Ntcast 147 – Henrique Avlis do ensino a atuação de teatro
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Apresentamos a você o projeto ntcast o podcast com o grande Henrique Avlis onde conversamos sobre sua atuação como professor
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Fausto Neto
Henrique Avlis
- Teatro e EnsinoPapel do professor na sociedade·Teatro como forma de expressão·Didática no ensino de teatro·Importância da leitura para atores·Dramaturgia
- Personagem Samuel em Contos PerdidosDesafio na interpretação·Preparação de elenco com Luciana Souza·Características nordestinas·Diferenças entre Henrique e Samuel
- Teatro· CulturaInício no teatro·Influência de Roberto Carlos e Erasmo Carlos·Atuação em peças religiosas·Formação em teatro
- Producao Audiovisual· CulturaDiferenças na atuação·Processo de construção de personagem·Naturalidade na câmera·Conexão da equipe audiovisual
- O papel do teatro na sociedadeCarolina Maria de Jesus·Teatro performático com pessoas atípicas·Teatro com idosos·Cheiros do mundo·Augusto Lima
- Editais de Fomento e Leis de IncentivoImportância dos editais para artistas·Desafios burocráticos na inscrição·Fomento cultural municipal e estadual
Você está ouvindo Tatu Tatu Tech, o nerd tatuado. Fala, galera! Sejam bem-vindos a mais um Entercast aqui. Hoje eu tô recebendo um grande amigo, convidado, um cara que a vida me permitiu conhecer e colocar em projetos conjuntos e tá sempre junto aqui. Henrique Áviles, seja bem-vindo! Muito obrigado, meu querido.
Obrigado, obrigado, Neto, Fausto Neto. Obrigado, Nerd Tatuado. É uma honra estar com você, né, desse podcast maravilhoso, tão importante para cultura nerd, para cultura cultural, para cultura no geral, que a gente precisa muito, cada vez mais, pessoas assim que estimulem e incentivem cada vez mais a cultura e elas chegarem a outras pessoas, mesmo à distância.
Sim, sim, a gente vem fazendo esse podcast desde a pandemia, muito tempo atrás. Eu, o primeiro podcast que eu fiz 2014. Então faço podcast há muito tempo, muito, muito tempo. E graças a você eu consegui fazer a minha primeira curso de podcast, que foi lá no instituto. Foi maravilhoso, a galera curtiu muito, foi bacana. Eu espero poder produzir mais. Isso eu achei perfeito demais. Henrique, como é que o bichinho do teatro lhe mordeu?
É que o povo diz, é, quando foi que começou o teatro na sua vida? A atuação. E quando foi que você disse, não, eu gosto de atuar, mas também Deus me deu o dom de ensinar? Porque atuar é uma coisa, ter o dom de ensinar, passar para outra pessoa, é mais ainda, mais super poderoso.
Sim, verdade. Então, no ano 2003, eu entrei no teatro para fazer um curso básico que era no Asa da Liberdade. Que estava à frente o Marcos Cordeiro da época. E aí eu comecei a atividade, a gente fazia umas aulas e tudo mais. Mas antes disso, a minha madrinha, ela me deu um livro que tinha um simples história de Maria Clara Machado, que foi o meu primeiro contato com o teatro diretamente. Eu comecei a ler as histórias de Maria Clara Machado e comecei a apaixonar por duas coisas: primeiro, teatro, e segundo, a leitura.
A partir disso eu vim fazendo, aí fui pro curso do Barros, na época do Áudio da Liberdade, passei um período e desse período eu fui começando a fazer personagens voltados na questão religiosa, que há muito tempo atrás eu fui evangélico, né, e participei de uma denominação e fazia algumas apresentações como a gente faz como forma de evangelização dentro das denominações. E aí no período que eu tava com o Marcos Cordeiro A gente foi fazendo o nascimento de Jesus Cristo lá na Cidade de Maria e consequência a Paixão de Cristo.
E eu fui me aprofundando, aprofundando, aprofundando. Aí em 2013 eu entrei para fazer essas partes, depois fui sendo encaminhado para fazer mais as outras coisas voltado para o teatro.
Bacana. Hoje você tá à frente de— você já ministrou alguns cursos, você tá dando cursos de teatro em algumas instituições, né? E aí, como é essa paixão de ser professor também? Porque professor não é fácil, atuar também não é fácil. A pessoa dizer que é fácil atuar, ele tá mentindo.
É, não é, não é de jeito nenhum. É, a função do professor é muito importante para a sociedade, que ele consegue trazer de uma forma muito objetiva, sabe? E ao mesmo tempo muito natural. O que pode acontecer e provocar na sociedade uma reflexão. O teatro, ele nasce na proposta, principalmente de lecionar, com uma forma de: eu preciso me expressar, como é que eu vou me expressar e qual o meio que eu faço para que eu consiga me expressar?
E foi aí que eu comecei a fazer as minhas formações voltadas para o teatro. Num decorrer do tempo, eu disse: não, acho que dá para trazer isso para sala de aula. E aí comecei a trabalhar no colégio, nos colégios particulares aqui de Arapiraca e também colégios públicos, né? O Crespiniano Feira de Brito, que eu trabalhei numa época, que eu já comecei muito tempo, né? Quando eu comecei para o teatro, eu já fui fazendo uma formação ou outra e tudo mais.
E aí, na forma de lecionar, de transmitir o saber e o conhecimento, exige mais um pouco porque você precisa ler. E você precisa ter técnica. De onde vem, como é usado, quem inventou, quem pesquisou, quem já veio antes de você. Então isso exige uma questão de leitura muito, muito didática voltada para os livros, mas também requer uma questão de prática. Então eu preciso juntar o teórico, né, e juntar a parte prática que eu já venho alcançando no decorrer do tempo.
Hoje fica muito mais fácil chegar, vamos fazer exercício tal, e não ser repetitivo, porque os exercícios mudam de acordo com as necessidades, mas sempre são os mesmos, porque é o teatro. Teatro, ele modifica-se com o tempo, mas o teatro sempre permanecerá sempre teatro.
Aí você me pegou, botou uma coisa na minha cabeça que eu fiquei aqui matutando. Lê Você falou que antes, quando começou o teatro, você gostava de ler. Uma pessoa, para se apaixonar ao teatro, primeiro tem que gostar de ler, ou eu tô viajando demais?
