Ser mãe num mundo que inspira cuidados
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- Licenca Paternidade AmpliadaQueda na utilização de licenças parentais por homens · Percepção da licença parental como tarefa feminina · Ambiente laboral hostil ao gozo de licenças por homens · Preconceito e bullying contra homens que tiram licença · Inversão de papéis clássicos na paternidade
- Paternidade e MaternidadeInstinto maternal e seu uso discriminatório · Desejo de ter filhos em casais · Mudança de ideias sobre ter filhos · Gravidez tardia e desistência de ter filhos · Mães como cuidadoras de filhos e pais · Evolução do conceito de família e maternidade · Dificuldades das famílias monoparentais
- Sexualidade e CastidadeDiscurso sobre virgindade feminina antes do casamento · Homens ensinando mulheres sobre sexo · Visão restrita da sexualidade masculina · Conceito estritamente anatômico de virgindade · Mulheres saindo de relações por autonomia e dinheiro
- Possíveis cenários da guerraMulheres e crianças afetadas pela fome global · Desigualdade de gênero na produção e acesso a alimentos · Países em conflito e fome · Nossa Senhora de Fátima como arquétipo maternal
- Ódio contra Mulheres no Mundo DigitalCrescimento e alimentação do ódio nas redes sociais · Discurso de ódio e seguidores · Homens permeáveis ao discurso de culpa das mulheres · Mulheres como ameaça e perda de poder masculino · Humor com receio de perda de direitos masculinos
- Aumento de Nascimentos em PortugalMelhor número de nascimentos da última década · Aumento de nascimentos de mães estrangeiras · Países de origem das mães estrangeiras
- Amores Difíceis e Heroísmo CotidianoPoema 'Abalar os Amores Difíceis' de Inês Lourenço · Amores cotidianos como heroísmo · Rotina doméstica e cansaço parental · Professores e educadores de infância e a dupla jornada
- Políticas de Apoio à MaternidadeLicenças parentais dignas, bem pagas e partilhadas · Horários de trabalho compatíveis com a parentalidade · Pais como 'choferes' para atividades extracurriculares · Exagero em atividades extracurriculares infantis · Acesso a creches e saúde física e psíquica para mães
Olá, Júlio. Olá, menina. Parabéns. Obrigada. Dia da mãe. Nós já não temos as nossas, mas continuamos a lembrar delas, não só neste dia. No meu caso, todos os dias, devo dizer.
E pensámos, falando do dia da mãe, falando das mães, pensámos imediatamente nesta coisa das mães serem vistas, normalmente vistas como cuidadoras. E eu estava a pensar, antes de vir para o programa, a natureza dá-nos os melhores exemplos, não é? Também nos dá exemplos de abandono, é verdade.
É verdade, mas nem de perto nem de longe é o mais habitual. E aí, quando falamos dos outros animais, temos todo o direito, podendo encontrar exceções, mas temos todo o direito de falar do instinto maternal.
que é uma expressão que, em contrapartida, muitas vezes foi utilizada de uma forma discriminatória, xenófoba até, em relação às mulheres. Uma mulher que podia não o sentir, mas que não afirmasse o desejo de ter filhos, era olhada de través, para não dizer que era olhada, digamos assim, como uma espécie de bicho de jardim zoológico.
E em relação a isso mudamos muito, felizmente. Felizmente, felizmente. E até porque há nuances, isto também não é preto e branco, não é X querem ter filhos, Y não querem. Nomeadamente neste Y que não querem, porque estamos agora só a falar de mulheres, não é que a ser? Grande parte das vezes também estamos a falar de um desejo de um casal, hétero ou homossexual, não é? Mas hoje é o dia da mulher.
Mas nestas mulheres que eu disse não querem ter filhos, não é raro ouvir alguém dizer ter filhos para mim nunca foi importante, depois numa determinada relação.
eu achei que fazia todo sentido ter um filho com aquela pessoa, e estou a dizer pessoa deliberadamente, portanto, posso ser um homem com uma mulher, não é? Portanto, ainda por cima, há gente que muda de ideias ao longo do seu trajeto e tal. Para além de que, até com umas cerejas, nós hoje ficámos aqui três horas, para além de que...
com o pêndulo em termos de primeira gravidez bem-sucedida. É bom não esquecer que há gravidezes, há pessoas, coitadas, que têm até sistematicamente gravidezes que não vingam, não é? Mas com a primeira gravidez a surgir mais tarde...
