A verdade requer tempo
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- Inteligência ArtificialBusca por informação médica online · Uso de IA para fins médicos · Modificação de tratamentos sem consulta médica · Comparação entre IA e opinião humana · IA na criação de notícias falsas · IA para discernir fontes fiáveis · Uniformização de conteúdos pela IA
- El País 50 anosJornalismo de referência · Assinaturas digitais · Linhas vermelhas editoriais · Conotação política · Verdade requer tempo e dinheiro
- Guardianismo da verdade factualConstrução de verdades individuais · Mistura sistemática de factos e opiniões · Preferência pela opinião sobre o facto · Deformação de factos em comentários · Redes sociais e a verdade pessoal
- Velocidade e atenção curtaMentira mais rápida que confirmação · Treinamento para atenção curta · Tempo de leitura em artigos online · Retenção de audiência em vídeos · Evasão em vez de informação
- Crise do Jornalismo e MídiaDesafios financeiros · Migração da publicidade para o digital · Resiliência e luta pela sobrevivência · Distribuição de jornais em papel
- Liberdade de ImprensaPressões políticas sobre órgãos de informação · Resistência à polarização · Discurso de ódio nas redes sociais · Exaustão com noticiários e comentários
- Impacto da TecnologiaUso de telemóveis e smartphones · Adaptação dos mais velhos à tecnologia · WhatsApp e comunicação · Evasão em plataformas de streaming
Olá, Júlio. Doutor Inês Menezes, separados de novo, não é? Separados de novo, mas com o coração muito cheio, pensando um no outro, não é?
permanentemente. Tem razão, tem razão. Lembra-se daquela piada, eu diria mais, e repetia-se, permanentemente. Júlio, hoje vamos falar de um jornal espanhol de referência que comemora 50 anos de existência, o El País. É um feito, não é? Numa altura em que...
A imprensa vive dias mais complicados. Ou das doura com os leitores. Exatamente. Mas, na verdade, a propósito desta data e da entrevista que o diretor Ian Martínez Arendt deu ao público, há muito mais para falar.
de como um jornal se conseguiu impor, dos leitores jovens que têm, das linhas vermelhas muito bem definidas, estão traçadas, pelo que se lê na entrevista.
A conversa já não é se se trata de um jornal de esquerda ou de direita, o jornal esteve sempre muito conotado com o PSOE, mas daquilo que se defende ou que não se permite. E vale a pena sublinhar a importância do título desta entrevista feita por Helena Pereira em Madrid, a verdade é algo que requer tempo, dinheiro e esforço.
O diário espanhol El País nasceu um ano depois da morte de Franco e tem 450 mil assinantes digitais. O diretor diz que os leitores querem saber a verdade. Isto à partida devia ser uma coisa natural, não é? Nós queremos saber a verdade. Com toda a razão. Aliás, nós liamos os jornais para saber a verdade.
O que acontece, não estou a dizer que não se passasse antes, mas o que acontece cada vez mais é que as pessoas têm as suas verdades. É evidente que isto é regra. A verdade, com o V grande, é uma utopia, exceto em coisas que são de uma evidência extraordinária. Pois as pessoas, quer queramos, quer não, interpretam os factos e, portanto, constroem as suas verdades.
Mas a Inês, desde logo, mencionou aí um aspecto que, tanto quanto eu me pude perceber, mas não é uma surpresa, tem sido fundamental para a sobrevivência de uma publicação, porque não é só o El País que luta para se ingrar em mares revoltos, sobretudo quando nos referimos à imprensa escrita. O El País aparentemente ganhou a batalha das assinaturas.
com um número desses de assinaturas, é evidente que se torna mais fácil. Quer queiramos, quer não, porque nós, eu disse, pegamos, pronto. Pegamos num jornal, mesmo que seja em termos virtuais, mas pegamos num jornal. E nunca, ou muito poucas vezes, nos interrogamos, bom, mas o que é que mantém?
esta publicação de pé. Ouça, tivemos um exemplo de resiliência, de luta, temos tido com os jornalistas da visão, que se bateram e que se têm batido para manter a publicação. Sem dúvida. Não é? Quer queiramos, quer não, há aspectos fundamentais, que é os apoios financeiros, ou os recursos financeiros, se quiser, e a publicidade.
E, por exemplo, a publicidade, tanto quanto nos podemos aperceber, tem migrado muito para os meios digitais. Claro, porque as assinaturas são hoje também mais digitais, não é? Exatamente. Nós pegamos no telemóvel, não estamos sempre a ver as redes sociais, também podemos estar a ler um jornal, não é? Também podemos estar a ler um jornal.