É importante gostar, tem que gostar obrigatoriamente. Por exemplo, eu tenho, eu tenho várias fileiras de, na minha estante, dessas fileiras, duas delas são só de livros de teatro. Henrique, você já leu todos? Não, mas 80% eu tive que já ler, porque necessariamente eu preciso ter uma técnica. A questão da, ah, eu como é que eu vou fazer um texto dramático sem eu saber o que significa ser dramático? Então precisa entender o que é dramaturgia, de onde ela vem, como surgiu, por exemplo, o teatro brasileiro, porque nós também temos raízes aqui brasileiras, sem ser como muita gente só fala externamente, né?
Mas a gente tem muita raiz voltado para isso. O que a gente não tem muito é teórico. Então a maioria dos teóricos, por exemplo, são muito de fora: Alemanha, França, Inglaterra, na Grécia e tudo mais. O teatro, ele não nasce, por exemplo, na Grécia. O teatro nasce dos homens primitivos com a ideia de se comunicar um com o outro. Só que quando chegou no teatro, né, quando chegou na Grécia, foi se modificando a partir de fazer os deuses nas suas grandes festas.
Então eles tinham a proposta de trazer isso para os deuses e eles eram elogiados. E as mulheres eram proibidas de fazer alguma representação. As mulheres eram proibidas de fazer qualquer personagem e os homens faziam as representações femininas com as máscaras e figurinhas.
Isso aí abriu assim uma coisa na minha cabeça que eu pensava tudo: o teatro nasceu na Grécia. Eu acho que decorei esse texto da escola: teatro nasceu na Grécia. E você fez assim na minha cabeça: Fudeu, né, cara? Fantástico, fantástico. Porque aí vem outra coisa que tá me matutando. Você falou, tipo, ler, estudar e entender o que você vai ensinar, interpretar. Você tá lendo um texto, a interpretação também vem disso, né, de interpretar o texto, o que o cara tá passando no teu texto para você ensinar. É um putador isso.
Exige um pouquinho, exige um pouquinho. E às vezes acaba indo no decorrer da situação você confundindo, porque, por exemplo, às vezes você fica um pouco agoniado quando você tá fazendo uma cena que você leva para o aluno, o aluno ainda não entendeu, e aí você precisa mastigá-lo. Só que Em alguns cursos que a gente vê, eles não mastigam. Então você tem que se doar, você tem que fazer, você tem que tentar pelo menos fazer algo diferente.
Eles não fazem de uma forma mastigada, sabe? De uma forma didática. E eu gosto de ser muito didático. Então acho que cada um tem um diferencial, alguma coisa. Eu sou voltado muito para a questão didática. Não entendeu?
Vou.
Não entendeu? Repete. Não entendeu? Repete. Não entendeu? Repete. E por exemplo, o Konstantin Stanislavski, né, que é um dos grandes teóricos do teatro mundial, né, que ele não é brasileiro, ele fala sobre isso, a questão da gente repetir, como é que a gente repete, como é que a gente traz isso para o personagem. Então vai muito da leitura, porque precisa muito. E aí, por que eu preciso ler? Porque eu preciso entender o contexto.
Eu vou fazer um personagem de cultura nerd, o que é o mundo nerd, como é que funciona esse mundo nerd, qual é os principais personagens desse mundo, que eu consigo trazer pra cena e as pessoas se identifiquem. Como é que eu vou me identificar com aquela história, com aquela peça, com aquele teatro, com aquela encenação, com aquela representação? Porque o ator, ele representa, né? A gente não apenas atua. Atuar, realmente, a gente faz, mas a gente representa, diferente do circo.
O circo, ele não representa. O circo, ele é. O palhaço, ele é aquilo. Diferente do teatro. No teatro, a gente representa aquilo.
O personagem do palhaço, ele cria assim um personagem, né? Aquele palhaço tem as caricaturas, os trejeitos dele. Outro palhaço já tem outro jeito de fazer o seu jeito, né? É uma pergunta assim, você— a gente não vai entrar agora nesse assunto, mas vai ter essa pergunta ainda. Você é um cara do teatro, você atuou na primeira série como um grande personagem, Samuel, que a gente vai falar logo logo. Aguenta aí, Samuel, na série Contos Perdidos de Alagoas, que eu fiz parte do roteiro, da equipe de roteiro, junto com o Vitor, com Lorena, com Pedro.
Fiz a direção de fotografia junto com o Rudney e o nosso querido Daniel Talento, que a galera foi maravilhosa, sério. É você, a paixão não vai apagar sua paixão nunca, nunca vai dizer que se apaixonou pela atuação de cinema, mas mexeu um pouquinho atuação de cinema com a do teatro. Qual é que você mais prefere? Sei que você prefere já ainda do teatro, mas qual que você, pô, gostei também disso.
Chegou a sentir isso? Senti, com certeza, porque o audiovisual ele é muito do agora, do já. Você já vai meio que pré-pronto, mas também não é um pré-pronto dizendo que já sabe de tudo. Você precisa estar confiante, confiando naquilo que você está fazendo. E o audiovisual ele tem essa magia de aproximar, de ser muito mais Agora vamos, faça. O teatro, ele, por exemplo, a gente precisa viver muito tempo. A gente passa pelo processo de construção do personagem muito mais longo.
A gente passa pelo processo de decorar texto, saber do figurino, ter a questão do cenário, dos objetos de cena. Então isso a gente faz em uma hora. A gente passa meses para montar, para apresentar em uma hora. O cinema, já a equipe é maior. As pessoas são totalmente diferentes, você fica contrastando com mais pessoas, os gestos você contém. E aí é muito mágico também, mas ele é mais contido. Então eu confesso que na série me pegou porque no início eu fiquei um pouco mais receoso e até eu não conversava muito.
As pessoas diziam, Henrique, tenta relaxar. Eu digo, mas que a minha cabeça funciona assim, eu tô relaxado quando eu tô entendendo o que é que eu tô fazendo. Enquanto eu não entender o que eu tô fazendo, eu não consigo relaxar, por incrível que pareça. E aí eu ficava um pouco nervoso nesse sentido, né? Tanto é que eu tava com uma dificuldade do personagem, perguntava sempre como é que fazia, tive dificuldade na construção em alguns momentos.
E depois, no passar do tempo, eu fui compreendendo mais, trazendo com que realmente, digamos, aquilo dá para fazer. E aí quando a gente vem agora, a gente vem assim de uma forma de, poxa, eu deveria ter feito muita coisa assim, tal. Aí eu deveria ter isso, porque a gente tem muito desse cobrar, né, o ator. Mas quando eu olho, não, era para aquilo acontecer naquele exato momento, era algo que era para acontecer daquele jeito. E a partir disso agora eu vou criar outras situações para que eu venha, tenha outras oportunidades.
