'O que sobe no combustível dificilmente volta a descer': António Costa Silva
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Essa é a SBS em Português. Olá, eu sou a Joana Pereira e hoje trago-lhe uma entrevista do nosso correspondente em Lisboa, Francisco Sena Santos, a António Costa Silva, perito internacional em assuntos da energia, em particular do petróleo. O foco desta entrevista? A crise global do combustível.
António Costa Silva é um perito internacional em assuntos da energia, em particular do petróleo. Este engenheiro é académico, é professor, é gestor, foi presidente da Partex, empresa da Fundação Calusto Rubenquian.
para a gestão do património em petróleo. Também foi ministro da Economia do Mar no governo de António Costa, atual presidente do Conselho Europeu. António Costa Silva tem amplo conhecimento presencial de todo o Médio Oriente. Em entrevista sobre o atual sobressalto energético global, ele diz-nos que estamos perante a maior crise de sempre sobre oferta de energia.
A crise que estamos a viver é a maior crise da história, em termos de oferta de energia, maior sem dúvida.
Porque quando analisa, por exemplo, a crise que existiu em 1979, foi o segundo choque petrolífero. Estava relacionado com o facto do Irão, na altura, ser o segundo maior produtor de petrolífero do mundo. Produzia 6 milhões de barris por dia. Quando a Ayatollah Khomeini chegou em fevereiro de 1979 até Irão, a produção tinha caído para cerca de 800 mil barris por dia. Isso foi suficiente para lançar o mercado mundial numa grande convulsão.
Hoje o que temos são vários grandes produtores mundiais que estão concentrados no Golfo Pérsico.
que não conseguem nem produzir, nem fazer o escoamento dos seus produtos. Portanto, por dia, temos em falta no mercado mundial 15 milhões de barris de cruda por dia, 5 milhões de barris de refinados, atenção ao jet fuel e ao diesel, e a Europa também depende muito do diesel ali daqueles mercados que estão em falta, 30% dos fertilizantes mundiais, já estamos a ter uma crise alimentar, e ainda há dias estava havendo no Financial Times as queixas.
muito retumbantes dos agricultores norte-americanos, porque estão numa situação também muito difícil com o preço dos fertilizantes a crescer. E se eles estão numa situação difícil, no resto muito, particularmente os países mais vulneráveis vão ter mais dificuldade. Tem sido muito valorizado a questão do estreito de Hormuz para os combustíveis, mas os fertilizantes são também... São. Nós temos uma crise alimentar mundial que se vai começar a desenhar.
E isso é inelutável, porque depois os fertilizantes, há um tipo de fertilizantes que são os nitrogenados, que sobretudo dependem da orelha. E aqueles países do Golfo Pérsico produzem 50% da orelha no mundo. E o que é que diz a FAO, a Organização das Nações Unidas?
que gera as questões da alimentação e da agricultura. Ela diz que 50% da produção agrícola mundial depende destes fertilizantes nitrogenados. E os outros fertilizantes que são fosfatados dependem do enxofre. Os países do Golfo Pérsico exportam 40% do enxofre no mundo. E depois há, por exemplo, os semicondutores. Os semicondutores são vitais para todo o funcionamento das indústrias.
Eles produzem hélio, cerca de 45% do hélio mundial sai dali. O hélio é um gás inerte, mas é fulcral para a manufatura dos semicondutores e também para outras áreas da indústria aeronáutica, de defesa. Quer dizer, nós estamos aqui a brincar com o fogo. Como costumo dizer, é um centro nevrálgico do sistema energético internacional ainda hoje, porque as transições energéticas são sempre lentas. Se olhar para 1992 na Conferência do Rio...
A matriz energética mundial dependia em 86,5% de combustíveis fósseis e hoje o que é que se passa? Dependem 81%. Reparem, mais de 30 anos nós temos uma redução muito pouco significativa, 0,15% relativamente ao que é a dependência dos combustíveis fósseis, porque eles ainda são muito dominantes no setor dos transportes.
no aquecimento para os edifícios e para uma série de indústrias, sobretudo as indústrias que têm a ver, as siderúrgicas, as cimenteiras, mas também a indústria dos fertilizantes, a indústria dos plásticos. E isso condiciona muito o que se está a passar.