E, portanto, essas estratégias, digamos assim, de sobrevivência, eu compreendo que têm vindo a ser difíceis, alguns não aguentam, não são só as companhias de aviação que, neste momento, com a guerra no Médio Oriente, uma delas, uma das mais antigas, penso até que é a mais antiga, a Spirit, já fechou portas, ou fechou voos, se quiser. Mas nos jornais as coisas têm vindo a ser difíceis. Mas, a dado passo da entrevista...
Ele diz algo que, se bem me lembro, nos agradou a ambos há meses atrás. Vaticinou-se, por exemplo, que os livros em formato clássico tivessem os dias contados por causa dos e-books. Isso não aconteceu.
Não estou a dizer que os e-books não andam por aí, andam. Tenho amigos meus que têm até aqueles iPads especiais em criatura. É mais fácil, etc. Olha, se eu lesse assim, atendendo ao glaucoma, seguramente teria comprado um desses iPads. É importante para a visão.
Mas nada chega a tocar, a sentir o cheiro, a tocar no papel, a perceber a gramagem. Cada livro tem um cheiro, não é? Portanto, sim, os livros continuam aí. E atenção, os jornais em papel também, a dada altura. E os jornais em papel também. A dada altura ele diz, somos mais lidos do que nunca, o diretor do El País. Temos mais assinantes do que nunca, até os dados do papel dão sinais de alegria.
Mas isso não altera a realidade, que é, olha, até em termos de distribuição, Portugal neste momento tem um problema grave de distribuição de jornais, nomeadamente, olha, a surpresa no interior, com pessoas e instituições a queixarem-se. Eu não preciso de ir mais longe, a disponibilidade que eu tinha de jornais em papel, em Vieira do Minho, há 15 anos atrás, não é a mesma que tenho hoje. Pronto. Agora,
O que é que está em pano de fundo, digamos assim, de todo o artigo? E que está logo em título, que é a questão de a verdade. Mesmo não fazendo processos de intenção, porque é claro diz que é preciso trabalho e tempo. E dinheiro.
Dinheiro, sim, mas dinheiro é para a sustentabilidade. Mas também para outra coisa, tem razão. É preciso dinheiro para teimar. Às vezes para teimarmos precisamos de dinheiro, não é? Para manter a publicação e para outra coisa. É preciso dinheiro e resistir à tentação de poupar dinheiro nas pessoas que fazem o trabalho. Ou seja, presumo eu, daquilo que sempre ouvi, não é a mesma coisa.
pagar a um jornalista que está, no mínimo, pode estar completamente especializado, mas no mínimo subespecializado em determinada área, o que dá muito trabalho, no terreno e em termos de leitura, etc., e pagar a um estagiário que não nega que faça o melhor que pode, mas que evidentemente não pode ter a mesma qualidade.
mas que sai mais barato. Olha, deixe-me dar-lhe um exemplo para ver algumas das questões com que nos deparamos neste momento. Isto é um artigo que eu recebi hoje sobre a questão da qualidade, lá está, das verdades também, da qualidade da informação médica.
Um senhor, que presumo que se pronuncie o nome com Nicola Milino, sendo italiano, é o presidente da União Nacional para a Informação Científica e Médica, que é uma associação de jornalistas, agora veja isto.
trabalhando na área da saúde, da investigação científica e dos cuidados médicos. Está a ver? Isto é uma especialização. E não é uma coisa que se obtenha num workshop de 48 horas ao fim de semana. E então, para que é que ele está a chamar a atenção?
A inteligência artificial está a transformar a relação dos italianos, e eu atrevo-me a dizer, não só os italianos, sem problema nenhum, já o sinto na clínica, com os cuidados de saúde e com os médicos. Na realidade, 94% dos cidadãos italianos já procuram informação médica online.
Em termos gerais, 43% usam o CHET-GPT e Inteligência Artificial Generativa para fins médicos. E agora veja este último número. E 14% modificam por isso seus tratamentos sem consultarem o seu médico. Claro.
Não me espanta porque ainda hoje falei com uma amiga que me dizia chegaram as minhas análises, vou ver o que é que o chat do GPT me diz disto. Exato, o que é irresistível. Eu aceito perfeitamente que seja irresistível. Eu fiz um determinado exame há uns meses atrás e uma das análises, para mim, era chinês e chinês complicado.
