Episódios de Histórias de ter.a.pia

Cresci vendo minha mãe sofrer violência doméstica e precisei protegê-la aos 13 anos

24 de setembro de 202612min
0:00 / 12:02

Isabela tinha três anos quando começou a guardar na memória cenas que nenhuma criança deveria precisar lembrar. O pai agredia a mãe dentro de casa, e ela ainda se recorda da mesa, da irmã atrás dela e do lugar exato onde ele estava quando um soco quebrou os dentes da mãe.

A mãe tinha cinco filhos e não podia trabalhar porque o marido não permitia. Quando ele ficou doente e deixou de ser caminhoneiro, a família passou a enfrentar dificuldades, até que ela voltou a fazer unhas para sustentar a casa.

Mesmo trabalhando, a mãe continuava sendo controlada. O marido aparecia bêbado no trabalho, fazia escândalos e, dentro de casa, qualquer motivo podia virar violência física.

Isabela cresceu naquele ambiente conturbado até que, aos 13 anos, chegou em casa e encontrou o pai agredindo novamente a mãe. Pela primeira vez, sentiu que era grande o suficiente para enfrentá-lo, pegou um pedaço de madeira e entrou na sala. Aquele seria o último dia que ele levantaria a mão para alguém dentro daquela casa.

A violência diminuiu depois disso e anos depois, o pai morreu. Para Isabela e a família, a morte trouxe uma sensação inesperada de alívio.

Foi também depois disso que ela viu a mãe reconstruir a própria vida, as duas voltaram a estudar juntas e sua mãe chegou à faculdade, mudando a realidade da família.

Anos depois, já casada, Isabela viveu a própria violência doméstica. Grávida, foi agredida pelo companheiro e conseguiu fugir quando ele saiu para trabalhar. Com as coisas que conseguiu carregar, foi para a casa da mãe.

Quando abriu o portão, encontrou o acolhimento que talvez mais precisasse naquele momento. Ali, entendeu que tinha uma casa, tinha uma família e tinha para onde voltar para encerrar aquele ciclo.

A partir da própria experiência, Isabela passou a trabalhar para que outras mulheres e crianças tenham acesso às possibilidades que sua mãe não teve.

Hoje, ela carrega a ausência da mãe, que morreu em 2024, mas também tudo o que aprendeu com ela.

Cresci vendo minha mãe sofrer violência doméstica e precisei protegê-la aos 13 anos | Castnews Index — Castnews Index