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Eu Te Explico #179: relógio biológico, diploma e carreira - o que está por trás da maternidade tardia

08 de maio de 202634min
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Participam do episódio a mãe do Guilherme, Marlupe Ferreira Caldas; a mãe da Ava Sofia, Flávia Alcântara; e a chefe da Seção de Disseminação de Informações no IBGE-BA, Mariana Viveiros.
Participantes neste episódio3
C

Camila Oliveira

HostApresentadora
F

Flávia Alcântara

ConvidadoPublicitária
M

Marlupe Ferreira Caldas

ConvidadoComunicóloga e jornalista
Assuntos6
  • Experiências pessoais de maternidade tardiaMarlupe Caldas · Flávia Alcântara · Camila Oliveira · Marlupe e o câncer · Busca por companheiro · Perda gestacional · Priorização da carreira · Sentimento de ser jovem aos 35 · Desafio de ser 'gestante idosa' · Falta de irmãos para as crianças · Participação ativa na brincadeira
  • Maternidade tardia na BahiaMudanças geracionais na maternidade · Menos filhos por mulher · Queda da taxa de fecundidade · Pirâmide etária invertida · População em declínio · Menor número de nascimentos
  • Desafios da maternidade tardia e opçõesDificuldade de engravidar · Aborto espontâneo · Ciência e fertilização · Adoção · Sobrecarga e rotina · Impacto no emprego · Falta de rede de apoio
  • Fatores que influenciam a decisão de ter filhosNível de instrução das mulheres · Entrada no mercado de trabalho · Desafios da maternidade no trabalho · Priorização de outros aspectos da vida · Questões financeiras · Falta de serviços públicos de apoio · Divisão de tarefas domésticas
  • O Papel da Mãe na SociedadeFormação de cidadãos · Perpetuação da sociedade · Geração de riqueza · Reconhecimento e valorização do papel materno · Amor genuíno e missão divina
  • Politicas PublicasApoio em legislação trabalhista · Oferta de creches · Serviços diversos · Estímulo à maternidade
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Olá a todas e todos, que bom contar com a companhia de vocês em mais um episódio do nosso podcast do G1 Bahia, o Eu Te Explico. E com a proximidade dessa grande data de homenagem às mães, o segundo domingo de maio, a gente aproveita para poder falar desse contexto na nossa Bahia, sobre maternidade aqui no nosso estado, as mudanças dessa geração, as escolhas feitas, tudo com base nos estudos, nas estatísticas e no comportamento.

Você aí do outro lado já deve ter percebido algumas dessas mudanças, mas a gente vai entender de forma mais aprofundada. Então aumenta um pouco o volume do seu podcast e eu te explico, porque a gente já está no ar.

A primeira grande mudança, certamente você e do outro lado já percebeu. Essa é uma geração de mulheres que tem optado por ter filhos um pouco mais tarde, se assim a gente pode dizer, comparando com gerações passadas. Antes se tinha filhos, no início ali da fase adulta, às vezes até na adolescência, os casamentos aconteciam de forma mais precoce.

Mas agora isso está se transformando e a maternidade vem com outros perfis de família também. Vamos entender tudo isso aqui na nossa Bahia? A gente recebe com muita alegria Mariana Viveiros, que é chefe de comunicação do IBGE aqui na Bahia, responsável por disseminar as informações das pesquisas do Instituto. Muito obrigada, Mariana.

É uma alegria estar aqui para conversar sobre essas figuras tão importantes na nossa vida, que são as figuras maternas. E você que está nos assistindo aí, olha, somos duas mulheres, mães aqui, falando com vocês e que se enquadram nessa nova realidade, Mariana. Por exemplo, eu já falei sobre ter filhos um pouco mais tardiamente, mas também a opção...

que as mulheres têm feito de terem menos filhos, até somente um. Isso procede na prática, nas pesquisas do IBGE. Qual o perfil dessa mulher mãe baiana? Procede demais. O que a gente percebe já de uma forma bastante consistente é as mães com mais idade e menos filhos. As mulheres...

postergando aí a maternidade, tendo filhos mais tarde, às vezes nem tendo, mas muitas ainda tendo mais tarde, e tendo menos filhos do que tinham no passado. É claro que a maternidade tardia também acaba favorecendo que você tenha menos filhos.

por questões até biológicas, muitas vezes. Mas o que a gente percebe também é que tem decisões, de fato, que vão das próprias mulheres, das famílias, por ter menos filhos, por ter famílias menores. E isso se reflete bastante na queda da taxa de fecundidade, que é o número médio de filhos que as mulheres têm, que vem queda vertiginosa aqui no Estado.

