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Groundcast V#14 – Os gêneros musicais estão com os dias contados?

15 de junho de 20261h23min
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Salve amigos que ainda não nos abandonaram completamente. O mercado musical sempre teve um jeito de colocar artista em caixinha. Rock, pop, rap, MPB, funk — cada rótulo com seu público, sua prateleira, sua playlist. Só que uma geração inteira de músicos parece não ter recebido esse sinal, e está fazendo música que simplesmente não...

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Participantes neste episódio2
G

Germain de Santo André

Host
C

César

Co-host
Assuntos7
  • Elis Regina desenvolvimento musicalDefinição de gênero musical · Fenômeno sociológico · Dimensões de gênero musical · Microgêneros · Streaming e playlists · Mercado musical · Subcultura
  • Desafios de categorização musicalFemale fronted metal · Viking Metal · MPB · Pop · Heavy Metal · Metalcore · Nu Metal
  • Indústria de JogosPragmata · Resident Evil · Dead Space · GTA · Horizon · Elden Ring · Lies of P · Sekiro
  • O papel da comunicação e do jornalismo na sociedadeFalta de apuração · Comunicação de órgãos públicos · Interesse público · Imprensa de massa
  • Violência de Gênero OnlineViolência contra a mulher · Funk 150 BPM · Ostentação · Cultura de resistência
  • Comunicação CientíficaPolilaminina · Erro de metodologia · Roda Viva · Divulgação científica
  • Contaminação de produtos IPÊContaminação por bactéria · Irregularidades na fábrica · Anvisa · Comunicação de crise
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?Voz A

Salve, caros ouvintes, caros ouvintes do Medicinos Programa Graal de Cast. Estamos aqui mais uma semana, eu aqui, Germain de Santo André, Fábio, e do outro lado aquele que não é o usuário crônico de detergente IP, o senhor César. Cara, pior que aqui a gente usa assim aqui em casa também, cara, aqui em casa também.

?Voz B

E inclusive eu fui dar uma olhada, eu fui ver um pote que já estava no fim. O número final do lote é 1.

?Voz A

Ô César, quando eu fui, cheguei aqui em casa ontem, né, porque a gente tá gravando sábado, né. Quando eu volto ontem, não, quinta, quando foi quinta-feira, porque ontem eu fui comprar detergente para casa, né. Cheguei da escola quinta-feira, minha mãe já falando sobre isso, né. E o pior é que é o seguinte, faz uns 2 meses que eu não compro detergente Porque assim, eu compro de monte lá no mercado, né, vem, compra o pacote fechado, sai mais barato.

E tinha, acho que, ó, tinha um aqui no meu banheiro, tem um, tinha um lá embaixo, tinha acho que uns 4 fechado, tudo Final 1. Mas eu achei estranho esse negócio, primeiro porque assim, ninguém fala, pô, mas Final 1, cara, Final 1 pode ser um negócio que você comprou, por exemplo, você comprou de monte, você pode ter comprado há 5 meses atrás, pô, vale também, vale, porque Na verdade, inclusive até as moças no Nunca Vi um Cientista falaram, é a questão não é o quando foi feito, a questão é onde foi feito, porque essas irregularidades elas já estão rolando pelo menos desde novembro, quando a própria IP detectou essa bactéria, informou a Anvisa, e aí na semana passada houve uma inspeção de rotina e viram que tava com problema ali. E falaram, ó, melhor descontinuar até provar, ver se é isso aí mesmo.

?Voz B

Viram que tava, viram que, pô, não, isso aqui tá errado, tá não sei o quê. Viram que não arrumaram porra nenhuma, aí falaram, não, então vamos parar essa porra.

?Voz A

É, foi mais ou menos isso, exato, exatamente. E aí a briga da IP é para provar que todas aquelas condições ruins da fábrica não trouxeram a bactéria lá para o produto, produtos deles lá da fábrica em Amparo.

?Voz B

Não, mas aí que tá, a gente perde um ponto fundamental, porque assim, cara, importa se tem a bactéria ou não. Se o seu processo tá errado, você não pode vender, caralho.

?Voz A

Então é exatamente essa questão que eu também bato, sabe?

?Voz B

Não, e eu fico puto, eu fico puto primeiro com a Anvisa. Por quê? Porque ninguém explicou qual que é o problema na fábrica. Depois que veio rolando esse papo, é que aí falaram: olha, pode ser que tem uma bactéria lá fodida que pode ter contaminado os produtos de limpeza. Beleza. E aí falaram da bactéria, tal, não sei o quê, mas isso veio muito depois.

?Voz A

Não, César, na verdade a comunicação foi ok. O problema se chama imprensa de massa que não leu a normativa. A única coisa que eles não falam, ó, eu sei porque eu fui ver em canal de divulgação científica e foi explicado assim: o problema foi, há problemas de questões sanitárias na fábrica. Tudo bem, eles não estão falando quais são, tal, mas estão falando de questão sanitária a qual pode ter rolado contaminação por bactéria tal no produto conforme constatado antes, o que me leva a crer que a fábrica deve ser uma imundície.

?Voz B

Eu sei, mas é isso que eu tô falando. Para mim o problema é esse. Para mim é, se tem um problema, fala qual que é o problema. Porque chegou num ponto que virou tipo, ah, a gente já chegou no ponto da debilidade mental, que até a galera falando, não, é porque aí, pelos caras são bolsonaristas, não sei o quê, sabe? Por isso que a comunicação tem que ser clara. Chega e fala, o problema é XYZ. Pronto, problema é que o privado onde os caras cagam fica do lado da esteira. Pronto, acabou. Você falou isso, acabou. Não tem.

?Voz A

Então é que eu não sei, é que eu não sei de verdade qual que, como que é a denominação desse tipo de problema, se não é algum termo técnico. Mas eu concordo, tá, César, não tô discordando não. Mas assim, eu não acho que o problema seja um problema simples para você colocar para leigo, sabe?

?Voz B

Então, mas é que tá, se é Se não é um problema assim, você fala: olha, são questões assim muito técnicas que a gente não pode explicar. Pronto, só fala isso. Agora você coloca um negócio aberto, dá margem para tudo. Por exemplo, igual você fala da imprensa, imprensa é uma merda, porra. Tinha cara falando para jogar fora detergente. Mano, você não tem que jogar fora. Se o bagulho pode estar contaminado, que você tem que fazer? Entra em contato com o cara e fala: fulano, eu estou com o seu produto isolado, eu gastei X, "Você vai me reembolsar?

Você vai mandar o produto novo? Como é que você vai fazer? Como você quer fazer? Eu estou aqui para te ajudar." Os cara, porra, jornalista falando para jogar fora, mano, pelo amor de Deus. Mas é uma coisa que eu falo porque é que, sei lá, eu acho que tem muito tempo que a minha cabeça já não tá funcionando direito, que eu tenho muito pensamento livre. E uma coisa que me incomoda muito é ver erro de jornalista, tipo jornalista fala um negócio errado essas coisas, porque chega no ponto que eles falam uns negócio que assim não é igual.

Por exemplo, ah, eu tô falando, você tá falando, a gente fala um termo errado, entendeu? É um negócio muito absurdo. Aí você fala, porra, o trabalho do cara é isso, tá ligado? Sabe, é a mesma coisa que o, sei lá, programador, ele vai corrigir o sistema do banco, sistema do banco cai porque o cara esquece um ponto e vírgula.

?Voz A

Não é, não é. E na verdade, o César, eu tava vendo esses dias, é porque assim, eu não paro para ver jornal com frequência, tem mais de 2 meses Eu vejo assim quando eu tô jantando com a minha mãe e eu vejo tipo 10 minutos, então nem acompanho. O que me tem incomodado de jornalista de rua, não vou nem falar jornalismo impresso, porque digital, porque aí o buraco mais embaixo, é uma falta de apuração de coisas, tá ligado? Eu, o que eu tenho sentido, por exemplo, nesse caso da IP, eu não posso reclamar da Globo nesse sentido, que eles fizeram o trabalho deles direitinho.

De informar. Foram lá, falaram: olha, a Anvisa disse isso, a IP disse isso, você tem que ligar para o SACMA, SACMA tá funcionando, ponto. Inclusive eu não duvido que seja até assunto do Fantástico desse domingo, não duvidaria. Mas assim, o grande problema que eu vejo no nosso jornalismo, e aí a gente pode também colocar um pouco nas costas da Anvisa também sobre isso, é que é o seguinte: a Anvisa emitiu uma nota. Normalmente quando ela emite nota ela não vai explicar em detalhes os problemas porque não compete a gente saber quais são. Compete saber que tá proibido porque deu ruim.

?Voz B

Claro que compete, o interesse público, porra.

?Voz A

Não, o interesse público é saber que tem problema. Agora, a particularidade disso tá no Diário Oficial, tá nos autos da Anvisa, que ninguém vai ler, lá tá explicando. Inclusive isso sem Diário Oficial, não. A comunicação da Anvisa é só uma simplificação do que tá no DO. Só que assim, o grande problema é a gente tá numa era a qual você vai ter muita gente mal-intencionada que vai usar uma vírgula que você colocou errada para falar uma coisa que você não escreveu.

?Voz B

Sim, por isso que tem que ter todo cuidado e tem que explicar tudo certinho, porque você não pode dar margem para os caras.

?Voz A

Porque eu fico pensando o explicar tudo certinho quando você, por exemplo, quando eu dava aula, o pessoal de segurança do trabalho, segurança do trabalho também tem normas que são da Anvisa que estão nas NRs. Só que assim, você não vai conseguir explicar uma NR para alguém que não é da área. Você já leu uma NR de segurança de gênio.

?Voz B

Tudo bem, mas aí que tal, Fábio, você não vai explicar uma norma, mas você pode tentar falar o máximo possível de forma simples o que é aquele problema.

?Voz A

Não, o problema que eles explicaram é que é problema relacionado à condição sanitária.

?Voz B

Bom, entende que isso não é problema? Porque se fosse assim, a gente teria que fechar todos os hospitais do Brasil. Por exemplo, tava vendo hoje aí na Record Os caras mostraram um hospital, acho que era em Campinas, onde que era, que aí tava a pessoa lá mostrando dentro da cozinha que a funcionária do hospital, ela tava fazendo pão com geleia lá para os pacientes, ela pegava a mão dela, colocava lá dentro da geleia e passava com a mão no pão.

?Voz A

Então, mas isso daí é um problema de procedimento, e é um problema assim que é fácil de você mostrar para o pessoal. Agora, por exemplo, você vai conseguir, você consegue explicar, por exemplo, procedimento de higienização de de máquina de processamento de produto.

?Voz B

Por exemplo, o caso lá do leite que vinha com soda cáustica. Os caras: "Porra, mas por que soda cáustica? Não sei o quê." "Não, tem soda cáustica no leite?" Depois explicaram, falaram: "Não, o que acontece é o seguinte: quando a fábrica lá, quando a máquina para, é feita a limpeza com soda cáustica. Ao fazer essa limpeza, não foi verificado que ficou resíduo de soda cáustica dentro da máquina e voltou-se a máquina a operar." Logo, aquele resíduo juntou com o leite, por isso que morre.

