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Sobrecarga de trabalho e jornada dupla agravam saúde mental das mulheres no Brasil

05 de maio de 202610min
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As comemorações do Dia do Trabalhador, em 1º de maio, ampliam debates no país sobre o fim da escala 6x1 e a dupla jornada de trabalho das mulheres, que também assumem a maior parte das tarefas domésticas e de cuidados. A jornalista Ritta Zumba conversou com a economista Lia Lopes sobre como essa sobrecarga afeta a vida profissional e como impacta na saúde mental das mulheres. Ouça a entrevista.

Participantes neste episódio3
A

Adriano

HostJornalista
L

Lia Lopes

ConvidadoEconomista
R

Ritta Zumba

ConvidadoJornalista
Assuntos4
  • Sobrecarga de trabalhoTripla jornada (trabalho, casa, cuidado) · Diferença de horas trabalhadas entre homens e mulheres · Impacto na saúde mental das mulheres · Trabalho doméstico invisível e não remunerado
  • Igualdade de GêneroCuidados comunitários e redes de apoio · Manzanas do Cuidado (Colômbia) · Redistribuição do tempo de trabalho doméstico · Licença paternidade · Equiparação salarial e flexibilidade no mercado de trabalho
  • Saneamento como Política de Saúde PúblicaRemuneração do trabalho doméstico · Política Nacional de Economia do Cuidado · Importância de creches e serviços públicos · Impacto econômico da não remuneração do trabalho doméstico
  • Diferenças de exaustão por gêneroAusência de serviços públicos de cuidado · Discrepância salarial entre gêneros · Educação cultural e social para servir
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Entrevista O dia do trabalhador e da trabalhadora foi na última sexta-feira e o nosso assunto agora é o impacto da sobrecarga de trabalho na saúde mental das mulheres. Como a tripla jornada das mulheres, trabalho, casa e cuidado com a família tem levado a um cenário preocupante no Brasil.

A Rita Zumba, produtora do Conexão e do programa Pautas Femininas, conversou com Lia Lopes, especialista em economia do cuidado, que analisa como a sobrecarga doméstica impacta a vida profissional das mulheres. Ouça a entrevista. Lia, muito obrigada por conversar com a gente.

Eu que agradeço por estar com vocês aqui. Como a dupla jornada impacta a saúde mental das mulheres? A dupla jornada de trabalho, que envolve trabalho remunerado e não remunerado, impacta muito a saúde das mulheres porque acaba fazendo com que ela tenha uma sobrecarga de atividade. Então, em média, as mulheres trabalham sete horas a mais do que os homens na semana.

justamente somando esses trabalhos remunerados e domésticos, que é geralmente não remunerado. Então, em torno de 40% das mulheres hoje estão vivendo essa sobrecarga e isso faz com que haja um aumento de transtornos mentais. Mais ou menos os dados indicam que em 2024, 72% das mulheres notificaram sentirem algum tipo de transtorno mental em função dessa sobrecarga de trabalho. O trabalho doméstico ainda é invisível nas políticas públicas?

Sim, ainda não está latente nas políticas públicas essa sobrecarga e o quanto que a gente pode minimizar ela remunerando adequadamente o trabalho doméstico. E hoje a gente tem uma média de 21 horas semanais em que o trabalho doméstico acontece mais para as mulheres do que para os homens, que em média trabalham...

11 horas na semana, mas esse trabalho não remunerado faz com que as mulheres sintam mais sobrecarregadas e também mais empobrecidas, porque elas não recebem por isso, né? E as políticas públicas, justamente por não...

olharem para essa perspectiva, reforçam um tipo de trabalho de cuidado, principalmente, só sobre as mulheres. No ano passado, saiu uma política nacional de economia do cuidado, que está tentando reverter, olhando para políticas públicas que remunerem e que consolidem ações para as mulheres que cuidam.

Passa só creches, cuidado com os idosos, serviços públicos que atendem a população, que geralmente as mulheres ficam sendo as cuidadoras. Enquanto isso não se implementa concretamente, essa sobrecarga de trabalho ainda recairá em muito sobre as mulheres. Essa sobrecarga de trabalho que também é conhecida como trabalho invisível, né? Isso.

mesmo, trabalho invisível, mas que na verdade é muito visível, né? Se você não tem alguém que limpe, que cuide, que passe a roupa, que cozinhe pra você, a sua vida para. Então, esse trabalho ele é invisível porque ele não é remunerado, mas ele é muito concreto e ele é a base que sustenta todas as outras relações. Então, se as pessoas não tivessem uma mulher fazendo isso por elas...

a estrutura familiar seria totalmente corrompida, totalmente desestruturada. Então, é um trabalho invisível que é bem concreto. Sim, muitas pessoas até mesmo nunca nem ouviram falar sobre o que é o trabalho invisível. São os cuidados com a família, cuidados domésticos, que, como você disse, se não é feito, é que a gente percebe, né?

Exato. Eu acho que o que mais evidenciou esse trabalho foi durante a pandemia, quando todos ficaram em quarentena, a gente teve que ficar mais tempo juntos em casa. E aí essa sobrecarga ficou latente, porque as pessoas começaram a enxergar que as mulheres estavam ali fazendo o dobro, o triplo de coisas para conseguir...

