NerdCast 1039 - Linguagem Define Nosso Jeito de Pensar?
Lambda lambda lambda, nerds! Neste NerdCast, é hora de reunir o time de ciência para uma conversa sobre comunicação e as diferentes formas de linguagem que guiam as nossas vidas (o que, parando pra pensar, por si só já é um exemplo, hehehe).
No episódio, Alottoni e Azaghal recebem André Souza, Ana Arantes e Altay de Souza para discutir como a percepção de o que é "linguagem" é o fruto de diversos fatores que você talvez nem imagina. Mas não antes de um debate extremamente necessário sobre o motel favorito dos cientistas, que já virou também o nosso.
NerdCon
- Estão abertas as vendas da PRIMEIRA NERDCON! O evento acontece em 20 de setembro de 2026, no Memorial da América Latina, em São Paulo. Confira todas as informações e compre seus ingressos (com direito a meia-entrada para TODO MUNDO!), no site: https://nerdcon.com.br/
Jovem Nerd Esporte Clube #FicaJNEC
- Acompanhe os últimos jogos da copa com episódios inéditos no feed do JNEC + live da final neste domingo (19 de julho). Conheça todos os canais e redes sociais do programa em: https://linktr.ee/jnesporteclube
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- Motel Dallas e CaribeBelo Horizonte · Suíte Árabe · Slogan
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Look at the delight on his face. There's no doubt about it, it just tastes better. Matchdays deserve Pepsi. Food deserves Pepsi. Grab a pack of Pepsi Zero Sugar for today's match. It's poetry in motion! Você está ouvindo Nerdcast no Jovem Nerd.
Aqui Alexandre Antônio do Jovem Nerd. O poder de fala é uma habilidade cognitiva altamente superestimada. Meu Deus, eu quero fazer um paper sobre isso. André, me ajuda aqui.
O André Souza me deu até uma dor no noroeste da minha cabeça.
Oi, eu sou a Niarantes. E eu literalmente fiquei sem palavras.
Olá pessoal, aqui é o Altair de Souza. O efeito do social na vida da pessoa é sempre um efeito no corpo, né? Daí a importância desse tema que é a linguagem, do qual eu gosto muito. Compartilho disso com o André também.
Olha aí, aqui é a Azaghal. Eu tô fascinado com os motéis que o André frequenta. A suíte árabe é uma parada de outro planeta, sério. Quero fazer um vídeo de react.
Dallas e Caribe, o destino de quem ama.
Cara, que suíte espetacular! Sério, quero fazer um Nerd Office fazendo a visita suíte árabe com o André, eu e ele visitando suíte.
Gente, peraí, peraí, olha só, nosso público está perdido. Antes da gente clicar em gravar, o André trouxe à luz da conversa, do bate-papo, o Motel Dallas e Caribe.
É isso? É um Motel Dallas e um Motel Caribe, são dois hotéis diferentes.
Ah, é um Motel Dallas e um Caribe, e lado a lado?
É a mesma empresa.
Então eles chamam de Dallas e Caribe.
Olha aí, Azaghal, tipo Vila Rica e antigo Vila Rica e White House. Não, não, você não tem ideia do que que é isso aqui, o Motel Dallas e Caribe. Nossa Senhora, como é que o André conhecia, né? Requinte, mas é uma tradição, saíram desse lugar, as palavras foram criadas aqui.
Um casal estava aqui e eles criaram essas palavras, não existiu antes desse motel.
A ideia é que a gente fale sobre linguagem nesse Nerdcast, mas a gente abriu bem com um motel dólares, requinte tradição.
Quem é de Belo Horizonte vai conhecer.
Porra, se não vai, tem que ir, porque você fica perdendo. É uma parada extraordinária.
É isso, gente, é ciência, linguagem e meios.
Canelada.
Muito bem, acabou.
Vamos para mais uma semana de rádio marcada.
Vamos para mais uma semana de vença, canalização.
Podcast, preciso preservar minha voz que eu tô rouco por causa dessa porra dessa Copa do Mundo.
Vamos!
Eu não posso gritar, eu tenho que saber trabalhar sem gritar. Olha só, a gente fez essa semana, Azaghal, a super live da NerdCon.
Exato, estão disponíveis já à venda os ingressos da NerdCon, que acontece quando? Dia 20 de setembro de 2026, um domingo, em São Paulo, no Auditório Simão Bolívar, lá no Memorial da América Latina.
E o que é?
Ó, vou explicar para você o que é a NerdCon. A gente explicou na live, mas eu vou explicar rapidamente aqui. NerdCon é o Nerdcast 1000 on steroids. A gente adorou fazer o Nerdcast 1000.
Legal. E esse ano a gente tá fazendo 20 anos de Nerdcast, e obviamente a gente não pode repetir o Nerdcast 1000 porque só tem um. Exato.
E a gente tinha a marca NerdCon registrada há mais de décadas.
Exato.
Vamos de NerdCon. E é isso, a convenção do Jovem Nerd.
Exato, do universo Jovem Nerd, para a gente se conectar de novo daquela forma gostosa que a gente fez no Nerdcast. Cara, foi muito bom, foi um evento histórico pra gente, foi emocionante pra todos nós. E todo mundo que teve lá também relatou isso, e todo mundo pediu mais. Quem não foi pediu, ah, Bento, eu quero, façam mais. E a gente falou, porra, 20 anos de Nerdcast, mais uma colaboração, mais um evento, por que não transformar essa na primeira edição da NerdCódaga?
Os ingressos estão à venda em nerdcom.com.br. Tem setores que já estão esgotados, tem lotes que já estão esgotados, mas ainda dá tempo. Então você acessa aí nerdcom.com.br Mas eu vou te dar uma dica importante, que é quando você entrar lá no site e você for escolher, e é um site novo que a gente tá usando, site parceiro, que é legal, diferente do ano passado, porque você pode escolher o local mesmo, a cadeia, e não só o setor como foi no ano passado.
Então você vai lá, escolheu um lugar, dois, quantos lugares você quiser comprar, e aí você vai ver duas opções de valor: valor inteira, entrada inteira, ou meia, meia estudante barra social. E aí que eu quero dar a dica: todo mundo pode optar pela meia.
Exato.
Caso você seja estudante maior de 65 ou qualquer outro que entre no critério da lei, obviamente. Mas se você não estiver enquadrado nessa, você pode optar pela meia também por conta da meia social.
Que que é isso?
A meia social é simples. Você vai lá optar pela meia social, vai pagar uma entrada, e no dia do evento você vai levar um livro.
É isso que a gente tá fazendo, vai doar um livro que esteja em bom estado. Não vai me doar um livro todo detonado.
Mas bom estado não significa que seja um livro novo, não. Um livro que for utilizado por você, tem marca de uso, é um ótimo livro, um bom estado.
Exato, exatamente. Você doa o livro em bom estado e isso te garante a meia entrada social, cara.
Então todo mundo é elegível a meia entrada social. E obviamente quem é estudante, etc., é elegível a outra meia entrada. E a gente vai recolher esses livros e depois doá-los junto com o pessoal da Estante Virtual para alguma instituição que a gente ainda vai definir e vai avisar vocês para onde tá indo os livros e a doação, etc.
Mas você vai perguntar, mô, mas como é que vocês vão garantir que se eu pagar a minha entrada agora, que eu vou chegar lá em setembro e entregar o livro? A gente entende que você é uma pessoa de bom coração e que você vai fazer isso.
Porque você quer fazer isso.
Exato, é isso, gente, é isso.
Se você não tiver comigo, você não vai entrar, mas esse é um outro ponto. Mas o importante é isso, tem essa opção. Agora, quando você compra sua entrada, garante a sua entrada para NerdCon, além de você garantir estar no teatro com a gente assistindo essa gravação de mais de 2 horas de Nerdcast ao vivo lá para você acompanhar eu, Jovem Nerd, Didi Braguinha, Catuxa, Tucano, Rex, Carlos Voltor, Marcelo Bassoli, esse Orcá, 9, 9 Nerdcast no palco.
Além disso, claro, vai ter área de Foyer, que você vai interagir lá com as ativações que a gente vai ter, que a gente vai anunciar ao longo das semanas. Vai ter a roda de artista. Não tem um artista ali porque não é evento como Anime Friends ou como San Diego Comic-Con, como CCSP. É um evento para comunidade, mas a gente quer trazer os artistas que estão envolvidos com o Jovem Nerd, com o Nerdcast, principalmente que esse ano a gente tá comemorando 20 anos de Nerdcast.
Então a gente vai ter o Randall, por exemplo, né, que faz a vitrine toda semana.
Você compra as artes dele, foto.
Queremos outro, a gente tá convidando e combinando com eles, eles estarão lá, mas serão 5 artistas. A gente chamou o lugar de Roda de Artista, como lugar circular, de fato.
Maneiríssimo.
Vai ter comida, vai ter bebida, vai ter interação entre os nerds, vai ter board game, né, glossário para você poder jogar e testar. Vai ter muita coisa legal.
Domingão mega nerd.
Exato.
Mas além disso tudo, no kit, quando você compra o ingresso, vem alguns itens. E esses itens são uma cartela de adesivos com arte da primeira Nerdcon, tem um dado comemorativo de 20 anos do Nerdcast, isso, um D20 irado, irado, personalizado. Dourado que vem numa caixinha especial, quase uma joia. Temos os pins colecionáveis, né? São 3 modelos de pin, no kit vem um. Isso. Então você vai receber um pin, mas no evento terão outros.
