Segunda parte da emissão 03/05 13h10 TMG
Karine Bellicha
Vasco Gandra
Luís Guita
Raquel Freire
- Mulheres de AbrilContexto familiar da realizadora · Participação feminina na luta antifascista e anticolonialista · Representatividade e interseccionalidade no filme · Desafios na filmagem e abordagem respeitosa · Filmagens em Cabo Verde e a relação com o colonialismo
- Cultura e política em PortugalDuração e intensidade do regime · Violência e tortura durante a ditadura · Impacto nas mulheres e famílias
- Colonialismo e ImperialismoIntensidade e brutalidade do conflito · Impacto nos soldados e populações locais · Lutas de libertação em Angola, Guiné-Bissau e Moçambique
- A Revolução dos CaranguejosOrigens na luta contra a guerra colonial · Papel das mulheres na construção da revolução · Resistência e luta pela democracia
- Cinema e AudiovisualImportância para o conhecimento da história · Combate à reescrita da história e populismo · Compreensão do presente através do passado
Rádio França Internacional Abordamos agora a segunda parte desta emissão que vai ser inteiramente dedicada à convidada de Luís Guita, realizadora portuguesa Raquel Freire, cujo documentário Mulheres de Abril foi recentemente divulgado no Festival em Lisboa.
Em 70, quando Portugal invadiu Conakry, a bomba caiu mesmo ao lado do quarto onde nós estávamos. A guerra na Guiné foi tão intensa, tão intensa, que os soldados que iam para a Guiné diziam que vai para a morte. A palavra paz surgiu na altura como palavra política de ordem. Não queremos guerra, não queremos fascismo.
A mulher deixou de ser o repouso do guerreiro para ser guerreiro também. Olha, escusado, dizer vejo, enier.
Tenho aqui a cicatriz, a primeira coronhada que levei a partir-me dos dentes todos. E assim estive quatro filhas e quatro noites na torturação. E senti-lhe uma raiva tremenda, uma raiva tremenda. Muitas vezes os meus irmãos e eu emprestávamos a casa para pessoas que estavam fugidas, não é? Eu fiz o pacote como se fosse uma prenda. Quando aquilo a reventou, meu Deus. Fazia tudo novo. Quando o objetivo é maior, o medo controla-se.
As mulheres do meu país Maria, Ruth e Julieta Margarida, Beatriz Céu das mudas nunca falo
Portugal viveu 48 anos de ditadura salazarista. Foi a ditadura mais longa da Europa. O regime terminou em 1974 com a Revolução de 25 de Abril. O documentário Mulheres de Abril, da realizadora Raquel Freire, celebra as mulheres que participaram ativamente na luta antifascista e anticolonialista e que até agora estavam esquecidas na história.
Margarida Tengarrinha, Ana Maria Cabral, Helena Neves, Luísa Sarsfield Cabral, Ruth Rodrigues, Teresa Love Fernandes, Julieta Rocha, Isabel do Carmo, Maria Emília Bedaró de Santos, Zezinha Chantre. São as protagonistas de um filme onde representam uma imensa força, que são todas as mulheres que, entre Portugal e os territórios africanos ocupados, Pe Pe Pe Pe Pe Pe Pe Pe Pe Pe Pe Pe Pe Pe Pe Pe Pe Pe Pe Pe Pe Pe Pe Pe Pe Pe Pe Pe Pe Pe Pe Pe Pe Pe Pe Pe Pe Pe Pe Pe Pe Pe Pe Pe Pe Pe Pe Pe Pe Pe Pe Pe Pe Pe Pe Pe Pe Pe Pe Pe Pe Pe Pe Pe Pe Pe Pe Pe Pe Pe Pe Pe Pe Pe Pe Pe Pe Pe Pe Pe Pe Pe Pe Pe Pe Pe Pe Pe Pe Pe Pe Pe Pe Pe Pe Pe Pe Pe Pe Pe Pe Pe Pe Pe Pe Pe Pe Pe Pe Pe Pe Pe Pe Pe Pe Pe Pe Pe Pe Pe Pe Pe Pe Pe Pe Pe Pe Pe Pe Pe Pe Pe Pe Pe Pe Pe Pe Pe Pe Pe Pe Pe Pe Pe Pe Pe Pe Pe Pe Pe Pe Pe Pe Pe Pe Pe Pe Pe Pe Pe Pe Pe Pe Pe Pe Pe Pe Pe Pe Pe Pe Pe Pe Pe Pe Pe Pe Pe Pe Pe Pe Pe Pe Pe Pe Pe Pe Pe Pe Pe Pe Pe Pe Pe Pe Pe Pe Pe Pe Pe Pe Pe Pe Pe Pe Pe Pe Pe Pe Pe Pe Pe Pe Pe Pe Pe Pe Pe Pe Pe Pe Pe Pe
Lutaram para construir a Revolução de Abril e nas guerras de libertação, travadas pelos movimentos independentistas de Angola, Guiné-Bissau e Moçambique. Mulheres de Abril é o momento de as mulheres ocuparem o seu lugar na história.
de dar voz às capitãs de Abril. Em entrevista à RFI, a realizadora portuguesa Raquel Freire começa por revelar como o contexto familiar a inspirou a criar Mulheres de Abril.