Que o audiovisual, ele é um espaço muito mais fechado do que o teatro. O teatro parece ser um pouco mais aberto, mas assim, é mais abrangente. O cinema, ele torna-se ainda mais, eu não digo restrito, mas eu digo mais difícil acesso, que a gente tem mais difícil acessar. Eu acho mais essa questão.
Não seria esse questionamento, você me colocou agora, tipo, não seria porque o teatro, as peças já foram realizadas interpretado, você já entende, tipo, eu vou jogar lá em cima. O Shakespeare já foi interpretado e todo mundo já sabe, não é que saiba a história, todo mundo sabe a história, mas sabe como atuar, como é que vai seguir aquela peça. No audiovisual a gente tem, tipo, aquele roteiro, tem o diamante do personagem e a linguagem que o diretor quer levar.
E aí você, como ator, tem a sua liberdade criativa criativa de construir aquele personagem. Essa liberdade criativa do audiovisual é bem mais rápida, porque você não tem um prazo curto, um tempo curto para produzir, como você falou. E no teatro você tem um prazo maior, né, de construção. Isso também pesa para construção do personagem no audiovisual?
Pesa, pesa sim, com certeza, muito, muito mesmo. Geralmente, como eu disse, eu leio muito Só que eu tenho lido mais coisas voltado para o teatro, então eu não me dediquei tanto para o audiovisual como eu deveria, digamos assim, para que eu tivesse mais técnica. E aí também tem a questão, além da técnica, uma naturalidade, que é o que a câmera pede: seja natural, seja você. Como é que fazer uma cena que é muito mais fácil, que você fica mais à vontade?
No teatro eu vou me preparar um período longo, eu vou saber que a minha voz vai estar naquele exato momento, a minha respiração vai ter naquele exato momento, a minha atuação vai ter naquele exato momento, para que de fato eu tenha um produto final que é o espetáculo. E aí é diferente, porque mesmo sendo espetáculos que já foram montados, o frio na barriga é o mesmo que a gente faz de audiovisual, as pessoas estão olhando o tempo todo também.
E só que é uma coisa que eu acho mágico no cinema, é a conexão da equipe. Isso faz com que, não sei se facilitou muito o meu trabalho, mas a conexão muito na equipe. Quando você se conecta com a equipe, com a linguagem do roteirista, com a linguagem do diretor, com a linguagem do câmera, e aí você entende que esse aqui é o caminho, sabe? Mas nem sempre pode acontecer isso. Pode acontecer que no meio do caminho eu me desviei para outro caminho.
Eita, pera aí, Henrique, eu acho que você tá distante, vamos voltar, sabe? Pode acontecer também.
E eu quero que você conte para a galera, eu tava dentro, você tava dentro, como foi que chegou para você esse convite de ser o Samuel no Contos Perdidos? Para mim foi, eu digo para Vitor que foi amor, primeira leitura, né? Como foi para você?
Rapaz, foi no início, eu fiquei muito nervoso, muito receoso. Sou um virginiano. Virginiano, ele é muito assim, ele é calculista em todas as situações e fica receoso em tudo. Então, por mais que ele tenha uma confiança grande no que ele tá fazendo, ele tem um receio de algumas questões. E aí eu fiquei perguntando, meu Deus, fazer um personagem desse e tudo mais, tal, tal, tal. Só que na época, quando eu fiz assim, ó, vai ter, vai ter esse teste para o personagem, só vai ter que a gente vai fazer a primeira leitura.
Foi lá no prédio com o Anderson, né, o João Anderson, o Lucas, você, aí tava o Vitor, tava uma galera muito massa. E tem outros atores também participando. Quando eu vi que ia fazer o personagem, aí eu fiquei, pronto, primeira coisa foi, meu Deus, eu vou dar conta? Primeira pergunta foi essa. A segunda era: é um peso muito grande, como é que eu vou fazer isso? E aí fiquei me questionando, mas ao mesmo tempo fiquei com muita vontade de fazer, com muita vontade de querer mostrar o trabalho, com muita vontade de dizer assim: poxa, dá para fazer, eu acho que eu preciso fazer algo diferente.
E como você falou na pergunta anterior, é como o diretor pede, a linguagem que o diretor está pedindo naquele momento. Então o personagem Samuel, ele veio da proposta dos diretores daquele momento, como eles queriam dessa forma. Diferente como o Henrique. Ah, Henrique, e aí eu digo novamente a mesma coisa: não vá pronto, você vá confiante. É diferente. A gente precisa ir confiante, a gente não vai pronto, porque a gente precisa estar pronto em alguns aspectos, algumas coisas, para que o diretor ele consiga trabalhar com você outras situações e você viver a cena, né?
Eu lembro que nas gravações a minha dificuldade maior, por exemplo, foi cair na mesa. Eu não tava conseguindo conectar, tanto é que a gente gravou umas 12, 13 vezes lá na igreja, na capelinha. Depois mudamos a cena porque foi para outro local, mas eu tinha dificuldade muito grande de só tombar numa mesa, porque a forma que ele queria era muito mais natural, muito mais natural. E quando a gente mudou de local, a gente conseguiu ser muito mais natural na outra do que naquele que nós estávamos.
Tanto é que na primeira fez, na primeira gravou, na segunda gravou, na terceira gravou, ele pronto, ele pronto. Fizeram 4 vezes tranquilamente, que ficou muito mais natural.
E assim, agora vem uma pergunta cabulosa: é uma câmera só? A gente tá lá, uma câmera ligada, umas 10 pessoas por trás filmando a equipe. Naquela cena. No teatro é 100, 200, 300 mil pessoas. Qual o cinemazinho que para você, ator, é mais natural? Qual é que pesa mais, o audiovisual ou teatro, que o coração mais fica acelerado?
O audiovisual, com certeza, porque a câmera tá próxima, ela vai ver suas expressões bem mais nítida, sabe? A câmera, ela aproxima você do público. Ele vai enxergar você a partir da lente da câmera. Então, no teatro, eu sou muito mais grandioso. No cinema, eu sou muito mais assim. Então, eu preciso trabalhar aqui para você concentrar aqui e a câmera pegar. E aí, certo, que eu não vou olhar, e nem posso olhar para câmera, tem que olhar para o outro lado, o personagem que tá ao meu lado também, para um colega de cena.