Eu farto-me de ouvir no consultório pessoas e casais que dizem assim, nós até gostaríamos de ter mais filhos, mas atendendo à idade, atendendo à fase de vida em que estamos, etc., neste momento já estamos a repensar e alguns casais e algumas mulheres acabam por não ter o número de filhos que tinham fantasiado antes, é verdade.
E quando pensamos nas mães, nas mães do mundo, cuidadoras, também nos perguntamos como é que se cuida num mundo ele próprio a precisar de cuidados, não é? Pois, a nível individual...
É difícil de fazer, mas é fácil de descrever. Quer dizer, grande parte das mães, nos seus nichos ecológicos, cuidam da filharada, depois um dia acabam a cuidar também, se é o caso em termos familiares, acabam a cuidar dos pais, por exemplo.
Depois temos de ter a noção de que o conceito de família mudou muito, alargou-se, e portanto o conceito de maternidade também.
Nós fizemos aqui pelo menos um programa, não há muito tempo, sobre as particulares dificuldades das famílias monoparentais. Há famílias monoparentais, por exemplo, no seguimento de um divórcio, há famílias monoparentais que vêm após uma produção, digamos assim, independente. E, portanto...
Quando nós falamos da maternidade, temos de ter a noção que estamos perante um leque muito grande de situações diversas, com vantagens e desvantagens diversas. Isso é a nível individual. Quando falamos em termos mais gerais, não é por acaso, no outro dia...
No outro dia lia algo sobre isso, que é, em situações de guerra, alguém escrevia, nunca ouvi um homem ferido chamar pelo pai, chamavam-te-os pela mãe. Pela mãe, exato. É, não é? Isso é uma descrição clássica, não é? Havendo até situações, eu lembro de ler isso, em artigos sobre a Segunda Guerra Mundial.
em que alguém era ferido, um homem, pronto, um homem era ferido, e quando nessa situação estava em enorme sofrimento, a mãe que estava a milhares de quilómetros acordava espavorida ou tinha uma sensação estranha, etc. São questões que eu não domino, na realidade acho que ninguém domina, não é? Mas são relatos que não tenho o direito de duvidar. Mas nós, em Portugal, temos um exemplo do que é a nostalgia da proteção maternal.
Que é Nossa Senhora de Fátima Homens e mulheres Recorrem A essa fé desmedida Em Nossa Senhora de Fátima, não é? Exatamente, exatamente Que é claramente uma figura maternal E protetora E protetora E protetora
Depois... Eu trouxe alguns dados das Nações Unidas também, que posso agora atirar para cima da mesa, porque quando pensamos em mães, mulheres, também pensamos em cenários de fome e guerra.
Aliás, infelizmente as imagens chegam-nos, não é? Infelizmente ou felizmente porque nós precisamos de ter conhecimento delas, não é? A fome global afeta de forma desproporcional as mulheres e os seus filhos. Dados recentes da ONU, o número de mulheres e adolescentes grávidas ou em período de amamentação que sofrem de subnutrição aguda aumentou 25% nos últimos anos nas nações mais pobres.
desigualdade de género, embora as mulheres produzam um terço da comida mundial, há cerca de 48 milhões de mulheres, a mais do que os homens, em situação de fome, devido a desigualdades históricas de rendimento e acesso a direitos. Depois, países em conflito, países onde a fome é evidente.
África Subsaariana e Ásia Meridional, Gaza e Sudão, Haiti, Iêmen, enfim, são muitos os países em conflito. Temos consciência disso, não é?
e não há forma de conseguir um equilíbrio no mundo. Nós, os sonhadores, acho que ainda nos alimentamos dessa utopia de termos um dia um mundo justo, mas o equilíbrio do mundo se calhar passa por esse desequilíbrio. Também passa por esse desequilíbrio, não só, como é evidente, mas também passa, e eu diria que é um dos aspectos fundamentais.
Depois, em Portugal, uma pessoa também gosta de dar boas notícias. Nós tivemos um aumento de nascimentos.
Em 2025 nós tivemos um aumento de nascimentos à boleia de 2024 e que fez com que tenha sido o melhor número da última década. E o primeiro trimestre de 2026 confirma isso. Um aspecto importante é que em 2024... ...