Medo atrás da parciã. Medo de sentir prazer. Criam cantinas e creches. E o direito de ser a alma. Tenho um grande privilégio.
de ter uma família de lutadoras e lutadores antifascistas. Ou seja, eu tenho na minha família pessoas que morreram para eu poder estar aqui hoje em liberdade a fazer filmes. E cresci a ouvir estas histórias da minha avó, das minhas tias-avós, da minha mãe, do meu pai, todas as histórias da luta. Inclusive até da Virgínia Moura, que foi uma grande lutadora antifascista do Porto.
e acho eu, por ser tão próximo, sempre soube que ia ter que fazer este filme, mas fui sempre adiante, até que de repente me apercebi, pela minha mãe, que ela já estava a ficar numa idade em que era o momento certo para contar estas histórias. E ao mesmo tempo, também porque tenho um filho, apercebi-me que havia um grande desconhecimento da juventude do que tinha sido o nosso passado, o nosso passado de luta. Ou seja, nós não tivemos só quase 50 anos da ditadura mais.
longa da Europa e 500 anos de colonialismo. Nós tivemos décadas de luta contra o colonialismo e tivemos cinco décadas de luta contra a ditadura. E este fator de ter existido sempre resistência e sempre uma luta de diferentes coletivos, desde os católicos progressistas, aos comunistas, aos socialistas, a pessoas mais conservadoras.
Mas esta luta pela democracia estava por contar-se. E quando era contada era sempre sobre o modo de ah, houve um herói que fez isto. E não, o 25 de Abril não foi feito num dia. O Salgueiro Maio não acordou de manhã a dizer hoje vou chamar os meus amigos e fazer o 25 de Abril. Não, começou na Guiné.
Começou com uma luta contra a guerra colonial, contra a injustiça do que era a guerra colonial, contra uma juventude em Portugal que era mandada para morrer durante décadas nas nossas antigas colónias e a opressão de povos que tinham todo direito na sua autodeterminação e na sua independência. Portanto, esta luta pela liberdade, tanto em Portugal como em África, estava por contar. E sempre que era contada era só por homens e sobre homens.
Portanto, havia uma história por contar. E esta história é o que vamos ver neste filme.
Uma história que, neste caso, é contada só por mulheres. Sim, porque a história até agora foi contada por homens e sobre homens. E estamos em 2026, chegou o momento de darmos voz e discutarmos com atenção as mulheres que sempre tiveram na história e que foram sendo apagadas dela. E que foram fundamentais a sua participação na luta pela liberdade. Sem estragarmos o prazer de ver o filme, o que é que levou a Raquel Freire a colocar cada uma destas mulheres neste filme?
Olha, poderiam ser muitas mais, muitas mais mesmo. Difícil foi escolher só estas 10, porque as listas iniciais eram de dezenas de mulheres. Porque, felizmente, temos muitas heroínas anónimas que deram a sua vida a lutar pela liberdade, tanto aqui como nos países africanos que lutavam nas lutas de libertação.
E nestas, o que eu tentei foi, cruzando os critérios de interseccionalidade, ter o máximo de representatividade possível. Ou seja, eu queria que o cinema tivesse também o seu lado democrático de 25 de Abril, que houvesse o máximo de pluralidade e de representatividade, porque temos mulheres...
portuguesas, temos mulheres cabo-verdianas, temos mulheres guineenses, temos mulheres de diferentes classes sociais, temos mulheres do povo e temos mulheres que tiveram acesso a estudos e que pertenciam a uma elite que já lutava na oposição democrática contra o regime. Temos mulheres católicas progressistas, temos mulheres que de todos estavam completamente longe da religião, temos mulheres de várias sensibilidades políticas, temos mulheres comunistas, mulheres mais da extrema esquerda, mulheres socialistas, mulheres de uma área mais conservadora.
Eu queria que a pluralidade e a riqueza que houve nesta luta, nesta união de forças contra o fascismo e o colonialismo estivesse no filme.
Quais foram os desafios para rodar este filme, para colocar estas mulheres à frente da câmara e transformar nesta história tão rica? Olha, o grande desafio foi como é que eu via filmar de uma forma que fosse também respeituosa em relação aos princípios do 25 de Abril. Ou seja, quando comecei a fazer cinema, o meio do cinema era um meio muito hierarquizado, muito machista, muito homofóbico, com praxes violentas.