Você pode comprar os outros 2 ou mais um se quiser, e você pode até inclusive no evento trocar com outras pessoas.
Porque esses itens todos, mais o Migalhas de Sabedoria do Senhor K, finalmente o livreto com as frases mais espetaculares, clássicas e sábias do Senhor K, para você guardar no bolso. É um livreto, é livro pequenininho, exato, mas capa dura, com 80 páginas, que você abre em uma página aleatória e você tem um minuto de sabedoria ali.
Uma migalha, uma migalha, uma migalha de sabedoria do senhor Carlos. Você pode levar no bolso da camisa. Ah, estou numa situação que eu preciso de uma migalha de sabedoria aqui. Aí você puxa no meio de um evento social, você tira o seu livro e joga uma sabedoria, e você abafa na noite. E aí todos esses itens você vai receber lá no evento.
Isso, você comprou o ingresso, você tem direito todos esses itens desse kit.
Exatamente. Então já está disponível em nerdcom.com.br. Garanta o seu e a gente se vê lá em São Paulo, dia 20 de setembro. Agora, jovem nerd, é melhor você poupar sua voz, que semana que vem tem gravação para o Nerdcast RPG.
Pois é, olha só como é que tá minha voz.
Tem que melhorar, porque não, né?
É isso.
Então vou chamar aqui, ó, vai lá que eu vou chamar o Marcelo Bassoli para me ajudar. Muito bem, vamos para mais uma semana de meios e caneladas no Nerdcast.
Vamos! Agora tem que falar espanhol, cara. Agora, olha aí, a Espanha 100%, não tem como.
Somos todos espanhóis agora, né, Marcelo Vassoli?
Nós outros somos espanhóis. Agora sim, agora sim. Ai, caraca!
Pô, é bem lembrado, né, porque a gente tá chegando aí na final da Copa do Mundo. Mais de um mês de transmissão. Vamos chegar no 42º episódio de Jovem Nerd Esporte Clube.
Exato, nosso querido JNec. E, cara, foi uma jornada, né? Foi uma jornada boa demais.
Pô, cara, eu tava... né, a gente tem um episódio pra falar das expectativas pra final. Que inclusive vai ao ar hoje, sexta-feira. Então já olha aí no feed.
Exatamente.
Sábado tem lá o jogo terceiro e quarto lugar, que ninguém se importa, né? Pior jogo da Copa, obrigado a jogar esse jogo. Exatamente, os caras podiam só ganhar um quase lá, sacou?
É troféu quase lá, é o encontro dos perdedores, né?
Basicamente. Mas a gente vai estar falando sobre as expectativas da final que vai acontecer nesse domingo e vai ter a live do Vidani. E segunda-feira vai ao ar o último episódio desse arco inicial, né, que foi a Copa do Mundo. 42 episódios, profético, como diria Zagallo, né?
Exato, olha aí, ó, é isso. Inclusive a gente vai gravar logo depois da final, a gente vai gravar o programa programa e ele vai ao ar aí na segunda-feira para vocês ouvirem nossas reações do campeão, né? Quem vai ser o campeão?
E comentar quem vai ser o campeão. Só tem um campeão possível, só tem uma possibilidade, né? La Rora, La Fúria!
Eu tô torcendo para a EA cravar mais uma, né? Que eles cravam, faz 4 Copas que eles cravam o campeão lá naquela simulação que eles fazem no jogo. E esse ano deu a Espanha, né, que eles fizeram no começo.
Olha aí, vai ter festa aqui em casa, vai ter festa na casa do Javier Bardem, é isso, vai ter festa na casa do Julio Iglesias, da Família Real.
Porra, vou pedir uma paella aqui no delivery.
Olha, eu vou fazer para ele.
Mas aí eu não vou estar aí para comer, que foi foda, né?
Infelizmente não, infelizmente não. Mas então, ó, sintonize aí no feed do Jovem Nerd Esporte Clube. Inclusive, tô sabendo que tem uma campanha aí. Como é que é isso?
Exato, fica JNEC, né? Fica Jovem Nerd Esporte Clube, tirem uma fotinho assistindo o programa, né, ouvindo e tal, e marquem @JNESPORTECLUBE. Olha, é uma página nova agora. A gente tem, cara, temos até página nova no Instagram.
Tá com rede social, que isso, cara?
A gente tava dentro do Jovem Nerd Universe ali, né, na página, mas agora teremos um feed de Instagram para nós, para nós outros.
Excelente! Olha aí, muito bom!
É isso aí, usem aí @jnsporteklube, marque a gente, joga nos stories aí que a gente vai compartilhar aqui para convencer a diretoria, né, em busca dos 3 pontos aí. Time tá unido!
E se você não quiser ouvir os recados e e-mails do último Nerdcast, pode pular diretamente para 27 minutos e 45.
Formas de linguagem, arte dos fãs. Marcelo Bassoli, nós temos aí a xerifa Mel Osmiles pelo Francisco Silva. Ficou legal para caramba, cara!
Legal!
Ela que foi interpretada aí pela Karen Soarelli, né?
Exatamente, Karen é a nossa xerifa.
Inclusive encontrei ela no DOF aí que rolou semana passada, cara.
Rolou todos os eventos possíveis no final de semana passado, né? Porque teve DOF, teve um evento de anime, se eu não me engano, é o Anime Friends, né? Anime Friends ao mesmo tempo. E teve o SANA também, também lá em Fortaleza, exatamente no mesmo final de semana. Eu tô vendo todo mundo em evento e tá rolando Copa do Mundo, que é outro evento também, inclusive, né?
Que é o grande evento, né? Mas pô, foi. E ela tava lá, foi bem legal. E cara, eu preciso ainda ouvir o segundo episódio, mas é que agora, como está em Copa, né, estou mais focado na Copa do Mundo, porque eu de ouvir pintando as miniaturas de um jogo de tabuleiro de Velho Oeste que eu tenho aqui, entendeu? E aí eu fico no clima. Então tô aguardando aí para o segundo episódio.
Mas a arte ficou muito legal com o rosto da Karen, as armas da Karen, escrito Lei e Ordem nos detalhes das gravações. Pô, ficou incrível, cara, muito maneira a arte. E nós temos também a galera de cacete e agulha, a galera que doa sangue e salva vidas: João Vitor Sucin, Thiago Hugue, Caio Bonatti, Vânia Freire, Maria Rita Costa e João de Oliveira e Laíssa Alves. Muito obrigado a todo mundo que doa sangue semanalmente e ajuda a salvar vidas.
Boa!
Altemar Gavião, profissão bancário e escritor. Olha só, hein, bancário, escritor. Santa Luzia, Paraíba. Olá, Alexandre e Azaghal!
Errou a escalação porque o Alexandre tá no banco, que tá rouco.
Ele tá no banco, exato, e tá poupando a voz, tá na reserva. Ele tá perdendo a voz torcendo na Copa do Mundo. Onde já se viu isso? Isso é maluquice, que loucura! Ó, ano passado eu tive o privilégio de ter publicado um conto na coletânea As Aventuras de Feldon.
Olha aí, Alma!
Olha aí que legal!
O que foi a realização de vários sonhos ao mesmo tempo. Primeiro, ser publicado profissionalmente, e depois poder colaborar com vocês e esse projeto maravilhoso que é o Nerdcast RPG. E ainda ver meu nome ao lado de tantos autores que eu admiro tanto, como Leonel Trevisan, a Jota, meu amigo Ricardo Balbino e tantos outros. Estou escrevendo para esclarecer o conceito de mutantes ômega. Agora eu quero ver.
Boa!
Essa eu quero, que se nem a Marvel conseguiu esclarecer esse conceito, que para ser sincero nunca foi 100% definido nos quadrinhos. Exatamente. Vamos lá. Recentemente, no arco Cracoa de Jonathan Hickman, foram estabelecidos os 3 critérios do que se classificaria o nível ômega. Número 1: os poderes do mutante ômega precisam ter potencial para afetar o planeta inteiro. Ok, legal. Este critério é fácil de ser entendido quando pensamos Tomamos Magneto e Tempestade como exemplo, ou até o Professor X, que pode rastrear mutantes em qualquer lugar do mundo. O que exclui Xavier da lista é o segundo critério.
Mas aí o primeiro critério entra também o Homem de Gelo, né, como foi dito, inclusive.
Porra, Homem de Gelo, cara, exato. Em teoria ele consegue congelar a porra toda do mar, sei lá. E a Fênix é ômega também, não é?
Ela tem que ser, né? Mas a Fênix é mutante ou entidade?
Então, a Fênix ela é entidade dentro da Jean Grey. Acho que esse combo Jean Grey e Fênix, entendeu? Não é a Fênix em mim. Aí em mim, acho que não, entendeu? Não sei se ia ter tanta força. Número 2: se mais de um mutante possuir o mesmo poder, apenas o mais poderoso entre eles será considerado Ômega. Olha, isso aqui já é um diferencial bom. É nesse ponto que Xavier deixa a lista e dá lugar à Jean Grey. Afinal, se ele fosse o mais poderoso telepata do mundo, a Fênix o escolheria ao invés dela.
Olha aí, então é isso. Então foi a Fênix que determinou que a Jean é a mais fodona e não o Xavier. E número 3: para ser considerado Ômega, os poderes daquele mutante não podem ser superados pelas habilidades de um não mutante. Como exemplo, aqui nós temos o Forge. Olha, o Forge, trouxe o Forge, que possui a maior mente criativa entre os mutantes, mas que mesmo assim é constantemente superado por indivíduos não mutantes como Reed Richards ou Tony Stark. Entendi, ok, ficou claro aqui.