Quando você fala vertiginosa, até nos dá uma preocupação, porque se a gente pensar no futuro, a gente vai ter uma população envelhecendo mais e em contrapartida menos jovens. Está invertendo de fato isso na prática? Isso está acontecendo, já está em curso essa mudança. A gente, em demografia, você tem a pirâmide etária, que os jovens estão embaixo.

Então ela é uma base maior, mais jovens, e ela vai diminuindo conforme chega nas idades mais velhas. Hoje essa pirâmide, ela já tá mais parecendo uma pera, né? Ela já tá menos, a base tá menor, então tem menos jovens, menos crianças.

e mais idosos. E a gente tem aí, né, Camila e todos que nos escutam, uma previsão de que a população da Bahia vai começar a diminuir por volta de 2030, tá? Ali logo na esquina. E isso porque justamente a gente vem tendo menos nascimentos a cada ano, nos últimos seis anos. Em 2024, o número de crianças nascidas aqui no estado foi o menor em 50 anos.

Nossa, esse dado chama muito a nossa atenção, Mariana. E vocês fazem a pesquisa, identificam esse perfil, mas entendem também através desses questionários o porquê dessa escolha das mulheres, é questão social, é questão financeira, é uma questão mesmo cultural já se estabelecendo nesse mundo moderno? É o mercado de trabalho que muitas vezes obriga essa mulher a continuar produzindo sem ter essa pausa, esse intervalo para conseguir também ser mãe?

A gente não pergunta por quê, mas todos esses fatores que você citou estão nesse contexto. Eles se juntam, eles se unem aí para dar a explicação para esse contexto. Então, a gente tem primeiro as mulheres com maior nível de instrução, estudando mais. Depois, elas entrando mais no mercado de trabalho. O mercado de trabalho, ele apresenta uma série de desafios à maternidade.

Mas não é só isso, também a gente tem as mulheres priorizando outros aspectos das suas vidas, que não seja apenas a família, o casamento e a maternidade, apenas, bem entre aspas, porque são aspectos super importantes e que demandam muito das mulheres, mas a gente vê elas inicialmente, durante um tempo, ainda fazendo outras prioridades, tendo outros assuntos mais importantes para tratar, a que elas dedicam mais o seu tempo e a energia.

E a gente vê também, claro, que a questão financeira, ela entra como uma justificativa importante para as famílias decidirem ter menos filhos. Porque se você não tem serviços públicos, como escolas, serviços de saúde, serviços de...

de acolhimento para essas crianças, como creches, turnos complementares, que possam ajudar as famílias a cuidar dessas crianças, fica mais difícil ter muitas crianças. Tem um ditado antigo que diz que precisa de uma vila para cuidar de uma criança. E a gente, hoje em dia, tem cada vez mais ninguém, poucas pessoas, às vezes ninguém, às vezes precisam, inclusive, terceirizar e pagar por essa ajuda. Então, tudo isso entra no contexto.

O que a gente percebe, por exemplo, aqui no Estado, claramente no Brasil também, é que o nível de instrução é muito determinante. Quanto mais a mulher estuda, menos filhos ela tem. Aí a gente não sabe se isso é uma causa ou uma consequência. Eu estudo mais e eu decido ter menos filhos, ou como eu tive menos filhos, eu consegui estudar mais. Talvez esses dois fatores aí estejam ligados, mas estatisticamente é uma ligação muito forte.