Esta crise significa paralisar, digamos, o coração ainda do sistema energético internacional e paralisar a horta. Depois tem o problema que é adjacente, que é o fecho do estreito de Hormuz. E o que é que aconteceu? Muitos daqueles países que estavam a produzir tiveram que encerrar a sua produção.
porque já não conseguiam escoar, a capacidade de armazenamento ficou esgotada. E em cima disso ainda teve a destruição de infraestruturas energéticas. São mais de 70 e são infraestruturas críticas. Eu conheço muito bem aquelas infraestruturas, trabalhei muitos daqueles países. E quando Jorreia, logo no segundo dia da guerra, bombardeou as infraestruturas energéticas do Irã, aliás estava nessa altura no RTP, num programa de televisão, e disse amanhã que os iranianos vão começar a bombardear as infraestruturas energéticas dos países do Golfo. E eles bombardearam o Porto Rastanoura.
que é o maior do mundo na Arábia Saudita, que tem ao lado o complexo de Abkeik, o maior complexo petroquímico do mundo, processa 8 milhões de barris por dia, e tem o campo de Gawar, que tem 300 quilômetros de extensão, que também é o maior campo do mundo.
e, portanto, os sauditas dizem que estão a lidar com a danificação que foi feita, mas o problema muito mais importante é também o gás. Nós vamos ter uma crise de gás. O gás natural liquefeito. O gás natural liquefeito. Porquê? Porque é produzido, sobretudo, no Qatar, 20% da produção mundial. Atenção, o gás natural liquefeito é uma das grandes descobertas da engenharia. Os engenheiros descobriram que levando o gás a temperaturas de menos 162 graus Celsius.
Ele liquidifica, transforma-se em líquido e o líquido ocupa um volume que é 600 vezes inferior ao volume que ele ocupa normalmente. E é por isso que ele é carregado em navios criogénicos e transportado para todo o lado do mundo. E a crise de Fukushima, no Japão, em 2011, desenvolveu muito este mercado que cresceu muito. O que é que se passa? Os catários têm ali 14.
instalações de liquefação de gás. Atenção que estas são das máquinas mais extraordinárias que a espécie humana já conseguiu produzir, porque os circuitos de refrigeração são muito complexos. E os catários dizem que eles danificaram entre 13 a 4 destes trens de liquefação e para reporem, para a normalidade, vai demorar entre 13 a 5 anos. Isto é mesmo que a guerra terminar amanhã. Todos estes fatores vão se conjugar uns com os outros.
para desencadear uma crise multidimensional na energia, na alimentação, nas cadeias de abastecimento. Prolongada no tempo. Prolongada no tempo. Há cerca de 1.600 navios, uns sequestrados dentro do Golfo e outros ali no estreito do Armuz. São 20 mil marinheiros que estão numa situação muito difícil. A Organização Marítima Internacional ainda hoje publicitou que aquilo é contra todas as regras que reguram o comércio internacional. E ainda por cima temos dois beligerantes.
que são imprevisíveis. De um lado, a imprevisibilidade do Presidente Trump e da sua administração, porque não tem estratégia nenhuma, vira-se para onde dá. Não há um grande analista de estratégia, que é o professor Colin Gray, que escreveu um livro que é Modern Strategia, ele diz quando se trata das forças militares, a estratégia é a ponte que liga os meios militares com os objetivos políticos. Aqui, como não há objetivos políticos, isto colapsa tudo. E do lado iraniano, que é uma ditadura teocrática, é um regime...
que é um regime execrável, portanto, segundo a revista Time, naquelas protestos de janeiro deste ano mataram milhares de pessoas, e o que é que se passa? A ditadura teocrática agora ainda está mais militarizada e mais radicalizada. E, portanto, é uma situação que é de grande incerteza. Já nos disse que esta crise está para durar. Isto é...