Simples. Você não precisa entrar em detalhes, você não precisa explicar como é que a máquina funciona, você não precisa. Você pode tentar chegar o próximo possível. Tem coisas que não vai dar para explicar, claro que tem, como tem qualquer assunto, como tem cosmologia. Cosmologia tem um monte de coisa que não dá para entender, como tem, pô, aquela proteína lá que a pesquisadora lá da UFRJ pesquisou lá, que tipo que a pessoa vai lá, apoia lá a menina, isso, olha a menina lá, que tipo que pode, que o pessoal consegue voltar a ter os movimentos lá e tal, que conseguem, vamos lá, entre aspas, consegue reparar a medula.

?Voz A

Sei que não é isso, mas então esse foi um caso que a comunicação foi falha, esse foi um caso que a comunicação foi muito falha, porque tá, cara, você sabe como que, o que que é na verdade a pesquisa dela? Sabe quando que ela divulgou isso daí? Ela divulgou uns 20 dias depois e a pesquisa dela não tinha nem conclusão. É, foi um rolo isso daí, porque a polilaminina era uma possibilidade que nem sabia se tava certo.

?Voz B

Sim, mas ainda tava a possibilidade, isso aí é um estudo, pô.

?Voz A

Mas então, mas não foi o que foi, o que saiu dali foi um problema sério de comunicação, porque dava a entender que todos aqueles pacientes voltar, dá, por causa da substância. E na verdade não se sabe se foi só por ela, se os outros tratamentos que sempre deram resultado também não resultaram. Então aí houve um problema seríssimo. Tanto houve um problema de comunicação que você percebe que ela ficou quieta agora, não fala mais nada disso daí, porque o estudo dela nem foi submetido à análise, sabe?

O estudo dela, do contrário de qualquer outro estudo que você faz nessa área, você tem que mandar para uma revista grande, tipo a Nature, ou qualquer coisa do tipo, e ela, e esse estudo vai ser revisado até para ver se não tem erro de metodologia. E tem erro de metodologia no estudo dela. Mas sabe quando isso foi aparecer? Depois que ela foi no Roda Viva e falou um monte de groselha porque ela chamou a polilaminina de partícula de Deus.

?Voz B

Nossa!

?Voz A

É, então quando eu falo problema de comunicação, eu me refiro a coisas desse tipo, tá? Isso é um problema seríssimo de comunicação porque faltou informação Faltou contexto. E isso daí não foi culpa sua da imprensa, não. Ela divulgou errado e aproveitou que fez fama e logo depois caiu no esquecimento. Agora, a questão da Anvisa falar com as pessoas, o que que eu vejo de problema? Eu, falta um PR, um public relations ali na Anvisa, cara. Eu não acho que é possível, não é?

?Voz B

Falta um public relations, pô, como qualquer órgão público.

?Voz A

Não, mas você tem um setor só para isso, cara. O pior que os órgãos públicos têm um setor disso, e me enraivece muito. O Centro Paula Souza tem um setor só para isso, onde eu trabalho. Então assim, falta alguém para fazer essa parte de— porque assim, tudo bem, você coloca, você faz uma publicação no seu site e tal, beleza, institucionalmente é isso, mas você não manda um press release para imprensa, que isso é importante, você não manda Porque toda vez que você tem relações públicas, o que que as relações públicas faz?

Ele vai conversar com a imprensa. É isso que ele faz, porque normativa tudo e tal.

?Voz B

E justamente esse é o cara, esse é o setor, concordo com você, que vai chegar e falar: como vamos explicar isso para pessoa? Justamente a ideia dos cara, a função dos caras é essa, é pegar o complicado e tornar simples. Principalmente porque algo assim, cara, uma coisa você falar de tipo, ah, um 'Vai ter um recall de um carro aí por causa de não sei o que lá.' Porra, beleza, ninguém é mecânico, tá? Mas, porra, a gente tá falando de saúde, do básico, daquilo que qualquer pessoa, tipo assim, qualquer pessoa que não esteja em estado de miséria usa. Então tem que ter uma explicação.

?Voz A

Não dá para 'Ah, eu encontrei o problema e por isso acabou.' Até porque esse negócio abre para um monte de coisas, porque quando você não faz essa comunicação institucional para outros lugares, para outras vozes que podem falar alguma coisa, você abre espaço para você ter, por exemplo, a IP vai se defender, o que eu também acho justo, não vejo nenhum problema com isso.

?Voz B

Já entrou com liminar lá para tirar a suspensão do recolhimento, suspender recolhimento dos produtos.

?Voz A

É, só que aí vai passar pelo, pela revisão da Anvisa. Se a Anvisa, pela revisão, de falar que não, manter a suspensão, a liminar cai.

?Voz B

Não necessariamente, porque isso aí vai na mão do juiz.

?Voz A

Se o juiz for débil mental também, não é, não. Mas o que a liminar ela coloca, que é o seguinte: isso tem que passar pelo corpo da Anvisa para revisar, não é? Não é, o juiz não interfere nisso. O juiz só vai interferir se por algum acaso eles derrubarem a liminar, porque podem fazer isso, e aí a empresa falar que não, ainda eu tenho os comprovantes tal. Porque a Anvisa tem esse poder, é prerrogativa da Anvisa isso. A Anvisa não é só um órgão de que vai indicar coisa, ela pode suspender coisa.

?Voz B

Eu sei, só que lembra, a gente está no Brasil, está no país em que uma pessoa ela ganha no mês R$160 mil, aí no outro mês ela ganhou R$80 mil porque viram que ela tá recebendo muito mais coisas que ela não devia, e ela fala que ela tá no regime análogo à natalidade. É isso, é o nome disso, juiz. Então, cara, não importa. A Anvisa tem essa prerrogativa? Tem, mas não importa. Eu nem queria falar desse assunto, sinceramente. Eu queria no começo, que na verdade era para ter sido feito semana passada, era falar uma coisa justamente olhando nos olhos da Capcom, falar: Capcom, nós sabemos o que vocês estão fazendo, vocês estão tentando aí aumentar a taxa de natalidade no mundo inteiro.

Primeiro com Resident Evil, onde você tem a heroína que tem que ficar babando a criança. Aí depois você lança uma porra de um jogo que teoricamente assim é, parece um pouco um jogo de turno, parece um pouco um FPS, mas que na verdade é você, é o cara sendo pai de uma, sendo babá de um androide.

?Voz A

Inclusive eu só não comprei do Pragmata porque tá meio caro, mas eu tô esperando baixar um pouquinho para comprar o Pragmata, como qualquer lançamento, né?

?Voz B

Mas é que eles fizeram isso com Resident Evil Re:King, se eu não me engano, né? E com o Pragmata.

?Voz A

Que o Pragmata, assim, já me falaram, o jogo é curto, 10 horas você vence, o que eu acho ok para o tempo que eu tenho. E eu gostei. E os memes desse, do Pragmata, tá muito engraçado, cara, porque já estavam chamando de Dead Space.

?Voz B

Mas é, mas é o simulador de pai, porra.

?Voz A

Dead Space, porque não, mas é uma paródia com Dead Space, porque o climão é parecido, tá ligado? É você num lugar que só tem E a pronúncia de dad e dead pai é a mesma em inglês, só que em vez de você ter criaturas alienígenas, tem uns robozão. Você tem uns robozão de ar e você tem uma outra IA para te ajudar a acabar com eles.

?Voz B

E como é um negócio que é um simulador de pai, é um ambiente todo claro, ao contrário de Dead Space que é tudo escuro.

?Voz A

É verdade, é verdade. Não, e o jogo ele é interessantíssimo, a proposta dele. Tá certo, como jogo, tá, como jogo ele não é lá muito inovador, mas eu—

?Voz B

tem gente falando que é capaz de ganhar Jogo do Ano.

?Voz A

Olha, eu não duvido, viu? Pior que eu não duvido não. Mas eu falo pelo seguinte, se a gente vai falar de jogo, jogo mesmo, conhece a questão do Kojima? Que o Kojima às vezes fuma uns bagulho mais forte que loló. É muito difícil algum jogo AAA ser criativo, é muito difícil. GTA não vai ser criativo, jogo, vai ter um baita jogo, mas não vai ser criativo. É, você tem o próprio objetivo, o hacking, ele não é muito diferente de outros objetivos que você tinha um processo muito parecido com aquele ali.

?Voz B

Mas assim, que não tem como ser criativo, Fábio. A graça do GTA é porque ele é GTA, você sabe o que esperar. Aí de repente o cara vai fazer um jogo diferente, não, cara, a graça do GTA é porque GTA é a mesma coisa que você Porra, você vai pegar o FIFA e de repente você sai atirando nos caras.

?Voz A

Porra, não, mas eu falo isso porque antes de chegar no GTA 4, o GTA era mais criativo entre os jogos. Você pegar o Balade Gaytone, cara, é muito diferente o jeitão do Balade Gaytone do San Andreas, que é o favorito de muita gente.

?Voz B

San Andreas, porra, vai tomar no cu, que é uma porra. Eu jogava até dar dor de cabeça, eu parava de jogar quando falava, cara, eu não tô aguentando.

?Voz A

Então não, e é isso que eu tô falando. Não que eu ache que o GTA não vai ser um baita jogo, vai, mas essa criatividade que o GTA tinha até o 4 morreu no 5. E tudo bem, tá? E tudo bem.

?Voz B

Ah, mas o, é que assim, a maior inovação que veio no 5 foram os 3 protagonistas.

?Voz A

Mas não é que nem quando você pega, por exemplo, a diferença do 3 para o San Andreas, que é praticamente um outro jogo.

?Voz B

Não, mas 3 por San Andreas também você teve mudança de plataforma, né? Porque o San Andreas acho que foi o primeiro, foi o primeiro HD.

?Voz A

Sim, não, e não só isso, o próprio jogo ficou maior, ficou diferente. Mas tudo bem, vamos falar, tudo bem. Eu não espero que jogos AAA sejam criativos, eu não espero. É, a não ser que você seja o Kojima, porque o Kojima ele faz do jeito dele as coisas ali. Mas bem, o Pragmata, como o jogo, jogo o mesmo. Eu acho ele interessante em termos de jogo, mas o que pega, que eu acho que essa estratégia que a Capcom resolveu colocar para de fato as pessoas repararem, é vamos investir em algo que tá faltando em um monte de jogo AAA, que é história.

?Voz B

É, e jogo tem que ser divertido também, um monte de coisa.

?Voz A

Exato, que é outro ponto também.

?Voz B

Por exemplo, você pega lá a série Horizon, um dos grandes problemas é que é um jogo jogo que saiu nas épocas erradas, que o primeiro saiu na mesma época, tipo, saiu acho que uma semana depois saiu Elden Ring.

?Voz A

Porra, e o Elden Ring é bem melhor, cara.

?Voz B

Não, mas porra, vai tomar no cu também, né? É, não, o primeiro não, acho que o primeiro saiu na época do Breath of the Wild do Zelda, o que já é uma concorrência injusta, cara. Aí já é injusto porque você tem, por exemplo, Os caras, eles têm lá os marcadores para você fazer, você escalar e tal. Esse pega o Breath of the Wild, que você faz o que você quiser, porra, tem nem comparação. Aí você vem o segundo, pô, que deu um salto de qualidade em relação ao primeiro, né?