Mariano, que a gente também sabe, e a gente abordou isso naquele episódio do nosso podcast sobre o Dia da Mulher, é que as mulheres são maioria na sociedade baiana e brasileira. Nós temos nesse contexto mulheres que querem ter filhos, mulheres que não querem ter filhos, e há outras formas não gerando mais de ser mãe, por exemplo, a adoção. Então, há uma dificuldade das mulheres de conseguir realizar o sonho, aquelas que tendem a serem mães.

mesmo manifestando esse desejo nessa sociedade que a gente vive, que é majoritariamente feminina? Eu acho que a postergação da... Aí, os dados do IBGE, eles não trazem estatisticamente, objetivamente, uma informação sobre isso, mas é claro que a postergação da maternidade, o adiamento dessa maternidade, por uma série de fatores que a gente viu antes, ele pode, muitas vezes, trazer alguns desafios.

para a mulher ter, engravidar e ter filhos, porque nós ainda estamos, de alguma forma, sujeitas à biologia. Então, eu comecei falando isso, a decisão de ter filhos mais velha pode levar, muitas vezes, a uma dificuldade de ter muitos filhos, ou um maior desafio de ter muitos filhos, ou até de chegar a ter filhos. Mas, hoje em dia, a gente tem dois vieses, muito claros. Um é o da ciência.

que avançou muito nessa questão da fertilização, da fecundidade de uma forma geral. E o outro lado, que é o lado da adoção. A gente sabe que tem aí uma fila imensa de adoção e uma série de dificuldades de conseguir mulheres, famílias, homens também interessados em adotar um certo perfil de criança que fica no sistema. Então, a gente tem essas duas opções.

que também não são simples para muitas mulheres. A gente sabe disso. Mariana, um dos principais desafios que a maternidade traz é de lidar com essa nova rotina. A sobrecarga é uma realidade para as mulheres brasileiras, sobretudo as mulheres que são as responsáveis por sustentar essas famílias, sobretudo para aquelas mulheres que não possuem rede de apoio. É preciso se falar sobre a justa divisão de tarefas para as mães especialmente?

Sempre, né? A gente viu lá em março, e a gente volta a falar, que as mulheres, elas cuidam, elas dedicam o dobro do tempo dos homens a cuidados com a casa e com pessoas. E as pessoas, normalmente, na maior parte das vezes, ainda são os filhos, crianças que moram ali naquele domicílio. É claro que o papel dos idosos aumenta, mas ainda é majoritariamente filho.

Então, esse tempo de dedicação, a divisão igualitária desse tipo de tarefa deve favorecer, eu imagino, o desejo das mulheres de ter filhos, porque é muito complicado você ter um trabalho, você ter essa segunda jornada com filhos, principalmente quando os filhos são pequenos. Tanto é que as chances de uma mulher com um filho pequeno, até seis anos, de se empregar, de conseguir um trabalho remunerado...

ela é muito inferior, cerca de 30% inferior à de uma mulher que não tem filhos. Então, isso porque ela tem uma sobrecarga de trabalho em casa com essa criança e muitas vezes não tem essas redes de apoio institucionais, por exemplo, creches, o turno complementar nas escolas, as vagas de creches a gente sabe que ainda são também um grande desafio e as creches que inspirem confiança.

nas mães para colocarem ali as crianças pequenas. Então, tudo isso aí, uma equalização desse trabalho, dessa tarefa de maternar é importante para que as mulheres talvez se sintam até mais estimuladas a terem filhos e a terem mais filhos.

Mariana, com base nas pesquisas, você acredita que esse é um caminho que a gente está seguindo somente para frente? A gente não deve mudar essa realidade? Então, em 2030, muito em breve, ou seja, daqui menos de quatro anos, a gente vai ter uma inversão na nossa sociedade? Menos nascimentos a gente já tem, mas a gente vai ter a nossa população em queda, o número de crescimento populacional?

As projeções do IBGE afirmam isso hoje, na situação que a gente tem hoje. Falta muito pouco tempo. A taxa de fecundidade média aqui na Bahia, por exemplo, é de 1,6 filho por mulher.

Para você ter a reposição da população, você teria que estar tendo 2,1 filhos por mulher. É uma diferença muito grande. A gente só teve uma taxa acima de 2,1 lá até o início desse século. No ano 2000, a gente tinha 2,4 filhos. A queda foi muito acentuada e muito rápida.