E eu nunca quis trabalhar assim. Então, uma das minhas lutas no cinema foi sempre como fazer cinema sem ser assim. E neste filme foi isso que fizemos. Ou seja, nós tínhamos uma equipa de mulheres, tínhamos uma equipa que acompanhava o ritmo destas mulheres e que, no fundo, é uma coisa muito mais humana. Em vez de estarmos 14 horas num platô, trabalharmos menos horas, mas estarmos concentradas e focadas.
E rodeamos estas mulheres o máximo possível de escuta, de carinho, de empatia e de amor. Eu não faço filmes sobre, eu faço filmes com. Portanto, o filme é feito com estas mulheres e com esta equipa muito generosa, talentosa e dedicada. Tenho que destacar todos os membros da equipa que foram maravilhosas. A Madame Filmes, que fez a produção também.
E havia uma coisa que para mim era muito importante, é que este filme fosse uma roda de conversa, um círculo de olhares. Ou seja, como é o olhar existe, o cinema é um olhar sobre o mundo e se tivermos sorte e for um bom filme, passamos a ver o mundo, é como um par de óculos, pomos um par de óculos depois de ver um bom filme e começamos a ver coisas nítidas que antes não víamos, começamos a ver coisas que estavam no escuro e que de repente vêm à luz.
E, portanto, eu queria que o cinema, sendo para mim esta arte coletiva, fosse um momento para estas mulheres também de alegria e de reconhecimento. E esse foi o maior desafio. Foi que, apesar de elas irem, por exemplo, à prisão de Caxias, onde foram presas e torturadas, que não fosse uma experiência onde elas seriam de novo traumatizadas, mas fosse uma experiência em que elas se sentissem acolhidas e queridas e dignificadas.
Há filmagens feitas em Portugal e em Cabo Verde. Como é que foi filmar em Cabo Verde? Eu nunca tinha estado em Cabo Verde. Filmar em Cabo Verde foi um grande desafio porque eu sabia que uma portuguesa em Cabo Verde, eu não queria repetir a história do colonialismo, não é? Portanto, é preciso ter muita consciência quando vamos filmar fora de Portugal, sobretudo num país que teve uma opressão tão violenta como teve Cabo Verde durante tantos séculos, feitos por portugueses. Portanto, filmar em Cabo Verde foi um desafio ainda maior.
de fazer com que estas mulheres se sentissem escutadas e de, ao mesmo tempo, as respeitarem tudo o que fosse possível. Por exemplo, eu tenho cenas em Cabo Verde, em que é a minha produtora cabo-verdiana, e que foi a minha assistente de realização lá, a Samira Vera Cruz, que conduz as perguntas em crioulo, porque eram perguntas demasiado delicadas. E quem vir o filme vai perceber o que é que eu estou a falar, estou a falar de um momento muito difícil do filme.
Eram perguntas demasiado delicadas para eu fazer na língua de quem tinha sido o opressor. E, portanto, eu tive esse cuidado. Eu tentei que fosse uma mulher cabo-verdiana a estabelecer essa conversa e esse diálogo. Esse, para mim, foi o maior desafio. E depois, ao mesmo tempo, fiquei completamente fascinada, como penso que toda a gente fica quando vai a Cabo Verde, com a cultura cabo-verdiana. E, portanto, o outro desafio não foi fazer o filme inteiro.
Não pôr no filme todo as imagens maravilhosas de Cabo Verde e retratar um país real e não um país sonhado ou imaginado. Houve outros momentos certamente muito delicados quando se estava a fazer um documentário onde participam mulheres que sofreram a violência de uma ditadura do colonialismo. Como é que a Raquel lidou com essas situações? Falou agora de pedir à produtora de Cabo Verde para apresentar as questões em crioulo. Houve outros momentos assim?
Houve. Houve porque eu pedi às mulheres para irmos às prisões onde elas tinham estado presas e torturadas. Porque eu fazia uma pergunta, a meio das filmagens, que era, pessoalmente para ti, o que foi pior no fascismo? E claro que a resposta a esta questão era sempre muito, muito sofrida e muito delicada.
Há mulheres que com muita reticência me dizem que foi separação dos filhos. Pior de tudo, não foi a prisão, não foi a tortura, não foi o isolamento. Pior de tudo foi eu estar separada dos meus filhos. Há mulheres para quem o pior foi, por exemplo, terem de fazer abortos clandestinos.
Ou seja, a miséria, a pobreza a que a ditadura tinha votado, o povo deste país, que as obrigava a ter uma condição em que não podiam sequer ter acesso a cuidados básicos de saúde. E claro, a opressão que existia, uma dupla opressão, não é? O fascismo e o facto de serem mulheres sobre elas. Há um momento especial no filme em que há uma mulher operária, uma grande lutadora, que como ela diz...
