Episódios de Histórias de ter.a.pia

Fim da escala 6x1: Ela decidiu que suas funcionárias iriam trabalhar numa jornada 4x3 depois de sofrer um burnout

07 de maio de 20269min
0:00 / 9:12

Descanso é fundamental pra todo mundo! Foi quando entendeu isso que Letícia mudou não só a própria vida, mas a forma como outras mulheres trabalhavam no seu salão de cabelereiro, assumindo uma jornada 4x3 de trabalho, num momento em que discutimos o fim da escala 6x1.Antes disso, a história da Letycia começa em escassez. De família pobre e criada na periferia da Baixada Santista, ela cresceu rápido, aprendendo a transformar necessidade em possibilidade. Brincava de salão de beleza antes mesmo de saber que aquilo seria seu caminho. Aos 13, com uma prancha e um secador dados pela mãe e pela avó, começou a atender vizinhas. Ia de bicicleta, enfrentava chuva, desconfiança e até abordagem policial. Era uma menina com uma mala, insistindo em ser levada a sério.O primeiro salão nasceu improvisado, no meio da garagem de casa, que inundava quando o canal enchia. Lá tinha um lavatório com balde, um espelho simples, toalhas penduradas em um varão adaptado pelo pai.Com o tempo, as conquistas que pareciam impossíveis começaram a surgir. Até que ela realizou o grande sonho de abrir um salão no centro de Santos, e foi ali que tudo perdeu o sentido também.A sobrecarga chegou silenciosa. Um dia, mesmo com o salão cheio, Letycia se sentia vazia por conta do cansaço extremo. Ali, ela entendeu que nenhum sonho justificava perder a si mesma.Fechou o salão e recomeçou do zero, mas agora com um pensamento diferente.Foi nesse recomeço que veio a virada. Se ela se sentia sobrecarregada, outras mulheres também deveriam estar, e decidiu que suas funcionárias trabalhariam na jornada 4x3. Todo mundo tiraria folha aos domingos, segundas e sextas. Ela sabia que era importante ter tempo para os filhos, para o lazer, para seus relacionamentos. Era importante estar presente na vida. E o resultado não poderia ter sido melhor: no sábado, todas chegavam com mais energia, mais alegria, simpatia e cuidado com as clientes.Porque, para a Letycia, o diferencial nunca foi o café de cortesia, mas o tempo dedicado a escutar cada cliente.Hoje, ao olhar para trás, Letícia reconhece cada etapa: da menina que sonhava mudar de vida à mulher que construiu um negócio com propósito. Porque a vida, sua e de suas funcionárias, não se negocia! Compre o livro do ter.a.pia "A história do outro muda a gente" e se emocione com as histórias : https://amzn.to/3CGZkc5Tenha acesso a histórias e conteúdos exclusivos do canal, seja um apoiador http://apoia.se/historiasdeterapia

Participantes neste episódio1
L

Letícia

ConvidadoEstudante
Assuntos4
  • História de LetíciaInfância e escassez · Início como cabeleireira aos 13 anos · Primeiro salão improvisado · Sonho de abrir salão no centro de Santos · Superação do burnout
  • Fim da escala 6x1Fim da escala 6x1 · Burnout em funcionárias · Bem-estar no trabalho
  • Impacto da escala 6x1Aumento de energia e alegria das funcionárias · Melhora no atendimento às clientes · Aumento de faturamento e lucro · Valorização do tempo pessoal e familiar
  • Proposta de Valor e Propósito da EmpresaEmpatia com as funcionárias · Não explorar os outros · Construção de um negócio com propósito
Transcrição24 segmentoswhispermlx/large-v3-turbo

Ouvi uma voz falando assim, se joga. E eu morava no 29º andar. Nada vale a minha paz. Se eu me sentia sobrecarregada, por que a outra mulher que trabalha comigo também não estaria sentindo o mesmo? E a partir desse momento, o salão começou a trabalhar na escala 4x3.

A minha infância foi como a da maioria das pessoas, né? Inclusive, a gente passou por uma fase onde eu tinha por volta de uns quatro anos, que eu lembro até hoje dessa cena. A gente estava sentado em cima da cama e orando porque não tinha o que comer, de fato. E apareceu um ovo com um pouco de arroz, eu e minha mãe dividimos o ovo. Então, passamos por momentos muito escassos, né?

Vamos brincar, Letícia? Vamos! Mas de salão, eu sou a cabeleireira. Comecei a cuidar do meu cabelo. Nisso eu comecei a cuidar do meu, eu comecei a cuidar da minha mãe, comecei a cuidar do cabelo da minha avó. E eu vi uma oportunidade ali de ganhar dinheiro. Porque todo mundo me elogiava. E aí minha mãe e minha avó, as duas compraram uma prancha, um secador pra mim. As minhas primeiras clientes normalmente eram pessoas que moravam próximo, assim, né?

Minhas vizinhas. E eu pedia pra elas. Só que eu vou falar pra você que a maioria falava não pra mim, tá? Porque eu olhava pra mim e falava, uma criança. Eu tinha 13.