Tudo bem que muita gente reclama porque a história do primeiro é muito melhor, mas também você tá conhecendo tudo, né? Então é capaz da história, da história do primeiro tem que ser melhor, senão você não vai querer jogar o segundo. Aí no segundo saiu, pouco depois saiu Elden Aí não tem o que fazer.

?Voz A

Que é, apesar de não ser um jogo que eu goste muito, porque eu não sou muito chegado nesses jogos meio Dark Souls, meio hack and slash, mas cara, Elden Ring tem uma coisa que faltava muito em jogo AAA. Porque assim, mais uma vez, eu acho Elden Ring um baita de um jogo cafona como jogo, tá? Não tô falando o todo como jogo, como jogo mesmo é basicamente você de ponto A, ponto B, descer a porrada. Eu Não sou um grande fã disso. God of War se sustentou muitos anos fazendo isso nas franquias, até que ele deveria dar uma mudada.

?Voz B

Mas é estilo de jogo, pô.

?Voz A

Não, sim, eu sei que é estilo de jogo, eu sei. O Devil May Cry, inclusive, o que teve lá, o Dante, faz a mesma coisa. Mas o que que o Elden Ring pegou? Elden Ring tem os personagens, são muito carismáticos. Então a história é legal.

?Voz B

Sim, ó, puta do história, a história é legal.

?Voz A

Né?

?Voz B

E aquele negócio, porque também, se você for pegar esse jogo tipo Dark Souls, o jogo que teve puta novidade foi Lies of P, que faz um bagulho desse com a história do Pinóquio, que aliás, baita jogão também, cara.

?Voz A

Lies of P, baita jogão. E ele é um jogo criativo e é um jogo com história. O Sekiro é quase um jogo criativo porque tem uns lances muito legais de mecânica, mas a história é muito foda. Então a Capcom percebeu o seguinte: vamos investir em história. Então você tem um Resident Evil bom que fez uma baita história, e fazia tempo que Resident Evil não tinha uma baita história. Na verdade, não é que tinha uma baita história, vamos ser honestos, Resident Evil, a história era sempre uma história mediana.

?Voz B

Não, o problema é que muito, muitas das vezes o cara tava sobrevivendo de remaster, né?

?Voz A

Lógico, lógico.

?Voz B

Colocar em plataforma nova. Não, tudo bem, eu não vejo problema você pegar, tipo, pô, seria legal eu poder jogar o Resident Evil 2 no PlayStation 5, porra, tudo bem. Ou a trilogia original do Tomb Raider, tá bom, tudo bem. Não são jogos que me apetecem, mas não vejo problema nenhum. Mas você ficar fazendo só isso também é foda.

?Voz A

É, daí eu pego também no caso do Resident Evil pelo seguinte: o Resident Evil, ele ficou melhor por conta das continuações e principalmente dos spin-offs como Code Verônica, que é o primeiro com Bob-omb Story, que é a história da Amarradinha. Porque o primeiro, a história de— se você pegar o segundo e principalmente o 4, tem coisa ali que se contradiz. Eles arrumaram isso num dos remasters que eles fizeram e também desativou o zero lá do GameCube.

Aí eles arrumaram isso, tanto é que você vai pegar os remasters, remaster tão certinho agora em termos de história. Inclusive O remaster você não tem mais aquele movimento tanque, o que eu achava um horror, cara. Eu odiava aquele movimento tanque do Resident Evil.

?Voz B

Cara, nunca, cara, Resident Evil eu tinha no Play 1, que eu lembro que é um daqueles jogos que eu joguei 2 minutos e eu falei, cara, não, não, não, não, obrigado, não é para mim. Tipo Tomb Raider também, mesma coisa, eu não conseguia nem me movimentar direito, falei não, não gostava.

?Voz A

Tomb Raider eu achava travado, PlayStation, cara, eu não gostava.

?Voz B

Quando eu fui jogar também não consegui, graças a Deus, né? Que senão ia estar viciado aí, perder sei lá exponencialmente, acho que 4, 5 vezes mais tempo do que eu perdi, que eu já perdi com o jogo, eu perderia com o WoW, né? E dinheiro inclusive, isso que é o pior, que você perder tempo, perder tempo beleza, agora perder tempo e perder dinheiro ainda, aí você— mas a gente tá vendo que a Capcom tá fazendo e eu não sou contra não, acho que eu achei legal.

?Voz A

Não, eu gostei, eu de fato gostei de verdade, porque fazia tempo que a Capcom lançava um jogo legal.

?Voz B

É, então um jogo novo, né?

?Voz A

Um jogo legal e um jogo novo, ele tira os dois.

?Voz B

Porque também você ficar só com continuação, aí você pega o Street Fighter 6, tem aquela babaquice de ficar andando por aí lutando e construindo seu personagem, porra, porque vai dando mesmo, vai ter as mesmas coisas que os outros personagens que já tem, cara.

?Voz A

Isso daí não é novo nesse Street Fighter, viu? O Alpha 3 do PlayStation já tinha esse modo. De vocês. Não, você escolheu um personagem qualquer, porque você não mudava personagem, você escolheu um dos bonecos disponível lá, ele ia ganhando atributo.

?Voz B

Não, não, ganhar XP tudo bem, isso eu lembro. Não, não era o Survival, eu lembro que tinha um modo assim agora, porque você anda, é tipo um Pokémon, entendeu? Você vai andando.

?Voz A

Não, é que nem o Tekken 5 tinha esse modo, inclusive era um modo meio RPG tosquíssimo. Tosquíssimo esse modo.

?Voz B

Sim, que é tosco. E por sinal, muito legal, né, que lembrando aí Pokémon, que é muito legal que você vê que Pokémon GO ele não era um jogo, foi a Nintendo fazendo as pessoas fazer mapa para eles, mostrar como é que as pessoas, como elas costumam andar pela cidade, pelos locais, e que os óculos de realidade virtual, realidade aumentada, estão fazendo a mesma coisa, né, que é para treinar robô Principalmente noção de profundidade, lidar com objeto.

E as pessoas estão pagando para fazer isso, pagando caro para caralho, né? Quer dizer, para trabalhar de graça. Pokémon pelo menos foi um fenômeno legal, fazer as pessoas se movimentarem, né? Tipo, porra, tipo, toda premissa era legal. Você via o avô com o neto e aí andando para lá e para cá. O avô que às vezes ficava trancado em casa o inteiro se movimentando, galera andando. Porra, era muito legal isso, apesar de estar trabalhando de graça para Nintendo, né? Mas aí são outros 500.

?Voz A

Não, concordo, concordo plenamente. Bom, vamos virar o nosso bloco, César?

?Voz B

Ah, não sei, pode ser.

?Voz A

Olha, César, deixa eu falar primeiro de onde que vem a minha ideia do tema desse programa. Eu tava um belo dia fazendo aquilo que toda pessoa super ocupada faz na internet, que fica olhando Reels do Instagram, e eu vi um vídeo que eu devia até ter salvo, cara, porque eu achei a ideia, a proposição que o cara deu muito legal, de que os gêneros musicais estariam acabando. E qual que era o argumento do cara? Você pega uma banda, por exemplo, como Spirit Box, foi o exemplo que ele deu inclusive. A banda não é uma banda só de metalcore, por exemplo.

?Voz B

Entendeu?

?Voz A

Quando ele vai pegar o Slipknot, ele não é uma banda de post-metalcore, por muitas influências de soul music, essas coisas. Então o argumento do cara é: hoje é muito difícil você classificar uma banda numa caixinha como era antigamente. E eu que eu quis trazer a discussão aqui para ser a mesma, que o gênero musical ele está com os dias contados. Eu acho que é uma questão interessante da gente pensar, porque o que que eu vejo com a galera mais jovem de uns 5 anos para cá?

Antigamente você tinha muito uma galera jovem que, sei lá, o cara escutar um AC/DC, depois escutar um MC Rian, depois ia numa baladinha dançar lá no Villa Mix da vida que tocar um sertanejo muito bosta. E esse era o jovem que vai fazer o que nós vamos chamar erroneamente de um cara muito eclético, mas vai ser um cara que não se prende a um gênero musical. Só que de quando pra cá essa situação tem se invertido. Com mais bandas de rock voltando ativa, a gente começa a ver uma molecada também mais ativa com essa coisa de banda de rock.

E qual que é a sua impressão, Cezar, antes da gente começar a entrar no programa de fato?

?Voz B

Não sei, porque assim, até pensando em bandas que tem vários elementos, coisas assim, cara, não é a totalidade assim. Porque primeiro que, por exemplo, as bandas antigas elas continuam, enquanto ainda tem os Metallica da vida, Iron Maiden, essas coisas, e que são aquela coisa fixa, que não mudam, até por questão mercadológica, né? Não sei, é que também precisa entender, tipo assim, para que serve um estilo musical, um rótulo, né?

Que, por exemplo, ele já falou várias vezes aqui que, pô, na época que a gente estava crescendo, cara, nunca que você ia ver, por exemplo, pensar em tempo de escola, nunca que você ia ver alguém que ouve Rihanna sentado junto conversando com alguém que ouve metal.

?Voz A

Ah não, isso é verdade.

?Voz B

Eram públicos que as pessoas se segregavam por conta disso.

?Voz A

Então eu concordo, eu concordo. E eu acrescento, não só o cara que escuta, que a pessoa que escuta Rihanna não ia se aproximar, sei lá, de um cara que escuta Metallica, cara que escuta AC/DC. Eles teriam universos pessoais, que a gente hoje vai chamar de bolhas, muito distintos, porque essas pessoas nem vão se trombar uma com a outra, mesmo que elas estejam no mesmo ambiente. Não, trombar elas vão, porque, por exemplo, eu tô falando, por exemplo, você pega em ambiente de escola, no sentido de que uma vai olhar para outra e falar: vamos bater um papo.

?Voz B

Então, mas é porque assim, são pessoas que estão no mesmo ambiente, mas que, que negócio, se você colocasse, por exemplo, as duas sentadas dentro de uma sala sozinhas, a não ser que elas fossem falar daquilo que elas estão fazendo lá, elas não teriam um outro assunto, exato, de universos aí diferentes. Mas, e hoje em dia a gente não vê isso, né? Até porque hoje em dia não existe mais esse apartheid musical, né? Não tem esse negócio tipo, ah, você, você ouve pagode, eu te odeio.

?Voz A

Ah não, e tem que contar o seguinte, é, os gêneros musicais, a gente até vai falar um pouquinho sobre o que que é um gênero musical daqui a pouco, mas por exemplo, se o cara fosse fã gostavam de power metal, muito provavelmente esse cara também gostava de videogame, muito provavelmente esse cara gosta de RPG. Então meio que os gostos dessas pessoas são parecidos em algumas coisas. Tanto é, quando eu era mais novo, eu tava meus 15 anos, a primeira amizade que eu fiz quando fui para escola nova lá na Etec foi com um moleque que veio perguntar para mim se eu gostava de Homem-Aranha, e que depois a gente descobriu que a gente gostava de power metal.