Se subitamente houvesse um entendimento, um acordo dos Estados Unidos e do Irão, mesmo que um memorando de entendimento que permita desbloquear os direitos de Hormuz parando a guerra, os efeitos vão, portanto, prolongar-se. Prolongar-se por quanto tempo e que tipo de efeitos vamos ter?
Sim, eu acho que os efeitos, pelo menos um, dois anos, vamos viver situações muito difíceis, portanto este ano vai ser já extremamente difícil, e o próximo, esta crise, com todos os contornos que estivemos aqui a discutir, é uma crise de preços que está-se a transformar numa crise de abastecimento.
atenção ao que se está a passar já na Ásia, a Ásia vai ter repercussões depois ao que se vai passar na Europa. Há países que já estão com circulação alternada. Exato, e com o investimento às Filipinas, à Tailândia, à Índia também, é um problema mais sério, mas depois vai repercutir-se na Europa. E porquê? Porque os mercados petrolíferos...
É muito interessante. Quando há os ciclos normais, eles funcionam num regime que chamamos contango. O que isto significa? Significa que os preços do mercado spot, da venda física diária dos barris, é sempre inferior aos preços do mercado futuro, os obrentes, o NIMEX, o WTI dos Estados Unidos da América.
Hoje os mercados estão a funcionar exatamente no regime oposto, a que os especialistas chamam de backwardation, traduzimos por reversão. Mas é um mercado de extrema reversão. Isto é uma desconexão total hoje entre os preços de venda física diária, dos barris de crude, de jet fuel, de diesel, com aquilo que são os preços do mercado futuro. Para lhe dar alguns exemplos, na Ásia o barril de jet fuel está-se a negociar a 200 dólares por barril.
O diesel a negociar a 180, 190 dólares. E porquê? Porque os operadores, as companhias, tudo aquilo que intervém neste sistema estão com a percepção de que vai haver escassez. E estão a correr atrás de todos os barris que existem no mundo. E a mesma coisa nos mercados de gás. Repara que no meio disto tudo há aqui um grande combate, a minha interpretação, a nível de quem vai dominar a matriz energética mundial no século XXI. O presidente Trump quer que sejam os combustíveis fósseis, que é um desastre.
porque há uma degradação ambiental do clima do planeta, isso vai ser inexorável, como estamos a ver. E depois há a China, que é o maior eletrostado do mundo. Há uma luta entre petrostados e eletrostados. Mas repare que nesta crise, dos grandes produtores mundiais de petróleo e gás, quem é que sai sempre a ganhar? Os Estados Unidos da América.
Porque os Estados Unidos da América fizeram a revolução do shale oil e do shale gas. O shale significa argila, é a rocha argilosa. Durante 150 anos, o paradigma com que se trabalhou na indústria petrolífera, os aerocarbonetos geram-se nestas rochas argilosas e depois com a compactação da crosta migram para altos estruturais anticlinais onde se vão alojar os fluidos.
E isto confirma muito aquela ideia do José F. Schumpeter, que é um economista hoje, dizia que muitas vezes as grandes inovações vêm não do mainstream, mas das margens do sistema. E são estudantes saídos das universidades, os jovens são sempre extraordinários. É por isso que quando eu estava, quando eu era professor no Instituto Supertec, estimulava muito os alunos a pensarem fora da casa. E eles chegam a companhias de média e pequena dimensão e dizem porquê que não vamos perfurar diretamente na rocha-mãe. E a descoberta foi extraordinária, 40% de hidrocarbonetos.
Ficaram na Rocha-Mãe. É por isso que os Estados Unidos têm as três bacias, Bacon no Dakota do Norte, Igurofor e Pérmio no Texas. Cada uma delas é equivalente a um país do Golfo Pérsico, a produzir petróleo dentro dos Estados Unidos. E o Presidente Trump estabilizou todo o Médio Oriente, estabilizou o Golfo Pérsico. Já tomou conta... Estabilizou o mundo, na prática. O mundo. Já tomou conta da Venezuela, que era agora a tomar conta também dos recursos do Irã.