E depois da pandemia, eu acho que essas questões ficaram mais visíveis, mas ainda assim elas não tiveram o reconhecimento em remuneração e esforço que as mulheres realizam. Então por isso que pensar políticas públicas, principalmente para esse trabalho invisível...

sustenta toda a teia de cuidado da nossa sociedade é tão importante. E remunerá-los adequadamente dentro das estruturas é fundamental. Na sua opinião, por que muitas mulheres não conseguem reduzir a sobrecarga e a carga de trabalho? Olha, existem alguns fatores que reverberam essa não redução de carga, né? O primeiro acho que é uma questão estrutural, né? Então a gente tem ainda uma ausência de serviços públicos de cuidado, de apoio, que tire essa sobrecarga das mulheres. Então a ausência de...

estrutura de Estado faz com que as mulheres acabem tendo que trabalhar mais. A segunda é a própria economia, então o fato da gente ter mulheres que ganham em média 21% menos do que os homens, reforça uma limitação de negociação de salário, então se eu ganho menos do que o meu marido, a chance de eu manter ele trabalhando em detrimento de mim é maior, e esse reforço de discrepância salarial também gera uma sobrecarga.

de trabalho, com que as mulheres trabalhem mais. E o terceiro é cultural, né? As mulheres foram educadas socialmente, culturalmente pra servir. E essa estrutura de servir

faz com que ela tenha naturalmente assumido esse papel de trabalho doméstico, não remunerado, invisível. Só que isso gera uma sobrecarga absurda, como a gente está vendo, né? E isso faz com que elas tenham uma tripla jornada, às vezes, né? Estudo trabalho e casa, ou filhos, enfim, que acaba fazendo com que elas tenham muitos desgastes. Então, acho que esses três fatores juntos faz com que a gente não consiga ter uma redução da carga de trabalho das mulheres.

Você é especialista em economia do cuidado e impactos da sobrecarga doméstica na vida profissional das mulheres. Pela sua experiência, você já consegue enxergar alguma mudança de comportamento na sociedade? Eu estive em alguns países da América Latina estudando sobre esse assunto, visitando e conhecendo experiências nesse sentido. E uma das coisas que me surpreendeu é que sim, há possibilidades de criar alternativas que façam com que essas divisões...

de trabalho, né, e essa sobrecarga seja revista. Então, uma das experiências que me chamou muito a atenção foi a questão dos cuidados comunitários, onde mulheres que não têm filhos viravam redes de apoio das mulheres que tinham filhos em lugares onde não havia creche.

onde não havia uma estrutura pública para dar apoio. Essas outras mulheres davam suporte. Também estruturas públicas como na Colômbia, em Bogotá, que se chama Manzanas do Cuidado, que é um centro em que homens e mulheres, mais do que espaços de lazer, de capacidade...

e qualificação, também aprendem sobre divisões de tarefas domésticas. Então, os homens tinham cursos para aprender a lavar fralda, a cozinhar, a passar roupa, que eu acho que para a manutenção da vida é fundamental, independente da relação com...

né, conjugal, e aí eu acho que toda essa estrutura faz com que a gente perceba que existem alternativas. Então, sim, é possível, mas ainda nós estamos muito ok da potencialidade do que, inclusive, a própria economia do cuidado pode gerar. E, só pra fechar,

Todas as mulheres que fazem esses trabalhos invisíveis, domésticos, não remunerados, fossem remuneradas, nós acrescentaríamos na economia global 11 trilhões de dólares. Seria a quinta maior economia do mundo. Então, o fato de a gente ainda não remunerar essas mulheres, a gente também está tendo uma perda econômica muito grande para a nossa sociedade.

Então, para mim, o reparo histórico, social, cultural, econômico, também perpassa por tudo isso. Se a gente tiver melhores condições para as mulheres viverem, melhor será a nossa sociedade como um todo. A gente vai ter muito mais equidade e qualidade para todo mundo. Perfeito. E para encerrar, Lia, na sua opinião, o que precisaria mudar para equilibrar essa divisão, para que as mulheres fossem menos afetadas fisicamente, mentalmente, ou para que elas se sentissem menos sobrecarregadas?

Um caminho que eu já citei aqui para resolver essa situação, que ela é sistêmica, ela é estrutural na nossa cidade, é pensar políticas públicas de cuidado. Então, o fato da gente ter agora uma política nacional de cuidado que está olhando com atenção para isso, faz com que haja uma possível expansão de creches, serviços públicos, de escolas.

integrais, que apoiem as mulheres, elas terem condições de deixar os seus filhos em um ambiente seguro, protegido e elas poderem exercer a sua profissão com mais tranquilidade. Então, ter uma estrutura pública a serviço é muito importante para essa divisão ser melhor e equilibrada.

Uma segunda camada é pensar essa redistribuição do tempo de trabalho que as mulheres têm com as outras pessoas que compõem a sua própria estrutura familiar. Então, a gente tem uma questão aqui de pensar a divisão do trabalho doméstico com os homens, com os maridos. A gente tem agora, foi recentemente aprovado, a questão da licença paternidade.

dos pais poderem ficar mais tempo com seus filhos, não só por uma questão de educação, de convivência, mas que isso também ajuda muito nessa questão do cuidado, num momento em que é crucial para o desenvolvimento da criança.

que é para você o filho, então, redistribuir o tempo do trabalho doméstico é fundamental. Um terceiro momento seria pensar numa equiparação salarial com mais flexibilidade, então, o mercado de trabalho também tem um papel fundamental nessa equidade, nesse equilíbrio de divisão de tarefas.

com as mulheres e ter demandas de trabalho mais flexíveis ou jornadas salariais equiparadas pelo mesmo nível de escolaridade, recebendo a mesma coisa que os homens, seria fundamental. E com isso chegaríamos numa possível mudança cultural, em que a gente finalmente conseguiria ter um respeito às mulheres, percebendo os desequilíbrios que existem.

foi solidarizando e apoiando as mulheres, porque elas não são as únicas responsáveis por todo esse tipo de trabalho. Então, para mim, esse conjunto de infraestrutura social seria a base para equilibrar essa mudança de divisão de carga horária para as mulheres. Lia, muito obrigada por conversar com a gente. Eu que agradeço, foi um prazer. Obrigada. Obrigada.

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