Mas ao mesmo tempo transmitir uma naturalidade daquela cena. E aí, diferente do teatro, mesmo tendo a quantidade de pessoas, é mais amplo e as pessoas estão lá, a câmera não estão lá, é apenas uma pessoa representando todas. Então torna-se muito mais difícil. Parece ser fácil porque só tem uma, mas é muito mais difícil, porque a gente, por exemplo, a gente não pode errar em texto. A gente erra, pode voltar e tudo mais, mas a ideia é que a gente não erre, não é?
Não tem isso, porque tem a locação, tem a equipe, tem os atores, tem os colegas, tem os maquiadores. Então é uma equipe grande atrás disso. E aí vem essas cobranças que são necessárias para que a gente faça. E aí veio mais uma vez uma questão, por isso que eu não conseguia relaxar, que eu entendia a proposta daquilo tudo, eu tava conseguindo viver tranquilamente, a emoção tava maravilhosa, mas eu tenho que entender que eu tenho que entregar algo, né?
E assim, quero muito que quando o pessoal for assistir, tem o mesmo olhar que a gente teve quando a gente gravou, né?
Uma coisa que eu queria saber, assim, hoje, o Henrique de hoje olhando o passado, olhando aquele pequeno Henrique já se imaginava dentro de você, tipo, eu quero isso pro teatro, que a gente tem isso. Eu comecei, eu tinha vontade de fazer direito. Meu primo olhou pra minha cara e fez, bicho, tu não gosta de ler, então não faz direito. Aí eu disse, é mesmo, né? Eu vou pra informática. Fui pra informática. E o Henrique criança, o que é que ele sentia?
O que é que ele tinha no seu coração? E hoje ele tá realizando isso, tá na frente de vários cursos de teatro aqui em Arapiraca, ter reconhecimento na cidade que ele mora, a galera saber do seu trabalho, confiar no seu trabalho, tá à frente de um instituto dando aula, dando curso, trazendo vários jovens para o teatro.
Aí, é que é muito assim, eu não tive uma infância tão bacana, Devido a várias situações que a gente foi decorrendo. Nós somos uma família muito, muito pobre. Nós, alguns períodos, a gente teve que morar na rua. E aí a gente não tinha muito tempo de sonhar. A única, eu me lembro que quando criança, o sonho maior que a gente tem quando é criança, quando a gente passa assim, é ter uma casa. É o maior sonho. E o segundo vem comida.
Porque mesmo no meu caso, eu pensava primeiro as casas, porque a comida, pouco ou muito, chegava, a gente recebia, fazia isso e tal, mas a casa não. E aí a arte, ela vem como essa forma de transformar a vida da gente, fazer com que a gente, poxa, onde é que eu posso chegar? Como é que eu posso chegar? E por onde eu vou também, sabe? E aí a gente vai agarrando as oportunidades. Se eu visse a criança de lá atrás, primeira coisa que eu ia dizer assim: meu filho, não sofra tanto.
Primeira coisa, sabe? Eu ia dizer assim: não sofra tanto, denuncia as injustiças da vida, denuncie. Isso eu ia dizer mesmo. E a segunda é que assim: você está no caminho certo do teatro, você está no caminho certo que vai levar para isso. Não desista, você vai ser reconhecido pelo seu trabalho. Agora tem paciência, tem a paciência, paciência e paciência, porque é um trabalho muito de formiguinha, né? A gente começa aqui, começa ali e tudo mais.
Às vezes dá vontade assim, poxa, eu vou desistir, vou para outra área. Ah não, não sei o quê, vou para outra situação. A minha primeira, uma das, eu primeiro me formei em magistério, aí depois eu fui pedagogia e agora tô fazendo licenciatura em teatro para que tivesse mais assim um abrangente E de fato eu gosto de lecionar e uma linguagem que eu gosto muito é a linguagem inclusiva, a linguagem que outras pessoas que não têm acesso possam participar.
A inclusão no sentido geral, pessoas negras, pessoas LGBTQIA+, pessoas com deficiência, enfim. E aí eu olharia realmente, o meu olhar muito para criança é: Henrique não desista, Henrique persiste, mas saiba que você vai enfrentar algumas coisas, então esteja pronto. Mesmo sendo desafiador.
Você é um cara persistente. Persistir é uma palavra que é difícil a pessoa dizer. No primeiro turbilhão a pessoa diz, não, não vou por aqui. Mas essa persistência é forte em você. Eu digo, conheço um pouco você, que é boa. Que você é um cara que batalha, que rala muito, que é brasileiro, né?
Brasileiro, nada é fácil, né, Neto?
Tudo, velho, a gente tem que ralar. Henrique, teve, a gente tava falando um edital, a gente tá falando uma premiação, e você também escreve para projetos de editais, você já conseguiu ser contemplado?
Como foi?
Já, o que que você acha da importância dos editais para a arte?
Olha, os editais da PNAB e do Paulo Gustavo também teve, eles foram muito importantes e são importantes para o fomento cultural dos nossos artistas, tanto municipais quanto estaduais. Eu sinto falta muito ainda de recursos próprios da própria secretaria. Isso eu sinto, o fomentinho para o artista. A gente já, enquanto eu faço parte do Conselho de Cultura, já levamos essa questão há muito tempo. Mas ainda é algo a se trabalhar e se cobrar bastante, certo?
E eles, os editais, eles ficam muito importantes, eles são importantes para esse fomento cultural, esse movimento que a gente faz na cidade, no estado. Porque enquanto tá muito parado, né, a gente vem com os editais, mesmo alguns não sendo contemplados, porque a gente sabe que é uma seletiva, infelizmente não são todos, a gente queria que fosse todos, né? Mas assim, participar de editais requer muita paciência também, ler muito e saber o que que você vai conseguir.
O Regis, ele tava com dúvida para fazer o projeto dele, e aí ele disse, Henrique, olha, eu vou fazer assim, tudo mais. Aí ele mandou para mim, eu digo, ó, tô um pouco corrido, não posso fazer o projeto, mas você já tem pronto? Ele tem um pronto, aí mandou, e a gente foi. Eu digo, olha, troca isso por aquilo, corrija isso por isso, faça esse seu quê, Não, acho que a ideia do seu projeto ainda não tá no foco. Qual é o foco do projeto?