E para voltar a um patamar lá do início do século, é bem difícil que isso ocorra. Eu não vou dizer que é impossível, porque a gente prevê com base no que está acontecendo hoje e o mundo muda, as circunstâncias podem mudar muito rapidamente. Mas teria que ser uma mudança, um cavalo de pau nas tendências demográficas. E a gente não vê isso acontecendo em lugar nenhum. Países como a...

Itália, Portugal, Japão tentam estimular as mulheres a terem mais filhos e não tem conseguido mesmo, às vezes, até oferecendo auxílios financeiros pra isso. Porque tem uma questão que eu acho que talvez seja mais estrutural, cultural mesmo, que é difícil de você mudar.

Então, você acha que no futuro muito próximo a gente vai precisar ter políticas públicas também aqui no Brasil que venham a incentivar as mulheres a decidirem por ter filhos? Eu acho que a gente já começa desde já a precisar ter políticas públicas de apoio às mães. Tanto em termos de legislação trabalhista, quanto em termos de ofertas de creche, ofertas de serviços diversos e nas famílias a divisão de tarefas.

É possível que num futuro, num médio prazo, o país se confronte, pelo menos em algumas regiões, o país é muito desigual, o país é um país grande e desigual, ao contrário de outros mais desenvolvidos. É possível, sim, que num médio prazo a gente se confronte com a necessidade de políticas mais ativas de estímulo à maternidade.

Sem sombra de dúvidas, Mariana, na sociedade que a gente tem, falando do âmbito social, mas falando também do âmbito econômico, do âmbito cultural, a presença de uma mãe é fundamental para a formação mesmo de um cidadão? É um papel que precisa ser reconhecido e valorizado mais ainda?

Com certeza, não só no âmbito familiar, mas no âmbito social. A sociedade não se perpetua, não atua economicamente de uma forma interessante, de uma forma produtiva, gerando riqueza, se ela não tiver...

crianças e jovens nascendo. E isso depende em grande parte das mulheres, da decisão da maternidade, que envolve não apenas o ato de engravidar e ter filhos, mas de criá-los, de educá-los, de cuidar dessas gerações novas para que elas possam ajudar a fazer

o país crescer, a ter uma qualidade de vida melhor, enfim, então essa é uma preocupação, é um valor não só familiar, mas também social e econômico. E por isso é necessário que você tenha ações e políticas que se voltem para apoiar as mulheres nessa tarefa.

tão importante de maternar, de ser mãe, ou de exercer essa figura materna, fugindo apenas da biologia, de uma forma feliz, produtiva, produtiva é uma palavra ruim, mas de uma forma boa, positiva para todo mundo.

Perfeito, Mariana Viveiros, muito obrigada, representando aqui o IBGE, trazendo esses dados tão fundamentais que nos ajudam a entender esse contexto social de agora e pensar nesse futuro muito próximo. Desejo para você um excelente Dia das Mães, viu Mari? Tudo de bom para você e para as mães que te cercam.

para nós todas, inclusive para aquelas que não são mães biológicas, mas exercem essa figura materna aí, um grande dia das mães. Seguimos aqui falando sobre maternidade, sobre esse contexto que a gente vive agora na nossa Bahia, em verdade, desde o início do século, com a chamada maternidade tardia. Nós temos duas mulheres aqui que vão falar sobre essa experiência e o porquê dessa opção de ter filho um pouco mais tarde.

A gente vai conversar com Marlupe Caldas, que foi mãe do Gui aos 40 anos. É comunicóloga, é jornalista, foi a única mulher a ocupar a Secretaria de Comunicação aqui do Estado. Tem uma vasta experiência profissional, mas vai falar sobre essa experiência como mãe também. Bem-vinda.

Obrigada, Camila. É um prazer estar aqui com você. E temos também Flávia Alcântara, que é publicitária, que é sócia numa empresa e que, entre tantos papéis profissionais, tem muito tempo agora com a bebezinha de um ano, que é a Ava Sofia. Exatamente. Bem-vinda. O papel mais complexo até agora.

E só vai piorar, viu? Você já deve ter ouvido isso. Piorar num bom sentido, é porque os desafios da maternidade, eles vão sendo gradativamente ampliados à medida que o tempo passa. A gente vai subindo de nível e vai subindo a complicação também, né? O game vai ficando mais difícil.