E agora, como é evidente, eu podia ter ido pela via mais lenta para perceber o que aquilo era. Mas é irresistível. Eu perguntei aos 7GPT para que é que estava normal. Mas por curiosidade, para que é que servia aquela análise, etc, etc, etc. O que acontece é que nós somos cada vez mais confrontados e repara que eu sou psiquiatra.
Mas mesmo eu sou cada vez mais confrontado com comparação entre aquilo que eu digo e aquilo que foi a opinião dos chatos GPT. Fiável, nesse caso, a opinião dos chatos GPT? Ouça, porque é que eu disse mesmo na psiquiatria? Como compreende? A psiquiatria é muito mais inovoada que especialidades que são mais pão, pão, queijo, queijo e rigorosas.
à base de questões numéricas, etc. Por exemplo, o Manel Sobrinho Simões, quando estamos os dois, diz sempre a mesma coisa. Bem, é que eu gosto de certezas, eu jamais poderia ser psiquiatra. Eu, por acaso, sempre fiquei fascinado por incertezas. E, realmente, a psiquiatria dá-me-as sem problema nenhum. Mas,
Já me têm acontecido várias vezes pessoas, e repare que isto é com muito boa intenção, as pessoas dizer, ai que engraçado, o professor está-me a dizer o mesmo que me disse o 7GPT, a quem elas não apresentaram análises.
não apresentaram questões numéricas. Apresentaram, por exemplo, reações de um parceiro ou de uma parceira e perguntaram, tu o que achas? Achas que ele ou ela está-se a preparar para acabar a relação? Perguntas deste género. E o chat responde. E depois a pessoa fica aliviada porque eu concordo com o que o chat disse.
Não estou a dizer que se não concordasse a pessoa, eventualmente, não pudesse confiar mais em mim. E pensar assim, para todos os efeitos é uma máquina. Este tipo tem muita experiência. Tenho dúvidas, como sabe, nós estamos muito virados sempre para confiar nas máquinas que serem infalíveis. Mas isso não interessa. O que interessa é...
Isto é a realidade e temos que aprender a conviver com ela. Por exemplo, e acaba a medicina com isto, por exemplo, neste momento há inúmeras iniciativas para fazer com que os médicos sejam mais capazes de lidar com a tecnologia. Porque ignorá-la não resolve nada.
Nós também temos que saber mexer-nos na tecnologia. Repare que, a propósito da inteligência artificial, o diretor do El País, ele parece um otimista por natureza, não parece? Ele salienta as duas faces da inteligência artificial. Sim.
Mas começa por dizer que acha que vai ter um impacto positivo, não é? Também acho. E porque falava em medicina, ele diz, não sobre medicina, claro, a inteligência artificial pode ser utilizada também para melhorar o produto. Será que na medicina vai melhorar o produto? Está a melhorar. Está a melhorar já. Sem dúvida nenhuma. O que lá vem a velha frase, é preciso bom senso.
Tão simples como isso. Aliás, também é preciso bom senso. Mesmo sem a questão da inteligência artificial. Eu outro dia lia um artigo que me agradou muito também, que dizia assim, cuidado.
análises, não é brutalmente, mas análises ligeiramente anormais, não significam doença. É preciso bom senso. Porque se uma pessoa pega num boletim de análise, e porque duas ou três delas estão a vermelho, porque se...
como é obrigação de serem assinaladas, não é? Porque saem dos intervalos normais, isto não significa de imediato um carimbo. Às vezes há variações que não significam que naquele momento haja doença. Bom, mas eu disse que ia sair da medicina. É tentador. Uma das coisas que imediatamente sai daqui, a questão financeira.
Um dos aspectos que hoje em dia preocupa muito na imprensa são movimentos de fusão em que as redações encolhem. O trabalho torna-se mais precário. E na maioria dos casos, a qualidade do trabalho piora. Outro aspecto. Há bocado falámos do dinheiro. As pressões. Por exemplo...
Nós não andamos aqui, claro que a Inês anda aqui há muito pouco tempo, não é? Mas pronto, nós não andamos aqui há 10 anos. Nós sabemos que há pressões políticas.
sobre órgãos de informação. Não são só os jornais, por isso é que eu disse órgãos de informação. Sobre rádio, sobre televisões, etc. Portanto, um órgão de informação que quer ter a confiança dos consumidores também tem que lhes provar que é capaz de resistir a isso. Ora bem...
