Minha filha trans tirou a própria vida por conta do preconceito
Até onde o discurso “meninos vestem azul, meninas vestem rosa” pode impactar a vida de uma pessoa trans?
Desde muito pequena, a Vic já demonstrava que era uma menina trans. A Alessandra, sua mãe, demorou para compreender, mas quando a filha revelou sua identidade, ela a acolheu e começou a lutar pelos direitos da filha.
Comprou seu primeiro sutiã, dividiu roupas, segurou sua mão e tentou fazer com que os olhares de julgamento não a atingissem. Mas eles atingiam.
Na rua. Na escola. Nas pequenas violências diárias. Victória passou a viver com medo e, aos poucos, a alegria foi dando lugar à depressão. Ela já não queria sair da cama, estudar ou sonhar.
Naquele período, um discurso público feito por uma autoridade política, logo após a posse do novo governo federal, afirmando que "meninos vestem azul e meninas vestem rosa", teve um impacto profundo sobre Victória.
Para Alessandra, ouvir esse tipo de mensagem partindo de alguém em posição de liderança reforçava o preconceito que a filha já enfrentava diariamente e transmitia a sensação de que a exclusão era aceitável. Não foi um único discurso que provocou sua dor, mas ele se somou às inúmeras violências e discriminações que Victória já carregava.
Em 04 de janeiro de 2019, aos 18 anos, Victória tirou a própria vida. Um dia após o tal discurso.
A partida da Vic ainda reservava outra batalha para mãe e filha, já que a Alessandra enfrentou dias de sofrimento para conseguir que o nome social da filha fosse reconhecido em seus documentos póstumos.
A Justiça do DF negou o registro póstumo da Victória, mas em em 2021, foi sancionada a Lei nº 6.804/2021, conhecida como Lei Victória Jugnet, que assegura o direito ao uso do nome social de pessoas trans e travestis em lápides, certidões de óbito e demais documentos póstumos.
7 anos depois, Alessandra ainda convive com as marcas desse trauma. Mas decidiu que a vida da filha não terminaria naquele janeiro. Porque, para ela, Victória não passou pelo mundo em vão.
Sua história continua lembrando que nenhuma pessoa deveria perder a esperança de viver por causa do preconceito e que reconhecer a humanidade do outro nunca deveria ser motivo de debate, mas de respeito.