Eu queria saber de vocês, então, o porquê dessa escolha de ter filho depois da idade que normalmente as pessoas recomendam que a gente tenha. Porque a biologia fala até os 35, você, por exemplo, Marlupe, teve aos 40. Então, eu até os 36, eu dizia que não ia ter filho. Não era uma opção de vida para mim ter filhos. Nunca quis.

eu descobri um câncer, um câncer um tanto quanto forte. E aí, nesse momento, eu mudei minha vida, entendeu? Eu fiz um tratamento, me curei, e naquele momento eu disse, bom, aquilo ali...

refez toda a minha estrutura mental. Eu disse, por que não ter um filho? Por que não fazer com que eu tenha uma família? Eu me remodelei a partir daquele momento. Eu tenho um texto que eu não publiquei, mas é um texto que eu falo assim, o câncer me curou.

né é um texto controverso mas é verdade o câncer realmente me curou curou minhas feridas internas e me fez pensar em ter um filho na a partir daquele momento então ali eu disse eu quero ter um filho e isso mexeu muito anos desculpa 36

Aos 36. Isso. Só aos 40 você engravidou. A partir dos 36, depois que finalizou o tratamento e foi liberada, você já começou a tentar e aí foi difícil engravidar mais tarde? Eu procurei um pai, Camila. Ainda não tinha esse candidato. Então foi um desafio.

Eu procurei um pai. A partir dali eu disse, agora eu tenho que procurar um pai. Vamos em busca de um pai. Não somente pai, mas querendo um companheiro mesmo para encarar essa jornada. Exatamente. Só encontrei os 38. Não demorou muito hoje em dia. Está difícil.

Mas então você realizou esse desejo de forma natural ou precisou de tratamento? Não, eu realizei de forma natural, mas eu tive uma primeira gestação, tive um aborto espontâneo. Aí teve um período de tempo para poder reengravidar, podemos dizer assim. E isso eu só conseguia aos 40 anos.

E aí engravidei de Gui. E estamos aí nessa luta com o Guilherme, já tem nove anos, graças a Deus. Saudável, feliz, eu... Muito satisfeita, feliz demais. Optei por trabalhar, a verdade é essa, né? Respondendo sua pergunta. Antes disso, eu só pensava em trabalhar. Só queria trabalhar, trabalhar, trabalhar, trabalhar.

E quando eu disse o câncer me curou, é por isso. Porque o câncer me fez repensar, por que tanto trabalho? Ou por que só trabalho? É, por que não parar e pensar na família, pensar no outro, pensar em mim também?

Entendeu? Por que eu não estou tendo esse tempo para mim, esse tempo para construir algo melhor do que só trabalhar? Um legado também para além do mercado profissional. Profissional, exatamente. Eu só pensava em trabalhar. E eu quero também saber da sua experiência, Flávia, com a maternidade, com quantos anos e por quê? Eu engravidei aos 35.

Eu engravidei aos 35 apenas porque eu não sentia que era o momento. Quando eu ouvi falar maternidade tardia, eu falei, mas eu sou tão jovem com 35, agora 36. Não fazia sentido para mim ser uma maternidade tardia porque eu via que era o momento propício para engravidar. Hoje a gente precisa estudar mais, a gente vai em busca de se estabelecer financeiramente, emocionalmente. Então, eu precisava chegar...

nesse estado assim, pronto, agora eu me sinto pronta, agora eu sinto que eu não vou estar perdendo a juventude, nem nada. E aos 35 foi quando eu me senti assim. E aí eu estava com um companheiro, estou ainda, e a gente decidiu ter. Nosso filho não tive complicações durante a gravidez. Eu tive também uma perda espontânea. Inclusive a gente fala muito pouco sobre isso, né?

Quando eu tive, o que eu comecei a comentar, que as pessoas diziam, nossa, eu também tive, eu tive duas, eu tive três, é muito comum. Então também não foi algo diretamente relacionado à idade. E aí, logo depois, consegui engravidar a Javasofia. Foi uma gravidez muito tranquila, assim, em momento nenhum eu não me via como essa maternidade tardia, como uma idosa gestando. Para mim era realmente o momento ideal para gestar, para ter esse bebê.