Todos os relatórios que nós temos neste momento, a nível europeu e mundial, dizem que estamos a atravessar uma fase crítica em termos de liberdade de imprensa.
Como é lógico... Porque também aí há uma polarização, não é? Claro. Obviamente, por isso é que facilmente dizemos este jornal está conotado com este partido ou com esta ala e o outro está... É verdade. Depois até há questões culturais. Há culturas, por exemplo, em que é muito habitual na altura das eleições...
determinados jornais, não são todos, mas determinados jornais escreveram um editorial a dizer este jornal apoia o candidato total. Exato. É transparente. Não se esqueça que durante muitos anos dizia-se que os jornalistas eram todos de esquerda, não é? O que não falta por aí são comentadores e jornalistas de direita também, hoje em dia, não é? Mas isso, para lhe falar, eu sou suspeito. Pronto.
Para alguns eu sou de centro-esquerda, para outros eu sou da esquerdalhada, que não é bem a mesma coisa, não é? Pronto. Vamos ver. Hoje em dia...
Isto é, a minha opinião, a Inês poderá não ter a mesma. Mas, por exemplo, hoje em dia, quando eu leio artigos a dizerem, olha, não é só nos jornais, que o comentário televisivo está sempre invadido pela esquerda, eu tenho de sorrir, porque se calhar o meu aparelho cá em casa tem vontade própria.
Inclina mais para um lado, não? Inclina porque eu farto de ver comentadores. Eu compreendo perfeitamente, era o que faltava não ver comentadores de direita, não é? Mas dizer que o comentário, por exemplo, é dominado pela esquerda, hoje em dia, parece-me realmente uma verdadeira liberdade de expressão. Mas depois, e ele toca nisso, é assim. Estamos em busca de verdade.
E para, lá está o trabalho, para haver verdade, é preciso haver rigor. Haver rigor, e aí como a Inês dizia a questão do tempo, para haver rigor no nosso tempo, eu diria que é preciso irmos quase em contracorrente.
Porque, como ele também salienta, estamos num tempo de enorme velocidade e de atenção curta. E a mentira é muito mais rápida do que a confirmação depois de um facto, não é? Ah, sim, isso é outra coisa. Mas que falamos em velocidade, e repare, e voltando à inteligência artificial, não é? Ele também diz que a inteligência artificial vai ser muito útil, já é, para os criadores de notícias falsas, não é?
É, mas ele também diz, e com razão, que a inteligência artificial pode ser utilizada para termos rigor, porque é capaz também de discernir o que é que é apoiado em origens que são fiáveis e quais é que não são. E aí, mais uma vez, já o fizemos aqui, a miúdo. É preciso ilibar a inteligência artificial. Temos é que nos interrogar como é que ela é utilizada.
A Inês disse, no fundo, sem empregar a expressão clássica das fake news, quando a inteligência artificial, no fundo, tem como missão ir buscar likes, ir buscar mais atenção. Segundo me dizem, nem é preciso pôr likes, basta estarmos mais tempo parados em determinadas notícias, etc.
Esta inteligência artificial rapidamente aprendeu, e as pessoas que comandam os algoritmos também, que há determinado tipo de notícias, por exemplo, coisas que sejam exibicionistas, coisas que tenham a ver, olha, que novidade, com sexo e violência, que enorme novidade. Foi sempre assim, muito antes da inteligência artificial. E, portanto, o algoritmo carrega nas tintas e nas teclas aí.
Porquê? Porque o interesse económico ou político, também pode estar em causa, é mais importante do que a busca da verdade. Por outro lado, já o sublinhámos aqui também, esta questão da velocidade e da atenção curta, que é uma coisa que ninguém nega hoje em dia, nós estamos com dificuldade de manter o foco da atenção. Estamos a ser treinados para isso.
Estão a ser treinados para isso. E olha, pronto, eu tinha prometido que não voltava a falar de medicina, mas é culpa. Cada vez me aparecem mais pessoas a consumir medicamentos para se manterem focadas no trabalho, nos estudos, e a ficar independentes. O que não é nada boa ideia. Adiante, pronto. Portanto, aquilo que também é...
Esta busca, que pressupõe tempo, maturação, etc., luta contra uma tendência atual que é ir tudo pela rama. Nós salientámos aqui o aparecimento, antigamente não havia isso, online, a Inês está a ler um artigo, e lá em cima, como sublinhámos várias vezes, está o tempo de leitura. Porquê que está o tempo de leitura?