E está a apostar nesta superpotência energética. Os Estados Unidos, de facto, hoje são uma superpotência energética. Repartam a produzir 14 milhões e meio de barris.
de petróleo por dia. Em 2008 produziam 6 milhões. Nunca aconteceu antes. Esta evolução absolutamente incrível. E depois no gás já passaram a Rússia. Já são os primeiros produtores mundiais de gás. E no início deste mês de abril tivemos uma situação impensável. Há poucos anos 68 navios estavam superpetroleiros, estavam a ancorar nos Estados Unidos para se abastecerem.
de petróleo e de gás natural equifeito para trazer esse recurso para o resto do mundo. E por isso o Presidente Trump tem razão quando diz que está a lucrar e as companhias, só que ele... Mesmo assim, para o consumidor americano, dos Estados Unidos, eles estão a pagar o galão de combustível a preço mais caro. Tem toda a razão. Portanto, aquilo era uma parte da equação ou outra. Aquilo que ele esquece é que o mercado petrolífero é um mercado líquido global que funciona e, portanto, os preços...
são regulados e vão atingir os consumidores americanos. E é muito interessante o que está a dizer, Francisco, porque há um limiar que é o preço do galão. Um galão de gasolina é de cerca 3.7 litros e o preço do galão, quando chega a 4 dólares, é um sinal de alarme para os consumidores americanos. Já passou. Muitos estados estão a 6 dólares. Na Califórnia está a 8 dólares. Se combinar isto...
com aquilo que é o impacto das tarifas e das guerras tarifárias do presidente Trump, repare que é uma coisa perfeitamente inacreditável, porque ele desafia a teoria económica tradicional sobre o comércio livre do David Ricardo e diz que as tarifas iam reverter para os Estados Unidos e para desenvolver a economia americana. Um estudo da Penn University diz que 80% dos custos das tarifas estão a ser pagos pelos consumidores americanos e pelas companhias americanas, o resto do mundo adapta-se, procura outros mercados.
Os vários blocos reforçam as suas relações. E tudo isto está combinado. Preços já muito grandes em termos de petróleo, nos Estados Unidos, nas bombas de gasolina, do diesel. Está também o custo de vida a aumentar. A inflação subiu de uma forma impressionante nos Estados Unidos. E, portanto, todas estas variáveis vão criar condições muito difíceis.
Para o Presidente e para as eleições intercaladas. Ele está com 15 pontos de simpatia negativa. Isso era antes do atentado. Depois surgem estes atentados e vamos ver o que é que vai acontecer. Antes de 28 de Fevereiro, antes do começo da guerra de Israel e Estados Unidos sobre o Irão, nas bombas de gasolina portuguesas, o litro de gasolina estava à volta de 1,70, 1,70 e qualquer coisa.
agora está acima dos 2 euros. Pode voltar a 1,70 euro ou nunca mais voltará? Vai ser muito difícil nos próximos anos nós retornarmos à normalidade por todas as razões que estivemos aqui a discutir, porque isso exige um reequilíbrio do mercado mundial. E nós não sabemos quanto tempo... O que sobe dificilmente desta. Exatamente. Quanto tempo é que vai demorar até se restabelecer todo o funcionamento no estreito de Hormuz. E depois a Autoridade Marítima Internacional ainda hoje alertou.
para que não vai ser fácil restabelecer o fluxo e o tráfico marítimo, porque é porque eles têm muito medo de minas e dos ataques do Irã. Aliás, eles referenciam que desde o início deste conflito, 28 petroleiros e navios foram atacados no Golfo Pérsico.
E atenção, isto faz um paralelo com a guerra entre o Irã e o Iraque, se recordam? Entre 1980 e 1988, segundo a Lloyds, que é a maior base de tráfico marítimo internacional, houve 68 ataques. Nessa altura um dos navios americanos, que é o Samuel Roberts, chocou com uma mina iraniana e ficou com um rombo de 4 metros no casco.
e portanto houve vários navios que também foram atingidos. E isto, desde o início deste conflito, as seguradoras são muito atentas, os donos dos navios têm muito receio de exporem os seus navios a esta situação, os custos vão disparar, o frete marítimo já aumentou mais de 5, 6 vezes, e portanto tudo isso... O Irão está a reclamar uma putada pela travessia do... Sim, mas eu acho que isso... Então...
