Segunda parte da emissão 02/05 16h10 TMG
Vasco Gandra
Gonçalo Lobo Xavier
- Consequências económicas da guerra no Médio OrienteImpacto na vida económica · Aumento dos preços de energia · Setores económicos vulneráveis · Medidas da União Europeia
- Condenação de ativista em AngolaOswaldo Caolo · Prisão política
- Campanha Eleitoral Cabo VerdeLegislativas de 17 de maio · Partidos concorrentes · Aumento de eleitores na diáspora
- Violência em MoçambiqueSuperstições de magia · Condenação da Comissão Nacional de Direitos Humanos
- Violência no MaliAtaques jihadistas · Morte do ministro da Defesa
- Julgamento de Vitória de Barros NetoApropriação indevida de dinheiro público
Rádio França Internacional. Acabamos agora a segunda parte desta emissão em que vamos ouvir a Semana em África com Carina Branco, mas para já ficamos com a rúbrica mensal de Vasco Gandra, de Bruxelas para o Mundo. De Bruxelas para o Mundo.
Bem-vindos. Neste espaço de entrevista recebemos todos os meses um especialista em assuntos europeus, um protagonista político ou um representante de uma instituição em Bruxelas, para nos ajudar a descodificar a atualidade europeia. Hoje vamos falar das consequências económicas para a Europa da guerra no Médio Oriente e também da resposta da União Europeia às dificuldades económicas que já se fazem sentir. Convidamos Gonçalo Lobo Xavier.
É há vários anos um dos membros portugueses do Conselho Económico e Social da União Europeia. Representa os empregadores...
Gonçalo Lobo Xavier, bem-vindo. Que impacto está a ter na vida económica e das empresas este conflito no Médio Oriente? Bom dia, obrigado pela oportunidade. É sempre um gosto poder partilhar um bocadinho da experiência que vivo aqui no Comitê Económico e Social Europeu, enquanto representante da CIP.
Ora, é evidente que, como consumidores, e todos somos consumidores, nós estamos a sentir nas nossas vidas diárias o impacto desta crise. Quer seja pelo aumento generalizado dos preços da energia, quer seja pela tensão que tudo isto tem provocado dentro da própria União Europeia, quer do ponto de vista diplomático, quer do ponto de vista da nossa...
capacidade de resposta a um choque deste tipo. E eu diria que está a ter, sobretudo, um impacto na vida das pessoas, para além desta parte do orçamento da vida diária das pessoas, está também a ter consequências no nosso otimismo, ou no nosso baixo grau de otimismo e de confiança na economia, e tudo isto pesa, evidentemente.
O bloqueio do estreito de Ormuz tem um impacto energético em vários pontos do globo. Em que medida o aumento dos preços dos combustíveis vai acabar por se refletir no fim da cadeia, ou seja, no preço final dos produtos? Como é que olha para esta situação?
com bastante preocupação. Em Portugal, o meu trabalho diário é, enquanto diretor-geral da APED, da Associação Portuguesa de Empresas de Distribuição, e nós, na distribuição, sentimos em toda a cadeia de valor o impacto desta pressão sobre os preços de energia. Repare que a energia é precisa em toda a cadeia de valor. No caso dos alimentos, desde a produção agrícola, até à logística, à agroindústria, ao transporte, e no final da cadeia está o retalho.
que apresenta os produtos aos consumidores de forma diária. E isto, por muito que custe, vai ter necessariamente um crescimento do preço dos alimentos e dos bens em geral, porque se não é imediato, se não se nota de forma imediata quando nós vamos meter a gasolina nos nossos automóveis ou pagamos energia, o delay que existe entre isto ter um impacto nos preços final demora algum tempo.
Portanto, nós, eu diria que ainda não sentimos verdadeiramente o real impacto deste problema e de toda esta pressão energética, que se vai sentir seguramente mais em maio, mais em junho, mais em julho, enquanto o conflito não se decidir, teremos sempre esta espada em cima de nós a prejudicar a evolução da economia, a evolução das empresas e, com consequências, no preço dos produtos em geral.
no seu entender o que é que se pode perspectivar para os próximos meses. Quais é que são, no fundo, os setores económicos mais vulneráveis a esta disrupção, a este conflito? Bom, a verdade é que o setor industrial, que é grande consumidor de energia, vai sentir, naturalmente, isso, mais do que a consequência também que se vai sentir no preço dos...
bens, é a falta de competitividade que a Europa vai sentir face a outras geografias. E nós já estávamos debaixo de uma grande pressão no sentido de ganharmos competitividade, de investirmos, de termos capacidade para investir e para renovar a nossa indústria.