Em teoria, nós olhávamos para o título e dizíamos assim, isto interessa-me, ora deixa-me cá ler. Não, é que as pessoas já sabem que é de tal forma rápido que tentam atrair mais leitores dizendo, só falta por lá sim, olha, dê uma vista de olhos, só leva dois minutos.
Não é por acaso que estão lá os dois minutos. Não está a olho, são só. Mas está a ter tempo de leitura, dois minutos. Porquê? Porque se puserem lá tempo de leitura 15, grande parte da malta não fica. Nem é preciso leitura, o Inês. A Inês, como eu, de vez em quando publica vídeos. Quando a Inês vai à parte técnica, olha lá como é que aquilo se chama, que depois me ensinaram a verificar.
A Inês vai ver aquilo que eles chamam retenção, que é quanto tempo é que as pessoas ficaram a ver aquilo que nós publicamos. Olha, eu fico sempre a perder com as minhas cadelas. E um vídeo que tem, por exemplo, sei lá, um minuto, a Inês vê com muita frequência, ao fim de 20 segundos, aquilo caiu verticalmente.
E a primeira maneira de olharmos para isto... Alguém já... Essa mesma pessoa já estará a ver outro vídeo, outra publicação, claro. Eu ia dizer, a primeira hipótese, a linha A, temos de ser humildes, é que a pessoa diz o que o Machado vai estar a perurar não interessa nem ao Menino Jesus. Não nego. Mas não é só isso. É que as pessoas imediatamente passam de vídeos em vídeos em vídeos e vão para ali fora.
E, portanto, o tempo de retenção é muito baixo. Em quantos sítios ouvimos dizer deixem os telemóveis e peguem num livro? Ou peguem num jornal?
Isso tornou-se de tal maneira um tema que eu outro dia, peço desculpa porque esqueci-me do nome, mas estava a precisar de sorrir, sabe? E pus um daqueles documentários com shows de stand-up comedy.
E uma das primeiras piadas era sobre isso. Ele estava a dizer e estava... Desculpem lá ter obrigado toda a gente a deixar os telemóveis lá fora. O que nem sempre é eficaz, porque há pessoas que conseguem meter telemóveis lá dentro. Mas, por exemplo, quando Bob Dylan veio ao porto, eu, que não estava informado, cheguei à porta e alguém, muito amavelmente...
Disse-me, faz favor, mete o telemóvel aqui. Pronto, os artistas também têm o direito de não estar a ser massacrados com aquilo. Mas quer queiramos, quer não...
A esmagadora maioria da sociedade está assim. Depois, em termos de verdade, e dir-me-á, não falámos como de costume, eu acho que é um bom hábito nosso não preparar programas. Não preparar, quer dizer, preparamos individualmente, agora estávamos os dois a falar. Mas dir-me-á, um dos aspectos mais importantes é que vivemos numa sociedade em que há um cocktail, uma mistura sistemática entre factos e opiniões.
E isto é muito complicado para as pessoas. Aqui até me arrisco a dizer, menos nos jornais, embora seja, mas, por exemplo, as televisões estão inundadas dessa confusão.
Estamos claramente numa era em que preferimos a opinião ao facto. Porque a opinião traz sangue, traz posições extremadas. O facto às vezes peca por falta de cor. Essa é uma das facetas. Sim, sim, sim. Mas há outra faceta, que é quando nós pensamos que o que estamos a ouvir é um facto e na realidade é uma opinião.
o que acontece muito. De vez em quando, se a Inês quiser, passa por vários canais, painéis documentadores é o que não falta, passa por vários canais que estão a comentar, por exemplo, o mesmo facto,
E há alguns dos comentários, a Inês fica na dúvida sobre isto está a ser feito como? Estão-me a apresentar um facto? A opinião desta pessoa sobre o facto não é igual. E deforma o facto, inevitavelmente. E as pessoas ficam confundidas com frequência.
É muito complicado. Ficam confundidas e escolhem o que mais lhes convém, não é? Como é evidente. Nas redes, bom, nas redes é o despautério absoluto. Porquê? Porque todos nós temos a nossa verdade. Nesse aspecto, a rede é democrática. Claro que alguns de nós têm mais audiência do que outros, não é? Mas cada um de nós diz o que lhe apetece. E aqui é muito curioso, porque os jornais...
e os outros médias, não é? Têm uma função nobre, que é mediar a informação. Em teoria, fazendo o quê?