25% dos nascimentos eram de mãe estrangeira. Em 2025 já subiu para 28%. E não é muito arriscado imaginar que continuará a subir.
Depois também é curioso, porque há muitas ideias feitas, quando se vai ver os países de onde são oriundas estas mulheres, temos Brasil, Angola, Cabo Verde, Índia e Guiné-Bissau. De vez em quando temos aí grandes alaridos em relação a países que não são estes, diga-se de passagem.
Não são só boas notícias, não é? Veja, há pouco tempo o Expresso trazia um artigo sobre a questão das licenças parentais e o número de pais que utilizam essa licença parental, e agora digo pais no sentido de homens, caiu pelo segundo ano, ou ele é tivai-me ser professor, segundo ano consecutivo. Nem metade passa pelo menos um mês.
Vamos refletir um bocadinho. Apesar de ser dia da mãe, vamos também trazer os pais para a conversa. Ah, é porque isso conta muito para a mãe. Pois conta para o bem-estar da mãe. Pois é. Porquê que isso não acontece? Porque ainda é visto como pouco masculino? Ou porque o homem acha que não pode abdicar do seu trabalho, do seu lugar? Eu diria, e estou a basear no artigo, não é? É o que eu também acho.
O facto de eu estar de acordo não implica nenhuma originalidade da minha parte, não é? É um bocado, como diz o povo, junta-se a fome com a vontade de comer, que é, por parte dos homens, porque esta utilização da licença nunca chegou aos 50% sequer.
Mas eu, por parte dos homens, consciente ou inconscientemente, continuo a haver uma formatação de que isso, esse período sobretudo, é uma coisa que tem a ver com as mulheres, mas depois juntam-se outros aspectos, que é, por exemplo, em termos de contexto laboral.
O que é afirmado, e eu estou de acordo, já o ouvi referir muitas vezes, o que é afirmado é que o ambiente laboral é hostil ao gozo de licenças por homens. É muito curioso, Sam. Há homens que me contaram que no emprego a chefia, e às vezes não só a chefia, encara isto quase como uma artimanha para não ir trabalhar.
Porquê? Porque o esquema mental é, e se há uma coisa que tem a ver com as mulheres, este tipo está-se a aproveitar, o que é verdadeiramente inacreditável, a criança é dos dois. E nunca um quase bullying porque o homem está a tomar o lugar da mulher?
Bullying por parte de quem? Imagino, nesse ambiente hostil laboral, pensar que é uma coisa pouco masculina de se fazer. Ah, sim, mas o bullying é sobre o homem.
É dizer, no fundo, o teu lugar é aqui a trabalhar e a tua mulher que trata da ganapada nos primeiros meses, que é isso disto o palá. Claro, mas uma coisa é pensar que é usado como artimanha para não ir trabalhar. Outra coisa é ser olhado de lado porque se decidiu tirar essa licença e que outros, obviamente, nunca tirarão.
Porque esse é o lugar da mulher E não deve ser ocupado por um homem Isso é o contexto cultural Mas agora cuidado com os verbos Porque é assim Eu aceito o verbo dever Encarado assim Não deve ser ocupado por um homem Se esse homem é um homem como deve ser Porque isso não é uma tarefa masculina Percebe? Sim
Pelado das mulheres, ouça, não precisamos chegar agora às licenças parentais e até aos incentivos, até em termos de pagamento e tudo isso. Ou seja, estes preconceitos resistem até a incentivos que já foram oferecidos às pessoas e que são mais que devidos, na minha opinião, não é? O preconceito é de tal forma enraizado.
Não entra, não é? Não entra. A coisa não entra. A coisa não entra, não é? Depois, porquê é que é importante que falemos das dificuldades? Porque quando eu estava a pensar nisto, lembrei-me, ou antes, julguei lembrar-me, mas por acaso acertei, o que hoje em dia, de vez em quando, não acontece. Há um poema muito bonito de Inês Lourenço.
que se chama Abalar os Amores Difíceis. Isto é instrutivo para todos nós. Ela escreve assim, não me refiro aos trágicos, Romeu e Julieta, Tristão e Isolda, Pedro e Inês, nem alguns ignorados íconos como Iursenar, Igreja, ou Rambô e Verlaine.