Então assim, a gente tem uma questão de gosto gosto musical, mas o gosto musical também hoje bem menos, tá? Mas por exemplo, a pessoa gostava de pop, era muito provável que a pessoa também fosse ligada em moda, fosse ligada também em tendências, né, na parte de entender como as tendências funcionavam, que soubesse vestir bem. Olha que coisa engraçada, é, o adolescente é uma coisa, pessoa que liga tanto para aparência, mas os caras rock, do heavy metal, eles eram uns largadão. Eu falo isso por experiência minha, inclusive.

?Voz B

Eu não sei se vestir bem, né, porque viu a galera que vestiu as coisas assim ridícula que curtia essas coisas.

?Voz A

Mas, ah, mas é que tá, eu acho, a gente tem que pensar que o se vestir bem é dentro de um determinado contexto. Para nós, qualquer coisa que fosse muito colorida, muito chamativa, muito extravagante, a gente chama estranho.

?Voz B

Esse sentido. Tô falando em colocar coisas que você vê que não combina. Porque tipo, por exemplo, sei lá, a pessoa, você vê um cara chegar numa escola com, esqueci o nome daquele negócio, você põe no pescoço, cordão, não, não, você põe no pescoço, lembra? Era de pelúcia, um cachecol, é tipo um scarf, alguma coisa assim, sei lá, qualquer coisa, é, pode ser. Um chale, sharp, sei lá. Então, e você viu a pessoa assim que vinha com uma roupa tal e com um negócio desse rosa.

Você fala que a pessoa que faz isso se veste bem? Desculpa, isso não é se vestir bem.

?Voz A

Mas olha, cara, vai por anos trabalhando no curso de moda, a gente vê disso daí para pior, tá? E detalhe, sim, essas pessoas estão se vestindo bem, não quer dizer que as pessoas estejam agradáveis para a gente ver, tá?

?Voz B

Não, não, eu tô falando, não, Tô falando porque assim, o cara que gosta de metal, ele não se veste bem. Por quê? Porque ele usa uma calça rasgada, usa um sapato ali, um tênis velho surrado, é usar coletinho, só veste preto.

?Voz A

Normalmente tem uma camisa de banda que já tá cinza, né?

?Voz B

Não, mas não importa. O importante é isso não é se vestir bem. Por mais que o cara esteja no meio do metal, a falar, ah, mas o cara tá bem vestido, o cara não tá bem vestido, o cara tá adequado para bolha dele. Não quer dizer que ele tá bem vestido. É a mesma coisa se o cara chegar de couture. Se chega um cara para aula de moda, ele tá de couture no preto e de uma mini saia rosa, ele não está bem vestido.

?Voz A

Acredite em mim, eu já vi isso. Acredite, eu já vi isso. E não é incomum as meninas fazerem isso, porque é normal. É questão de experimentar também. E outra Ainda assim, se você se comparativamente com o metaleiro médio, as pessoas tinham um senso de estética melhor que o nosso. Tinha, tinha um senso de estética melhor que o nosso. E por quê? Fazia parte do universo dessas pessoas. O nosso universo de fã de rock, metal, jamais a gente entraria em contato com a questão de, ah, que tipo de look eu devo compor? Aliás, essa palavra nem existiria no nosso vocabulário.

?Voz B

E isso é tipo de falar assim, look, sei lá, falasse falou que você ia ser espancado.

?Voz A

É, exato, né? Eu ia tomar uma bordoada, ou ia sofrer um bullying pesado. Era exatamente isso.

?Voz B

Essa é a palavra, espancado.

?Voz A

Entende? Hoje não. Hoje a galera tá menos— essas bolhas, elas conversam mais entre si e elas não são tão fechadas. Claro que ainda vamos ter os estereótipos. Inclusive, você já falou alguns estereótipos que prometem até hoje. O metaleiro vai ser o cara de cabelo encebado, camisa surrada, calça que já devia ter ido embora faz uns anos. Mas assim, ele vai existir da mesma forma que a gente vai achar que a pessoa que curte, sei lá, uma Lady Gaga é uma bicha performática, sabe?

E tudo bem, esses estereótipos ainda vão existir, mas eles vão ser muito menos representativos, ao ponto de que, por exemplo, hoje é você gostar de metal, por por exemplo, não necessariamente te conecta ao universo de coisas nerds, não te conecta ao universo de coisas relacionadas à história, a literatura. E isso já não existe mais, essas bolhas são bem menores agora.

?Voz B

Um ponto é que, por exemplo, que a gente não via tanto, você pode ver uma menina que ela se veste normal, como uma menina normal, não é trevosa nem nada, e que ouve metal. É extremo.

?Voz A

Sim. Ah, eu descobri lá onde eu dou aula que uma aluna minha que não tem esse visual carregado, um dia desses veio com uma camiseta do Venom, do Welcome to Hell. Então, cara, assim acontece, e eu acho ok. Só que antes, vamos, para a gente poder falar sobre se o gênero musical tá morrendo, vamos explicar o que é gênero musical, né? Porque esse é um espinho terrível, porque a definição mais comum de gênero musical que a gente costuma utilizar é que é um conjunto conjunto de eventos musicais governados por regras socialmente aceitas.

Não é apenas como soa, né, como parece sonoramente, mas como esse som, como essa musicalidade se comporta e se representa no mundo, no universo. O que dá umas brigas muito interessantes, do tipo assim, gente falando que new metal não é metal, mesmo que new metal tenha todos os elementos possíveis do metal. Bandas que tu usem até cultural. O próprio Linkin Park no Hybrid Theory tem muito elemento de metal moderno, que o pessoal chama, e ainda assim não é considerado uma banda de metal.

Por quê? Porque aquele tipo de som não está encaixado no contexto de quem escuta metal. Da mesma maneira que por muitos anos o metalcore não fazia parte do metal. Faz pouco tempo que o Metal Archives começou a aceitar metalcore. Para você ter uma ideia, a Sylvaine não é considerada metal pelo Metal Archives. Então, o metal é um exemplo, não só metal, tá, mas outros gêneros vão pegar uma coisa parecida. Não basta você soar como aquilo, o que você produz de música tem que conversar com a realidade que é construída por este gênero. E você queria falar alguma coisa que eu te cortei, César?

?Voz B

Não, não, eu ia falar que as coisas evoluem, né, as coisas evoluem, né, tipo nada é permanente assim, né, é cristalino, tem as coisas, principalmente você fala em fenômeno social, é, as coisas mudam, né?

?Voz A

Então, a primeira coisa que a gente precisa pensar é que o gênero musical, ele é, antes de tudo, um fenômeno sociológico. Se a gente parar para analisar, gênero musical não existe, ele não existe. É diferente, por exemplo, um samba. Samba não é só um gênero musical, samba é toda uma cultura que se cria em cima dele. O forró, mesma coisa. O jazz nem tanto, jazz ele se torna gênero já, mas Coisas nossas aqui, rumba, coco, todas essas coisas não são só gêneros musicais, são toda uma cultura que vai dar origem nesse gênero também.

Agora, o gênero musical em si, ele é em primeiro lugar uma construção sociológica que a partir do som se materializa. Aí, pegando alguns estudos que se faz sobre o que é gênero musical, é muito comum dividir em 5 dimensões que servem a gente tem um norte aqui que vem além do próprio som, né? Porque o som ele é uma consequência disso. A primeira é, são regras técnicas. Então os gêneros na sua maioria seguem regras na qual tem um tipo de ritmo, uma harmonia e um timbre próprio.

O New Metal, por exemplo, a timbragem dele é uma timbragem super grave, o que afastou muitas vezes ele do metal. O pessoal falava não, porque ele sempre toca um tom abaixo da maioria das bandas de metal. Semióticas, que é o que significa com as letras, Isso é principalmente útil em gêneros como hip-hop, cuja base é a letra, comportamentais, que é como o artista se apresenta, sociais e ideológicas, que quem faz esse tipo de música e quem ouve esse tipo de música, e econômicas, que é por onde, para quem é distribuída essa música.

Isso é o que define o gênero. E aí a gente consegue traçar umas coisas muito interessantes. Por que que muita gente não considerava metalcore como metal? Você tem alguma ideia do porquê, César?

?Voz B

Sei lá, quem que era o público do metalcore até uns 15 anos atrás?

?Voz A

Não era velho, era uma molecada de 15, 16 anos que hoje tem mais de 30. Lembrando que metalcore é um estilo que existe desde a década de 90, mas só teve o boom mesmo nos anos 2000. Quem ouvia isso era jovem, e normalmente jovem que não era lá muito rico também, porque show de metalcore era show pequeno, era show que você paga 15 conto para assistir. Os grandes artistas pessoas do gênero também não faziam shows muito caros e tudo mais.

Então metalcore, ele no começo era um som de pessoas muito jovens, e pessoas que por serem muito jovens também não dispunham de grandes recursos. Então comparado com a galera do metal, quem que é a galera do metal nos anos 2000? No grosso não é um público jovem, mas já é um público com algum poder aquisitivo, porque metal exige gasto, cara.

?Voz B

É que depende qual é o gênero de metal que você tá falando.

?Voz A

Não, mas qualquer um deles é que quanto mais extremo, mais caro fica. Esse é um problema também, tá?

?Voz B

Não, não digo nem extremo, eu digo na verdade no contrário, eu digo no mainstream, que tipo, que é o que você vai ver ali. Porque por exemplo, você vai ver, você vai num show do Iron Maiden ali, você vai ter os tiozão reaça lá, tudo. Você vai num show mais extremo, às vezes vai ter outras coisas, você vai ter um público mais homogêneo. Vai ter tanta aula.

?Voz A

Ah não, sim, eu concordo, mas eu tô falando de gasto no geral, porque material de banda underground é caro, é muito caro. As bandas virem para cá é muito raro porque é difícil de trazer por ter pouco público. Mas é um público, por exemplo, que não era o público de uma new metal e metalcore, principalmente metalcore, era público de jovem, eram pessoas muito jovens. Por que que a galera torcia o nariz para Gloria aqui no Brasil, porque quem gostava era moleque, porque confundia com emo também.

Então, e como se não bastasse, a galera do metalcore também dividia público com a galera do emo, principalmente porque do emo nós passamos a ter o metalcore com influência de emo. Tem muito metalcore com influência de emo, principalmente naquela coisa da troca dos vocais, né, vocal limpo e vocal gutural. Você tem gêneros do emo que são mais agressivos, como emo violence, como emo— tem um gênero do emo que eu tô esquecendo agora, que mistura com os lances de pós-hardcore, tudo mais.

Mas também vai ter esse lance mais pesado. O público emo, graças também ao Deftones, vai dividir espaço com a galera do metalcore, com a galera do shoegaze. E tudo isso daí era galera jovem, que hoje não tá mais tão jovem, mas antes de 2000 era tudo muito jovem. Então esses estilos vão ser muito rechaçados pela galera do metal, principalmente, porque a galera do metal é uma galera velha, uma galera envelhecida, sabe? O público do metal ainda é um público majoritariamente velho, e o público velho tem esse problema, ele não vai aceitar gêneros novos dentro da sua bolinha.