Existe esse termo que a gente pouco conhece. Em verdade, a Marlope trouxe aqui pra gente esse debate da chamada maternidade idosa. É assim que fala? Eu era uma mãe, era uma gestante idosa.

Isso constava no meu relatório, né? E eu me assustei quando eu li a primeira vez a obstetra, né? Que me acompanhava, a minha médica obstetra, doutora Adriana. Ela colocava no relatório, porque eu passei por vários médicos por conta da idade, pra fazer vários exames, e ela colocava nos relatórios, né? Gestante idosa, gestante idosa. E aquilo me assustou a primeira vez que eu li. Eu disse, como assim gestante idosa? Ah, porque você tem mais de 40 anos. Aí eu disse, meu Deus.

Mas eu achava que gestante idosa era uma pessoa que tivesse mais 50, né? Tipo aquela atriz que... Cláudia Raia. É. Aí disse, meu Deus, não pode ser eu. Eu tenho 40. Eu tô plena na minha forma física. Eu quis parir agora. Não foi uma coisa assim que surgiu do nada, né? Enfim, eu tô aqui, tô com saúde, tô bem. Não tenho absolutamente nada que me impeça de ter o meu filho neste momento. Tu...

Por que eu sou uma gestante idosa? Isso é uma coisa que eu acho que precisa rever, conceitualmente, nessa realidade atual de nós mulheres, né? É, foi o que eu comentei com algumas amigas também. Todas nessa faixa de idade, muitas querem ter filho, eu quero ter outro filho, mas ninguém se sente como, nossa, eu tenho que correr contra o tempo. É porque a gente tá num momento que precisa estudar, precisa fazer faculdade, mestrado, doutorado, tudo isso exige tempo.

E, além disso, o mercado de trabalho também não facilita com que a gente gere esse bebê. Porque como é que eu vou amamentar exclusivamente até os seis meses, se eu tenho que voltar ao trabalho com quatro, cinco meses? E a gente fala de seis, mas a criança, de fato, não começa a comer, né? Ela vai na introdução alimentar devagarinho, então a gente precisa de tempo e que o Estado, que as empresas ajudem a gente nesse sentido.

Vocês acreditam que essa maternidade tardia e também a maternidade se apresentando com um filho único, porque é o contexto da Bahia que a gente vive e muito em breve, inclusive a gente entrevistando Mariana pouco antes de vocês, ela representando o IBGE e falando que em 2030 a população da Bahia vai começar a cair.

Nós temos até então um crescimento populacional e era um caminho que vinha há séculos. Agora a gente vai ter essa inversão, porque as mulheres estão optando por ter filho único. E além disso, a maternidade tardia também acaba impedindo que essa mulher tenha mais filhos. Vocês acreditam que essa decisão de ter filho mais tarde, ela traz essas consequências, mas não vem com peso?

social tá certíssimo que Mariana falou porque a gente deixa para ter filho mais tarde e não consegue depois né ter outros filhos né isso tá corretíssimo porque a gente

Flávia acabou de abordar esse ponto, né? A gente não tem um apoio devido para conseguir amamentar, para conseguir até de fato ter outros depois, né? O nosso corpo não consegue recuperar em tempo de ter mais filhos, porque eu, no caso, 40 anos. Se eu pudesse ter outro filho, ia ter de fato.

meu marido vai se assustar queria, mas eu deveria ter logo na sequência pra poder ter um outro filho eu não conseguiria por quê? Porque eu não tive esse estímulo suporte suporte social podemos dizer assim econômico até talvez mas social não, entendeu? pra poder ter né

o outro filho, um segundo filho. Então isso é uma coisa que as pesquisas do IBGE estão completamente corretas. Acho que a sociedade tende a diminuir mesmo, porque a gente não consegue produzir outras. E quem sabe lá na frente, foi isso que eu também abordei com ela, se pense em políticas públicas que venham a dar

Isso para as mulheres, melhores condições de vida, de trabalho, de convívio social, para que elas possam continuar sendo mães. Porque muitas vezes a mulher precisa ponderar se de fato elas conseguem, podem, porque muitas vezes não tem com quem deixar e vão criar esses futuros cidadãos de que forma. A maternidade, do jeito que se idealiza, é uma. Do que se vive, muitas vezes, é outra, totalmente diferente.