Então foi organizando, organizando, organizando, e graças a Deus ele conseguiu passar, que vai ser sobre cultura nerd também, né, que é alguma coisa assim, apresentação, né? E aí, mas assim, é um processo muito longo e muito lento também ao mesmo tempo. Tanto é que a gente passa por várias situações. Primeiro você tem que se inscrever, depois tem que provar que você tá sendo artista. Ah, mas aí eu tô aprovando fulano. Aí tem a questão de cota que muita gente acha ruim, não sabe dos lugares que as outras pessoas já me pertencem, sabe?
Mas os editais em geral, eles são de extrema importância para o fomento cultural, seja municipal, seja estadual, para que o artista mostre cada vez mais a sua potência e a sua função tão importante que é a arte, que é a cultura. Mas ainda há desafios. Porque infelizmente ainda não chegam a todos. Inclusive tem pessoas que não conseguem fazer inscrição devido à burocracia. Então faz parte, é um desafio de fazer uma inscrição de uma pessoa que é mais questão oratória do que propriamente escrita, que vem outra dificuldade, outras questões.
Sim, sim, é, a Rapidaca trouxe um pequeno cantinho ali, um canto para pegar as pessoas que não conseguem escrever. Ajudar, auxiliar. Ajudou muita gente, muita gente escreveu. Isso foi muito bacana, foi importante. Mas, Henrique, hoje o Henrique tá atuando em quais instituições? Quais trabalhos você tá à frente? Conta um pouco para a galera que tá nos assistindo e nos escutando.
Vamos lá, atualmente eu tô igual o Padre Cris, com 3 empregos. Eita, mas é porque assim, atualmente eu tô trabalhando no Instituto Pra Vida dando aula de teatro à noite, de 9 anos até 70, 80 anos, e também para pessoas idosas dia de segunda-feira no projeto Serviço de Convivência e Fortalecimento de Vínculos, que é a partir de um projeto da Secretaria da Assistência Social da Prefeitura de Arapiraca. Que funciona lá dentro do instituto.
Também trabalho na escola de artes da Prefeitura Municipal de Arapiraca, lá eu dou aula de teatro para as crianças e adolescentes, e à noite dou aula de dança de salão também. E aí tô na Associação Ágeis, que é só para crianças atípicas, são 14 crianças atípicas que a gente atende, trabalha projetos voltados para isso, o teatro performático a partir da inclusão. E por último, SESC, que é dando aula de teatro para idosos, que é a partir de 60 a mais.
Não me pergunta como é que eu tô sobrevivendo, mas eu tô vivendo. Tem dia que eu ainda consigo. O único dia que nas minhas quartas-feiras, por exemplo, a quarta-feira à tarde é minha folga. Hoje consegui assim terrivelmente, mas já consegui. Mas não pergunta como é que eu consigo dar conta, né?
É muita coisa, cara, é muita coisa. Cara, isso é incrível, essa inclusão que tá na sua vida, ajudar outras pessoas, tá dando aula para crianças atípicas, idosos. Como é isso para você? Isso eu preciso ir um dia, eu vou marcar com você para ir assistir uma aula, se eu puder, porque isso é incrível, isso é incrível.
E assim, eu Eu comecei a dar aula de teatro, inclusive, a partir da Pet Love de Ibirapuera, que eu trabalhei lá 4 anos e 3 meses. E aí eu percebi que a partir do teatro eu conseguia alcançar mais gente. É muito mais, foi muito melhor e muito mais fácil eles me ensinarem do que eu ensinar eles, porque eu tinha que parar muito, eu precisava retornar a pessoa que eu tinha sido formado, a pessoa que eu tava me formando, o artista que eu tinha.
E desconstruir muita coisa. E aí, como eu tava falando, tanto Konstantin Stanislavski como o Augusto Boal, que é brasileiro, né, esse é brasileiro, teatrologo brasileiro, grande diretor, morreu em 2009. Ele fala sobre essa questão da repetição e a gente trazer a cena do cotidiano para a cena, né. Você fez alguma coisa do dia a dia, como é que você pode fazer isso e trazer para o dia a dia? Para o teatro, para o espaço cultural.
E foi aí que nasceu a necessidade de dizer assim: dá para fazer teatro com pessoas atípicas, neurodivergentes, que a gente chama, mas qual seria a linguagem? E foi aí que eu pesquisei mais sobre teatro performático. Teatro performático, ele nasce justamente disso: eu não preciso exatamente ter um texto na oralidade, Mas sim um texto corporal. Qual o meu corpo consegue transmitir esse sentimento, essa leveza e tudo mais? E aí eu agrego outras artes: a pintura, o artesanato, a dança principalmente, a música, porque a partir disso eu consigo guiar, sabe?
E aí a linguagem fica muito mais fácil de ser transmitida para quem é atípico, por exemplo. Neurodivergente. E aí, quando a gente faz isso nesse processo, a gente desconstrói quem é o artista, quem é o Henrique, para tentar, senão— e aí eu vim, o repete, né? Eu fazia uma coisa, eu repetia uma, duas, três vezes. Com as crianças atípicas, não, são 10, 4, 20 vezes possíveis para que eles entendam mais ou menos qual a linguagem que você tá transmitindo.
E ao mesmo tempo é muito mais fácil eles sendo guiados a Hoje nós vamos fazer esse movimento, porque tem alguns que são repetitivos, de movimentos repetitivos, ele repete o que eu estou fazendo. Aí, antes que a gente crie uma liberdade para que ele faça só lá na frente, é preciso primeiro criar um vínculo com ele, ele consiga fazer o reflexo, que seja o espelho, para depois eles fazerem sem mim. E aí é outro processo, outras questões.
Isso na questão das crianças atípicas. Nos idosos é um desafio grande, porque muitos já não têm a mente, já não tá formada como criança. Então tudo já desenvolveu, muitos já têm famílias, já têm netos, cuidam de netos, cuidam de vizinhos, ainda estão aposentados, gostam de viajar. E aí vem outro caminho, outra situação que é totalmente diferente das crianças atípicas, porque aí vem a questão do abandono, do isolamento social, né?
Muitos não têm, não conversam com outras pessoas, não saem com suas famílias. A família, por sua vez, uma boa parte da população brasileira coloca em abrigos porque não tem condições de cuidar e tudo mais. Então é outro desafio. E aí transforma mais a vida da gente, porque a gente assim, poxa, eu deveria ter olhado para assim melhor para esse caminho, para essas pessoas.