Só que aí com o tempo isso foi mudando, e aí por isso que a gente tem essas 5 dimensões do gênero. E como você mesmo, Bivin, disse, isso é mutável, as coisas mudam de acordo com a época. A gente tem que pensar que gênero musical, ele é um rótulo provisório. O que você hoje, a gente hoje considera como heavy metal não era o que se considerava como heavy metal na década de 70. Aliás, heavy metal na década de 70 era muito mais simples do que o heavy metal dos anos 2020.

E aí tem uma coisa importante que fala sobre gênero musical, que gênero musical ele é um mediador. E aí eu fui ver um pouco do Simon Frith e do Jedrzej Janot, que são dois estudiosos dessa área de cultura de música e tudo mais, ele disse que assim, o gênero musical liga os artistas, a indústria musical e o público. E aí eu concordo, porque, por exemplo, se você gosta de heavy metal, você sabe para onde que você vai se você quiser conhecer música nova.

Você vai para a caixinha do heavy metal. Então a gravadora sabe para quem, para quem vai servir os novos lançamentos. O cara que procura isso sabe onde vai atrás, lá na caixinha do lá na parte da loja CDs, ou então no streaming, na tag ou na playlist, procurar.

?Voz B

Aliás, você não vai, porque Heavy Metal você vai achar música nova, cara.

?Voz A

Pior que tem, mas eu entendo, mas a maioria é a mesma coisa. Parece que quando eu pego banda nova, com raríssimas exceções, eu tô tendo um repeteco de banda que eu já conheço. E, mas vai ter, sabe, você vai ter ali o seu nicho, e é interessante Porque, por exemplo, você conectar pessoas é muito mais fácil quando você conhece o gênero musical, porque o fã de heavy metal, por exemplo, vai ter assunto para conversar com outro fã de heavy metal.

Eles vão ter afinidade de gostos e de visões de mundo, e os artistas também vão compartilhar em muitos casos esse tipo de coisa. E é por isso que dá muito B.O. quando, por exemplo, um artista de pop faz uma coisa que nem eu não lembro se foi com a Sabrina Carpenter, mas eu acho que foi com ela, que acho que foi a Miley Cyrus, negócio da bandeira da Palestina, né?

?Voz B

Não, não, eu ia falar que a Miley Cyrus ela fez um disco de rock, alguma coisa assim, né?

?Voz A

Não, fez, fez, mas eu tô falando assim de você ir contra o seu público. Você tem, acho que foi o caso da Sabrina Carpenter, que ela não deixou que um um fã, uma fã subiu lá com a bandeira da Palestina e teve um bagulho, depois ela pediu desculpas e tudo mais. Mas por que que isso, como mediador, machuca o público dela? Porque ela tem uma postura extremamente progressista. Então qual que é o tipo de público que vai atrás do som dela?

Uma galera mais progressista. Da mesma maneira que foi, pegou muito mal quando os cara do Earth se acusaram de tocar bar porque tinha a bandeira da Palestina, eles falaram: nós não misturamos temos música com política. E pegou mal por quê? Porque quem escuta esses gêneros tipo drone, doom, essas coisas, é um público com a mentalidade diferente. Porque fosse um pessoal do heavy metal, não ia pegar nada. Então isso também cria para o artista uma coisa que o público espera dele.

E isso pega pesado principalmente se você for mulher e se você for pop. Que aí a gente até comentou no programa da cobrança que fizeram lá com a Sabrina Carpenter de ter feito um show meia-boca. Outra boca, sendo que o Justin Bieber fez playback em cima de vídeo do YouTube, sabe? E a gente entende. Então, só que por que que o público geral do Justin Bieber não reclamou disso? Porque os caras são os miolos molhos, os cara não tão querendo saber de performance, os cara quer saber do artista ali.

O cara podia tá cagando numa lata, sabe? Eles vão falar que é um conceito novo, tá cagando para indústria.

?Voz B

É que teve falou que foi conceito, né?

?Voz A

É, não, um monte de fã. Não, e apresentação foi uma merda, cara. A Sabrina Carpenter pode ter mil defeitos do que ela fez, mas ela entregou um show, pelo menos, sabe? Entregou um show. E aí, só que tem muito uma coisa que a gente precisa lembrar: quase todos os gêneros musicais, os nomes não foram dados por quem faz parte desse gênero. Ou é uma piadinha, ou é um jornalista falando bosta. Eu lembro de uma vez, e isso que é uma das coisas mais engraçadas, Quando o Black Sabbath foi fazer seu último show, a entrevista que o Tommy ainda foi, tu nem é homem que falou isso de que eles são os pais do heavy metal.

Beleza, só que quando o Oz deu uma entrevista lá nos anos 90 para MTV, ele falava: eu não considero Black Sabbath heavy metal, porque se Black Sabbath é heavy metal, Beatles é heavy metal, porque nós copiamos muita coisa dos Beatles. E aí que entra um problema: esses rótulos, na sua grande maioria, são pejorativos. Por que que, por exemplo, o goth, por que que boa parte das bandas dos anos 80 não se considera gótico, porque se chama de gótico era insulto, era ofensivo, era falar que o cara era o esquisitão, era o trevosão, e eles não curtiam isso.

Depois dos 90 que a galera meio que se encanou disso, mas as bandas antigas não gostam. O Lemmy não gostava de ser chamado de heavy metal também, ele falava que ele tocava rock, só que rock muito alto. Então o rótulo ele não surge naturalmente, é com raros casos na copa, né, pelos ritmos dos brasileiros, boa parte tem origens históricas muito mais profundas. Samba, choro, frevo.

?Voz B

Só que agora não tem nada que se chama de MPB.

?Voz A

Exato. Não, MPB foi todo um movimento político que depois virou um rótulo que não diz porra nenhuma.

?Voz B

Na verdade, junção de movimentos, né? Porque teve a Tropicália, vários movimentos, né?

?Voz A

Inclusive movimento como Avanguarda Paulista, que era meio crítico música aos rumos da MPB. Então assim, a questão é que MPB não foi também um rótulo que eles se deram. MPB veio de fora esse rótulo, porque eles eram um monte de movimentos juntos ali, que aconteceu ao mesmo tempo, que o pessoal tudo se conhecia. E por algum acaso o rótulo MPB pegou e ficou. E engraçado, porque a briga do pessoal da MPB era justamente para que a música deles não tivesse um rótulo.

Tanto que você ia pegar um Milton Nascimento, pegar um Caetano Veloso, cara, eles são completamente diferentes. Esse conceito de que MPB é aquela música meio bunda mole, isso é coisa dos anos 90, dos 2000, com a nova MPB. MPB não era isso. MPB era uma coisa multifacetada, mas para agradar o mercado depois virou uma coisa só. E MPB é um caso engraçado porque MPB existe como estilo, mas não existe um grupo social fã IPB.

?Voz B

Olha, tem bairros, né, tipo Leblon, Copacabana.

?Voz A

Não, mas eu tô falando, não tem um grupo, sabe? Não é que nem, por exemplo, não tem um punk, um metaleiro, um gótico. Esses estilos assim surgidos de movimentos, você vê como o cara ter artificial, eles não formaram nenhuma subcultura. Não que todos os estilos formem, mas há uma tendência, já que o estilo é um caminho para as pessoas, que quando elas começarem a se juntar, elas formem uma subcultura, que aliás é outra característica do gênero musical.

Gênero musical tem uma propensão muito forte de criar uma identidade via subcultura. E aí, por exemplo, forró tem uma subcultura forte, inclusive, principalmente no Nordeste.

?Voz B

O samba, não só Nordeste, vários estados do Sudeste e Sul tem também, porque a galera que vem para cá, né? Sim, aí tem vários clubes aí que tocam, que o pessoal se reúne, e é uma cultura.

?Voz A

O forró não é só uma música para você dançar batendo coxa com a mina. Tem uma cultura forte o forró. O samba também tem, pô, a própria cultura da roda de samba, bicho. Eu acho que é uma coisa maravilhosa, os cara ali ouvindo sambinha, apreciando a música, apreciando uma cerveja.

?Voz B

E no caso, tanto forró quanto samba tem a questão da culinária junto também. Sim, que aí você tem muito, muito dessas rodas de samba que o pessoal vai lá, faz feijão, Sim, sim.

?Voz A

E então você tem uma cultura dentro disso daí. Aí tem o rap, que não precisa nem falar, cara. Cultura do rap é enorme, é enorme, é muito grande. O próprio rock tem um lado cultural. E toda vez que a gente vai falar de estilo, ele carrega uma identidade social, uma identidade cultural e uma identidade geográfica, que quanto mais universalizado esse gênero fica música, mas ele vai perdendo esse traço de regionalidade. Eu vejo isso pelo rock.

O rock hoje você não associa mais à música do negro norte-americano. Hoje o rock é um estilo do mundo todo. O jazz, a mesma coisa. Agora, você não vai ver um forró sendo tocado por um americano.

?Voz B

Ó, não fala de samba que já tem até japonês tocando samba.

?Voz A

Tem isso, já vi.

?Voz B

Sul-coreano tocando pagode.

?Voz A

Também já vi isso daí. Mas assim, soa caricato quando você puta, é só caricato. Não é que nem, por exemplo, você escutar um coreano cantando rock, de boa, ninguém vai achar estranho isso. Agora você escutar cantando samba, cantando pagode, a gente estranha porque parece uma caricatura. Da mesma forma que eu dava muita risada, tinha uma ex-aluna minha, e eu confesso que eu não disse nada porque eu não gosto de quebrar os sonhos de jovens, mas a menina queria montar um grupo de K-pop no Brasil e eu fico Aí eu fico pensando, cara, mas o K-pop não é um gênero musical tão, tão distinto a ponto de ter um gênero separado dos outros?

?Voz B

É porque ela vai querer cantar em coreano.

?Voz A

É, então, e pior que a banda tinha nome em português, aí não deu certo, audição foi uma bosta, teve esse rolê. Mas é, mas só cai cato quando acontece isso. Mesma coisa, um amigo meu tinha uma banda de J-rock brasileira e confesso que eu dava muita risada dele. E você entende, gente, tem gêneros que conseguem vencer a barreira da regionalidade, mas tem gênero que não dá. Por exemplo, você não vai ver um brasileiro, a não ser que ele seja descendente, lançando um disco de música inca.

E olha, tem brasileiro que canta inca aqui em São Paulo, viu? Mas você não vai ouvir, sabe? Então, quando a gente fala de gênero musical, a gente sempre tem que estar pensando que ele vai ter algumas marcas de identidade, que às vezes— Bossa Nova já tá começando a perder marca de identidade brasileira. Já tem grupo fora do Brasil fazendo bossa nova, uma febre na Europa. Tanto é que, por exemplo, ó, funk carioca, qual que é a primeira imagem que forma na tua cabeça quando você fala de funk carioca?

De lugar, comunidade, comunidade, favela. Porque funk carioca nasce lá, fala sobre lá. É, só tem um problema agora que, como tudo que chega em São Paulo é piorado, a gente até um dia precisa comentar isso no comentário de notícias, que metade do top 10 das mais tocadas no Brasil até o dia de hoje tem alguma letra falando de violência contra a mulher.

?Voz B

Não, mas isso aí não é só São Paulo, no funk carioca também tem.