Vocês nunca pensaram em fazer uma estátua do Forge só de shortinho?
É, cara, não pensamos.
Assim, casual, sem ser numa cena de ação, de batalha, tomando um café, sabe qual é?
Quem que vai pagar $500 pra um Ford de shortinho, cara. Não tem como.
Eu pagaria, eu pagaria pra ter de coque samurai Ford barista.
Mas aí tem que arrumar mais uma galera aí, pelo menos passar uma produção mínima nessa parada. Senão só tiver um, aí vai ser muito mais caro. Mas ele segue aqui, ó: Hickman também define uma lista de apenas 10 mutantes nível ômega existentes atualmente. Mas nem assim esse assunto foi completamente resolvido. Isso porque na lista de Hickman existe um empate técnico entre Jean Grey e Kid Ômega. Kid Ômega é foda também, né, gente?
A gente tá perdido, não faço ideia do que seja um Kid Ômega.
Como maiores telepatas e telecinéticos do mundo, coisa que pelos critérios acima não deveria acontecer. Enfim, mesmo o tópico estando longe de ser totalmente esclarecido, espero ter contribuído. Parabéns pelo trabalho, espero encontrar vocês em algum evento algum dia para poder pegar autógrafos no meu exemplar de Feldon. E a molha tem uma oportunidade aí, né, Azaghal?
Em breve, NerdCon está chegando. Exato.
Exato, setembro.
Não vão faltar oportunidades nessa comemoração dos 20 anos do Nerdcast, Marcelo Bassoli.
Muito bom.
Roberto Barbosa, 26 anos, não informa a profissão, mas é de Santo André, São Paulo. No Nerdcast 1038, o Rex comentou que é estranho na Marvel os mutantes sofrerem preconceito, mas heróis como Homem-Aranha ou Coisa não. Coisa na verdade sofre, né?
É, na verdade o Coisa é mais ele mesmo, é ele se desgosta, né? Mais do que as pessoas, né, porque a galera adora o Quarteto Fantástico e tal, né, eles são ídolos, né. Mas ele tem uma parada com a fisionomia dele, né.
Isso é uma dúvida que o pessoal sempre levanta na internet, mas já foi abordada tanto nos quadrinhos quanto nos filmes. E quem melhor fala sobre isso é o Magneto. Além dos motivos citados pelo Alexandre, Votor e Azaghal, há ainda o fato da evolução da espécie. Os mutantes, aqueles nascidos com o gene X, são denominados como Homo Superior. Não são humanos com poderes, Mas toda uma nova espécie, na verdade não é uma nova espécie, uma evolução, né?
Exato, exato.
Considerada como o próximo passo, exatamente, da evolução humana. O próprio Magneto cita sempre que os mutantes são o próximo passo da evolução. Então o medo vem dessa ideia de acontecer com o Homo sapiens, nos humanos normais, o que aconteceu com o Neandertal.
É tipo uma raça, uma espécie, né, na verdade substituir a outra anterior.
Substituir no sentido de aniquilar, né? Que meio que foi o que aconteceu com o Neandertal, né?
Exatamente, exatamente. Ele continua aqui, ó.
Os humanos sentem medo por se sentirem menores e mais fracos em relação aos mutantes. Então, sim e não, né? Porque assim, existem dois tipos de preconceito. Existe o preconceito, vamos dizer assim, nos quadrinhos, tá, gente, que eu tô falando, na Marvel, ideológico, que é essa questão de, ah, o mutante é uma ameaça, né?
Uma aberração também, né? Uma aberração, né?
É, mas então, mas tem um preconceito da aberração e da ameaça, são dois diferentes. O da aberração é esse preconceito mais mundano, muitas vezes mais visual, porque você olhar para uma Jean Grey, você não vai saber que ele é mutante, se olhar para o Homem de Gelo, se ele não tiver transformado, etc. Mas existe também a questão filosófica, que é esse grupo de pessoas que é igual a gente, muitos deles, não todos obviamente, mas esse grupo de pessoas vai nos destruir, eles são uma ameaça, né?
Então acho que são, existe o preconceito ideológico e o preconceito mais, sei lá, agressivo, que a gente poderia dizer, mais mundano, cotidiano, eu não sei como definir, mas eu acho que existem os dois, não só um, não é só a questão, ah, essa, essa classe, essa, essa nova, novo grupo de pessoas vai nos substituir. Acho que não é só isso, sabe? É de olhar uma pessoa diferente e não gostar dela sem motivo nenhum, né?
Tipo assim, só não gosta porque ela é do jeito que ela é, do jeito que ela nasceu, né?
Exatamente. Ele continua aqui, ó: além do fato dos mutantes representarem alguém que nasceu dessa forma, analogia de se esconderem em aparências normais pode ser encarada como a ótica da LGBTfobia, pessoas que precisam fingir que não são o que são.
Com certeza.
Que precisam disfarçar quem são, pois nasceram diferentes do que se considera normal. Já os heróis como Homem-Aranha, Capitão América, o Senhor Fantástico não sofrem essa perseguição, pois mesmo que tenham ganhado poderes ainda são humanos. Com certeza isso faz parte, né?
Assim, é verdade. É que na verdade assim, por exemplo, o Senhor Fantástico, é que o Rex até falou isso, o Senhor Fantástico todo mundo sabe porque ele é uma personalidade pública, né? O Capitão América também, todo mundo conhece a história do Capitão América, que ele foi um experimento do governo e tal, né? Então as pessoas sabem O que aconteceu agora, por exemplo, o Homem-Aranha, ninguém sabe como ele virou um Homem-Aranha, né?
Não é público, não é uma informação pública. Então ele muito bem poderia ser um mutante. Acho que esse era mais o ponto do Rex, assim, sabe? Tem personagens, é verdade, que as pessoas não sabem da onde ele veio. Tanto é que, por exemplo, o Namor, ele não era mutante quando ele foi criado, ele virou mutante, acho que ele foi classificado como mutante pela própria Marvel tem alguns anos. Então assim, era um personagem que realmente ninguém sabia a origem dele, tanto é que a Marvel pôde classificar ele como um dos primeiros mutantes que existiram, né?
Justamente por esse fato. Então assim, eu acho que tem personagens que eu entendo que ele tá falando, mas tem outros que não faz muito sentido mesmo assim, porque as pessoas não sabem a origem deles, né?
É verdade, totalmente verdade. E ele continua aqui, ó: eles podem ser questionados sobre suas ações com os poderes, vide guerra civil, mas nunca sobre quem são, sobre sua identidade e qual raça pertencem. Então, na verdade, a raça tá sendo usada de uma maneira meio esquisita aqui nesse meme, mas eu acho que dá para entender. Mas o exemplo do Homem-Aranha é perfeito. Ninguém sabe se ele é mutante ou ele é alienígena ou ele é, sabe, um espírito lá Ah, de vingança, que nem Motoqueiro Fantasma, só que ninguém sabe.
É o próprio Demolidor, né, cara?
O próprio Demolidor, exato, né? No final das contas, o preconceito contra os mutantes é o medo de que a evolução da espécie acabe com os seres humanos, exista apenas o Homo Superior. Eu acho que não é só isso. Sim, sim, tem esse componente nas histórias, mas eu acho que não é o único. Eu tenho um componente do ódio, simplesmente.
É o ódio do diferente, simplesmente.
Exatamente, tem esse componente, com certeza.
Até porque muitos dos preconceitos da vida real não é que as pessoas substituam outras né? É só um ódio do diferente mesmo. As pessoas que não interferem nada na vida de outras, mas essas outras elas querem interferir, elas não querem que essas outras existem.
É, tem pessoas que têm os preconceitos porque eles herdam, seja no círculo social, muitas vezes no círculo familiar, culturalmente, né? Isso pode ser herdado e ser replicado, e obviamente tem que ser combatido, né? A pessoa que percebe que tem isso e quer mudar e tenta mudar é ótimo, excelente. Mas esse não é o único, a única maneira, né, de ter o preconceito. Ele pode vir realmente de um sentimento de ódio, de, né, de um monte de coisas por trás.
Eu acho que na questão dos X-Men existe essa questão do poder, porque assim, os poderosos, né, então governos, exércitos, esse tipo de coisa, realmente eles temem os mutantes porque o poder que eles possuem, se os mutantes quiserem vir e tomar o poder de um país, né, de um continente, eles conseguiriam. Sim, em teoria. Então existe claramente esse medo, só que o governo, né, e essas agências, até por medo, né, do Bolívar Trask, esses caras aí, né, eles instauram esse medo na população normal, para eles temerem os mutantes também.
E aí, por motivos, qualquer que seja o motivo, que vai atrair mais aquela pessoa ter preconceito sobre os mutantes, né? Então, tipo, usa-se a população também como massa de manobra aí, de jogar medo na população, falar: olha os mutantes, olha o que eles são capazes, né?
Esse tipo de coisa é o que acontece na vida real totalmente, né?
Com imigrante, com comunidade LGBT, etc., etc.
Exatamente. Ian Cavalcanti, 37 anos. Aí sim, hein? Árbitro e scout de futebol. Está no tema aqui, ó.
Olha, porra!
Pocinhos Paraíba: sou jovem nerd assíduo, acompanho tudo que vocês fazem desde 2013. Nesse meio queria dividir com vocês como fizeram parte da maior mudança da minha vida.