Porque poderia ser eu, pode ser a gente, né, que a gente ainda vai ficar velho.
Também pode ser a gente, né, é verdade. É isso assim, é doido, né, é louco.
Caralho, eu tô aqui, esse papo, cabeça total, velho. É muito doido, cara. A gente tem que cuidar da nossa mente, a gente tem que cuidar da nossa saúde, tem que cuidar muito, muito mesmo. É só trabalho não, viu, Henrique.
Não, Deus me livre, pelo amor de Deus. Então assim, eu sempre— é outra coisa que eu faço bacana, é trabalhar a questão do cognitivo, da nossa memória, porque muitos dos idosos eles acabam perdendo muito fácil. E aí pergunta: quem é você? Você é quem? Aí diz: eu tô esperando meu neto. E sendo o neto falando com a pessoa. Então precisa ter esse cuidado na repetição até de um gesto, mesmo sendo repetitivo várias vezes, para pessoa ser lembrada.
Porque o Alzheimer dá a partir de 60 anos, né? Isso vai dando esquecimento geral da mente, você não vai lembrando nem quem você é, né? Eu tenho cuidado nisso que você falou, Henrique, mas tenha cuidado para não fazer tanta coisa só trabalho não. Eu faço outras coisas, eu leio, eu viajo, eu estudo, eu brinco, eu saio, eu me divirto, bebo vinho, bebo drinks, enfim. Bebo cerveja também, eu gosto de me divertir. Então cheguei exausto hoje, amanhã eu tenho aula, não tem problema, bebo alguma coisa, amanhã vou trabalhar tranquilamente.
O meu corpo ele funciona muito rápido assim, eu tenho metabolismo muito doido assim. Eu, por exemplo, não consigo dormir mais do que 5, 6 horas.
Mas é importante, o sono também é importante, né?
É exatamente, não consigo dormir mais do que 5, 6 horas, juro a você. Até os feriados, o meu sono ele é muito objetivo. Se eu durmo à meia-noite, 5 horas, 6 horas eu me acordo.
É assim, 6 horas eu já tô de pé, já tá de pé com os galos. Não, aí tipo final de semana para mim ainda tipo é o dia que eu desligo assim a chavezinha das 8 horas. Faço, olha, sábado e domingo é 11 horas, meio-dia, deixa eu desligar aqui. Eu falo também eu vou para o rojão de o quê, uma 2 horas da manhã, daqui na frente do computador escrevendo, fazendo alguma coisa, assistindo. É, também tem, é, durmo pouco também comparado, tipo, durmo 1 hora, 2 horas, acordo 8, 6 horas da manhã. É pouco tempo também, Henrique.
É pouquíssimo tempo.
Você, além de ser professor de teatro, você também atua. Um dia desse você tava com uma peça que você dirigiu Você dirigiu também e teve uma peça que você atuou. Conta um pouco sobre elas.
Pronto, O Quarto de Despejo é um espetáculo baseado na obra de Carolina Maria de Jesus, uma mulher negra da comunidade Canindé de 1955, 54, que faz seu livro falando sobre a comunidade da favela do Canindé e sua vivência enquanto mulher negra e mãe solo de 3 crianças. E aí a ideia surgiu da leitura, mais uma vez da leitura. Eu tava lendo algumas coisas voltado de negritude, foi que eu me deparei com a história de Carolina. Poxa, por que a gente não consegue fazer um espetáculo voltado para negritude?
Eu já fiz tanta coisa, o que que tá faltando fazer? Porque eu tenho isso, se eu fiz alguma coisa, eu digo não, tá faltando alguma coisa que eu não fiz ainda. Eu já tenho espetáculo que eu preciso falar mais, ainda não falei. Sabe, uma coisa que eu tenho vontade de fazer é um espetáculo falando sobre soropositivo. Ainda não consegui ainda parar, mas eu já montei a peça. E aí acontece numa sessão terapia entre a terapeuta e o paciente.
E aí nessa sessão ele fica dizendo as angústias e tal sobre as pessoas que são soropositivas, porque é um tema que não se fala muito, né?
Não se fala.
E aí eu gosto muito, é assim, não se fala no sentido do teatro.
É um tema que ele veio um boom quando tava naquele momento de muita pessoa se contaminando. Aí ele se fala em momentos esporádicos de vacinação, de cuidado, mas é um assunto que tem que ser falado.
Você acha que saiu um filme brasileiro sobre isso agora Bem, saiu as máscaras, é das máscaras, isso. E a máscara de oxigênio não cairão. E aí quando foi aí a proposta de fazer o espetáculo, o espetáculo tinha 25 atores na primeira montagem. A gente, pelo amor de Deus, se eu for fazer com 25 pessoas, não vou ter mais nunca, nem o financeiro não vai render muito, que a gente recebe muito pouco, né? Aí eu disse, não, vou reduzir.
Aí a gente vai reduzindo, reduzindo, fica uns em 8 e faltava um personagem. Eu tive que dirigir e atuar. O meu personagem é um cigano, só tenho 2, 3 aparições para dar uma liga na história e tudo mais. Mas a proposta desde o início foi que eu fosse só apenas o diretor, e aí dirigir e produzir o espetáculo. É que é muita paciência. É porque você precisa liderar o elenco, a sua cabeça precisa ficar bem para você não adoecer, fora dar conta dos seus trabalhos também.
E aí você acaba dando conta, dando até os seus finais de semana que você já tinha, já não tem, vai ter que ter mais agora, porque vai ter que dar conta daquilo que foi ensaiar, encontros, preparação de corpo, figurino, cenário e tudo mais. Já o outro, do Cheiro de Vó, Ele trouxe algo mais desafiador, porque além de atuar, eu era o que representava. Então eu tava me autodirigindo. O que eu fazia, eu digo, não, tá errado. E aí um dos ensaios foi que eu chamava uns amigos meus pra ver, olha, essa cena tá assim.
Aí dizia, Henrique, eu acho que pode melhorar aqui, pode melhorar ali e tudo mais. Mas a direção do espetáculo é minha e a criação do texto também é minha, que fala sobre cheiro de vó. E vem muito das experiências que eu tive enquanto professor lá no SESC, com idosos de 60 a mais, e a minha vivência familiar, que eu não tive afeto familiar paterno e materno, né? Foi aí que eu disse, não, preciso fazer alguma coisa. Daqui a pouco, por exemplo, eu tô com 33 anos agora, tá com 2 anos que eu conheci meu pai e a família dele.