Qual é o receio aqui? É que o Presidente Trump danifica todas as suas alianças. Aliás, vemos a relação que ele tem com a Europa, minou completamente as alianças com a Europa. Está a minar a aliança dos Estados Unidos com os países do Golfo Pérsico. Os países do Golfo Pérsico hoje estão-se a perguntar, as várias monarquias, nós investimos, temos aqui as bases americanas, não contribuíram para a defesa destes países, e ainda por cima o Presidente Trump concentrou-se muito na agenda de Israel.
E a Israel sai daqui com uma superpotência do Médio Oriente. É evidente que os outros países do Golfo Pérsico estão inquietos e estão a pensar como é que vai ser o seu futuro. Todo o seu modelo económico... Para isso confiar na prosperidade e de repente vem tudo abalado. Tem toda a razão. Veja, Dubai, o centro financeiro, a estabilidade, tudo isso está em causa. Mas no meio deste conflito, ele ordenou as forças americanas para desmantelarem alguns dos sistemas de defesa na Ásia.
na Coreia do Sul e no Japão. E criou com os aliados asiáticos, que hoje estão também muito inquietos. Repare tudo isto vindo de um presidente que é impulsivo.
que decide, pensando que é um iluminado, repare que o Wall Street Journal já relatou como é que foi a decisão dele para invadir, para atacar o Irã. Ele foi alertado pelo general Dan Keine, que é o chefe do Estado-Maior Conjunto das Forças Armadas, e o general Dan Keine aqui é uma dissonância completa entre a preparação e a competência das Forças Armadas americanas, que é indiscutível, e depois a impreparação e a superficialidade da liderança política.
Ele alertou, senhor presidente, se atacar o Irã, o Irã vai fechar os treitos de hormusos.
Ele terá respondido, isso nunca vai acontecer porque o regime vai colapsar em 48 horas. E, portanto, decide com base nisto. E, repare, não é preciso ser muito inteligente para ser Presidente dos Estados Unidos da América, tem muitos truíços, muitas coisas, mas um Presidente altamente impulsivo, superficial, ainda por cima, narcisista.
tem-se o pior. Aliás, leva para as negociações, privatiza o sistema de negociações com o Gengel e um promotor imobiliário parceiro dele antes de ser presidente do Pitcov. É uma espécie de equipa da Remax a fazer negociações de geopolítica internacional com todo o respeito pela Remax e pelo setor imobiliário. Mas não se pode transferir daí para as grandes complexidades geopolíticas. E ele faz isso repetidamente. Que mundo virá a seguir, António Costa Silva?
Eu penso que o mundo que vem a seguir depende muito do combate que as grandes democracias mundiais conseguirem fazer à atual situação. Nós temos aqui uma luta muito grande entre aquilo que se pode chamar os predadores. Repare que nós tínhamos duas grandes potências revisionistas da ordem internacional que existia. A ordem internacional é uma ordem liberal, democrática, estabelecida depois da Segunda Guerra Mundial, com os países europeus e a liderança dos Estados Unidos da América.
Tínhamos duas potências revisionistas dessa ordem, a China e a Rússia. Agora temos uma terceira que é os próprios Estados Unidos da América, através de um presidente que está a ignorar completamente as lições do passado e as lições da história. E isto ele vai bater com a cabeça na parede. O presidente Trump é uma figura que tem pés de barro. E, portanto, esses pés de barro cada vez se vão mais sentir ao longo do seu mandato.