Este conflito veio trazer aqui uma maior dificuldade na recuperação. E por muito que a União Europeia esteja a investir em estratégias mais estruturais, como o recente Accelerated EU, com o investimento na transição energética, com o apoio a energias limpas, tudo isto demora o seu tempo a ter um efeito real na economia. É evidente que tem que ser feito, estas medidas de médio prazo e estruturais têm que ser feitas, mas a curto prazo pouco mais há do que...
algum alívio nos preços e algum investimento e apoio aos consumidores em geral. Na área fiscal pode haver aqui espaço para se fazer alguma coisa, mas é manifestamente insuficiente face ao impacto e à dimensão do impacto que isto tem na vida das pessoas e que provocam um certo descontentamento. Essa é que é a realidade.
E que outras medidas é que esperaria, então, por parte da União Europeia e dos Estados-membros? Bom, a Europa tem vários instrumentos importantes, não há dúvida. Nós não gostamos muito de ver aquelas medidas que é pôr dinheiro em cima da crise. Mas a verdade é que, se nós não tivermos, não tomarmos medidas estruturais, vamos sempre ser sujeitos a estes choques e vamos estar sempre expostos a estas dificuldades.
E por isso é que as medidas estruturais pensadas de médio prazo, mesmo que doam um bocadinho e que não tenham a perceção imediata junto dos consumidores, têm que ser feitas. E, portanto, eu sou dos que apoio este tipo de investimentos, o tipo de medidas.
estruturais que a União Europeia tem pensado para mudar e para mitigar as limitações energéticas que a Europa continua a ter em face das muitas, se quiser, más decisões que foram tomadas ao longo do tempo. E por isso vejo com muito bons olhos alguns programas dedicados, bom, no caso português, temos ainda o plano de recuperação e resiliência específico também para os tempos que vivemos, o reforço da agenda energética e autonomia estratégica.
que é, de facto, estrutural e tem que continuar a merecer a atenção da União Europeia. Há sinais de política macroeconómica que são relevantes, como o facto do Banco Central Europeu ter adiado o corte dos juros, reviu a inflação em alta e o crescimento em baixa. Os Estados-membros...
têm ponderado apoios fiscais que têm impacto nos déficits dos países, dos Estados-membros, mas que permite também que a população e que os consumidores em geral possam sentir algum alívio e são medidas diretas para a baixa de impostos. E isto são as medidas que neste momento podem ser efetuadas e vemos vários Estados-membros a fazê-las com grande dinâmica, outras mais cautelosas, que é o caso português, mas que chama a atenção que nós...
Se compararmos, é inevitável dizer isto, se compararmos com o pacote de medidas que os nossos vizinhos espanhóis tomaram, deixa-nos apreensivos relativamente precisamente à competitividade da economia portuguesa face da Espanha, que é o nosso principal parceiro comercial.
então que não tenha havido suficiente coordenação entre os Estados-membros para mitigar as consequências deste conflito? Bem, nós estamos longe, infelizmente, de termos um mercado interno europeu, um mercado único, a funcionar em pleno. Nós ainda temos um longo trajeto até o mercado único.
funcione em todas as suas dimensões. E isso torna mais difícil a tomada de decisão estratégica face à vivência individual de cada Estado-membro. Agora, tudo o que foi possível coordenar em termos da autonomia estratégica, em termos de investimento, julgo que a Europa respondeu. O que é...
necessariamente a resposta é sempre muito percepcionada como muito lenta e como com algum grau de dificuldade para resolver problemas diários. E isso cabe aos Estados-membros e aos governos dos Estados-membros serem mais corajosos e depende naturalmente da sua capacidade de investimento. Portugal tem uma dimensão relativamente...
pequena, somos um grande país, mas temos uma dimensão económica relativamente pequena. Eu percebo as cautelas do governo português, também é necessário controlar as contas públicas, mas de facto depois não podemos esperar que a resposta das empresas e que a resposta mesmo dos cidadãos seja igual à de outros Estados-membros que tiveram um volume de apoios bastante mais robusto e com isso isso traz consequências.
Não queria catalogar se foram boas ou amares. Parece-me que claramente todos achamos que são insuficientes, mas ainda temos espaço para fazer melhor, sobretudo do ponto de vista fiscal. Fica essa nota. Muito obrigado, Gonçalo Lobo Xavier. Muito obrigado. Foi um gosto e estou sempre disponível para colaborar nestas iniciativas de promoção das vozes portuguesas na Europa. Muito obrigado. O nosso convidado foi Gonçalo Lobo Xavier, membro do Comitê Económico e Social da União Europeia. Vasco Gandra, RFI, Bruxelas.