Então isso também trouxe umas vivências, trouxe algumas coisas dentro da minha casa, dentro da minha vivência, dentro da minha família. E da minha vida para o teatro. Assim, não, acho que a vó tem isso, a vó tem aquilo, cada vó tem um cheiro. Acho que foi um cheiro, cada vó foi um cheiro, foi um cheiro de gaita. Espetáculo tem que ser cheiro de vó, porque representa tanto os avós quanto as avós. E aí surgiu. É um monólogo, 45 minutos.
Um monólogo, 45 minutos, sozinho em cena é difícil. É isso, né, papai?
Muito, não. E assim, e para completar, eu ainda tenho a loucura que assim, o espetáculo ele nasce nessa história, mas ele nasceu de uma contação de história que eu faço. Eu faço uma contação de história falando sobre o menino que mora no sítio e tem a avó. E aí nessa contação de história ele disse que perdeu a avó. Só que quando eu fui montar o espetáculo, eu disse assim, eu preciso ir montar falando da avó e a avó apareça. Porque a proposta é o avô aparecer pra sociedade.
Ele disse, não. Então o que que eu fiz? Eu fiz o espetáculo voltado pra idosa e quase no final é que eu faço a cena, por exemplo, do início até o fim com uma máscara caracterizada de uma senhora, com tanto a bolsa, confeito. E aí o cheiro de Vervain também da alfazema que eu vou passando no início da plateia, passando mão por mão pra que eles tinham cheiro justamente dessa essência. Do que era o cheiro de vó. Aí, a partir do início, o público já se envolve com a história por conta do cheiro da alfazema.
Aí distribuo alfazema nas mãos, depois eu vou distribuindo confeite de hortelã, que são as balas de hortelã, bala de canela, sabe? Essas coisas que remetem muito, lanche, bananola, e que tragam a memória, o afeto. Eu quero que você vá assistir.
Eu quero assistir, eu quero assistir. Eu vou sair chorando já daqui, eu já tô só lembrando o cheiro de vô, de vó, de caralho, velho.
E aí pronto, dada a ideia dessa história, foi surgindo o espetáculo por completo. Aí eu consegui fazer, aí nessa história eu consigo fazer a personagem da avó, que é falando sobre tudo, e do neto que aparece no final. Só que quando ela aparece no final Agora já não tá mais porque ela faleceu e ele não chegou a tempo, né? E aí tem uma crítica sobre isso: a gente não chega a tempo as coisas. Qual é o tempo que a gente tem? Que tempo é esse que a gente se perde?
A gente tem tempo para tudo, mas o mais importante, que as pessoas nossas, a gente não tem tempo.
A gente não tem. E a gente desperdiça muita coisa, com muita coisa, você sabe? Isso é umas coisas, a gente vai dizer assim, poxa, Não vou fazer isso não, depois eu faço. Você vai deixando, depois eu faço. Quando você vê, não tem mais nenhum depois, nem faz.
Henrique, me fala um pouco, spoiler, porque tá chegando logo logo, vai ser lançada a série. Me fala um pouco do Samuel. Quem é Samuel na sua vida? A série Contos Perdidos, como foi ser, vamos dizer assim, ter uma preparação de elenco com A Luciana Souza, que do Apoio, muito foda também. A galera que veio aqui, muito fantástico. Como foi essa preparação para você? Como é que você achou? Me conta um pouco dessa sua experiência como Samuel.
Samuel para mim foi um desafio maior da minha vida enquanto personagem. Eu sempre vou dizer isso, eu já fiz muito personagem, foi difícil. Eu já fiz um personagem de uma mulher que era muito difícil. Numa peça de teatro há muito tempo atrás. Era muito difícil fazer mulher, mulher tem muitos trejeitos. Mas eu confesso que o Samuel, ele me pegou de um jeito assim, e ao mesmo tempo, no momento que eu tava precisando de algo que renovasse as minhas energias para fazer teatro, para continuar fazendo cinema, para continuar fazendo audiovisual, enfim, para continuar fazendo cultura e não desistir.
E ele, quando chega, ele chega para mim como um presente, assim, olha, Esse é pra você, agarre, faça o que tem pra fazer com ele e tudo mais. Confesso que no início da preparação eu tive muita dificuldade de encontrar o jeito de andar, o jeito de falar, o jeito de olhar, o jeito de se comunicar com o outro em cena pra que saísse muito natural. E aí a Luciana, ela fez várias preparações, ela, olhem, façam assim, traga isso, traga não sei o quê.
A gente fez várias preparações. Mas de todas as coisas que foram fazendo, a gente foi fazendo, eu acho que o viver a cena como o Anderson pedia era muito mais fácil do que propriamente lembrar do processo criativo. Porque saiu muito mais assim, ah, não faça daquele jeito. Ele chegou lá assim, olha, nós vamos gravar aqui a cena na casa, tá você e tá ele e tudo mais. Aí eu disse, não tem nada a ver com aquilo que a gente ensaiou.
Mas aí se preparou, né? Mas aí foi o que foi mágico, porque a cena foi construída com os dois juntos em cena, que era eu e o Gabriel, e ficou muito mais assim fascinante, mais natural. Eu amo aquela cena, eu gosto de todas, mas aquela só faz apaixonado. Aquela é da igreja, da igreja.
Sim, sim. O massa é porque assim, na preparação você vocês estão numa sala de aula, vocês estão em algum ambiente que não tem. Mas quando você vê a coisa fantástica que Márcio e Lili fez na direção de arte, e você vê o cenário, você fala, caramba, sim, eu tenho pouco espaço. Como na preparação do teatro você já planeja o seu espaço, lá tem os objetos, e aí você Você já muda totalmente. Aquele aperto de mão arrepiou a gente que escreveu o roteiro.
Aquele aperto de mão, antes que até cedo um pouquinho, que Samuel toca na parede, é uma conexão muito grande e é uma carga de energia também muito grande para uma cena que a gente ficava assim várias vezes e eu não me cansava. Porque é uma cena muito boa de se fazer, sabe? E Samuel, ele veio com ideias totalmente diferentes. Enquanto o Henrique, ah, não sei o quê e tal. Agora, uma coisa que eu gosto muito de Samuel são as características nordestinas. Vote aí, danoso! Aí, isso eu gosto.