Confirmando, recolhendo outras fontes e, portanto, tendo meios para nos apresentarem factos muito mais credíveis. Aquilo que nos aparece nas redes, as fake news, bom, isso aí é deliberado, não é? Estão mesmo a tentar enganar-nos, não é? Mas mesmo quando não é isso, nós deparamos-nos com intervenções de milhares de pessoas e cada uma delas apresenta a sua verdade.
Sendo que muitas vezes a confirmação ou a verificação de um facto lá está, leva tempo e tempo é igual a dinheiro Pois é Ou seja idealmente a imprensa deveria ter sempre esse tempo Então
para joeirar, para filtrar, para... Às vezes nas séries nós vemos isso, não é? Aquelas séries em que alguém diz assim, ah, não, não podemos publicar isso se não tivermos duas fontes diferentes e fontes dignas de crédito, não é? Nas séries policiais. Claro, claro. Pronto, mas a vida real neste momento não se parece muito com essas séries, em muitos casos. Quer dizer, primeiro publica-se.
E depois logo vemos. E a Inês, há 20 minutos atrás... Lá está a velocidade também, que é ninguém espera. E depois não há simetria. Que é, a Inês tocou no assunto. Que é, há situações em que se publica uma coisa. Depois há algo que se chama direito de resposta. Mas, em geral, a notícia é uma parangona. O direito de resposta vem num quadradinho e na página 5.
o que não é propriamente a maneira mais lisa, digamos assim, de dar direito às pessoas de contestarem, por exemplo, acusações que lhes foram feitas.
Ó Júlio, eu estou aqui a rir-me porque a dada altura ainda sobre a inteligência artificial, Ian Martinez diz que sim, podemos usar a voz artificial, mas tem que se dizer ao leitor que é a voz artificial. Pode-se usar a inteligência artificial de uma maneira geral, global, dizendo sempre que é a inteligência artificial. E eu estou a lembrar-me dos vídeos.
que nos passam aos milhares por dia, não é? Nas redes sociais. Cenários idílicos. Casas em penhascos, à chuva, paredes de vidro. E as pessoas escrevem que sonho. E há sempre, felizmente, alguém mais elucidado que diz isto é inteligência artificial, não é? Portanto, a primeira tentação...
A primeira vontade, e às vezes a última, é disparar aquele vídeo que vai atrair imensa gente. E não há a mínima preocupação em dizer que isto foi criado com a inteligência artificial. Isto não existe. E a maneira como reagimos, por exemplo, é muito geracional. Nós os mais velhos caímos... Nós os mais velhos caímos com muito mais facilidade.
Os meus netos, não digo que seja sempre à primeira, mas se não é à primeira, é à segunda, são capazes de dizer, epá, isto é inteligência artificial, coisa que eu não consigo. Ou seja, num mundo que não existe, quando me puseram a vender medicação para a diabetes,
punhou ao menos em letras pequeninas, olhem, o medicamento é muito bom, mas este discurso do Machado Vaz foi feito com inteligência artificial. É o focinho dele, são os lábios dele, mas ele não disse isto. Claro que não é assim que as coisas se passam. Quem diz o Machado Vaz diz N colegas meus que já foram sujeitos a este tipo de procedimento. E não só médicos, como é evidente. E qual é sistematicamente o móvel? O lucro.
Vai-se buscar pessoas em quem se confia, ou pelo menos alguns confiam, e torna-se as pessoas veículos de publicidade.
É muito interessante dizer, no seu caso, que os seus netos facilmente identificam, e o Júlio também acredito que já identifique facilmente se foi feito com entrevista. Facilmente não, já sei um ou outro. Mas pelo menos fica na dúvida, não é? Sim, exato. O que é muito curioso, porque os mais velhos, todos nós, não é? Mais velhos, hoje em dia, lidando com a internet e com todas essas ferramentas, nós somos as novas crianças.
Porque nós somos elucidados pelos mais novos. Ah, claro. Sem dúvida nenhuma. Mas aí também vamos ser honestos. Não foi só com a inteligência artificial. Olha, com os telemóveis. É. Também. Quantas vezes eu lhe contei que os meus netos, ao abrigo da liberdade de expressão na família, me diziam com um sorriso nos lábios que o meu telemóvel era bom demais para mim.
E quando isso me foi dito, eu não percebi o que é que eles queriam dizer, porque o telemóvel não tinha cores particularmente atrativas, porque o telemóvel não tinha tido um preço inacreditável e tal. Eles estavam a referir-se a o que é que o telemóvel conseguia fazer. Mas como compreende? Eu tinha comprado um telefone móvel. Ora, um telemóvel não é um telefone móvel, é muito mais que isso.