RFI, essa lessa onde emerge. J-Speed on the Beats. Queen Rima. J'aime ça, goûte da voce, j'aime ça. J'aime ça, quand ça pique, j'aime ça. Je danse ça, s'y souffre, je fais ça. Si c'est pas moi, qui peut faire ça? Ago Mathias. Soléman, Soléman, Soléman, Soléman, Soléman. Balou.
Fatumata Diawara Mongo Zai-Fi e Aziza J. RFI
Vamos agora ouvir o recapitulativo desta Semana em África com Karina Branco. Bem-vindos a mais uma Semana em África. Começamos com Cabo Verde, onde arrancou esta quinta-feira a campanha eleitoral para as legislativas de 17 de maio. São cinco os partidos que disputam as eleições, mas nem todos concorrem nos 13 círculos. As explicações de Odair Santos, o nosso correspondente.
Cabo Verde possui três círculos eleitorais para as legislativas de 17 de maio de 2026, sendo 10 no território nacional e 3 na diáspora. MPD e PCV concorrem em todos os três círculos eleitorais. A OCID em 10 círculos.
e o Partido Popular em seis, assim como Pessoas, Trabalho e Solidariedade, a única força política em Cabo Verde liderada por uma mulher. De acordo com a Comissão Nacional de Eleições, estão inscritos para as legislativas 416.335 eleitores. A Presidente da CNE, Maria do Rosário Pereira Gonçalves, destaca o aumento de eleitores na diáspora cabo-verdiana.
Entendemos que essa subida deve-se, sobretudo, à implementação de um sistema de recenseamento diferente. Ou seja, quando os cidadãos vão aos serviços consulares para fazerem os respectivos passaportes ou renovarem os respectivos passaportes, podem ficar também inscritos no recenseamento eleitoral cabo-verdiano.
A campanha para as legislativas de 17 de maio arrancou às zero horas desta quinta-feira, com os partidos a fixarem os autodores e cartazes com a propaganda eleitoral. O Presidente da República, José Brineves, apelou uma discussão das propostas dos partidos com serenidade e respeito pelo outro durante a campanha eleitoral.
Que os partidos políticos façam a sua campanha eleitoral com elevação, debatendo ideias, respeitando os adversários, para que deste debate possamos tirar eleições positivas para continuarmos a trabalhar para o desenvolvimento do nosso país.
Em Moçambique, a Comissão Nacional de Direitos Humanos condenou a violência no país na sequência de superstições de magia ligadas a receios de atrofiamento de órgãos unitais. Esta quarta-feira já eram 19 as pessoas que morreram vítimas de agressões físicas ligadas a esta crença. As superstições verificaram-se desde 18 de abril em Cabo Delgado e espalharam-se pelas províncias de Nampula e Zambésia, bem como pelas redes sociais.
Um trabalho melhor foi em Lisboa. Foi em Cabo Delgado onde tudo começou e o comandante provincial da polícia, Assane Nito, diz estar-se perante um ato de incitamento à desobediência coletiva. Baseado na acusação infundada de ser do cidadão por prática de magia negra, supostamente de estar a atrofiar órgãos genitais, maioritariamente masculinos.
que culmina em homicídios e ofensas corporais. Do diretor do Serviço de Saúde de Cabo Delgado, Edson Fernando, uma certeza. Dada a dose dos casos, percebeu-se que não houve nenhuma evidência da alteração física. Concluído, tratando-se de um caso de pânico social coletivo.
O setor da saúde em Moçambique apela aos cidadãos à calma e a evitarem agitação. A polícia decreta tolerância zero à justiça privada. De Maputo, Praia, Rafi, Orfeu, Lisboa.
Em Angola, na segunda-feira, o ativista angolano Oswaldo Caolo foi condenado a dois anos e seis meses de prisão por instigação pública ao crime. A pena foi considerada excessiva pela defesa, que aponta contradições e fala em prisão política. Caolo foi um dos ativistas detidos na sequência dos protestos contra o aumento dos combustíveis em julho de 2025, que desencadearam tumultos e pilhagens em vários pontos do país. Com pelo menos...
30 vítimas mortais em Luanda nos confrontos com a polícia. A defesa do ativista que está detido há nove meses apresentou recurso contra a decisão que olha como política, como explicou a RFI Simão Afonso, um dos advogados de Osvaldo Caolo.
Enquanto advogado de defesa, é evidente que é uma condenação que a nós não satisfaz, na medida em que sempre tivemos convencidos de que o nosso constituinte era inocente. Durante a audiência de produção de provas, por mais de três dias, não ficou provado os crimes de quem lhe vem acusado.
Não obstante o Ministério Público ter pedido a absolvição em dois crimes, necessariamente o de rebelião e apologia pública, nós, enquanto defesa e alegações orais, solicitamos ao tribunal que ele fosse absolvido dos três crimes, mesmo para efeitos do crime de instigação pública, o crime a que ele foi condenado.