A gente ainda corre o risco de voltar para o mercado de trabalho seis meses, cinco meses depois e se deparar com o desemprego. A gente passa o período de estabilidade e aí corre esse risco também. Então, aos poucos, a gente vai perdendo aquela casa cheia de domingo, já que as famílias estão se reduzindo.

Eu tava até lendo sobre agora a gente não tem mais irmão do meio, porque a gente vai ter no máximo um filho ou dois, aí acabou os três irmãos e o irmão do meio que ficava ali na disputa. Eu sou irmã do meio. Agora a gente não vê mais feridos. Mais velho ou mais novo.

A gente acaba perdendo socialmente para conseguir vencer em outros sentidos, digamos assim. Não é nem vencer a palavra, mas para a gente conseguir alcançar outras expectativas financeiras, profissionais. A gente infelizmente tem que abrir mão de ser mãe de muitos filhos, de ter essa família grande. Na prática é exatamente isso.

Quando você falou sobre o almoço de domingo estar esvaziando, me deu um aperto no peito, porque a memória afetiva nos traz muito para essa família numerosa, essa família com bagunça, com barulho, com muita gente, e as famílias estão reduzindo. Mas, em compensação, também nos dá a chance de criar outros laços, de fortalecer essas amizades, esses vínculos para além da família. E também são importantes para quem está criando criança agora, começa a formar essa rede.

Com certeza, vai ser o que vai nos dar apoio, o que vai trazer esse movimento para o dia a dia, agregar ali muitos vizinhos, amigos. Meu filho vive só. Ele vive, ele depende da escola. Eu sinto muito isso, eu fico realmente sentida.

por ele não ter primos, porque eu sou filha única, né? E fico sentida dele não ter primos para poder compartilhar a rotina, a vida, entendeu? Então, ele vive, o meu marido também, os primos, os irmãos só tem já muito velhos, maiores. Então, o meu filho vive da...

rotina da escola dos coleguinhas das festas de escola aí é isso a infância no contexto totalmente diferente diferente cidade grande de eu sei mais sair dentro da vida era era pena no chão era rua era brincar no de baleado era sabe pular de elástico ele não sabe nem o que que é isso é outro dia eu fui ensinar ele disse Oi como isso

E eu não sei se vocês vivem esse desafio. Eu fui mãe aos 32. Arthur tem hoje seis anos. Em verdade, engravidei aos 32, estive aos 33. E minha mãe me teve aos 36. E eu lembro que manhã, naquele contexto, era uma mãe que pouco sentava pra brincar.

Ela orientava ali, ficava acompanhando, sentada, assistindo a gente brincar. Mas hoje eu sou uma mãe que participa muito mais. Ele me demanda muito, mas eu também resolvi me permitir fazer isso. Então eu jogo bola, eu corro, eu ando de patins, eu brinco, eu fico com jogo em casa. Mas é um desafio você trabalhar, ter uma rotina tão exaustiva, casa, tudo, todas as tarefas e ainda ter essa disposição para brincar.

Com as crianças. E depois dos 40, eu fico imaginando se eu pensar em ter outro filho, que é o que ele vem me pedindo. E aí, como é que é pra vocês esse brincar, essa participação ativa na vida deles?

Isso acaba sendo muito influenciado pela falta de irmãos, né? Porque quando a gente tem a criança ali distraída, dá pra fazer outra coisa. A mãe já não vinha brincar porque você tava ali com seus irmãos. Mas é realmente, é um desafio. Hoje a Ava Sofia tá pequenininha ainda, tá com um ano e um mês. Mas eu tento sempre acompanhar essas brincadeiras, ler com ela. Pra que também não fique na televisão de jeito nenhum. Porque o caminho acaba sendo esse, né?

Ver uma tela, a gente não dá tela. Mas na hora que vê a criança já fica enlouquecida. Como é que ela tão pequena já quer tanto aquela tela ali.