Mas repare, Júlio, nós com o telemóvel ainda nos podemos irritar, podemos espatifar o telemóvel se ele não tiver sido estupidamente caro, não é? Há sempre estes momentos de ira perante algo que nós desconhecemos, que não conseguimos dominar. Enfim, ao fim do mês...
já estamos, mais rapidamente que isso, já estamos aptos a mexer no telemóvel. Com a inteligência artificial é outra coisa, porque nós não podemos espatifar a inteligência artificial, nós somos enganados por ela. É, o que eu estava a dizer é que o facto de serem os mais novos a alertar-nos é anterior à inteligência artificial. Claro.
Foram também os mais novos que me explicaram ao avô, mas tu também podes ler mails, escrever mails, por exemplo, um aspecto prático e que eu, a priori, desconhecia.
na minha casa de cantelães, eu não tenho o rede normal, não sei se pode dizer assim. Pronto. Dentro de casa, eu não posso falar o telemóvel. Tenho que falar pelo fixo. E tenho que falar eu e tenho que falar para mim. E os meus netos disseram, mas então porquê que não falas pelo WhatsApp? E eu...
fiquei admirado. Eu pensei, bem, mas se eu não consigo falar ao telefone normal, não consigo falar ao telebóvel. Não, não, pelo WhatsApp consegue-se falar. Isso foi-me ensinado por eles. Esses netos, de facto, servem para alguma coisa, não é, Júlio? Claro, de irmião. Mas o senhor não é só velho. O senhor é um velho completamente ignorante. Está bem, eu admito, mas não sou o único. Pronto. Agora, com a inteligência artificial é multiplicar isso por não sei quantas coisas. E nem estamos a falar.
de aspectos em termos de informação, de pressão, de divulgação, muito mais sinistros, como sejam o Dark Web e tudo isso. Claro, isso já é outro campeonato, não é? E aliás, por exemplo, é dito no artigo, um dos riscos da inteligência artificial, qual é? É a uniformização de conteúdos.
E aquilo que não é responsabilidade da inteligência artificial, como também já o dissemos, que são os enviesamentos culturais. Por exemplo, ele diz uma coisa que hoje em dia é óbvio que é.
Países como os Estados Unidos ou a China, penso que a Rússia também, mas, na minha opinião, se calhar estão mais especializados em outro tipo de interferências. Mas países muito avançados em termos da eletrónica, dos meios tecnológicos, etc.
passam a ter vantagens em termos de endotrinamento das pessoas, em termos culturais, do esquema cultural que vendem ao resto do mundo. É evidente. E para isso temos de estar alertados. Por exemplo, porque é que há, nos média, privilégio do discurso de ódio.
tanto quanto me possa perceber, eu não leio os jornais todos, mas não podemos dizer o mesmo dos jornais. Agora, nas redes, é muitíssimo mais fácil. Claro. E como a Inês dizia lá atrás, em termos de audiências, os discursos de ódio, ou se quiser, os discursos muito polarizados.
E nós estamos numa sociedade cada vez mais polarizada, não é? Como se antigamente ou estás comigo ou contra amigo, não é? Pronto. Depois, o que é que acontece? Uns adoram o espetáculo.
Outros tomam partido porque estão num dos polos. Outros também, devo dizer-lhe, em abono da verdade, há pessoas que me chegam, por exemplo, ao consultório, no fundo é a minha maior fonte de informação, que me dizem, eu deixei de ver noticiários, deixei de ver programas comentários. Eu ia dizer exatamente isso que é. Deixei. Exaustão total, não é? Exaustão. Já não consigo, o que se ouve muito dizer é, já não consigo ver. O que é deprimente.
O que é deprimente, pessoas dizerem, eu já não sei se eles estão a dizer a verdade, eu não acredito neste e naquele e naquele outro, etc. Porque isto é diferente das pessoas que dizem, eu já não consigo ver mais máis notícias. Há pessoas que são assim, dizem, é só guerras, é só desgraças, crianças a morrer com fome e tal, não consigo. Claro, mas isso é outra coisa, sim. É outra coisa, não é? Não, mas não, eu ouço pessoas que dizem, eu já não consigo distinguir quais deles são isentos, quais não são, etc. Estou farto, acabou.