Refiro-me, aos que se buscam sem saber nada do fogo que arde sem se ver. Muito bonito, não é? A referência. Órficos cantos, mas côncavos e convexos se combinam cruzando genes transitórios, tempos de vida enquanto povoam cidades, salas de parto.
comércios, indústrias, portais, geriatrias. E dos campos deixados à exportação do vinho e dos litorais ainda com redes e barcos, cresce um ruído, veja o exemplo que ela vai buscar, de formiga banal e curtida de pequenos destinos. E a última frase é magnífica. Esses são os grandes heróis dos amores difíceis que não ficam no poema.
É, estes amores cotidianos, que também são os amores maternais e paternais, são cotidianos, são dificílimos, são heroicos, porque se repetem, porque caem sobre eles. Porque lutam. Porque caem nas costas de pessoas que estão muitas vezes muito fatigadas, etc. Não vêm na grande poesia, na grande literatura, não, não vêm. Mas o grande heroísmo é mesmo esse, das pessoas normais nos seus cotidianos. É verdade.
E esse cotidiano é o mais difícil de travar, digamos, não é? É o conflito mais difícil às vezes de travar, porque as pessoas, neste caso, o casal, independentemente de ser homem ou mulher, chega à casa estenuado e, em muitos casos, há quase um novo dia que começa quando se chega à casa. Pois é.
De preparação de banhos dos filhos, de jantar, de preparação da refeição para o dia seguinte, da roupa para lavar. Esta rotina é terrível, não é? É. Durante 50 anos de clínica eu tive uma determinada classe profissional que muitas vezes sorriu de uma frase minha.
mas sorriu dizendo depois, não é fácil, não é fácil, porque eu nunca resistia a dizer a quem me aparecia e era educador ou educador de infância, eu dizia, creve-me, e depois à noite são os seus.
É verdade, é verdade. Imagina, pensando num professor ou numa professora que durante o dia inteiro ouviu, teve esse ruído de fundo, não é? Foram muitas turmas, muitos alunos, muitas caixas, muito barulho e de repente chega à casa e ainda tem os seus filhos. Sofrendo daquela doença abençoada que é saúde.
Querem brincar, querem conversar, querem isto, amor, e tal e tal. Portanto, isto não é fácil, e agora vamos pôr em cima da mesa aquele que é o cenário que nós gostamos, se há duas pessoas, se há duas figuras parentais em casa, não é fácil mesmo com uma partilha equitativa de obrigações e prazeres também.
Ouça, eu adormeci muitas vezes antes dos meus filhos, porque estava cansado, mas ainda hoje guardam uma recordação deliciosa do que era contar-lhes histórias para eles adormecerem.
Mas contar histórias... É mais fácil do que outras coisas. É mais fácil. É bom para ambos, não é? Para os dois, para os três. Mas não é difícil de prender que a maior carga de trabalhos se abate. Trabalhos domésticos continuam a bater sobre as mulheres, não é?
Que entretanto também elas tiveram um dia difícil de trabalho e que chegam a casa, ou que muitas vezes, é engraçado, muitas vezes as mulheres, não quero dizer que isto também não aconteça com os homens, não quero ser injusta com alguns homens, mas muitas vezes nós estamos...
Nos sítios mais diversos, que pode ser da esteticista à igreja, no restaurante, a pensar. E amanhã tenho que fazer uma máquina de roupa e tenho que pensar no jantar. Tenho que comprar o papel higiênico que acabou, não é? Porque lá em casa depois ouve-se sempre. O papel higiênico está a acabar.
Como se a parede a seguir fosse... Jarbas, não é? Exato, exato. Fosse encomendar o papel higiênico e tudo o resto. Portanto, as mulheres, voltamos ao papel de cuidadoras.
Sim, ouça. Inês, disse bem, quantos homens hoje em dia partilham essas tarefas? Quantos homens... Conheço vários, não é? Também eu. Quantos homens...
não partilharam essas tarefas numa primeira relação, porque não estou a discutir só casamentos heterossexuais, e numa segunda relação partilham, e às vezes também partilham porque entre uma relação e outra aprenderam como é manter uma casa sem ser uma verdadeira possível.