Imagina, nova, imagina que eu vou entregar meu cabelo pra essa pessoa, sabe? Eu ia de bicicleta na casa delas. Quando chovia muito, era bicicleta, mala, guarda-chuva, mas eu ia, eu dava um jeito de ir. Já fui até parada pela polícia, porque achavam que eu tava fazendo alguma coisa de errado. Passando com a mala o tempo todo, pra cima e pra baixo, sabe? Na periferia, vão achar o quê? Fala pra mim. Você tá trabalhando pra alguém.

E meu pai tava arrumando a nossa garagem. A nossa garagem tava cheia de entulho. O meu lavatório tava lá no meio do entulho, com um balde de baixo pra água escoar, entendeu? E essa cliente chegou, eu assim, vem, entra aqui. Atendi ela no meu quarto, minha primeira cliente. O que você gosta de tomar? Você gosta de bebida alcoólica? Ou assim, você quer um chá, um café, uma bebida alcoólica? Você gosta de, sei lá, de vinho com leite condensado? Aí ela, ah, eu amo. Aí eu fui lá, mãe, mãe.

Vai buscar pra mim, mãe. O vínculo de condensado que essa cliente gosta disso. Aí depois, lavei o cabelo dela no meio do entulho, tá? Dessa cliente. E aí, meu pai foi terminando a garagem e fui crescendo, montei o meu salão na minha garagem. Vinha pessoas de outras cidades pra fazer o cabelo comigo e eu ia buscar elas, porque elas tinham medo de entrar ali na periferia, né? Eu morava em frente ao canal. Enfim, elas tinham medo. Aí eu falava, não tem problema, eu busco você.

Eu ia andando ou de bicicleta até o ponto de onde elas desciam e vinham acompanhando ela pra se sentirem seguras. E elas não deixaram de servir as clientes. Então a gente precisa conversar com aquilo que a gente tem, sabe? O salão estava com um lavatório, lembro como hoje. Estava no lavatório no cantinho do quintal, assim. Tinha um espelho que meu pai virou. Sabe esses caras de porta que vendem aqueles espelhos? Aí eu não tinha dinheiro pra mandar fazer espelho.

A gente comprou um espelho desse em 96 vezes sem juros. Viramos o espelho, colocamos.

O meu porta-toalha era um varão de cortina, que meu pai cortou uma porta e colocou na parede pra mim, e aí ele colocou esse varão de cortina pra mim colocar as minhas toalhas penduradas. Eu senti muita alegria. Sabe quando você olha e eu lembro que eu olhei assim e falei, só consegui agradecer meu pai e minha mãe. Ai, muito obrigada, pai e mãe, porque eles arrumaram aquela... Nem tinha tanto dinheiro de pagar uma garagem, mas eles, sabe?

fizeram pra que eu pudesse trabalhar ali e quando eu olhei o salão todo montado eu só agradeci por mais que teve um período que a minha casa enchia, enchia de água eu morava em frente do canal, enfim o salão ainda era ali, já teve cliente que dormiu na casa da minha mãe porque não conseguia ir embora mas eu só consigo ser grata

Mas ao mesmo tempo que eu era grata, eu também falava, isso é um período. Eu vou ser grata nessa fase, mas eu vou trabalhar pra outra. Aí com 18 anos eu abri meu salão. Só que aqui na cidade tinha um prédio que era assim, o mais, é, na verdade, é o maior de todos, o maior prédio comercial. E ele tava ainda em construção. Toda vez eu passava, eu falava, um dia eu vou ter uma sala aqui. Eu guardei 3 mil reais e eu falei assim, vou ver quanto é uma sala aqui.

Ela falou assim, ai, são três e meia de aluguel. Aí eu falei, ah, entendi. Mas me fala uma coisa, você aceita dois? Ela, não, aceito dois. Ah, tudo bem. Mas então, a moça, ou tem um rapaz aqui que é advogado que já quer ficar com a sala, mas eu agradeço pelo interesse.

E eu fui viajar. Eu falei, tá bom. Esse meu dinheiro sabe pra onde eu vou? Vou pra Bahia. Ela me mandou uma mensagem. Oi, Letícia, tudo bem? Eu acabei não fechando com ele, por mais que tava tudo certo, mas algo me incomodou pra me chamar você. Você não tem interesse na sala? O interesse eu tenho, o dinheiro não.

Aí eu, assim, como você sabe que isso vai dar certo? Aí eu falei, porque você já tinha essa sala fechada pra um advogado, com certeza tem mais dinheiro que eu. E se você me chamou no meio da minha viagem, não foi por acaso. Então, essa sala é pra ser minha. Se você quiser confiar em mim, eu tô aqui. Mas o que vai acontecer é eu pagar você em cabelo.

É isso. Permaneci lá por sete anos até eu sair. E aí quando eu saí, eu saí pra realizar o meu maior sonho da minha carreira. Que era abrir um salão em Santos. E foi muito louco. Porque pra mim ali ia ser a melhor fase da minha vida. E ali pra mim perdeu totalmente o sentido. Eu precisava me doar muito mais.