Olha aí, o cara acompanha a gente há 13 anos.
É, esse é do Nerdcast de 20 anos, né, aquele meio especial.
Sim.
Meu primeiro Nerdcast foi com a participação de Wendell Bezerra. Na mesma semana maratonei todos os episódios que tinham participação de dubladores, já que era um interesse comum meu e do meu irmão Jordan. Espalhei a palavra desde então, passei a ouvir todos os programas. E após ouvir o episódio em que o Eduardo expor conta a história da criação de Avatar do Apocalipse, e depois aleatoriamente um em que aprendemos a história de como o Jovem Nerd foi criado, pensei que eu mesmo poderia arriscar e viver meu sonho também.
Na época eu era um programador infeliz. O Nerdcast me incentivou a me inscrever na EA Sports. Ó, caraca, falamos agora pouco, Azaghal, da EA, cara.
Olha aí, vamos lá.
Para a equipe de edição de base de base de dados do FIFA. Fui escolhido muito provavelmente porque coloquei que acompanhava a Chapecoense. Sim, eu tive que retirar todos os jogadores que morreram do acidente de avião da base de dados do jogo. Nossa, olha que merda, né, cara? Não era um trabalho rentável, era para ser encarado como hobby. Entretanto, a empresa que eu era programador entrou em crise e minha equipe foi dissolvida.
Mas aí, mais uma vez, o Nerdcast me inspirou a buscar meus sonhos e foi o que fiz. Decidi não ser mais transformador. Eu iria ser feliz. É um outro, não dá para os dois, não é possível. Passei um ano sabático involuntário quando finalmente consegui trabalhar como analista de scout para uma das maiores empresas do mundo. Minha vida passou a ser viajar para assistir jogos de futebol.
Olha aí, cara, porra, para quem gosta parece muito bom, hein? Mas ele não viajava para assistir Fla-Flu todo final de semana, né? O scout, ele vai procurar nas categorias de base, é isso?
Sim, eu acho que é jogo de sub-17, Né, sub-20, essas paradas, né?
Isso, né?
Consegui bons resultados com o tempo. Eis que em 2026 sou escalado para a fucking Copa do Mundo.
Olha aí, caralho, maluco!
Cobri 13 jogos no Texas, inclusive o emocionante Brasil-Japão. Puta merda, cara, que foda! Desculpem o email extenso e talvez maçante, mas queria agradecer o insight. Foi o empurrão necessário que faltava para que eu percebesse que eu poderia trabalhar com que amo e, por algum motivo bizarro, ser bom nisso. Puta, cara, muito foda!
Caraca, que maneiro, cara! Que legal, porra, muito foda!
Vocês talvez não tenham noção do impacto que tem na vida dos seus ouvintes. Continuo sempre acompanhando cada projeto novo e espalhando a palavra. Obrigado por serem meus companheiros de viagem. E a você, nerd ouvinte, só aconselho a buscar a felicidade, seus sonhos. Se você focar de verdade nisso, uma hora a recompensa vem.
Olha aí, porra, muito bom, cara!
Que animal!
Tinha que chamar o cara para gravar Jota Neck.
Exato, pô, vamos, temos email dele aqui, cara.
O cara teve nos jogos, maluco, porra.
Vamos ajeitar essa parada aí, ver o que faz um scout de futebol, né, cara.
Agora, que scout que ele tava fazendo na Copa do Mundo? Ali não tem mais o que procurar, né?
Não é, acho que daí ele já foi, né, já evoluiu na carreira, ele já tá em outra parada, né?
Caraca, que maneiro!
Esse bem que ele falou que é árbitro aqui.
Será que ele foi?
Ele tá no VAR? É você que tá no VAR da Argentina? Não é possível, cara.
Não, se ele tivesse A gente não estaria desse jeito.
Não estaria não, isso é verdade.
Época de Dia dos Namorados, tem fila nesse hotel, tá? Nesse motel.
Cara, o hotel tem uma pia no meio do quarto, uma pia e um secador de cabelo no meio do quarto.
No meio do quarto?
No meio assim, cama, ar-condicionado, pia com secador.
Qual é a altura da pia? É pia pra lavar...
É pra lavar a mão. Depende da altura da pessoa, na verdade. A torneira é um cisne, é bom demais, é inacreditável, tem ovelha. Ovelha. Como limpa esse hotel? É um trabalho Hércules.
Você que me diz como é que você limpa o motel.
Tem ovelha felpuda.
Olha, eu vou te contar, já que a gente tá conversando nesse papo, eu vou contar uma história aqui. Teve uma vez que eu tive que me mudar, aí eu não tinha onde botar as paradas. Aí o Azaghal falou assim, bota lá no motel, que lá tem um quarto, lá tem um lugar lá que tu bota suas paradas, dá para ficar lá durante um mês, sei lá e tal. Eu falei, tá bom. Aí fui lá, visitei pela primeira vez. Aí ele foi me mostrar qual é que era nas internas, como é que era os corredores, como é que era a cozinha, como é Não sei o quê.
A Kombi do motel foi ajudar na mudança, importante.
A Kombi, exato, é verdade, é verdade. E aí o Azaghal foi mostrar lá a suíte master que ele tinha reformado com muito orgulho.
Suíte festa era o nome.
Suíte festa, exato, que tinha pole dance, tinha aquelas porra toda.
Era uma suíte que dava 25 pessoas.
Pois é, só que ele foi mostrar durante o processo de limpeza. Ah, os espelhos estavam ainda tipo turvos. Sabe, com aquele orvalho. Eu falei, por que que você me trouxe aqui agora nesse momento?
Para mim era terça-feira.
Exatamente, é terça-feira dele.
Tem cinzeiro no quarto.
Pronto, ficou fascinado agora.
Eu consigo sair daqui mais.
O Instagram do Dallas e Karim vai bombar loucamente essa semana.
Ninguém vai entender porra nenhuma, cara. Foi a mais aleatória que poderia O André sempre me fascinou muito com pesquisa, que André fez muita pesquisa com linguagem, etc. e tal. E a gente bateu uns papos, a gente já fez netcast muito antigo sobre isso. Primeiro quero falar sobre comunicação e como que a comunicação se transforma em linguagem, né? Porque comunicação é algo que acontece dependente de linguagem, né? Quem tem cachorro sabe que cachorro se comunica com você, né?
Tipo, o cachorro quer passear lá fora, ou quer— a minha faz isso, ela tem uma linguagem para quando ela quer passear, quando ela tá com fome, que é literalmente a cachorra sobe na cadeira da mesa de jantar e ela faz assim com a pata na mesa, assim ela bate a pata na mesa e ela pede para comer. Tipo assim, isso é comunicação, ela tá se comunicando, ela já associou, né, por associação, cachorro, etc., associou que a gente dá comida para ela quando ela faz esse movimento.
Mas linguagem é algo que é uma forma muito mais complexa de descrever comunicação, né?
Porque assim, a nossa linguagem ela é também uma associação assim. A diferença é que a gente consegue associar coisas abstratas a coisas abstratas.
É porque a linguagem no final é um monte de sons que a gente faz, que são perturbações no ar, e que o nosso ouvido recebe e decodifica que nem um sinal de televisão.
Isso, e associa aquilo alguma coisa que a gente aprende por associação, né?
Isso.
Às vezes associar alguma coisa física, não sei, eu falo esse barulhinho aqui, celular, você vai associar essa coisa física. Ou eu posso falar amor, aí você vai associar uma coisa que é mais abstrata. Mas é basicamente isso, a gente tá fazendo barulhinhos com a boca associando isso.
Só fazendo disclaimer, a gente é falante, a gente é ouvinte, então para gente, o estímulo que a gente chama de linguagem que a gente recebe nos nossos receptores é o auditivo. Mas quando você tá lendo, é o visual. Uma pessoa que é surda ou tem baixa audição vai ser o movimento. Uma pessoa cega vai ser o som ou o tato quando ela tá lendo em braile. Então o meio não define o que é linguagem.
Exato, muito bom.
E essa associação ela vai acontecer em todos esses níveis, com todos eles é um estímulo.
Tanto é que a língua de sinais ela tem uma etnogênese também, então ela sofre as mesmas pressões culturais da própria língua falada, né?
Sim, inclusive isso é uma coisa interessante, a língua de sinais ela é uma linguagem que a gente chama de linguagem natural. Então da mesma forma que a gente tem inglês, português, alemão e as mudanças linguísticas que acontecem com o tempo e o convívio das pessoas, as mesmas pressões acontecem na linguagem de sinais também.
É, tanto é que a nossa língua, a língua de sinais em português é muito mais parecida com francês do que com outras referências, né, que é um pouco contra-intuitivo para boa parte das pessoas, né, que não são falantes da, não são, não tem como usuários da língua de sinais.
Foi um excelente exemplo para a gente começar, porque, por exemplo, linguagem de sinais ela não reproduz palavras letra por letra como a gente, né? Você pode até representar letras, né, com linguagem de sinais, mas na hora de conversar você não tá representando letra por letra e a pessoa tá tipo lendo, né? Você tá representando conceitos, né?
São palavras em forma de movimento.
Isso, você tem o português sinalizado, que é você saber as letras mesmo, mas esse português sinalizado ele é muito básico. Os usuários de línguas de sinais não usam português oralizado, só em situações muito específicas. Mas aí você tem movimentos específicos para cada estado, e aí tem uma relação entre o movimento da mão e o seu rosto. Seu rosto dá muito da entonação, se é uma pergunta, se é alegria, tristeza, coisas do tipo, né?