O meu ponto é que as grandes democracias europeias, e sobretudo a União Europeia, têm que reagir de forma mais assertiva. E porquê? Porque, como diz o Farid Zakaria no seu livro Era de Revoluções, o destino deste século vai depender deste combate entre o nacionalismo agressivo, o proteccionismo, os predadores e aquilo que as democracias liberais conseguirem fazer. E a União Europeia é herdeira da grande tradição do iluminismo do século XVIII. Se olhar para a nossa grande tradição europeia no século XVIII,
O que os iluministas defenderam foi o primado da razão contra o obscurantismo, foi defender a ciência contra a ignorância, foi defender os direitos humanos, foi defender a soberania dos países, foi defender todo este conjunto e o primado do direito. E tudo isso é absolutamente vital hoje.
E a Europa tem que fazer muito mais, tem feito algumas coisas, por exemplo, o tratado do Mercosul é muito importante, com o tratado com a Índia, com a Austrália, com o Canadá, tem que fazer aquilo que o Mark Carney, o Primeiro-Ministro do Canadá, disse em Davos, as potências médias coligarem-se, desenvolverem várias alianças. E quanto mais alianças existirem... Vê que essa possibilidade esteja a crescer, ou seja, um entendimento entre os países outros.
Sim, sim, isso está a crescer, mas eu gostaria que crescesse muito mais, porque é um bocado o que dizia o grande poeta irlandês William Meats. Ele escreveu em 1919 um poema extraordinário que é de Second Coming. E ele dizia, o centro está-se a desmoronar, os extremos crescem em toda a parte, aos melhores falta a convicção, enquanto os piores estão animados de uma intensidade apaixonada. Nós vivemos num mundo em que os melhores...
porque têm dúvidas, ficam mais ou menos paralisados, e os piores, baseados em ideias simplistas e completamente erradas, tentam dominar o mundo. E este combate é um combate muito fulcral. Até que ponto a transição energética está posta em causa agora? Que impactos é que esta crise toda pode ter sobre a emergência climática? O Brasil... ...
países como a África do Sul, como o Canadá, que é extremamente importante, como o Reino Unido, como a Índia, como a Coreia do Sul, o Japão, a Austrália, a Nova Zelândia, nós temos que acelerar a transição energética. E porquê?
Porque, repara uma coisa, a guerra da Ucrânia pôs em causa o modelo energético europeu. A Europa dependia de 45% do gás barato russo. E se for ver hoje os números, para onde é que a Europa saiu para os Estados Unidos da América? 50% das importações de gás natural liquido e feito que a Europa fez em 2025 vêm dos Estados Unidos da América. Os Estados Unidos da América com esta liderança é uma liderança impervisível. Aliás, a grande questão destes predadores...
que dirigem algumas destas superpotências, é que usam a energia, o comércio, a tecnologia, as cadeias de abastecimento como armas geopolíticas, como armas de guerra. E, portanto, a única maneira é a Europa avançar na eletrificação das suas economias, na aposta das energias renováveis, ligar todo o sistema energético europeu. Eu, muito antes de ser ministro da Economia, fui convidado.
por deputados portugueses ao Parlamento Europeu, como a atual Ministra da Energia e do Ambiente, para ir discutir as políticas energéticas europeias. E levava nessa altura um mapa que mostrava a dependência dos países, do centro e do leste da Europa, alguns 90%, 100%, a Alemanha naquela altura 60%.
do gás russo. E eu dizia, é fundamental criar-se um mercado único da energia, que continua a não existir hoje, ligar à Península Ibérica, porque na Península Ibérica já temos mais de 50% de recepção da capacidade de importar gás natural liquido e feito. E eles nunca quiseram isso. Disseram, não, a Rússia é um parceiro fiável. Eu dizia, quem era um parceiro fiável era a União Soviética.
Tinha o Drusba Line, o grande pipeline, mesmo no auge da Guerra Fria, nunca interromperam o Barcelona. Mas que o Presidente Putin interrompeu várias vezes. E eu disse-lhe, o Presidente Putin fez uma tese que é de mestrado, que é como usar a energia como arma geopolítica. Isto vai acontecer, acabou por acontecer. Mas depois a União Europeia, eu sou profundamente europeísta, mas depois não tira as ilações e nós substituímos uma dependência por outra.
