Vitiligo me deixou 'branco' e as pessoas passaram a me tratar melhor
O Carlos é um homem preto que vive com vitiligo universal, o que fez com que ele perdesse a pigmentação de toda a pele e passasse a ser lido socialmente como um homem branco.
Mas se a cor da pele dele mudou, as experiências que ele viveu como homem preto no Brasil continuam e se acentuam quando ele passa a ser lido como um homem branco.
O vitiligo começou a se manifestar quando ele tinha cerca de oito anos. A primeira mancha apareceu no joelho. Quando o Carlos finalmente recebeu o diagnóstico, ouviu que a doença não tinha cura e que poderia ficar completamente branco.
Carlos passou a esconder o corpo. Evitava bermudas, deixava de participar das aulas de educação física e tentava mostrar o mínimo possível das manchas. O que não doía, não coçava e não transmitia começou a produzir sofrimento de outra forma: pelo olhar das pessoas.
E enquanto tentava entender o que estava acontecendo com sua pele, Carlos também começava a compreender que havia outra questão atravessando sua história: ele era um homem preto.
Conforme o vitiligo avançava, sua aparência mudava. E ele percebeu isso de uma forma inesperada no trabalho de vendedor numa loja na Barra da Tijuca, no Rio.
Quanto mais branca sua pele ficava, melhor ele passava a ser tratado pelos clientes. Sua conversão em vendas chegou a aumentar nesse período.
Carlos começou a perceber que talvez não fosse apenas a sua pele que estivesse mudando. Era como as pessoas o enxergavam agora: como um homem branco.
E essa nova leitura não apaga as experiências de racismo que viveu antes da despigmentação. Nem as situações que continuam acontecendo quando está ao lado do pai, um homem preto, ou quando alguém se sente confortável para fazer um comentário racista acreditando que Carlos pensa como eles.
Quando finalmente percebeu que estava completamente branco, ele não sentiu que tinha vencido alguma coisa. Pelo contrário, ele não se reconhecia no espelho.
Foi na terapia que começou a reconstruir essa relação com a própria imagem e entender que aquela mudança não apagava quem ele era.