Vou pegar esse seu gancho. Henrique e Samuel, o que um tem, o que o outro não tem? O que é que você viu nesses personagens? Tipo, o Henrique não faria isso, Samuel é mais contido, né? Não tô dizendo que você é um cara muito— você é um cara feliz, cara sorridente, onde você chega, você transborda energia. O Samuel é mais tímido, que eu percebi. Seria isso, essa diferença dos dois?
É essa diferença. E a ideia, por exemplo, eu não quero investigar nada. Samuel, a ideia dele é querer fazer algo. Então ele quer investigar. Não, enquanto o Henrique quer só viver o que tá acontecendo, tudo mais, Samuel quer ir a fundo, quer saber o porquê. E aí é uma diferença muito grande enquanto Henrique, enquanto personagem, porque o Henrique não tem isso. O Henrique procura saber as coisas dele, é os trabalhos, ajuda algumas pessoas.
Mas é totalmente diferente de Samuel. Samuel, ele não é ajudar, ele traz um enredo muito bom para descobrir o paradeiro da sua história e tudo mais. Eu não posso falar muito, que se eu for falar muito, eu me calo.
Ó, galera, você vai estar escutando aqui, vai estar assistindo logo logo, vai ter novidade da série aqui. Fiquem ligados aqui na nossa rede social do Henrique, que vai estar— vamos estar divulgando com força total essa série maravilhosa que vai sair aí logo logo. Henrique, a gente tá chegando no final. Henrique, a gente sempre pede para os nossos convidados indicarem 3 livros e 3 filmes.
3 livros, aí eu indicaria Augusto Boal, que deixa eu pegar aqui um livro, eu sempre tenho um deles.
Certo?
A Ingrid, que é maravilhosa, que é o teatro Ingrid Dormier, que é o Tela, que ela fala sobre jogos teatrais, certo? Maravilhoso. Aí indicaria do Constantino Sandislavski, que tem a construção da personagem e a construção do ator, que são totalmente diferentes, né? Construção da personagem, construção do ator. E o Teatro do Oprimido, que é do Augusto Boal. Esses três. Eu sempre digo o brasileiro, que é o Ujubal, porque ele é uma referência mais prática da nossa realidade no Brasil.
Claro que existe outros, né, outras situações, mas ele em si, de outras coisas, por exemplo, Fernanda Montenegro é uma atriz, Fernanda Torres é outra, e assim sucessivamente, mas eles não desenvolveram técnicas que ajudassem a fazer isso e isso. Eles direcionam a forma de atuar deles. Daquela forma, a linguagem que eles têm. Mas eles não direcionam tecnicamente. Olha, eu fiz esse gesto porque Augusto Boal fazia assim. Ah, eu desenvolvi a partir disso, do experimento que eu fiz nesse filme e tal.
Então eles não trazem essa abordagem, tá? Que fica bem claro que assim, não, mas eles não são atores. São atores, mas não são pesquisadores, que é totalmente diferente, tá? E 3 filmes que eu indicaria Ai, meu Deus, eu gosto muito do Alta Compadecida. Para mim é um dos filmes maravilhosos assim, sabe, de verdade. É o Alta Compadecida, Eduardo Montesoura, porque eu acho que ele guarda algo muito da gente que a gente não consegue enxergar o outro.
Eduardo Montesoura, eu acho que ele traz muito, é um filme muito antigo Mas ao mesmo tempo traz uma abordagem muito massa de alguém isolado que ninguém vai olhar, que ninguém cuida. Quando ele desce com as tesouras deles e tudo mais, ele é maravilhoso até o tempo de fazer alguma coisa, sabe? Isso é sociedade. Você é certo, só é bom até você fazer algo. Quando você faz alguma coisa errada, uma vírgula, aí começa a crítica ali e julgamento.
E por último, meu Deus, Gosto tanto de filmes, mas é muito difícil. Tem que caçar 3, muito difícil, muito difícil, é muito difícil mesmo. Mas eu gosto muito, é, meu Deus, eu falei o Eduardo Compadecida, falei Eduardo e Mundo de Tesouras, e gosto do Gasparzinho. É maravilhoso, Gasparzinho, eu gosto porque traz Aí ele faz justamente isso, o pai não dá valor ao filho que tem. Aí quando o filho vai para outro canto, que ele morre, é que ele veio dar valor.
Porque ele fala sobre um pai solo que, por exemplo, que ajuda, que toma conta só da filha, né, que perdeu a esposa. E o Gasparzinho fica lá na casa assombrando e tudo mais, né. E ela chega, né, sem saber de nada e tudo mais. Só que no decorrer da história, os dois acabam virando amigos. E ele consegue ver novamente a esposa, mas ele entende que ela já partiu. Então tem muito da perda, que a gente não se acostuma com a ida da outra pessoa e fica presa ao espírito ou ao cheiro, as lembranças, e não consegue continuar a vida. Então por isso que eu gosto do Gasparzinho.
Bacana, bacana. Henrique, muito obrigado por ter participado desse podcast, valeu mesmo, muito obrigado. Arrumar um tempinho nessa sua correria. Valeu, obrigado de coração, Henrique.
Obrigado.
A galera quiser encontrar o Henrique, como é que pode encontrar? As redes sociais vai estar na descrição aí, mas deixa aí para galera que tá assistindo o vídeo, vai estar escutando o podcast.
Primeiramente, muito obrigado a você, a esses telespectadores, esses, esses assim apaixonados por cultura, por Nerd, pelo Nerd Tatuado, sabe? E assim, a gente sabe da importância que se tem um espaço. Então a gente sempre aproveitar esses espaços que são nos dados, permitido para a gente mostrar um pouco também do nosso trabalho e mostrar o quanto a gente também tem essa, vem desenvolvendo tanta coisa no decorrer do tempo, né?
Mas as minhas redes sociais são o seguinte, eu tenho duas porque uma da Companhia Flow de Mandacaru, a qual eu faço parte, que é @ciaflow, aqui de Arapiraca. E a segunda, que é Henrique Áviles, A-V-L-I-S, que é o Silva de Trás para Frente. E aí, Henrique Áviles Oficial, @ofc, que são as duas redes sociais.
Bacana, galera! As redes sociais do Henrique vai estar aqui na descrição. Muito obrigado por vocês estarem assistindo aqui até agora. Não Não esquece de seguir, compartilhar e marcar, dar o joinha aí no vídeo. Muito obrigado e que a força esteja com vocês. Valeu, galera nerd, fomos!
Valeu, tchau, pessoal!