Tanto é que quando você vê na TV, por exemplo, a pessoa usando a língua de sinais, ela usa muita expressividade do rosto também para transmitir o contexto do que ela tá querendo dizer, né?
Então tudo isso faz parte da linguagem.
Geralmente o rosto é a prosódia, é a parte não palavra da comunicação. Para falante seria o tom, a cadência, a entonação. Faz parte da linguagem. Por isso que tem tanta treta na porra do Twitter e do WhatsApp. Porque não tem essa parte, falta um pedaço, falta algumas dimensões, né, da comunicação.
Nossa comunicação, ela é multidimensional nesse sentido, né, porque a gente não lê só a palavra, ou quando a gente tá falando com alguém, né, verbalizando, a gente vai ler tudo, né, a expressão corporal, principalmente a facial, como você falou. Isso dá ênfase, isso pode fazer uma mesma comunicação de palavras soar amigável ou ameaçadora.
Inclusive, tem um estudo interessantíssimo de uma pesquisadora chamada Susan Katherine Merrill, que ela fez o seguinte: a gente, quando a gente tá explicando alguma coisa, a gente gesticula naturalmente. E é engraçado que o nosso sistema cognitivo presta atenção nessa gesticulação que a outra pessoa faz, mas de forma muito inconsciente. O estudo que ela fez foi o seguinte: ela pediu às pessoas para explicar certos conceitos matemáticos.
Aí, para um grupo, ela falou assim: só explica. Então deixou a pessoa explicar normal, e um grupo assistia aquela explicação. Para um segundo grupo, ela fez o seguinte: eu quero que você explique esse mesmo conceito matemático, mas você tem que ficar com a sua mão paradinha encostada na sua perna, você não pode gesticular. Então as pessoas, um, as pessoas que explicaram, elas tinham muita dificuldade de explicar aqueles conceitos matemáticos porque elas tinham que ficar com a mão parada.
Ou seja, a gente utiliza os movimentos sem perceber, mas quando a gente não pode usar, a gente percebe o tanto que eles fazem falta. E segundo, as pessoas que estavam assistindo as explicações da pessoa parada, elas entenderam os conceitos de uma forma muito pior do que as pessoas que assistiram com as pessoas gesticulando. Ou seja, eles estavam assistindo as pessoas explicando conceitos matemáticos com a mãozinha paradinha, eles não entendiam.
Ou seja, até quando você está tentando compreender o que uma outra pessoa tá falando, você presta atenção nessa gesticulação, de uma forma muito implícita, você nem percebe. Mas quando você tira isso, aí você percebe o tanto que faz falta.
Essa falta de modalidade, né, de níveis de modalidade do falar e tal, é muito parecido quando você tá no carro, por exemplo, e tem a pessoa do seu lado falando com você, ou você tá falando com ela pelo celular dirigindo, por exemplo. O grau de atenção que você tem que ter para pessoa quando você só tem acesso à voz dela, mesmo não olhando para ela, é muito maior. Quando ela tá do seu lado, mesmo que ela gesticule um pouco, você capta ainda um pouco mais de informação, né?
É as brigas de WhatsApp que eu digo, né?
Exato. E mesmo quando você vê, mas vê só parcialmente, ou vê em duas dimensões ao invés de três. Já tem alguns estudos inclusive sobre as diferenças de processo e de resultado em terapia online, por exemplo. Nossa, imagina, você tá vendo a pessoa ali, né, naquele quadradinho plano americano e tal, mas você tá vendo em 2D, então você não tem dimensão e você perde parte da expressão corporal.
Exato, que diz muito sobre como a pessoa tá sentindo.
Exatamente, tudo isso que a gente que a gente tá falando não é linguagem, é comunicação. Então você vê que comunicação também é um troço complexo para caralho.
E eu não sei se é muito simples, né? Se você pensar uma bactéria, por exemplo, a comunicação dela entre bactérias é comunicação também. Não precisa de consciência, não precisa nada, é só troca de informação. Qualquer contexto que você tem assimetria de informação, você tem comunicação. Aí as camadas vão criando a partir de bases simples, né?
É, outro dia eu tava aqui vendo as formigas aqui andando na filinha, né? Aí quando elas abriram um espaço na fila, eu fui, arrastei o dedo, passei o dedo transversal socialmente, né, em relação à linha delas, para tirar aquela trilha de, né, de feromônio, sei lá, de química que elas deixam. E aí não deu outra, quando a primeira chegou aonde eu tinha passado o dedo, ela parou, ficou confusa e deu meia volta. Eu rompi a comunicação.
Ou seja, no mundo das formigas, elas voltaram para o ninho e falou assim: fomos castigados, o nosso ser superior.
Exatamente.
Ou a formiga da frente que se perdeu e foi no Dallas e Caribe, tá vendo?
Não, mas olha só, eu não sacaneio as formigas não. Logo uma desbravadora chegou e ela meio que foi na— ela restabeleceu a parada, ela se arriscou e ela viu, ah não, tá aqui, galera. Aí todo mundo voltou. É isso, isso é comunicação que elas fazem. Elas estão falando assim, ó, vem por aqui. Mas isso é uma linha de química, né? Coisa que elas leem com as antenas delas, entendeu? Mas não estão falando, não estão concatenando combinando ideias, etc. Dito isso, poder de fala ainda é superestimado.
Sim.
Do you understand the words that are coming out of my mouth? E voltando assim ao tema principal, essa questão de que basicamente umas perguntas que as pessoas começaram a se fazer lá em volta de 1800 era o seguinte: tá, a gente como ser humano, a gente tem esse código, esses barulhinhos que a gente chama de linguagem e que a gente usa para se referir a certas coisas. Será que isso influencia também a forma como a gente pensa sobre essas coisas?
E isso só veio, esse pensamento, as pessoas só começaram a pensar sobre isso, porque tinha um cara chamado Franz Boas que ele tava estudando umas línguas indígenas, e ele foi estudar uma língua indígena lá do Arizona, e ele falou assim: olha que engraçado, esse pessoal aqui não tem marcação de tempo na linguagem deles, será que eles pensam sobre o tempo da mesma forma que a gente pensa sobre o tempo? Aí ele começou a falar assim: será que é isso?
Vamos começar a investigar. Aí um estudante dele na época falou assim: bora, vamos começar a estudar isso, que era um cara chamado Edward Sapir. Teve um outro cara chamado Benjamin Lee Whorf que também fez isso. Ele falou assim: cara, na verdade a gente não consegue pensar sem linguagem. Ou seja, a linguagem ela vai com certeza limitar a forma como você pensa. E como esse Edward Sapir também pensava sobre isso, aí virou essa hipótese que a gente chama até hoje de Sapir-Whorf, que é essa ideia desse relativismo linguístico.
Coisa interessante sobre isso: esse Whorf, que é o Benjamin Lee Whorf, nem linguista ele era. Ele era engenheiro químico que gostava de estudar linguagem nas horas vagas. Aí ele falou assim: eu acho que esse negócio que eu vou falar aqui faz sentido. Então ele que tem essa teoria muito forte de que o nosso pensamento, ele é moldado pela linguagem. Essa visão, vamos dizer assim, forte desse relativismo linguístico, que obviamente hoje a gente sabe que não é bem assim.
Mas a versão mais fraca é a seguinte, tá, não vai limitar o que você pensa não, a linguagem vai moldar um pouquinho o que que você presta atenção, a sua memória e tudo mais. E é basicamente isso que os pesquisadores mais modernos estudam. Eles querem saber, por exemplo, se a forma como eu falo português vai fazer com que eu preste atenção em certos aspectos do mundo que é diferente de uma pessoa que fala inglês, por exemplo, porque as formas verbais ou a forma gramatical do inglês é diferente.
Então provavelmente ela vai prestar atenção em outras coisas. Um exemplo bem clássico de— vou falar do inglês e português primeiro e depois a gente vai para outras línguas. Todo mundo que tá estudando inglês geralmente tem uma dificuldade muito grande de perceber esse, o que a gente chama de present perfect. Vou dar um exemplo: se alguém vira e fala assim, perdi minha carteira. Em inglês você pode falar I lost my wallet ou você pode falar I have lost my wallet.
Então você tem essa distinção dessas duas formas no inglês. Você pode falar I lost my wallet, que é o passado simples, ou você pode falar I have lost my wallet, que é o que a gente chama de past perfect, passado perfeito. Essa distinção que tem no inglês a gente não no português, mas existe uma distinção da forma como você vê a ação. Por exemplo, se eu sei exatamente quando eu perdi minha carteira, eu uso passado simples. Então eu falaria assim: I lost my wallet yesterday, porque eu sei exatamente quando aconteceu.
Se eu não sei quando aconteceu, se eu quero só falar assim que eu perdi, mas eu não sei exatamente quando aconteceu, eu falo: I have lost my wallet. A gente não tem essa distinção no português. Aí a pergunta que se faz é: será que porque o inglês tem essa distinção, eles prestam atenção mais nesse aspecto de quando aconteceu ou não, e quem fala português não presta atenção nisso? Essa é a ideia do relativismo linguístico, é saber se a forma verbal que você tem numa língua vai ditar como você pensa no mundo ou no que você presta atenção no mundo, porque a sua língua tem aquela marcação e outras não. Essa é a ideia.