E lá vem a velha história de profissão. Não tenho, sou doméstica. As domésticas trabalham como desalmadas. Pronto. Eu lembro-me de um estudo qualquer, agora já não tenho nenhum dos dados específicos, mas a ideia era que os homens solteiros mudavam os lençóis de mês a mês. Pronto. Os que mudam. Conheço outros.
Conheço outros, não é? Que amigas comuns dizem que o tipo é um chato, pá. Aquela casa não é uma casa vivida. Aquilo parece um museu ao qual se depende muito da personalidade.
Também, também. É um bocado como a questão da cozinha. Eu conheço homens, olha, eu pertenço a esse grupo, não é? Que nunca me apaixonei pela cozinha. Quando tentei, fiquei frustradíssimo que saía tudo ao contrário. Existi. Mas conheço homens que se tornaram magníficos cozinheiros, mas que também por isso se tornaram extremamente exigentes. Devo-lhe dizer que na geração mais nova...
para mim, hoje em dia, não é a geração mais nova, em gerações mais novas, oiço, quando estamos a falar de relações heterossexuais, oiço é em mulheres que convivem.
com essa mestria, com enorme alívio, sabe? E que me dizem, com um sorrisinho, lá em casa é ele que cozinha, ele diz que eu não tenho jeito nenhum e só falta dizerem-me a seguir. E que Deus seja abençoado por eu não ter jeito e ele ser obsessivo.
Às vezes os dois têm jeito, não é? Tudo bem, isso é a partilha normal, não é? Mas às vezes há a inversão dos papéis clássicos. Pronto. E repare... É preciso sublinhar clássicos. Pois, porque quando há, é notícia quase, não é? Aí está. Porque nenhum homem diz Ah, imaginem que lá em casa quem cozinha é a minha mulher. Por não. Por não.
Ou lá em casa, quem dá banho aos meninos? Por acaso conheço inúmeros exemplos de... Cada vez mais. Cada vez mais de homens que de facto adiantam, e adiantam os banhos e o que for preciso, porque entretanto a mulher, se for o caso, a mulher está fora a trabalhar, não é? Sim, sim. E aí devo confessar mais um dos meus pecados. Porque o que eu adorava era tomar banho com os meus filhos. Era uma festa.
Sem ser na piscina, não é? Sem ser na piscina, na banheira. E um dia passei pela divertida humilhação deles me dizerem Oh pai, tu não achas que já não temos muita idade para estarmos os três na banheira? E eu pronto, abanei com as orelhinhas, mas por mim tínhamos continuado. Não sei se até eles serem casados, não faço ideia. Mas naquela altura eu divertia-me enormemente, devo dizer.
que o quarto banho não ficava propriamente em muito bom estado, não é? Mas era divertidíssimo. Pronto. Então, aqueles banhos termais, não é? Com muitos adultos a conviverem. Portanto, não vejo qualquer problema. Talvez a banheira, a dada altura, fique pequena para tanto, não é?
Pois, e como compreendo, o que dizia há pouco, não se vai dizer quem é que faz o jantar, eu também naquela altura não dizia quem é que ia limpar o quarto banho que estava encharcado depois desses bacanais dos três homens da casa, temos que ser honestos.
porque nem ocorre percebe a questão cultural é evidente estou a falar de coisas que passaram há 50 anos atrás felizmente houve muitas mudanças mas naquela altura veja a diferença era evidente para mim secar os meus putos eles saiam do banho e eu secavam e tinha medo das diferenças de temperatura etc, etc, etc, agora e aí
Olhar para o estendal que os três tínhamos feito e pensar, epá, isto agora vai ter que ser seco, limpo, qualquer coisa e tal. Isso nem me ocorria. Está a ver? E é ainda mais grave, porque quando está tão incrustado, que nem sequer nos ocorre, uma pessoa pode dizer assim, epá, eu devia fazer isto, mas não me apetece. Isto...
Por um lado é de um extremo egoísmo, mas tem tomada de consciência. Agora, quando nem sequer nos ocorre que seria normal, seria ético, seria o mínimo da decência.
sermos nós, ainda por cima, a arranjar aquilo, o espelhafato que produzimos, isso é terrível, porque é o preconceito completamente interiorizado. Ó Júlio, falamos aqui, já falámos e continuaremos a falar, desses homens que já não são assim tão exceção, porque...