é realmente um desafio eu eu brinco né tento brincar bastante com Guilherme a gente sempre tem rua de lazer a gente vai também né e ele demanda demais né você tem seis pode esperar que ainda tem muito tempo aí pela frente mamãe brinca frente para poder sentar no chão para poder boa

a você então tá começando esse trilho agora agora que eu falava lá correr então eles demandam demais né Guilherme demanda muito de mim e lá em casa que mais brinca sou eu

porque é quem mais ficou com ele, acho que pegou mais afinidade nessa parte de brincar mesmo. O pai é mais a parte eletrônica, né, de tirar dúvida de computador, essas coisas, porque ele faz robótica também, então tira mais dúvida em relação a essa parte de software, essas coisas, para poder...

Quando ele precisa de coisinhas de Lego, aí ele vai pro praia. Já se identifica mais. É, já se identifica com o pai. Mas brincar, ir pra rua, patins, bicicleta, é com a mãe.

A gente que lute, né? Não é? E eu com meus 50. Em pleno vigor. Em pleno vigor. Bora lá. Meninas, muito obrigada pelo papo gostoso aqui, por terem vindo compartilhar essas vivências. Desejo pra vocês um feliz Dia das Mães, todos os dias, que vocês sejam reconhecidas pelo papel fundamental que desempenham, porque, de fato, a gente não tem uma sociedade justa, uma sociedade melhor, se a gente não pensar na formação desses cidadãos, e tudo isso passa pela maternidade.

É um dia pra nós, né? Que a gente consiga encarar esses desafios e levar a maternidade com muito mais leveza, sem tirar esse peso de que vai ser sempre ruim. É difícil, assim, não tô tirando isso. Não tá romantizando. Não tô de jeito nenhum. Mas é importante a gente também ter esse olhar mais positivo, né? A gente conseguir ver a beleza no meio desse caos todo. Com certeza. É bonito. É bonito ser mãe, é gostoso ser mãe, né? É uma delícia.

Você ter alguém que chega e que está lá te esperando para dar um beijo, um cheiro, um abraço, né? Que gosta muito de verdade de você. É muito bacana ser mãe. Aquele sorrisinho no meio da madrugada, assim, é o que renova. Quebra a gente, né? Mas renova mesmo. Que olha para a gente, assim, com amor que você percebe que é de fato um amor legítimo. Genuíno. Genuíno. É muito bom.

Eu amo de paixão. Ai, que maravilha. É uma missão divina mesmo. A gente encara com muito amor, responsabilidade. E eu aproveito pra poder desejar pra todas as mães que estão nos ouvindo, pra todas as mães, no caso, se você não for, mas todas as que te cercam, que você dê esse cheiro, dê esse carinho, dê esse abraço, faça esse reconhecimento. E muito obrigada mais uma vez a vocês. A gente que agradece.

Obrigada você, passou tão rápido Passou tão rápido, a gente falaria aqui Sobre maternidade, teríamos muitos e muitos Mais assuntos, porque É isso, o contexto de uma mãe Atravessa várias outras questões O todo Obrigada Obrigada a você

Para você que ficou com a gente até agora, mais uma vez, muito obrigada pela companhia. Aproveita e deixa seu comentário aqui embaixo se você estiver assistindo pelo Spotify, que também tem vídeo e é massa poder também fazer com que vocês nos enxerguem e acompanhem esse bate-papo também vendo as nossas expressões.

Um beijo, sugere também outro assunto, quer aquele tema que seja aprofundado, a gente vai em busca de especialistas, vamos conversar para poder trazer outros ângulos e pontos de vista para você formar sua própria opinião. Muito obrigada, feliz dia das mães mais uma vez, compartilhe aí com sua rede, seus colegas de trabalho, seus vizinhos, seus amigos, enfim.

Um beijo e até a próxima. Lembrando que essa edição teve a produção de Rafaela Paixão, na edição Nathalia Scioli, na coordenação do nosso Eu Te Explico do G1 Bahia, Ailma Teixeira e Jade Coelho. E eu, Camila Oliveira, no roteiro e apresentação, te esperando no próximo episódio. Até lá. E aí

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