Faz sentido, porque é um treino. Você treina essas regras verbais, te ajudam a condicionar o que você coleta do ambiente, né?
Isso tem a ver com a experiência, né? Eu já vi exemplos como a quantidade de cores que você pode definir de sociedade para sociedade em uma matriz de cor. Então você pode dizer que o André, acho que vai saber melhor do que eu, a tribo X que tem mil nomes para verde. A gente tem alguns nomes para verdes, né? A gente tem verde turquesa, verde claro, verde escuro, verde— mas assim, a gente no nosso ambiente, a gente urbano principalmente, a gente tem a capacidade de olhar uma variação de verdes até grandes e chamar tudo isso de verde, de agrupar isso como verde.
Já para outras sociedades onde a experiência deles em perceber matizes de verde tá tipo assim associada à sobrevivência deles de alguma forma, seja por agricultura ou sei lá, Ah, você é uma tribo que caça no meio da selva e etc. E esses tipos de nuances fazem diferença na sobrevivência, no dia a dia.
Mas olha só, cara, não é que você não enxerga isso, você percebe, você continua enxergando a tonalidade, você discrimina A de B, mas você não meia de uma vez só como uma coisa só. Você não atribui o significado mais específico porque não há necessidade de atribuir, não tem necessidade É verdade, por isso que mulher sabe 38 tons de roxo e vocês chamam tudo roxo. Eu tô falando berinjela, beterraba, alcance médio, alvorada. Eu falei tinta de cabelo, mas o clássico desse fenômeno é no grego antigo a palavra para azul.
Teve essa discussão toda do azul que não tem nos textos antigos, os textos mais antigos que falam de mar, de céu, etc.
Exato, imagina uma civilização completamente dependente do mar e eles não tinham uma palavra para azul. É porque eles não viam a cor do separou porque eles não distinguiam a cor do céu da cor da grama? Não, eles sabiam que era uma coisa, que era outra. Só na hora de comunicar é que eles usavam exatamente o mesmo, a mesma topografia. Porque é isso, do ponto de vista funcionalista, que é o meu ponto de vista, é a pergunta se a linguagem molda o seu pensamento não faz sentido, porque o seu pensamento é linguagem. Você consegue pensar sem linguagem?
Não consegue.
Depende como você define pensamento. Agora você me confundiu.
Eu tô tentando tirar habilidade de linguagem de alguém para saber se essa pessoa pensa ou não?
Como assim?
Porque primeiro que não existe ninguém que tem habilidade de linguagem. Em algum nível ele existe. O pensamento é linguagem, é você falando com você mesmo dentro da sua cabeça. Você tá usando linguagem para pensar. Não tem essa distinção. Não é o pensamento que molda a linguagem e nem a linguagem que molda o pensamento. É a mesma coisa. O meio não define a linguagem. Linguagem é o processo de dar significado para as coisas, de usar coisas intercambiáveis provavelmente para formar novas estruturas que significam coisas novas.
Aí é importante separar, tipo, pensamento de processamento, por exemplo. Isso é processamento, não precisa de linguagem. Processamento é uma coisa mais simples, né? Pode ser tão complexo quanto, mas é mais, é outro processo, é outro nível. Mas o que a Ana falou lembra muito a dinâmica de vida de um filósofo que eu gosto muito, pelo menos, que é o Ludwig Wittgenstein. O Wittgenstein tem uma história de vida muito interessante assim.
Ele não foi escolha dele. Durante uma parte da vida dele, ele foi quase o homem mais rico da Europa assim. Ele nasceu numa família de industriais. Então ele sempre teve muito acesso, dinheiro e tal. E ele é um dos primeiros caras que eu conheci assim que ele tinha consciência de classe. Ele ficou deprimido porque ele tinha dinheiro demais. E também tem algumas questões de família, ele lutou na Primeira Guerra assim, foi umas complicações de vida.
Desculpa, você sabe que todo ouvinte tá falando que queria, eu queria ficar deprimido assim que nem ele. É, exato, tá todo mundo falando isso.
Ele era de fato uma pessoa muito peculiar assim, né? E aí ele escreveu o primeiro livro dele, que é o Tratatus e tal. E nesse primeiro livro, que ele chama de Primeiro Wittgenstein, primeira época dele, ele tem uma teoria, chama Teoria da Figuração, que ele fala exatamente assim, que a linguagem espelha o mundo real. Então a linguagem é uma medida direta de como a realidade é percebida pelas pessoas. Eu usava um negócio chamado tautologia.
A ideia é que uma tautologia é uma frase que de qualquer jeito que você fale ela, ela é verdadeira, né? Então ela tem todos os significados dentro dela. Por exemplo, todas as bolas são verdes ou não verdes. É verdade, né? O que é verde é verde, o que não é verde não é verde. Você engloba tudo. Então ele acha assim que a linguagem é a capacidade das pessoas descobrirem essas tautologias, essas frases gerais, que aí você vai explicar todos os contextos possíveis.
E aí beleza, ele fez a teoria dele. Aí ele foi para a Primeira Guerra, voltou com vários traumas, e tal, que foi muito difícil para ele, tem uns problemas de família terríveis. E aí ele resolve meio que largar tudo. Ele tinha se formado em engenharia mecânica, eu acho. Aí ele larga tudo, ele doa uma parte do dinheiro, ele financia vários projetos de arte, ciência e tal. E ele resolve virar professor de escola, professor de criancinhas mesmo.
E aí ele virou, ficou uns 10 anos como professor de criancinhas. Depois ele volta para academia em Cambridge e tal, mas ele sempre produziu coisas, ele sempre ficou escrevendo e tal. Depois que ele morreu, ele morreu nos anos 50, as pessoas pegaram os escritos dele e fizeram um segundo livro, né, que é o Investigações Filosóficas. Ele rebatia ele mesmo décadas antes. Tanto é que ele tratava ele mesmo na terceira pessoa. Ele falava: a pessoa que escreveu aquele livro, tratado, tá completamente errada, não tem nada de teoria da figuração.
Era muito interessante. Segundo Wittgenstein, que ele coloca, ele cria a ideia de jogos de linguagem, que aí ele fala o seguinte: que a linguagem ela não é uma explicação das coisas, ela é uma descrição. Então a linguagem não explica nada, ela descreve a realidade. Então os jogos de linguagem assim, o papel da língua é você comunicar alguma coisa com um contexto, e a linguagem não expressa a totalidade da realidade porque tem o contexto.
Então se eu falo assim: eu bati o carro, e outra pessoa de fora falando é tipo: eu bati o carro, o você bateu o carro são contextos de vida diferentes. E aí ele fala: não dá para explicar a linguagem sem a sociedade, sem o contexto social, sem o que as pessoas estão fazendo. E aí o Wittgenstein não conheceu ele, claro, mas tem um outro teórico da filosofia da comunicação e tal, que é o Bakhtin, que viveu na Rússia. E aí eles não se comunicavam e tal.
E o Bakhtin falava isso: qual é a função da linguagem? A função da linguagem é o papel social. Então, se a gente fosse ter aula de português segundo Bakhtin, não é para você ficar estudando gramática, é para você ir na feira. Vai lá na feira ver como é que as pessoas se comunicam, quem compra e quem vende, os funcionários, os usuários de serviços e tal. E aí você vai entender toda a variabilidade da língua, todos os contextos possíveis.
A partir dos contextos você tira as regras gerais. Essa coisa de que existe uma gramática que explica tudo, que tem que vir de cima para baixo, não é assim, que é completamente o contrário. O André sabe melhor do que eu que a briga do Sacir, né?
Por isso que a gente— é por isso que o Sacir é um chato e bactéria massa para caralho.
Porque parece nome de remédio, né?
Exato, o Ferdinando de Sacir.
Ele pega o Paulo Freire, ele é o avô do Paulo Freire. Paulo Freire pegou essa linguagem linguagem é o contexto, é aquilo que acontece no contexto da pessoa. E aí o Paulo Freire falou: então como é que a gente faz para ensinar essas pessoas a linguagem? A gente tem que estar no contexto dela, senão não dá para fazer isso. E aí essa é a pegada. Se você ensina— hoje em dia acho que já tá meio até anacrônico ficar falando do problema entre a linguagem formal e a linguagem informal.
Então a gente escreve de uma maneira diferente da que a gente fala, são duas linguagens diferentes, em alguns aspectos, mas o contexto faz sentido, funciona para aquilo a que se propõe. O contexto é muito mais do que o lugar e você. O contexto, ele engloba a sua história de vida, as suas experiências, todos aqueles significados que você formou na sua vida. Quando você tá se comunicando com outra pessoa por meio da linguagem, a relação construída ou não entre você e a outra pessoa é é parte desse contexto.
A coisa do a linguagem molda o pensamento e o jeito que a gente vê o mundo, ou vice-versa, é a mesma coisa. Ela não molda o contexto, ela é o contexto.
Mas ela é como a gente entende o contexto, né?
É uma coisa monista, não tem separação corpo-ambiente, é uma coisa emergente junta. E uma coisa importante é separar isso de explicação e descrição, sabe? A linguagem descreve coisas dentro de um contexto, ela é o sentido junto do contexto. Não existe linguagem sem contexto e contexto sem linguagem, sabe? Então a coisa emerge junto. Então é que a gente tem na nossa formação escolar assim essa separação de inato-aprendido, de social e biológico, quando na verdade a gente tem que começar.
