asfixiado e a figura do doleiro ficou meio que proibida, começaram com esses fundos. E até interessante, quando estourou a Operação Carbono Oculto aí em São Paulo, né, que na Polícia Federal tinha a Quasar e a Tanque, conversando com alguns investigadores, eles falavam nessa linha que você falou. O mais importante para eles não era estar lavando dinheiro de combustíveis ou do Master, é a Polícia Federal ter descoberto esse modelo de atuação que, para lavagem de dinheiro, ocultação de patrimônio por meio de fundos.
Que eles acham que a partir desse modelo, como obviamente não era só Daniel Vorcaro que utilizava isso, eles vão poder chegar em vários outros esquemas que se valiam, assim como a Polícia Federal conseguiu na Lava Jato, por exemplo, quando chegou no Alberto Youssef, o doleiro, conseguiu chegar em vários outros esquemas, não só na Petrobras. Então esses operadores financeiros, esses modelos de operação financeira para lavar dinheiro, ocultar patrimônio, eles são muito importantes por isso, porque não são muitos.
Então quando você chega num veio desse Você vai chegar em vários esquemas que utilizam esse mesmo formato.
A gente já tá chegando no final do nosso tempo, infelizmente. Sempre eu tenho mais curiosidade do que tempo, mas primeiro, vai ter desdobramento essa operação, apesar dela não ter recebido talvez a atenção devida, com exceção de algumas poucas reportagens como a sua. Essas investigações prosseguem e deve ter consequência. Não vai ser enterrado, né?
Não, a expectativa da Polícia Federal, dos investigadores, é que isso tenha desdobramentos. Até porque, Toledo, até por causa do caso Master, elas ficaram meio que em segundo plano. Mas também, como no caso Master, houve uma tentativa de tirar o caso da primeira instância, foi parar com o Toffoli, aí voltou para primeira instância. Agora estão tentando levar para o TRF, para o Tribunal Regional Federal. A Polícia Federal deve mandar isso para o TRF agora porque tem autoridades estaduais ali.
Enfim, tá nessa briga, né? Grandes escritórios de advocacia atuando, tentando anular, procurar nulidade aqui e ali. Mas a Polícia Federal vê esse indiciamento só como um dos primeiros passos da investigação. Tem muito material, tem muito celular, tem muita quebra de sigilo, tem muito material que foi apreendido nessa segunda fase. Agora que o Allan Cavalcanti foi preso da Rejeito por causa dessa obstrução de justiça, foi apreendido o celular dele.
Então a expectativa na Polícia Federal é que tenha muitos desdobramentos. E no caso da Parcours, pelo menos esse que eu te falei da REAG, Lucas Callas, porque a Polícia Federal coloca no relatório ali que merece um aprofundamento esse tema.
O cara começa a cavar um buraco lá na Serra do Curral em Belo Horizonte, vai terminar no meio da Faria Lima em São Paulo, né? É um túnel conectando os dois.
É dinheiro, né, Toledo? Quando tem dinheiro, sempre vai chegar onde tá o dinheiro.
Mas só quando tem bilhão, né? Milhão já não, já não interessa tanto assim. Tem que ser de B para frente.
É aquilo, né? Tem que escolher as lutas que você acha que vale a pena, né?
Tá certo. Fábio Serapião, me diga uma coisa, onde é que as pessoas lerão, porque quererão ler essas reportagens?
Podem ler no UOL e também dentro do UOL, na minha coluna, www.uol.com.br/fabioserapiao. Sempre lá a gente tem as atualizações das principais operações da Polícia Federal sobre todos os temas possíveis e aqueles que a gente consegue apurar, Toledo.
Beleza. Então no uol.com.br/prime e no uol.com.br/fabioserapiao. Fábio Serapião. Muito obrigado, Fábio, já. E fica aqui o convite para você voltar quando tiver novas cavas nessas histórias aí.
Obrigado, Toledo, voltaremos em breve.
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Eu sou José Roberto Toledo, faço a apresentação do podcast UOL Prime. Conversei hoje com Fábio Serapião, repórter e colunista do UOL. O roteiro é da Clara A operação de vídeo é do João Lins. A montagem é do Lucas Zacarias. Trilha sonora original composta por João Pedro Pinheiro. A coordenação é da Lígia Carriel e da Laura Kapeliusznik. Coordenação de operações é do Danilo Esperandil e do Eduardo Bonavita. A foto de capa do podcast é da Daniela Toviansky.
O podcast é um produto do UOL Prime e a gerência geral é do Irineu Machado. Supervisão é do Murilo Garavello, diretor de conteúdo do UOL. Até o próximo episódio.