Enfim, há cada vez mais pais, homens envolvidos nessas tarefas, na tarefa fascinante e também difícil de ver alguém a crescer, não é? Mas também não podíamos deixar de lado neste dia da mãe, olhando para tudo aquilo que cresce no mundo digital.
Não podemos deixar de lado esse ódio em relação às mulheres. Ódio esse tem vindo a crescer. E a ser alimentada. Sendo que... Não é um acaso.
Não é um acaso estar a crescer, é porque têm vindo a ser alimentadas. Nas redes sociais é vergonhoso aquilo que se encontra. Será que homens destes, que estão neste momento sintonizados com esse ódio, também poderão deixar de estar? Ouça, é sim.
Os Platters cantavam uma canção que a minha mãe gostava muito, que era o amor a uma coisa maravilhosa. Love is a Marvel, não era Marvel, ou Wonderful, ou qualquer coisa assim. Qualquer um desses homens pode ficar com os olhos em bico, mais uma vez. Eu peço desculpa, mas...
Isto é algo que eu sistematicamente, acho que eticamente devo fazer, que é se estamos a falar de uma ligação heterossexual. Pronto. Que é para não esquecer a diversidade da vida real. Mas estava eu a dizer, porque aqui é em relação às mulheres, se um destes homens se encanta por uma mulher, se algum destes homens se encanta por uma mulher e muitos deles...
Vejam questões como os incels, etc. Fica até surpreendido porque é correspondido, não é? Porque tinha uma teoria de que essas tipas só gostam dos outros, etc. E isto é muito a gasolina para alguns desses discursos de ódio. Ele pode modificar-se da noite para o dia.
E pode não ser uma modificação que é apenas na época da sedução, não? Pode ser qualquer coisa que depois é mantido. Mas isto são questões individuais. O que é preocupante neste momento é ver como há discursos de ódio, ver os números...
Quais inacreditáveis seguidores e a maneira como isso é interiorizado. E aqui fala-se muito a questão dos incelos e bem, portanto, de homens que acham que as mulheres não desligam e ligam uma minoria de outros homens. Curiosamente.
Quase todos eles não viram esse óbvio para essa minoria de sortalhões, entre aspas, vira contra as mulheres. Pronto. Mas há outros fatores em jogo. É assim. Eu já li artigos sobre isso e já ouvi discursos que na minha opinião o denotam, que é...
nomeadamente entre os mais jovens, embora hoje em dia, e como compreendo e com a minha idade, os mais jovens não estou a falar de gente até aos 18 anos, estou a falar de gente que vai até mais tarde. Há muitos homens que perante indiscutíveis dificuldades nas suas vidas, ninguém os está a negar,
foram muito permeáveis ao discurso que diz, pois, mas isto em grande parte é porque as mulheres passaram a ter privilégios que não tinham, em vez de ficarem em casa a cumprir o que é o seu destino natural, que é uma frase terrível, não é? E, portanto, vieram-nos tirar os lugares, tornaram-se elas próprias agressivas, etc, etc. Ah, em muitos...
homens uma sensação mais consciente ou menos consciente de que as mulheres se tornaram mais ameaçadoras. Ou seja... Isso expuleta a agressividade. Claro. Poderemos falar em perda de poder. Uma aparente perda de poder, não é? Exato, exato. Basta que seja imaginária, mas não interessa. Porque mais a mais é uma explicação simples, não é?
Quem é que está por trás de X dificuldades da vida hoje em dia? As feministas, por exemplo. E o seu discurso. Sabe onde é que isso se vê com frequência? Sabe? Claro que sabe. Até no humor. A quantidade de vezes que eu já ouvi...
E eu não estou a duvidar das pessoas. As pessoas dizem-no como graça, mas o que eu não acho é que seja um acaso, que seja uma graça com tanto sucesso e com tanto sucesso entre os homens.
que é, qualquer dia somos uma espécie protegida, qualquer dia temos que ter um movimento como o feminismo para defendermos os nossos direitos e variações em ré menor de graçolas destas. Estas graçolas não são meras graçolas, em muitos casos traduzem um receio interior que é, em vez de se pensar como a humanidade
o facto de finalmente caminharmos com uma lentidão exasperante, mas enfim, caminharmos para...
A igualdade de géneros, como nós dizemos aqui muitas vezes, há uma metade da humanidade, que por acaso até é maior que a outra, que foi sempre tratada num contexto de submissão, em vez de vermos como isso enriquece, aliás, como qualquer diversidade, isto é sentido como uma ameaça ao status quo.