E aí é uma tarefa social, aliás, desse Nerdcast, começar a quebrar isso, sabe? Você não é separado do ambiente. Tudo que você produz, você produz um lugar e num tempo, tá tudo junto. Você emerge disso. O Alexandre hoje é o Alexandre hoje, não dá para comparar com você de 10 anos atrás.
Ah não, não. Não mesmo, não existe mais, né?
Mas foi você, você só tem uma representação de você do passado.
Sim.
E quando você fala de você no passado, você tá falando a partir de uma representação de você hoje. Então aquele passado nunca mais volta. É muito interessante, é o Sartre mesmo, né? Você é o que é em si mesmo o tempo todo.
Do you understand the words that are coming out of my mouth? O que eu ia trazer um pouquinho para a parte mais prática, que é o seguinte: tem todo esse contexto de a linguagem parte desse contexto, e o contexto como trazendo a linguagem tudo junto, bacana. Só que a gente tem que pensar na língua como esse organismo histórico que foi evoluindo com o tempo e com todas essas representações que teve, né, ao longo dos anos dos falantes dessa língua.
Aí uma diferença que eu queria trazer também de uma pesquisa que a gente fez uma vez foi o seguinte: inclusive, se essa marcação que eu vou falar agora fosse uma marcação de todas as línguas do mundo, o mundo seria muito diferente. E eu vou explicar por quê, vocês vão entender por quê. Existe uma língua, tuyuca, que inclusive é falada ali num grupo de indígenas ali na fronteira do Brasil com a Colômbia. Eles têm uma marcação, e quando, só para contextualizar também, quando eu falo de marcação gramatical é quando que a gente tem formas específicas para marcar alguma coisa.
Vou dar um exemplo do português. Se eu quero falar que alguém amou no passado, eu falo amou, tem essa terminação -ou. Mas se eu quiser falar que vai amar no futuro, eu vou falar amará. Então tem essa terminação -ará, que é de futuro. Então, ou seja, essa marcação -ou é de passado e a marcação -ará é de futuro. Então toda vez que eu falo de marcação é isso, essa língua tem uma marcação específica. Essa língua ela tem uma marcação pelo seguinte: quando você fala alguma coisa, você tem que obrigatoriamente marcar a fonte da onde tá vindo a informação.
Você tem que, a depender se for uma coisa que você viu, tem uma marcação X. Se for uma coisa que você não viu, mas que você ouviu, tem uma marcação—
mas como assim? Dá um exemplo prático.
Vou inventar um exemplo aqui para fazer sentido. Suponhamos que eu quero falar assim: o Alexandre comeu um bolo. Se eu vi o Alexandre comendo bolo, eu vou falar assim: o Alexandre comeu o bolo lá. Esse lá significa que eu vi. Mas se eu não vi, mas eu ouvi você comendo bolo, eu vou falar: o Alexandre comeu o bolo mé. Esse mé significa que eu ouvi você comendo bolo, mas eu não vi você comendo bolo. Se eu tiver fazendo uma inferência a partir de uma outra coisa que eu percebi, eu vou ter uma terminação diferente.
Então vou falar assim: o Alexandre comeu o bolo, pá. Esse pá significa que eu não vi, eu não ouvi, mas eu tenho uma inferência. Se o David me falou que você comeu o bolo, eu falo assim: o Alexandre comeu o bolo, xi. Esse xi significa essa informação foi que eu ouvi de outra pessoa. Ou seja, a depender de como você marca a frase, você dá uma direção direta de como que você soube daquela informação, qual que é a fonte daquela informação, sempre.
Aí tá, isso é uma marcação gramatical, tá na língua. Aí a pergunta que os pesquisadores fazem é o seguinte: será que uma pessoa que fala essa língua, ela necessariamente, quando você conta uma informação para ela, ela vai prestar atenção na fonte de onde vem essa informação? Ou não só isso, a partir do momento que ela está vendo o mundo dela, ela vai sempre escanear qual que é a fonte de informação para ela poder conseguir comunicar aquilo depois?
Essa é a ideia. Como a gente não tem essa marcação no português, por exemplo. Vou dar um exemplo bem específico. Suponhamos que você está vendo uma cena onde está acontecendo um crime, você tá assistindo a cena, aí o seu trabalho é descreva essa cena. Só que antes de você descrever a cena, você vai assistir aquela cena, você vai prestar atenção em certas coisas e outras não. É assim que a nossa cognição funciona. A pessoa que fala essa língua que eu acabei de falar, ela também vai assistir a mesma cena.
A pergunta é: será que essas duas pessoas, quando elas estão assistindo, não estão falando nada, elas estão só assistindo a mesma cena, será que elas vão prestar atenção em coisas diferentes porque elas que falam línguas diferentes? Essa é a ideia. Aí você pode pensar assim, ah não, claro que não, porque ela vai, né? Mas por exemplo, se a pessoa que fala essa língua que eu acabei de falar, se ela sabe que ela tem que saber a fonte, ela vai começar a prestar atenção nessa coisa.
É verdade, porra! Aí assim que se faz pesquisa, rapaz. É claro, é claro, faz sentido.
É aquilo que a Aninha falou mais cedo, todo mundo consegue fisiologicamente captar a cena igual. Então, por exemplo, sei lá, se você for lá no lobo occipital da pessoa, onde é processada a visão, e vê lá, ah, será que a pessoa tá percebendo as cores igual, tá, todo mundo igual, o cérebro é o mesmo, mas a atenção que a pessoa dá para cena ela varia a depender de, primeiro, o que que você tem que captar daquela cena, e segundo, a forma como você vai comunicar sobre aquilo depois.
O padrão de processamento é diferente, isso vem do contexto cultural que a pessoa tem e da maneira como a linguagem que ela aprendeu, a língua que ela fala, a comunidade verbal dela funciona. Tem um exemplo prático que me faz sofrer todo santo todo dia das 8 da manhã às 8 da noite. A linguagem que a gente fala, ela tende a ser muito interpretativa, no sentido de a gente falar essa língua dos cara ali, eu não teria esse problema.
Mas, por exemplo, a terapeuta vem para mim e fala: eu não sei o que eu faço porque o menino anda muito, muito desregulado.
Menino anda desregulado, o que significa para você? Exato, terapeuta, o que que ela acha que é desregulado?
O que que ele está fazendo que faz com que você diga desregulado? Aí ele fica assim muito nervoso, né, agitado, hiperativo. Ela me descreveu com mais descrição interpretativa. Se vocês soubessem a dificuldade que as pessoas têm de de fato descrever operacionalmente aquilo que ela está vendo.
Ela tá querendo te dar interpretação e não a descrição do fato, né? Ela tá interpretando por ela mesma.
Exato. E na cabeça dela, ela está me descrevendo exatamente o que o menino fez, mas ela não tá.
Ela tá descrevendo interpretação dela. Né?
Exatamente.
Isso me incomoda profundamente, porque assim, uma pessoa comum fazer isso até vai, mas psicólogo fazer isso forma que a nossa formação falhou miseravelmente.
Mas é isso. Daí você tem assim meio que conflito funcional entre a maneira como a nossa linguagem se estrutura nesse sentido e a maneira como a linguagem da ciência e da prática dessa ciência exige que você descreva. É diferente, e é tão diferente, que é muito difícil, é muito difícil a pessoa entender.
E eu vou dar um exemplo prático de como que isso acontece no dia a dia das pessoas aí, por exemplo, que estudam inglês. Qual que é a coisa mais difícil de aprender em inglês para quem estuda inglês geralmente?
Falar world.
Ok, gramática, qual que é a parte mais difícil? Para mim é fazer uma pergunta afirmando, é terrível isso.
Na hora de fazer pergunta, as palavra tem que mudar de ordem.
Isso é um exemplo bom, porque a marcação de pergunta em inglês é exatamente isso, é ordem.
Eu tava melhorando, outro dia eu fui fazer a pergunta, eu simplesmente afirmei para pessoa. Eu odeio isso.
Eu tenho pavor daquelas esticlose, até hoje eu não entendi aquilo. Are you going to go to the club tonight?
É, ou então você fala assim: you are going to the club, né? You are going é uma afirmação, are you going é um formato de pergunta. Assim, eles entendem, Entendi. Tu pode falar, tu nunca ouviu um cara falar que não entendeu, mas eu falo e quando eu termino de falar eu falei que merda. Autorregulação é autocrítica.
Aparentemente tem muita coisa difícil no inglês, né? Mas a outra coisa que eu ia falar é aprender preposição, aprender. Por exemplo, se você vai falar assim: eu fui lá na segunda-feira. Qual que é a proporção dos seus ingleses?
No dia a dia tu nem usa, tu fala Monday, né?
Mas se você quiser falar que você foi em setembro, em setembro, exatamente. Se você for colocar um anel no seu dedo, exatamente, mas se você for colocar o anel dentro de um pote, exatamente.
Ou seja, deixa eu dar só mais exemplo prático, aconteceu comigo, que me corrigiram depois, que uma das entrevistas que eu fiz em inglês lá naqueles junkies de entrevista, eu queria falar, ah, por um outro lado você, e eu falei In the other hand. In the other hand é uma coisa, on the other hand que é por um outro lado, né? Então eu falei errado, usei a proporção errada, etc., aí me corrigiram, mas falei que depois nunca mais esqueci. Mas muda o sentido, né?