O que leva a que o leitor, o espectador, depois também possa escolher os seus próprios canais? Olha, vou-lhe dizer uma coisa da qual... Os canais não estou a falar só de televisão, não é? Sim, sim, vou-lhe dizer uma coisa da qual não tenho nenhuma prova concreta que me compreenderá.
mas que eu estou a ficar completamente inundado de pessoas que dizem assim, olha, chega uma altura que vou ver uma série para a Netflix, ou o Prime, ou isto, ou aquilo, ou aquilo. Ou seja, as pessoas procuram a evasão, o que também não é bom, não é? Porque escolhem a evasão em vez da informação. Pois não.
E há outras pessoas, mas como é evidente, isso também tem a ver com, digamos assim, a bagagem cultural. Eu ouço pessoas que me dizem assim, os únicos canais que eu sintonizo é arte e mezzo.
E eu digo cá para mim, e eu percebo, pronto, estão a ouvir boa música, estão a ver arte. Outros, National Geographic, só vejo documentários sobre vida salvada. Mas se calhar estamos a falar de uma minoria, não é? Pronto, por exemplo.
Os primeiros é menos gente que os segundos. Há muita gente que me diz, ah, não, não, eu olho, agora vejo sobre animais, sobre isso, aquilo e tal. E nem sequer estou a falar, como é evidente, dos milhares e milhares que praticamente não saem dos desportivos. Mas esse normalmente tem a ver mesmo com a dependência do desporto. Agora, ouvir as pessoas dizerem preto no branco, pois nós também cometemos injustiças. Mas ouvi pessoas a dizerem, já não acredito em nada o que me dizem.
Já duvido de tudo. Isso é perigoso, não é? É perigosíssimo. É perigosíssimo. Estamos a atingir os objetivos de alguém, não é?
Ah, de muitos algães. Exato. Bom, vamos terminar desejando longa vida ao El País e a muitos outros jornais, não é? Que lutam por essa verdade, que não é assim tão difícil de conseguir. Se bem me lembro, corrigir-me-á. Mas se bem me lembro, é dito no artigo que enquanto o El País...
foi sempre associado ao PSOE. O El Mundo é muito mais associado ao centro-direita e tal. Isso sempre aconteceu. Sim, sempre. Sempre. Vamos pensar que com os jornais e os livros poderá acontecer. Lembra-se daquela fase em que a música em formato físico conheceu a nova era com os CDs e os vinis, coitadinhos, foram arrumados?
vendidos ao desbarato. Hoje em dia quase já ninguém quer CDs e a apostar-se num formato físico aposta-se no vinil. Portanto, nós vivemos destes ciclos mais curtos ou mais longos e com o papel estamos agora numa fase mais difícil mas se calhar regressará em força.
E não sei, a Inês, desculpe interrompê-la, porque estamos mesmo no fim, mas tenho curiosidade que me diga. E a Inês me dirá, muitas das pessoas que, no fundo, ressuscitaram quase o vinil, foi em nome do rigor da verdade da música. Claro, claro. Porque me dizem que se perde o vinil para o CD. Há coisas que no vinil existem que não se apanham no CD. Isto é verdade ou não?
Não sou assim tão especialista, não é? Eu devo dizer-lhe que ouço música até de um caixote de fruta. A caixote de fruta eu não emite, mas percebe? Eu não sou radical, portanto, tanto tenho música no telemóvel.
Como tenho vinil Como tenho centenas e centenas de CDs Para mim tudo é válido Mas claro que há quem seja mais rigoroso E só ouça música em vinil Ouça um bocadinho de tudo No Uber, no táxi, na Antena 1 Enfim, onde...
Onde quer que esteja a dar música, eu agarro-me e a ela. Ou, como se diz, tenho boa boca. Exatamente, e bom ouvido. Quer dizer, tenho bom ouvido, por acaso não ouço tudo. Aí não a posso acompanhar. Júlio, vamos terminar, falámos do El País, vamos terminar com Luz Casal, com este clássico, Um Ano de Amor. Eu não tento o espanhol, não sou...
O Julio é muito melhor com o seu espanhol, com as suas idas frequentes à Espanha. E, portanto, vamos pensar que o El País é um excelente exemplo com as suas 450 mil assinaturas, o que traz alguma força para quem está neste momento difícil a trabalhar. É reconfortante. É reconfortante, sim. É reconfortante.
Um beijinho, estiveram connosco a Joana Jorge, como sempre, e o Diogo Axel. Nós voltamos para a semana. E um becito, carinho. Um becito, pronto. Isso consigo dizer. Até para a semana.