O tribunal não apresentou qualquer prova, nunca ficou provado no tribunal. Tanto todos os fundamentos que o tribunal apresentou para o incriminar têm muita incidência política. Portanto, para nós não faz qualquer sentido essa condenação, porque em nenhum momento ficou provado. E é só por isso que em reação imediata nós interpusemos o recurso.
Também em Luanda arrancou esta semana o julgamento de Vitória de Barros Neto, antiga ministra das Pescas e mais três cidadãos, por suspeita de apropriação indevida de dinheiro público no exercício de funções. O relato é de Francisco Paulo, o nosso correspondente.
Vitória de Barros Neto, que dirigiu o Ministério das Pescas até finais de 2018, foi generada em janeiro do ano seguinte, depois de ser visada numa investigação do Ministério Público, que detectou 2.300 milhões de coisas que seriam supostamente para redinamizar o setor. Nesta quarta-feira, o Tribunal Supremo começou a julgar a antiga governante de 71 anos e mais 3 cidadãos.
por suspeita de apropriação indivídua de dinheiro público no exercício de funções. A defesa, na voz do advogado Edson Jamba, contesta a todas as acusações, afirmando-se convicto de que este contexto poderia, alegadamente, levar à absolvação da sua constituinte.
já que posso ouvir dizer é, se esse tribunal foi imparcial, se esse tribunal está por um julgamento justo e equitativo e a julgar pelas provas que foram carregadas ou usados em sede de gestão preparatórias que estão a ser produzidas aqui, tenho a mais plena convicção de que a minha cliente, senhora Vitória de Barra, a decisão é absolvida. Em relação à extinção da responsabilidade criminal.
Há um arguído já em domingos aos primos, que faleceu nesta segunda-feira, por doença. O causídico esclarece que a lei prevê a anulidade de todo o processo. O Código Penal fala em instituição da responsabilidade criminal se houver morte de um dos arguídos. Isto é de lei. Ainda que o Ministério Público não suscitasse essa questão, o juiz havia de tratar da questão da restrição da responsabilidade criminal. Depende do Ministério Público. Francisco Paulo Luanda, RFI.
Esta semana, o Mali viveu uma nova escalada de violência. No sábado passado, grupos jihadistas e rebeldes tuaregs lançaram ataques simultâneos em várias cidades e o ministro da Defesa, Sadio Kamara, foi morto num dos ataques. Os rebeldes tuaregs da Frente de Libertação de Azawad controlam a cidade de Kidal, no norte do país, e tentam aproximar-se de Bamako.
cortando várias estradas que ligam a capital ao resto do país. Tropas paramilitares russas continuam no Mali, mas sofreram recuos em algumas áreas. Os especialistas alertam que os grupos jihadistas estão cada vez mais fortes e coordenados na África Ocidental, podendo expandir o conflito para países vizinhos. Em entrevista à RFI, Leonardo Simão, representante da ONU para a região do Sahel, alertou para o crescendo de sofisticação dos ataques em relação aos que se realizaram no fim de semana passado.
O que é verdadeiro é que os ataques não só no Mali, mas também no Níger e no Burkina Faso, têm tido não só uma intensidade crescente, mas também um grau de sofisticação crescente também. Primeiro houve um ataque simultâneo em várias zonas do Mali.
sete localidades atacadas ao mesmo tempo. Este facto, só por si, mostrou o grau de sofisticação que os grupos jihadistas têm. Portanto, os grupos jihadistas, mais do que a rebeldia Tuareg, têm maior capacidade de ataque. Sim, também atacaram os comboios que levavam a sobretudo combustível, portanto, para Bamako e outras cidades. Houve também ataques em janeiro no aeroporto de Nehemi, no Níger.
mas também um outro ataque, também num aeroporto, em Toá, numa outra cidade. E sempre ataques de grande envergadura, surpresa e com um grau de substituição também superior aos ataques anteriores. Portanto, há um crescendo da substituição dos ataques. Agora, se isso abriria espaço ou não para encontrar-se uma solução negociada, só o governo Mariana poderia saber. E assim termina mais uma semana em África. Obrigada pela sua companhia e até breve.
Estamos a fechar esta emissão com uma notícia. A Confederação Africana de Futebol anunciou hoje que o próximo CAN, programado pela primeira vez em três países, Cânia, Tanzânia e Uganda, vai começar a 19 de junho de 2027 e vai terminar com a final prevista para 17 de junho.
Fechamos assim a segunda e última emissão deste sábado. Estamos convosco todos os dias às 15 e às 18 horas aqui de Paris e podem ouvir-nos aqui na rádio, na internet e nas redes sociais. Estamos de volta amanhã. Aceda a todos os podcasts da RFI na aplicação RFI.