Quando devíamos acelerar toda a transição energética. E porquê que digo isto? É ver o caso de Portugal.
Portugal entrou no século XXI e dependíamos em 89% dos combustíveis fósseis, petróleo, gás, carvão. Hoje dependemos de 64%. Não há muitos países do mundo que tenham reduzido 25 pontos percentuais em pouco mais de duas décadas. Mas 80% da eletricidade que nós consumimos hoje no país é eletricidade renovável.
Vem da eólica e da solar. É um nome extraordinário. O que é que acontece? É um nome extraordinário. Vai ver os dados do Eurostat. Os preços de produção de eletricidade em Portugal são 20% inferiores à média europeia. É uma grande vantagem competitiva. O que é que temos que resolver aqui? Depois temos um Estado que é muitas vezes muloso e põe aqui em cima custos políticos, custos de sistema e, portanto, quando chega a fatura final aos consumidores e às empresas, digamos, esta grande vantagem é um bocado obnubilada e não pode acontecer isso.
Eu penso que isso é absolutamente fulcral. Mas nós não podemos esquecer, eu sempre disse desde há muitos anos, por exemplo, que a energia solar ia ser uma das grandes energias deste século. E porquê? Porque todos os dias que passam nós recebemos do solo 8 mil vezes mais energia que toda aquela que o planeta consome, com a criatividade humana, o espírito de inovação. E isso hoje está aí. Nos últimos 10 anos, o custo da energia solar reduziu 90%. E aí
a deólica 30%. Estas fontes são muito competitivas e, portanto, a Europa também tem que apostar nas redes, tem que ligar todo o sistema energético europeu e o sistema elétrico. Se fizer isso, estão estimados entre 40 a 43 mil milhões de euros de poupanças para os consumidores europeus. Isto é absolutamente vital. E depois as redes podem funcionar e evitar apagões se usarem, portanto, os inversores de última geração, que são os chamados inversores grid forming.
que restabelecem o restart autónomo dos sistemas, geram toda a potência, gerem bem a potência reativa, portanto há soluções tecnológicas. É preciso apostar nisso, senão vamos voltar ao mesmo. E olhe para os números, 2025, a Europa gastou 380 mil milhões de euros em portar petróleo, gás e alguns países de carvão. E neste, só no mês de março,
Em cima desse valor, o aumento é de mais 24 mil milhões de euros. Isto é, com o aumento dos preços dos combustíveis fósseis, nós arriscamos a ter um ano de 2026 e 2027 em que estas despesas vão ser colossais, quando devíamos reorientar completamente o sistema, apostar nos recursos domésticos, na eletrificação das economias e, sobretudo, três setores que são vitais e que também explicam porque Portugal ainda depende muito de combustíveis fósseis, que é a frota automóvel, por exemplo, em Portugal temos mais de 6 milhões de veículos.
Só 5% é que está eletrificado. Seria o momento para lançar a eletrificação da mobilidade. Absolutamente. E nos edifícios é a mesma coisa, no aquecimento. Aliás, há uma grande agenda mobilizadora do PRR, que é dirigida pela Bosch Portugal, que é a agenda Iliance, e eles estão a descobrir soluções.
energeticamente sustentável para os edifícios, por exemplo, esquentadores elétricos instantâneos, bombas de calor, tecnologias híbridas. E depois é a descarbonização das indústrias. Também temos uma agenda, temos um programa no PRR que é a descarbonização da indústria. 715 milhões de euros para as cimenteiras, as cidrúrgicas.
A petroquímica, que estão já a adotar a eletrificação dos sistemas, o coprocessamento de resíduos e várias soluções tecnológicas, podem ser importantes para o futuro. E tudo isso temos que acelerar. Seremos muito mais autossustentáveis e não dependeremos destas crises em cascata que estão a sacudir o mundo. Quer ouvir mais notícias como essa? Ouça na Apple Podcasts, no Google Podcasts, no Spotify ou em qualquer leitor de podcasts.
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