?Voz A

Mas é menos, cara, muito menos.

?Voz B

É menos porque também tem música falando de traficante, pô.

?Voz A

Não, é menos, sabe por quê, César? Isso eu tava vendo a reportagem lá, inclusive ela falou isso. Quando ela começou a cantar, tinha um monte de mulher cantava, não era só ela, tanto que tinha um monte de É, você tinha a Bola de Fogo, tinha a própria Galera das Popozudas, que tinha um monte de gente além da Valesca. Você, a Tati Quebra Barraco, a MC Carol. Tem uma outra MC também que eu não vou lembrar o nome, que ela também tinha feito sucesso e ficou pobre porque tomou um chapéu dos empresários.

Então tinha muita mulher pra falar do lado delas também. E você tinha a questão do funk romântico, do charme, aquelas coisas todas. Em São Paulo, quando chegou aqui, parece que o tema é só esse, sabe? E eu acho muito triste isso, porque o que que acontece?

?Voz B

É que é só ostentação e comer todo mundo.

?Voz A

Não, antes fosse só isso, isso daí ainda é ok. Mas quando eu tava vendo negócio do top 10, que o pessoal da Tren dos Nóis fez levantamento, alguns veículos fez levantamento. Quer ver, ó? Metade do top 10, vamos lá, violência. Porque saiu isso em um monte de lugar, que Inclusive, eu até, deixa eu pegar aqui, que eu devia ter salvo isso, mas eu fiquei chocado com isso, sabe por quê, César? Porque assim, músicas com violência contra mulher sempre teve, isso eu concordo contigo, mas nunca foi tão naturalizado.

Ó, tá aqui no Terra, ó, das 10 músicas mais ouvidas no Spotify Brasil, 5 usam palavrão puta para se referir às mulheres. E não é só no título, tá, tem letras coisas assim bastante complicadas. E claro, de uns caras muito execráveis, tá? Porque, ó, falando que tem uma música que eu até tinha visto, eu acho que era Abaixo de 14, Eu Tô Metendo a Pica, alguma coisa assim o nome da música.

?Voz B

E tipo, não ouviu a música, mas ouvi essa.

?Voz A

Não, também não vi. Eu não me indignei a ouvir isso aí.

?Voz B

Esse cara tem que dar passeiozinho numa penitenciária, ficar um tempinho lá só para pensar.

?Voz A

Não, cara, eu achei assim bizarro. E sabe o que que eu também achei bizarro? Porque não que a cultura da favela não seja uma cultura que também esteja permeada por violência de gênero, violências das mais diversas, até porque onde o Estado se omite, onde essas violências se agravam. Mas é você reduzir muito uma cultura de resistência por uma coisa que é só um produto comercial. E a questão do gênero aí, ela se desfez. É por isso que boa parte desses funkeiros daqui de São Paulo, alguns do Rio também, né, mas boa parte São Paulo, que estão nesse rolê.

E isso daí, você pensa na favela do funk carioca, o mangue beach, você pensa no Recife nos 90, né. E quando você tem axé, você vai pensar no Carnaval, porque são os territórios dessas músicas. Eu fico imaginando o seguinte, é que nem o hip-hop, é muito difícil um hip-hop que não seja feito por alguém que não esteja em contato com a periferia. Que é inclusive o que é muito irônico quando o pessoal vai criticar o Gabriel Pensador e se esquece que o Gabriel Pensador andava com os mano da favela o tempo todo, porque um dia ele aprendeu a rimar, um dia ele aprendeu a fazer flow.

E aí o que acontece com essa questão do gênero? Bom, a gente tem uma coisa chamada streaming, e o streaming começa a trabalhar muito com o microgênero. Não que seja uma criação do streaming, um momento, uma coisa pré-Spotify, a gente já tinha microgêneros, o chill out, o próprio lo-fi, antes de ganhar o tamanho que ganhou. Mas streaming potencializa microgênero, e é um problema porque os microgêneros, eles são muito vagos em muitos casos.

Por exemplo, o que que é o funk 150 BPM? Eu não posso falar o que eu acho que é isso, mas sabe Porque 150 BPM é uma batida de, cara, nem de techno chega tão rápido. E isso chega quase perto dos estilos experimentais de música eletrônica, que inclusive foi o MC, foi o, acho que Renan da Penha que inaugurou esse gênero. Mas ele não é exatamente um gênero, ele é uma divisão para um estilo específico de um artista. Aí você vai ter low-fi hip-hop, hip-hop, que hoje já tá mais bem consolidado inclusive, mas na época que surgiu era um monte de batidinha que o cara ouvia estudando.

Hyperpop, que é outro gênero que na verdade não quer dizer nada, e eu acho ok. Vaporwave, que era muito mais uma crítica àquela coisa plastificada do Tumblr e tudo mais. Tanto é que depois surgiu, inspirado no Vaporwave, o Fashion Wave, que é o pessoal de de direita que aqui no Brasil deu origem ao Bolsonaro Wave, que é um microgênero que torna difícil se classificar as coisas. E aí nós temos um problema que a gente até explicitou aqui no começo: quem é artista quer ter um pouco de liberdade para criar.

E uma coisa que as bandas mais consagradas hoje não fazem mais, mas elas faziam muito na década de 80, é experimentar. Então, por exemplo, você pega o Iron Maiden na fase entre do Piece of Mind até o Fear of the Dark, a banda experimentou demais. Porque você vai ter Powerslave, depois você vai ter o Seventh Son, depois você vai ter o Somewhere in Time, você vai ter o No Prayer for the Dying, que eu acho horroroso esse disco, mas é um disco interessante do ponto de vista de composição.

Depois vai ter o Fear of the Dark, que vai alçar um baita sucesso como um dos discos mais medianos do Iron Maiden. Depois eles param. Metallica vem para um caminho parecido, só que Metallica, quando dá na telha, os caras experimentam. Vide o caso do Say Cheyenger, vide o caso do Death Magnetic, que é um disco esquisito inclusive.

?Voz B

Apesar que Death Magnetic eu acho que é muito mais uma volta às origens, porque você pega muito elemento de músicas clássicas do Metallica, muito riff que eles usam ali.

?Voz A

Não, sim, mas ainda é uma coisa que, por exemplo, Iron Maiden não fez. Ele fica num estilo muito muito parecido, ele só vai mudar um pouquinho no senjutsu, mas é mudar pelo no mucho, né? Mas o Metallica ainda risca mais. Então os artistas grandes antigamente ficavam mais, mas quanto maior você fica, menos experimental você pode ser, e quanto mais tradicional for o seu som, menos invenção você pode colocar. É o que me incomoda, por exemplo, no saxão.

Eu amo saxão, mas eu conto nos dedos quantos discos bons eles têm, sabe? Porque você vai pegar o Crusader, quase toda discografia do Saxon lembra Crusader, que é um puta disco, mas sabe.

?Voz B

E aí você vai, às vezes o cara também ele descobre uma fórmula e ele vai repetir até a exaustão, né.

?Voz A

Exato. E não só descobre a fórmula, às vezes a gravadora faz, fala assim, olha, a gente precisa vender, a gente precisa te colocar numa playlist, a gente precisa que o público chegue em você. Saiu uma entrevista inclusive com o Dimmu Borgir, eu acho que foi o Silenus, Eu não lembro quem que deu a entrevista, acho que foi o Silas. E ele disse o seguinte: a gravadora queria que eles fizessem músicas mais curtas, que eles encurtassem as introduções. É, que as introduções, exato.

?Voz B

E falaram não, ele falou foda-se, vai tomar no cu.

?Voz A

Pior é isso vindo da Nuclear Blast.

?Voz B

E não só gravadora, né, porque muitas vezes fazem isso com o produtor, né. A gravadora pega um produtor que faz um estilo de trabalho X, coloca para a banda, fala, ó, esse cara vai produzir seu disco. E o cara começa a adaptar a coisa e falar, não, que aqui você vai fazer isso, isso aqui você vai fazer aquilo. E aí vai da banda aceitar, brigar com o cara.

?Voz A

Então é mais ou menos o rolê, o que aconteceu com Ghost. Se você pegar o Ghost do terceiro CD para frente, ele foi ficando mais palatável para o público. E isso também é uma proposta de gravador. O Dimmu Borgir não aceitou isso, com razão, porque fala: nosso público não precisa disso. E entra muito na questão do estilo. Eu acho muito difícil uma banda de black metal sinfônico ser ouvida no TikTok.

?Voz B

É aquele negócio, tipo, imagina, sei lá, uma banda de black metal sinfônico fazendo uma música de 1 minuto, 1 minuto e meio.

?Voz A

É, exato. É diferente do caso da música mais tocada de 2005, que foi uma música do FX Twin, que aliás é uma das maiores pedradas que a gente pode imaginar, considerando que ele ficou acima da Taylor Swift. Então assim, a gravadora exige uma coisa, o artista quer outra, e o público ele quer descobrir coisas novas. E aí que existe um problema: onde começa um estilo, onde a pessoa vai para o outro? Então a discussão que o cara tava tendo é: a partir do momento que você tem bandas que misturam muitos estilos musicais, a gente não consegue ter exatamente um parâmetro para a gente entender o som dela.

E eu pego, eu penso pelo seguinte, o exemplo que foi dado lá, que é o Spirit Box. Qual o gênero você classificaria Spirit Box?

?Voz B

Não sei, metal alternativo.

?Voz A

Então não, metal alternativo é o melhor rótulo que existe, porque ele entra muito como crossover. Quando você não sabe para onde tá indo, você dá um nome qualquer. Só que a questão é que metal alternativo não é exatamente o que eles tocam, entende meu ponto? Eu concordo também, eu colocaria como metal alternativo sem sombra de dúvida. Aí nós vamos pegar uma outra, tá, a Vanna, a Vanna, por exemplo, o estilo que ela toca. Porque dá para chamar de metalcore, embora ela toca metalcore.

Dá para chamar ela, por exemplo, metal industrial? Não, mas ela tem música com referência industrial, muitas aliás. Dá para chamar ela de pop? Não, mas tem muita referência de música pop. Tanto é que ela agora nem tanto, agora que ela tá fazendo sucesso e tudo mais. Mas no começo, quando era independente, que os cara cascava falando que ela não era metal, não sei o quê. Então percebi, cara, tudo que ela tem ali é tudo característica de metalcore, de deathcore, alguns casos, sabe, se a gente for pegar do ponto de vista instrumental.

Então assim, a questão de você classificar alguns artistas Não é tão simples. Eu colocaria ainda mais lenha nessa fogueira. Qual o estilo musical do Ghost hoje?

?Voz B

Sei lá, hard rock.

?Voz A

Tá, mas tem coisa que soa muito mais um pop nos 80, tem coisa que soa quase uma música eletrônica, tem coisa que soa—

?Voz B

É como eu vi em algum lugar, pessoa falando, tipo, é um bluester cult trevoso.

?Voz A

Também, como se já não fosse bem trevoso, bluester cult.

?Voz B

Sabe? Não, não, mas é porque se você for pensar, tipo assim, porque o Blue Oyster Cult, você vê os cara tocando, são os cara normais. Ghost não, já tem toda a paramentação, tal, então tem toda uma teatralidade, então já tem um quê a mais, entendeu?