Se o status quo é encarado como gratificante porque o poder é masculino, é claro que isto é ameaçador, mas então temos que assumir que é isso que nós consideramos o bem da humanidade, que é que o poder seja essencialmente masculino.
Mesmo antes desta ideia mais elaborada, digamos, da perda de poder, acho que talvez o primeiro sentimento que depois venha a desaguar em raiva, em ódio, seja a insegurança. Mas essa é outra vertente. Mulheres mais libertas são mais ameaçadoras nas mais diversas áreas. Olhe, por exemplo, na parte da sexualidade.
Ó Inês, a minha geração ainda cresceu com aquele discurso implícito, ou explícito que era assim. As raparigas decentes iam todas virgens para o casamento. E depois, os maridos ensinavam-nos o que elas deviam aprender acerca do sexo. Em primeiro lugar. E isso estava longe de responder à realidade. Mas em segundo lugar.
Os homens é que iam ensinar às mulheres a sua sexualidade? Porquê? Quando, em termos de capacidade de erotização do corpo, as mulheres são.
em termos gerais, mais ricas do que os homens, que foram sempre acusados de ter uma visão muito mais restrita, digamos assim, da parte sexual. Mas mais uma vez era uma ideia de domínio, não é? Claro, mas claro, mas claro. E depois, veja a questão da virgindade.
O conceito clássico de virgindade é um conceito estritamente anatómico, já reparou? Ou seja, lamento muito se vou chocar alguém, mas uma rapariga podia praticamente escrever um Kama Sutra pessoal desde que o ímã não se rompesse, ela era virgem.
Isto faz sentido? Claro que não. Para quem quer ter um discurso sobre moralidade, não faz sentido nenhum. E, no entanto, isso acontecia. Ora bem, quem diz a nível da sexualidade, eu lembro-me de alguém, aquilo que se esperava, por exemplo, de uma senhora.
Sobre certos aspectos é fascinante. Lembro-me de alguém de quem eu gostava muito, que me dizia com grande orgulho, sim, porque se um dia a minha mulher descobrisse que havia outra pessoa na minha vida...
A minha mulher jamais partilharia isso com outra pessoa, a minha mulher jamais me deixaria, a minha mulher podia-me fazer a vida num inferno, mas nada sairia de quatro paredes, porque a minha mulher é uma senhora. Bom, acontece que as mulheres passaram a ter possibilidade de sair de relações, o que às vezes até teve a ver com dinheiro, não se esqueça disso.
Eu ainda ouvi muitas mulheres que diziam assim, mas eu sustento-me como? Olha, e às vezes isso tinha a ver com maternidade, porque nascia alguém e naquela relação heterossexual o homem dizia, não, não, agora o teu lugar é em casa a cuidar das crianças. E depois esta mulher que a autonomia é que tinha.
Quantas mulheres não pensaram primeiro, no meio e no fim, sempre nos filhos? Exatamente. E vamos ver se nos entendemos. Aquilo que eu nunca gostei foi que não houvesse opção. Quando uma mulher pode optar, por exemplo, a trabalhar em part-time,
ou deixar de trabalhar fora de casa, mas em casa continuar a trabalhar, ela é livre para isso. Não é por acaso. Quando nós falamos de maternidade, temos que falar em termos também de políticas. E não é preciso inventar a pólvora, nem a roda. O que é que dizem os autores? Licenças parentais dignas, bem pagas, partilhadas. Pois isto é muito importante, horários de trabalho compatíveis.
sistematicamente também há efeitos de género nos horários de trabalho. As mulheres são mais prejudicadas pelo facto de serem as principais responsáveis em relação à amigdagem. Como isto, felizmente, foi mudando, não imagina a quantidade, em casais heterossexuais, não imagina a quantidade de pais que eu ouço dizer assim, ó, sou doutor, eu, além da minha profissão, sou chofeira.
E é verdade, porque não são só as escolas hoje em dia, a Inês sabe isso tão bem como eu. Há 300 mil atividades extracurriculares. Nota de rodapé, de vez em quando, na minha opinião, é exagero. As crianças e os pais andam em autênticas corridas desenfriadas. Entre as aulas, entre as atividades todas, e às vezes eu pergunto-me quando é que esta gente...
estende a perna num real vado, num jardim, pura e simplesmente.