E aí eu senti uma sobrecarga gigantesca. E aí eu tive burnout. Eu tava sobrecarregada num nível. Eu parava, eu sentava assim pra fazer as coisas no salão no computador. Eu olhava pro computador. E eu passava da uma hora da tarde em hora que eu deixava minha filha na escola até seis horas, assim, sem conseguir produzir nada. E eu não conseguia me mover. Eu só queria ficar deitada e sem fazer nada. E teve um dia que meu marido tava saindo, eu tava sentada no sofá. E eu ouvi uma voz falando assim, se joga.

E eu morava no 29º andar. E na hora que eu escutei isso, eu liguei pro meu marido na hora, volta, porque eu fiquei com medo de ficar com a minha própria filha. E pra mim isso doeu tanto, doeu tanto. E eu falei, até que...

Que ponto vale eu querer dar conta de tudo? O sonho da minha vida eu fechei. Eu fechei em seis meses e voltei para uma sala comercial. Nada vale a minha paz. E aí quando eu fui para essa sala comercial, eu já mudei tudo novamente. Vamos ter mais saúde, vamos ter mais tempo. Porque eu vi que essa dor não era só minha. Se eu me sentia cansada, se eu me sentia sobrecarregada, por que a outra mulher que trabalha comigo também não estaria sentindo o mesmo? Eu não contratei robôs, eu contratei mulheres reais assim como eu.

E aí eu falei, o que vocês acham da gente tirar sexta-feira para descanso? Elas amaram, mas elas falaram assim, como assim? E a gente vai ter que repor esse dia? Eu falei, não, ninguém vai ter que repor nada. Nós trabalhamos terça, quarta, quinta e sábado. Então elas folgam domingo e segunda e sexta. E a partir desse momento o salão começou a trabalhar na escala 4x3.

Ah, é dia das crianças. Eu amo passar o dia das crianças com a minha filha. Tem filho? Você não trabalha no dia das crianças. Pra você estar presente nos seus filhos também. É dia das mães? Vai pra apresentação do seu filho. Porque lá na frente ele vai cobrar. Não tem coisa melhor do que a gente ver o olho do nosso filho brilhando numa apresentação. Quando a gente tá numa apresentação da escola, você olha, a criança tá procurando a gente.

Agora imagina as mães que não podem participar disso. Então, aquilo que eu não quero pra mim, eu também não quero pra ninguém que trabalhe comigo.

E o rendimento delas. No sábado, onde estava todo mundo aqui com o cabelinho pra cima, assim, ó. No sábado, estava todo mundo assim. Agora, pleníssimas. Eu saio com o boy onde a Anne, saio com o filho, passeia. Ó, vim trabalhar revigorada. Chega na quinta-feira à noite, ela só aponteia pra trabalhar um pouquinho mais.

Não, pode colocar uma cliente porque amanhã eu não venho mesmo, sabe? Mudou muito o nosso faturamento, o nosso lucro, a forma como elas se entregam para as clientes. Você não vê ela, xoxa capenga. O sorriso sempre aqui, sabe? E não é um sorriso forçado. Conversando, dando dicas. Logo, a maioria volta não só pelo procedimento, mas porque são muito bem acolhidas, são bem atendidas. E eu não estou falando, ai, meu tratamento é prêmio porque oferece um cappuccino. Não, o cappuccino pode ir em uma cafeteria para tomar.

Mas sim no ouvir. Hoje em dia as pessoas estão tão corridas, estão tão cheias de si mesma, que elas não param pra ouvir o outro, pra enxergar o outro, pra fazer uma oração pelo outro. E aí quem faz isso, conquista. Só que eu tenho certeza que se elas estivessem sobrecarregadas, elas não conseguiriam ter essa visão. Pra mim, a pessoa que tá olhando isso de forma negativa, a primeira é aquela que gosta de ficar explorando os outros. Ela não é nada empática. Ela só olha pro próprio umbigo.

E quantas pessoas saíram das suas próprias empresas falando assim, aqui eu não vou ser mais explorada, agora eu vou ter minha própria empresa. Só que aí contratou pessoas e também exploram. Então, pra mim, isso é uma grande hipocrisia. O meu salão fica em Santos, num prédio comercial, que inclusive, por um período, eu fui secretária nesse prédio. E aí, 12 anos depois, eu voltei proprietária do meu salão, que fica mesmo lá em Santos, no Elborófice Vila Rica.

Eu tenho um salão lindo onde eu vejo a graça de Deus em cada detalhe. E tudo que eu tenho hoje. E eu falo que às vezes a gente se acostuma com o extraordinário, com a graça, com a mão de uma vida. Que a gente não consegue nem ver. Tudo que eu tenho hoje veio do meu salão. Então olhar para a Letícia de 14 anos. Que começou e que deu o melhor de si. E olhar agora para a Letícia de quase 30 anos. E ver tudo que construiu e ver tudo que passou. Sabe? É gratificante.

Anunciantes2

Amazon

Livro "A história do outro muda a gente"
external

Histórias de Terapia

Conteúdo exclusivo e acesso a apoiadores
self
Fim da escala 6x1: Ela decidiu que suas funcionárias iriam trabalhar numa jornada 4x3 depois de sofrer um burnout | Castnews Index — Castnews Index