?Voz A

Sim, e isso é importante quando a gente tá falando sobre a questão de gênero musical, é que você fechar exatamente numa caixinha não é tão simples. Não que antes fosse tá? É, você pegar a banda dos anos 90, considero como muito, muito crucial para isso, porque você tem grandes clássicos, por exemplo, Sonic Youth, que muita gente vai chamar de noise rock, de indie rock, de guitar, mas isso não quer dizer porra nenhuma, porque isso não explica o que que é o Sonic Youth.

Swans, dos anos 80, cara, isso não dá para definir o que é o Swans, uma porra louquice do Michael Jira. O Swans é uma coisa que o Michael Jira, uma vez ele Ele chegou no show, fez tudo mal gravado, cheio de ruído, e lançou lá o Public Castration, Zagoraidia, sabe? E com os arranjos tudo diferente, com microfonia estourando. Então assim, essa coisa de grupos que não se prendem num só gênero não é algo novo. O que acontece é que hoje o mercado não consegue te explicar o que é aquilo, porque era o mercado que nos explicava.

Por exemplo, o mercado pegava Iron Maiden e falava: isso aqui é heavy metal tradicional. Quer dizer, heavy metal tradicional só passou a surgir Depois aí, pegou o Dream Theater, falou: ó, isso aqui, isso aqui é música para virjão nerd que gosta de punheta guitarra. Isso o mercado fazia para gente, só que hoje o mercado não consegue vender para gente o estilo dessas bandas. E isso torna muito difícil. É que nem a gente vai pensar em alguém bem pop, que eu sei que você curte. Pega o Dan Cool Jones, por exemplo, César.

?Voz B

É meio difícil dizer exatamente que os Não sei, se você quiser ficar inventando rótulo, talvez, mas você pode simplesmente chamar de hard rock.

?Voz A

Mas ele não é exatamente hard rock porque ele não se parece com nem com mais novinho que a gente puder imaginar de hard rock, é o Guns N' Roses, vai.

?Voz B

Se você quiser, não necessariamente. Se você quiser inventar um pouco, chama de garage rock, que também era um—

?Voz A

garage rock é o gênero que morreu o nome, cara, devia voltar, porque a A ideia era muito legal, que hoje o Garage Rock é o que a gente vai chamar de Noise Rock, porque é umas coisas meio largadona, sabe? Mas era o mercado que nos dizia isso, era o mercado que pegava a banda A, colocava ali na caixinha e falava: ó, essa aqui é banda tal, se você curte tal. A gente quando recebe pré-release de banda, muitas vezes vem assim, ó: para fãs de.

A gente recebe essas coisas. E aí, por que que o gênero, porque eu tô falando isso daí, porque gênero é em primeiro lugar uma solução do mercado, porque eu preciso classificar a música para poder te vender essa música. E aí eu posso te vender um disco, eu posso tocar na rádio, eu posso colocar lá na loja de discos, quando existir essas lojas, na rede de streaming, ele vai colocar uma tag ou mais de uma, vai entrar em edital público, se você precisar concorrer a edital, e premiação também.

Então quer dizer, se eu não tiver rota, não tenho prateleira, então eu preciso de uma prateleira. E existem duas perguntas que a indústria faz quando vai lançar um artista: como que isso soa e quem que vai comprar isso? E aí quando você diz, por exemplo, Death Metal, você responde os dois. Quando você responde pop, quando você coloca R&B, quando você coloca female fronted metal, que puta que horroroso, você responde isso.

?Voz B

E você tá falando female fronted metal, porra, Lacuna Coil é o female fronted metal, The Warning também. Sim, são coisas completamente diferentes.

?Voz A

Ô César, Krypta é female fronted metal e é diferente das outras duas, tudo. Então, mas também é meio front metal. É que para elas jamais virar essa classificação, porque essa classificação ela era guardada para bandas que fossem mais melódicas, mais sinfônicas. Mas pô, o Astarte seria fumê front metal, para falar de uma tem 3. Tanto que as vocalistas não curtiam muito esse rótulo. Eu lembro que a Serena Cherry do Svalbard falou que ela odiava essa classificação porque ela falava que não diz nada.

?Voz B

Não, então, porque justamente, porque é até um ponto que para mim é, eu penso, eu falo, cara, a gente tá falando de gênero, tal, não sei o quê, mas assim, gênero para quem ouve não serve para nada.

?Voz A

Mas tem um público, né? Aí que é interessante. Quem que é o público do filme? Pessoas que querem bandas com vocais femininas. Mas como que isso soa? O que o seu coração mandar.

?Voz B

Não sei, porque não sei, para mim não faz o menor sentido.

?Voz A

Não, não faz, é um rótulo idiota. Eu sei que é idiota, mas eu tô falando, pensa na lógica de mercado, César. Não tô falando de lógica nossa, lógica de mercado.

?Voz B

Eu sei, mas é o ponto, porque assim, para o mercado faz sentido isso, mas para quem ouve não faz sentido.

?Voz A

Não faz, não, não só para quem não ouve, para qualquer pessoa racional não faz sentido.

?Voz B

Olha isso, porque por exemplo, na nossa época, quando a gente tava crescendo, fazia sentido. Hoje não, porque hoje não tem o menor problema. Você pode ver uma menina com a bolsa rosa, com a camisa do Crisium, camiseta do Crisium e ouvindo Anitta, cara. Sim, e foda-se.

?Voz A

Não, mas a questão do rótulo female front metal é um dos rótulos mais machistas que existe, porque você reduz o gênero à participação de uma mulher vocalista. E não era qualquer mulher, tá? Porque se a mulher não fosse padrãozinha, você não tinha esse rótulo. Por que que nunca usaram esse rótulo para Cadáveria? Porque a mulher vivia com corpos e pente e umas maquiagens assim tenebrosas. Por que que nunca vou usar pro Nervosa esse rótulo?

Mas If Temptation usaram, Lacuna Coil usaram esse rótulo, After Forever, Nightwish, If Temptation, que acho que eu assisti duas vezes, Mortal Love, Tristânia. Percebam que tem um padrão, viu, gente? Vocês vão notar um padrão aí, tanto de bandas quanto de vocalistas. Há um padrão aí. Só que para indústria faz sentido vender um female frontman. Mesma coisa de Viking Metal, cara. Viking Metal é um dos rótulos mais bunda que eu já ouvi, cara, porque quase sempre Viking Metal é uma banda de black metal que fala de viking. Mas, por exemplo, Menowar fala de viking.

?Voz B

Não, mas Menowar, primeira coisa, eu acho que a gente tem que respeitar Menowar porque os caras falam sobre estresse pós-traumático.

?Voz A

Ah, isso é verdade, porra.

?Voz B

Tipo, por mais que a gente faça piada com os caras, os caras fazem puta de uma música. E uma puta de uma música também, porque é uma música foda, que os caras falam de estresse pós-traumático do cara que volta da guerra e tá zureta das ideias, que é melhor, que era melhor o cara ter morrido lá do que, tipo, era melhor que o cara morresse lá e a pessoa acostumasse, tipo, ah, ele morreu, tá bom, acabou, porque o cara voltar doidão, porra, é uma puta de uma música.

?Voz A

Não, mas você percebe, Menor tem várias músicas falando sobre viking, nunca teve uma menção de viking metal. A Moa Marfi não é uma banda de black metal, mas considerada viking metal.

?Voz B

Até porque o melhor rótulo para o menor talvez fosse sunga metal.

?Voz A

Ah, que eles não usam mais, né? O tanguinha de texugo metal eles não usam mais.

?Voz B

Antigamente, né?

?Voz A

Tinha mente, tanguinha de texugo, depilação em dia, porque eles estavam liso igual uma garrafinha, óleo corporal.

?Voz B

É, então, óleo metal.

?Voz A

Inclusive, é um amigo meu na época de tech, ele conhecia uma menina lá da rádio 90 - 1, né? E uma vez ele foi lá no dia que o Manoel tava lá para dar entrevista. Ele falava que era muito engraçado porque o Eric Adams de 5 em 5 minutos ele tava passando óleo no corpo. Sim, o cara foi, foi semi-nu para dar entrevista.

?Voz B

O cara já incorpora o personagem, né, pô? Assim é igual você, pô, Valquírios, os cara não vão com a cara pintada lá, com as botona, tudo? Qual que é a graça?

?Voz A

Ó, quer ver? E aí, porque rótulo é uma coisa complicada, já que você já citou o negócio da indústria. Grammy é um exemplo disso. A gente já falou dos discos de rock concorrer ao Grammy e meio que porra, mano. Ou os de metal também desse ano, porra, mano. E aí, olha assim com vocês: a Beyoncé ganhou o melhor disco de country, sendo que não é um disco de country, sendo que não é um disco de country. Tem umas músicas country, tem, mas não é um disco de country.

O Tyler, The Creator recebeu o Grammy do rap e o próprio Tyler falou: esse não é um disco de rap.

?Voz B

Então, que já questiona esse negócio aí de muito louco, cara.

?Voz A

Quando o artista não concorda, a gente tem um problema, viu? Não que eu acho que o artista deve opinar muito sobre o gênero, porque gênero musical ele sempre surge depois do artista. E aí o artista vai ter muito uma conversa de artista dizer, ó, eu não tenho gênero. E é difícil um artista dizer, ó, eu sou um artista de rock, eu sou um artista de heavy metal. O Iron Maiden acho que nunca disse isso, inclusive, nós tocamos heavy metal, porque o músico vai dizer que ele toca música, porque o Rótulo.

É muito raro o músico se dar um rótulo. Já entrevistei muito músico no Graal de Cast. É muito difícil o músico saber classificar o próprio som, e com razão, porque na cabeça dele ele tá fazendo a música que ele gosta. Principalmente artista iniciante. Depois que o cara tem um tempo, uma tarimba no mercado, ele já sabe mais ou menos o que ele tá tocando. Mas é difícil o cara chegar e falar: eu toco numa banda de heavy metal, toco uma banda de sinfônico, toco numa banda de Sludge metal, cara, muitas vezes os caras nem vão ter esses rótulos, nem ideia de que esses rótulos existem.

E é interessante porque o artista muitas vezes não concorda com o gênero que é atribuído. Eu pego o exemplo da Billie Eilish. Ela, em tese, toca pop, ela é colocada na caixinha do pop, mas a música dela em muitos momentos não soa pop. Em muitos momentos a música da Billie Eilish soa qualquer outra coisa. Tem uns elementos que lembra Darkwave, a Charlie XX também tem esse problema, essa questão de que tem vezes que ela é mais experimental.

Inclusive é uma grande dificuldade classificar o som dela. E aí nós temos um problema com alguns rótulos, como pop. O que que é música pop enquanto gênero? Como a gente classifica que algo é pop? Eu falo isso porque eu tenho uma dificuldade muito grande quando alguém fala o seguinte: ah, isso aqui soa meio pop. Mas tá, o que que é isso? Só pop? Primeiro que pop ele não é um gênero, ele é colocação de uma determinada época. O que hoje nós chamamos de música pop, daqui 10 anos pode virar outra coisa.