Como sabemos muitas vezes, muitas vezes, algumas vezes, é uma questão de estatuto e não tanto o interesse de que as crianças desenvolvam outras aptidões. É verdade. E há hoje em dia, de facto, um exagero em torno dessas atividades em que ninguém sai a ganhar, não é? Para além dos sítios, só os sítios. Depois, outra questão, as creches.
E em relação às mães, um acesso decente à saúde física e psíquica antes e depois do parto. Nós não podemos, por exemplo, escamotear que em casais o nascimento de uma criança é um verdadeiro tremor de terra.
com coisas maravilhosas, mas com rotura de rotinas, com cansaços melhor ou pior distribuídos, e portanto em que a probabilidade de um dos membros do casal se sentir espoliado, digamos assim, em termos de atenção, de cuidados, etc., é grande. E portanto, de vez em quando há pessoas que dizem assim...
Eu fiquei espantado porque fulano e cicrano separaram-se e tinham tido um filho há um ano. Então, às vezes aquele nascimento daquele filho desejado, cuidado...
Porque um equilíbrio do casal, pronto, podemos dizer assim, se calhar o equilíbrio já tinha algumas fendas, talvez, mas aquele equilíbrio não aguentou o embate daquilo que Freud chamou a chegada de sua majestade do bebê. Porque é evidente que o bebê torna-se o centro, digamos assim, da vida relacional naquela casa. Pela sua dependência, que mais não foi. Imaginem muitos bebês, não é?
Por exemplo, ah, filho, é isso. É claro que eu partei-me de ouvir casais dizerem-me com um sorriso nos lábios, oh, sr. doutor, entre 3 e 4 também. Não faz grande moça. E eu presumo que depois também já não faça grande moça, não sei, mas pronto, não faço ideia. Às vezes é preciso ouvir as mães lá, está, não é? Bom. É, e às vezes é curioso ouvir os filhos, sabe? Não é nada raro, e tem lógica, que os mais novos...
tenham tido crescimentos mais descontraídos do que os mais velhos. E há várias razões. Em primeiro lugar, há bocado eu falei de virgindade, nós até termos o primeiro filho somos virgens de parentalidade. E ficamos angustiados muitas vezes. E não é nada de espantar que o primeiro seja quase vigiado de uma forma obsessiva.
o menino não chora, ai que ele não chora, o menino chora, ai porque é que ele está a chorar, etc. E depois ficarmos mais descontraídos em relação a quem vem a seguir. Não é nada que não se ouça, por exemplo, nos psiquiatras e nos psicólogos, alguém dizer o meu irmão mais velho ou a minha irmã mais velha
verdadeiramente abrir um caminho nas questões mais prosaicas da juventude, Inês. Que é dizer, ah, eu por exemplo fui à minha primeira discoteca mais cedo que o meu irmão. Claro, claro. Júlio, estamos mesmo no final. Que este dia da mãe não sirva só para irmos almoçar fora.
que sirva também para refletir um bocadinho sobre os direitos da mulher, das mães, e que, de preferência, que os dias da semana, esses dias de exaustão.
possam trazer também um bocadinho do dia da mãe. Não digo almoçar fora todos os dias, mas um alívio da carga destas mães. Não é fácil. Não é fácil ser mãe. Nos dias de hoje, com tanto trabalho, com tantas chamadas, com tanta atenção no mundo, enfim, como nós dizíamos no início, como é que se cuida num mundo a inspirar cuidados, é um bocadinho isso.
Ouça, se permite isso a um velho agnóstico, nós falamos do arquétipo maternal que é Fátima para os crentes portugueses e não portugueses, a imagem de Maria também nos leva longe.
Se repararmos nos Evangelhos, Maria tem muito pouco tempo de antena, já que estamos narrado. E se pensarmos no fim de Jesus, imaginemos o sofrimento de uma mãe com um filho que termina nessas condições.
E vamos ouvir então Milhanas a cantar Mãe. E nós voltamos para a semana. Estivemos, como sempre, com a Joana Jorge e o Filipe Pinto. Cá estaremos no próximo domingo, Júlio. Um beijinho e bom dia da mãe para todas as mães. Muito obrigado. Um bom dia para todos e nós até para a semana.