Sou revolucionária porque sempre fui revolucionária. Eu não sabia o que era o fascismo, mas sabia que era mau. E que é operária desde 18 anos, que nunca pôde sequer ir à escola. E ela, quando nos conta o que é que para ela foi pior no fascismo, foram os abortos clandestinos e ser maltratada. E eu penso que todas elas, quando falam destes momentos, por muito que nós estejamos lá para as apoiar, voltam a esse momento. O que aconteceu imediatamente a seguir a isso, foi quando eu disse corta, nos levantamos todas e fizemos um círculo e abraçamos.
e ficamos abraçadas a elas e tentamos sempre que no final das filmagens não só que os horários se adaptassem a elas, como no final das filmagens sermos sempre momentos de convívio. Nós tivemos sempre almoços, nós tivemos sempre jantares, tivemos festas, tivemos momentos em que tentamos dar todo o nosso amor e todo o nosso carinho para elas se sentirem amadas e reconhecidas.
Há pouco em off, Raquel Freire disse-me que este filme iria ser apresentado junto de escolas. Qual o papel que este e outros filmes como este podem ter nos dias de hoje, na atualidade que vivemos? Eu acho que são fundamentais. O cinema, o audiovisual, sobre as várias formas que existem hoje em dia, são absolutamente fundamentais para nós sabermos quem somos e de onde viemos.
para conhecermos a nossa história. E neste momento os jovens têm muito pouco acesso ao que foi a nossa história. E há verdade, ou seja, a história é contada pelas pessoas que a fizeram, que a construíram. Temos grandes vagas populistas de reescrita da história e para compreendermos o que somos hoje e fenómenos como os que temos hoje, como temos hoje o racismo, por exemplo, como temos o retrocesso ou a tentativa de retrocesso nos direitos das mulheres, tentativas de governos totalitários em várias partes do mundo, a guerra.
Para percebermos o presente hoje, é muito importante sabermos que isto já aconteceu no passado e que no passado, mesmo nos momentos mais difíceis, houve mulheres e homens que se juntaram e juntos conseguiram fazer do impossível o possível. Ou seja, conseguiram lutar pela liberdade e venceram, porque nós tivemos o 25 de Abril, estamos aqui hoje, e os países colonizados tiveram a sua independência.
ouvimos Raquel Freire, realizadora do documentário Mulheres de Abril, recentemente apresentado em anteestreia no Festival Indi-Lisboa. De Lisboa, Luís Guita, para RFI. Foram presas humilhadas as mulheres do meu país Maria Ruta e Julieta, Margarida Beatriz Maria Ruta e Julieta, Margarida Beatriz
Celas mudas nunca voam Ninguém entrega, ninguém diz Foram presas humilhadas As mulheres do meu país
Quem tem um pido à porta, sabe que não pode entrar. Antes presa, antes morta, do que deixar de tentar. Antes nos rasguem o ventre, antes nos tirem o ar.
Saber que eu estou fazendo Ah, ah, ah, ah Ah, ah, ah, ah Ah, ah, ah, ah
Fábrica, escola forçada Casa onde habita a miséria Há tanta gente esmagada A ter voz é coisa séria
Vento de mar, trazemos um crecheu. Nessa tardinha, de céu nublado, uma chuva de amor pode fazer florear um coração.
Queimou de paixão Na patamar Duvida singela Um encontrar Dona felicidade Nem um olhar Um encontrar
Numa multidão tão solitária. Ela é partida, a grande dama, a diva ao pino. O exil é um chão, frágil e tenu. Um pequeno caio arido, fouetado pelo vento.
Eu tenho as pausas que rígidas, em frente o astro, o vento, uma mão caleu de artrite. Vivo como um filho que corra sobre as guitarristas, que nos fala de antes. E nos mornos, de onde se lêve, os mornos, nos césar. Já te gêne, já te tem mais, que te tem sofrer.
Na solidão, já tem gente, tá quase a morrer, na luz cadê, de um crepúsculo, vento de mar, trazemos um crecheu, nessa tardinha.
De céu nublado, um chuva de amor
Poder fazer florir E assim com Loura e Gael Fay a cantar Crepuscular Solidão estamos a fechar esta primeira emissão deste domingo estamos convosco todos os dias às 15 e às 18 horas aqui de Paris podem ouvir-nos aqui na rádio, na internet e nas redes sociais estamos de volta dentro de duas horas e meia fiquem bem na nossa companhia nenhum olho
ou encontro. Aceda a todos os podcasts da RFI na aplicação RFI Piorradio.
RFI
Rádio França Internacional