Por exemplo, a Madonna é a rainha do pop, mas quando você vai voltar as discografias dela e ouvindo os discos, você vai classificar como outras coisas. Até porque ela muda muito o estilo dela também para se adequar à lógica de mercado. Aí você dizer que, por exemplo, alguém toca pop, você não tá dizendo nada, porque pop pode ser qualquer coisa. Aliás, pode ser qualquer coisa e ao mesmo tempo não é nada por conta disso.

?Voz B

Teoricamente, toda música popular é pop.

?Voz A

Exato. Isso, mas uma música ser chamada de pop é um gênero que não faz sentido. E para piorar, é nos streamings que os rótulos eles aumentam, porque o rótulo ele vira uma super especificação de um gênero. Então, por exemplo, de repente você pode gostar de rock escandinavo, e sim, esse rótulo existe no Spotify.

?Voz B

Aí depois você—

?Voz A

então sim, mas você percebe que não é um gênero?

?Voz B

Não, não é um gênero, porque você pode misturar muita coisa. Você mistura death metal com black metal.

?Voz A

Sim, aí você vai ter outros problemas, por exemplo, vai, beleza, só que não diz nada. Aí você vai ter um gênero com, por exemplo, eu descobri recentemente um gênero chamado Scrums. O que é Scrums? É uma versão mais pesada do Dungeon Synth, tá? E o que que é o Dungeon Synth? Era a galera do black metal que tava entediada e resolveu tocar música sintetizador barato. E aí parece música de videogame misturado com apelo medieval. Você percebe esses Rótulos são estranhos, esses microgêneros, nichos.

Só que o microgênero tem uma vantagem, isso tem uma vantagem. Quanto mais específico, mais certo vai ser o público que vai ouvir aquilo ali, a não ser que você seja um anjinho de potrine. Aí o rótulo não faz diferença, que os cara falava que eles são um grupo de math rock dadaísta, seja lá o que isso quer dizer, que eu sei que é trolagem dos caras, tá? A gente sabe que isso é trolagem dos caras. E com isso a gente entende que o artista pode descobrir novos sons e querer incorporar esses sons.

Inclusive artistas independentes fazem isso o tempo todo, e o público quer conhecer coisas novas. O pessoal fala muito, ah, quando a pessoa fica muito velha, não sei o quê, ela não quer mais descobrir música e tudo mais. É mentira. Talvez a pessoa não tenha muito ânimo de conhecer banda nova, mas música nova ela quer.

?Voz B

É porque aquele negócio, a pessoa não quer ficar tendo, assim, vamos ver, principalmente quando se fala descobrir música nova, já parece que é um esforço, é um trabalho que a pessoa tem que fazer, porque a pessoa, e tipo, é algo que não combina com entretenimento. E a gente tem que pensar em música aí, nesse caso, como entretenimento. Tipo, você tá pensando em algo que você quer, ah cara, eu quero sentar, quero ouvir tal coisa, relaxar. Aí eu vou ter que ter o trabalho de correr atrás, não sei o quê, sabe?

?Voz A

Exato. Sem contar que às vezes a pessoa tem outras preocupações da vida dela do que ficar indo atrás de música nova. Então, sim, e é isso que complica um pouco quando o artista vai lançar alguma coisa, e também como a indústria quer segmentar, porque aí você tem um conflito que a resolução é bem complicada. O artista quer ter liberdade para fazer a música que ele quer fazer, ainda mais se for artista independente ou artista menor.

Só que aí a plataforma precisa de uma play, de uma tag para colocar na playlist. O público quer alguma coisa que ele reconheça e quer descobrir naquele nicho. E a indústria precisa segmentar, porque segmentando você direciona para o público certo. E é difícil de você resolver esse impasse hoje, porque talvez a ideia da morte do gênero musical começa aí. Há um impasse entre artista, plataforma de streaming, gravadora e público.

Eles não chegam no acordo, porque o público quer uma coisa que o serviço de streaming não pode te dar. Aliás, o César fala muito disso nos problemas para ele do Spotify. As playlists do Spotify para o César não funcionam, cara.

?Voz B

Tem playlist que funciona. O que eu tô falando, o que eu falo é que, porra, as indicações que eles vêm, eles vêm com indicação ridícula. Sim, exato. O que funciona é que o quê? É que geralmente o que que Spotify faz? Ele pega uma playlist, por exemplo, ah, é playlist de rock. É, aliás, deixa eu até pegar o nome aqui que fica mais fácil, que no final vai ver várias playlists que eu sigo que tem o mesmo nome e que ele só pega algumas músicas que eu já ouvi ou músicas de artistas que— por exemplo, ele pega uma música que é mais tocada, que eu mais ouço, pego o artista e pega uma outra música desse artista e coloca.

E aí criam a playlist para ele, é fácil, entendeu? Por exemplo, tem aqui ó: rock mix deve ter umas 4-5 aqui. Aí tá aqui, Rock Mix. Aí vai ter o quê? Vai ter Black Sabbath, The Warning, Old Gods of Asgard, que é outra banda lá que esqueci o nome agora, que aí eles se chamam dessa forma para fazer a trilha sonora dos jogos lá da Remedy, se eu não me engano, né, que é Control, Alan Wake. Aí os caras se chamam de uma outra banda, né.

Aí tem Metallica, tem pop, Misfits. Então assim, quando ela vai pegar essas playlists assim variadas ou pega um tópico X e pega coisa que eu ouço, funciona. Agora, quando eles vão querer indicar alguma coisa, é só merda, porque como eu disse, a forma que eles fazem Demográfica, não é? Não tem uma análise na música, não tem pensamentos, é demográfica. E fala assim, ó, o César tem 40 e poucos anos, ele é homem heterossexual, então ele ouve isso. Foda-se, eu acho engraçado. Então é isso.

?Voz A

É, não, sim, eu acho engraçado porque nas minhas indicações várias vezes aparecem uns artistas assim interessantes Mas ao mesmo tempo bizarros. Foi assim que eu conheci uma das bandas mais legais, que eu gosto pra caralho, que é o Fire Tools, que é comandado por uma pessoa trans não-binária. E aí, está assim direto que aparece para mim. E olha que nós temos mais ou menos a mesma idade e em tese mais ou menos o mesmo perfil. Mas você tá certo nisso, porque o rótulo para o serviço de streaming é uma coisa complicada.

Uma coisa é você escutar, que nem você escuta muita música, digamos assim, que é mais conhecida. Isso não acontece, mas tradicional, as indicações são de pessoas com esse perfil tradicional que não é o seu.

?Voz B

Então, porque, por exemplo, é igual eu falei no Spotify Wrapped, pô, uma das tags ali que foi a que mais, que eu mais ouvi foi rock. E aí ele coloca qualquer bosta. É porque rock pode ser qualquer bosta mesmo, tá tudo bem, pode ser qualquer bosta, mas a partir do momento daquilo que eu ouço, você não vai mandar qualquer bosta. César mandar bosta parecida com aquilo que eu ouço. Não, em tese sim, mas não qualquer bosta. Ele pega o que pessoas com a mesma faixa demográfica do César ouvem do estilo rock bosta. Ah, ouve qualquer bosta. E aí, joga qualquer bosta para mim.

?Voz A

Aí vai colocar Slipknot.

?Voz B

Cara, Slipknot não reclamo não, até ouço, sinceramente. Parei de ter preconceito com Slipknot, com Linkin Park, sinceramente.

?Voz A

Linkin Park eu perdi ouvir um bocado também uma época, muito antes da Emily entrar, quando a gente foi fazer o programa de new metal. Porque eu falei, ah, deixa eu escutar as músicas dessa época. E cara, ainda não é minha banda favorita, tá, mas eu comecei a gostar muito das estruturas da música. É curioso, eu não sei se acontece contigo, quando você vai escutar uma banda que você não curte muito, mas você quer perder um pouco do preconceito, você começa a analisar tudo que ela tem ali.

Eu faço muito isso com as bandas que eu não gosto. E eu comecei a Linkin Park, eu falei, cara, tem uma coisa legal aqui. Eu gostei muito das ideias de composição, a música em si não me apeteceu tanto. Eu fui escutar Limp Bizkit, cara, e eu paguei um pau de como as músicas são bem feitas, sabe? Eu nunca tinha reparado como as músicas são boas em termos de instrumental, de arranjo, de timbre. Porra, é aquilo lá, o Starfish alguma coisa ali, cara, o disco é muito bom, sabe? É muito bom aquilo ali.

?Voz B

Até a música do Missão Impossível é boa.

?Voz A

Sim, sim. E eu achei algo interessante porque é isso que é um problema de gente se prender nos rótulos também. É claro que eu, depois dos meus 25 anos e tudo mais, eu perdi um bocado esse apego de rótulo, tá? Mas até antes disso daí, cara, eu era muito chato. E eu não tinha assim, para você ter uma ideia, muita banda hoje que eu sou muito fã, detestava, detestava. E Aí quando eu parei de ter esse preconceito, comecei a analisar as coisas melhor.

Primeiro porque assim, eu não sei, todo mundo é obrigado a gostar. Por exemplo, eu não gosto do Linkin Park, ponto. Eu não acho a banda legal, mas eu respeito muito o trabalho de música dos caras. Pô, tava escutando Crawling uma vez, é, com aquilo, aquilo eu fiquei pensando, cara, aquilo ali na época que eu tinha 15 anos, que foi quando estourou aquela música, cara, se eu gostasse de Linkin Park, eu ia estar chorando tá escutando Crawling, uma música sobre depressão.

?Voz B

E não é a única, não é a única, mas pô, é uma depressão.

?Voz A

E assim, eu consigo entender o apelo, sabe, o apelo das pessoas que gostam. E o gênero musical, ele meio que te limita isso, porque, por exemplo, para mim, Army era vendido como uma banda de nu metal porque certamente eles não queriam que eu fosse o público daquela banda, da mesma forma que acredito que foi com você. Quando você percebe que, ah, isso aqui é nu metal, "Então isso aqui não é pra gente." Depois que a gente ficar velho, a gente começa a escutar outras coisas, a gente passa a ligar menos pra isso.

Que nem o meu problema com Rammstein. Eu detesto Rammstein porque eles me vendem como metal industrial e não me sou metal industrial o suficiente pra eu gostar, sabe? Porque eu também sei que eu não sou o público da banda, sei que não sou. Então a questão do impasse é esse: as bandas não vão chegar em todo mundo porque as pessoas— e também porque gênero é uma coisa que É fácil de você dizer, ó, eu sei que isso aqui é death metal, eu sei que isso aqui é deathcore e tudo mais.

E aí, César, eu acho que tá ficando meio tarde. Vamos deixar para uma parte 2 para a gente discutir se realmente o gênero morreu, porque esse programa aqui já tá batendo quase 2 horas de gravação. Então, César, fala nos contatos aí.

?Voz B

Você pode achar o Groundcast Brasil no Instagram, Groundcast no X, no Facebook, no groundcast.com.br. Você pode mandar um e-mail para o contato@groundcast.com.br.

?Voz A

E é isso, e é isso, meus ouvintes. Um grande abraço para todo mundo e nos vemos no próximo programa.

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