É, e esse é um exemplo de como que os falantes do inglês eles percebem fisicamente, ou eles cortam a realidade de um jeito e a gente corta de outro. Então, por exemplo, o anel no dedo e o anel no pote, a gente coloca no mesmo bolo, no. Então no pote, no dedo. Em inglês você tem duas coisas diferentes, você tem in, que é para o pote, e ON, que quando você tem uma relação de que a gente chama de containment, que alguma coisa que tá contida, mas de uma forma mais justa.
E que em coreano, por exemplo, é completamente diferente também. Se você coloca uma coisa dentro da outra e essa relação de containment é frouxa, é uma preposição. Se ela é justa, é uma preposição diferente. Se ela é de superfície, se tem superfície que toca, ela é completamente diferente. Você tem preposições diferentes. Ou seja, a realidade, vamos dizer assim, ela é a mesma, é um anel que tá tocando o dedo, mas a forma como você corta para explicar aquilo é completamente diferente.
E a gente a gente tem dificuldade de aprender outras línguas justamente porque cada língua tem um corte da realidade que é diferente. E assim, a gente entende, esse que é o ponto que o Alexandre falou, assim, as pessoas entendem, só que soa estranho. Eu vou dar um exemplo. Eu tenho uma amiga que ela nasceu nos Estados Unidos, ela é norte-americana e ela aprendeu português. Aí teve um dia que a gente tava conversando, ela tava com grampeador na mão, o grampeador tava sem grampo, então ela queria colocar grampo no grampeador. Ela virou para mim e perguntou assim: onde que eu posso abastecer o grampeador?
Abastecer, sim.
Assim, ninguém usa essa palavra abastecer nesse contexto, não é o corte que a gente faz da realidade. Eu entendi o que ela quis dizer, Mas soou estranho. Mas que se você for pensar em inglês, o mesmo verbo que você usa para abastecer o seu carro é o verbo que você usa para colocar grampo. Então por isso que ela colocou isso na mesma categoria. A gente entende, mas o corte da realidade é diferente.
Mas não é legal perceber? Tipo, para mim é muito legal.
E eu tava notando isso de diferenças culturais agora, de como que isso se estabelece na linguagem do dia a dia. Então, por exemplo, vou dar exemplo de 3 línguas que eu conheço: português, inglês e alemão. Em alemão, e eu não sabia sabia disso, aprendi recentemente. É muito comum frases do dia a dia terem alguma coisa a ver com salsicha, com linguiça, né? O Wurst, né? Então, por exemplo, tipo assim, nossos amigos nerds que moram na Alemanha vão lembrar das ist mir Wurst.
A tradução literal é isso aí é linguiça para mim, mas o termo significa tanto faz. Assim, das ist mir Wurst, ou seja, isso para mim é linguiça, tanto faz a linguiça. Tipo assim, tem milhões de outros termos que tem a ver com linguiça do dia a dia. Aí você fala assim, caraca, mas não é possível, qual é o equivalente isso em português?
Futebol.
A gente A gente usa termos de futebol para tudo. Show de bola, dentro das 4 linhas, da concessão. A gente ouviu para caralho isso. Ah, o cara conseguiu aos 45 do segundo tempo, deu bola fora, pisou na bola, fazer cera, vestir a camisa, sabe? Tudo isso.
Baixa essa bola, bola nas costas.
Isso tem muito lá no motel. Como é que era o nome do motel?
Você esqueceu uma.
Qual?
Entrou com bola e tudo.
Entrou com bola e tudo.
Isso também é um clássico lá no Dallas e Paris.
Pega aí quantos termos que tem a ver com futebol a gente usa no nosso dia a dia em português. É vastíssimo, mesmo que você não saiba nada de futebol.
E faz um corte, isso é recente. Pode ser que, sei lá, 70 anos atrás era uma coisa diferente. Então a gente tem expressão hoje em dia que é sobre isso. Tem uma expressão em inglês que eu gosto muito, que é quando você tá completamente bêbado, completamente bêbado, a expressão é que você fala assim, a pessoa tá three sheets to the wind. Eu fui pesquisar sobre, né, de onde que vem isso. Na época que ela começou a ser usada era época que os Estados Unidos tinha muita participação em navegação.
Então assim, tudo de linguagem que a gente utilizava nos Estados Unidos era com relação à navegação. E na navegação, quando você tem as três velas, elas estão abertas, o vento bate de uma forma que o seu barco perde o controle, então ele não sabe para onde vai. Então essa expressão three sheets to the wind quer dizer assim, você está sem controle, você não sabe para onde você vai. E é uma expressão que eles usam hoje para significar completamente bêbado.
E aí eu fui pesquisar sobre isso, tem várias expressões em inglês que tem a ver com coisas de navegação e militarístico também, né? Exatamente, exatamente.
Por exemplo, é militar, ó, deadline. Deadline é a linha da morte, que você atravessar essa linha tu morre, entendeu? Ali de campo de prisioneiros, essas coisas. Ah, o cara se formou com flying colors, né? Eles falam isso, né? Com completo sucesso, né? Isso tem a ver com a tradição dos navios voltarem para casa com as bandeiras, tipo assim, todas, né? No man's land, isso aqui On the double, faz rápido. Isso tudo é termo militarisco.
Até os termos de elogio que se usa aqui nos Estados Unidos: you killed it, você matou. Os termos militarísticos e violentos, eles fazem parte do dia a dia, cara.
Eu já te falei de como eu aprendi deadline, a palavra deadline? Eu já morava aqui nos Estados Unidos, inclusive, nunca tinha escutado essa palavra antes. Aí tava na faculdade e a professora falou: olha, deadline is tomorrow. Eu comecei a rir porque eu achei que ela tava fazendo uma piada. Ela ficou olhando pra minha cara.
Ela achou que tu tava zoando, ela te fazia: amanhã.
Ela falou assim, o que que tá acontecendo? Que aí eu fui descobrir que é uma palavra normal, ela não tava fazendo nenhum jogo de palavra, era isso mesmo.
Eu fiquei falando Wittgenstein, fiquei com ele na cabeça, né? Depois que ele morreu, né, acharam uns textos mais recentes dele, falava assim, qual era o objetivo para ele da filosofia, né? O objetivo para ele era usar a linguagem como uma função terapêutica, mas não de terapia, mas era uma função para o indivíduo de definir os limites do pensável para eliminar o que não faz sentido. Então a pessoa que usa a linguagem de forma madura, assim, não madura no sentido de ideal, mas que tem um bom uso da linguagem, ou seja, que explica o seu próprio comportamento bem, ela usa a linguagem para curar as confusões causadas pelo mau uso das palavras.
E isso é muito interessante, né? Porque você pensa as culturas, em vez de pensar, por exemplo, ah, eu não sei preposição, então é algo que me falta, então parece que eu tenho uma deficiência. Ou, por exemplo, ah, eu não estudei tanto tal área da gramática, então parece que é uma ausência. Se você passar por cima disso e pensar que o uso da língua pode ser descrito por meio das suas diferenças, você percebe a criatividade das pessoas, por exemplo, abastecer o grampeador.
Exato.
Em vez de pensar que é uma falta, é uma baita negócio criativo que a gente vê nas crianças. As crianças são criativas. A gente dá licença poética para as crianças, é tipo, ah, eu ando, eu canto, eu danço, eu sabo, né? Criança não precisa saber verbo irregular, mas para ela faz todo sentido. Nossa, muito esperto, você generalizou a regra. Mas nos adultos a gente tira isso, né, das pessoas, que a capacidade de você perceber as diferenças.
A gente normalmente aplica quando tem um estrangeiro falando com a gente e tal, e a gente, ah, entende.
Isso, mas tem que fazer um com o outro também.
É, sim, verdade, é verdade.
E por exemplo, pegando na ideia da linguagem Linguagem não verbal, você pode pegar no último, na edicácia que a gente gravou, que falou um pouco de luta até, de hábitos e hobbies e tal. Eu pratico sumô há alguns anos e o sumô é muito interessante.
Para, para, para, para, para, para!
Eu tenho uma foto igual aí de tanguinha de sumô. Que dia!
Eu tenho no Instagram.
Você viu, Azaghal, como ele tentou jogar isso na conversa como se fosse nada e continuar?
Fosse a parada mais tranquila e terça-feira do mundo.
Ah, depois do Dólar do Caribe já fiquei empolgado.
Não, pô, aí isso é um outro patamar, é uma outra camada de exposição completa.
Que o André é um transão, a gente já sabia, mas essa novidade, rapaz, puta merda.
Mas é interessante, quando você entende bem as regras e tal, já tem uma fluência da técnica. Como as lutas são muito rápidas, você treina lá com uma pessoa, faz lá 30, 40 lutas, porque é rápido, dura 1 minuto cada uma. Porque o que que é o sumô, né? É um jogo decisório. Então você consegue perceber como a pessoa funciona, se ela é mais impulsiva, se ela é menos, se ela usa mais o lado direito ou esquerdo. Então às vezes, quando você treina várias vezes com a pessoa, você sabe se ela tá bem ou não.
Você consegue ler de fato a expressão pelos não verbais dos sentimentos dela. Por quê? Porque o sumô, qualquer arte marcial, é uma linguagem também. E aí às vezes você conversa com a pessoa, fala: já teve, por exemplo, treino que no final do treino você brigou com fulano, né?
Sabe?
E sem contexto nenhum, mas você já entende. A pessoa fala: é verdade e tal, sabe? Então tem diferentes formas usando a linguagem, ou porque no caso sumô é uma linguagem, né? Mas usando esses elementos, que a partir do momento que você tem influência, você consegue resolver mal-entendidos e confusões.
Tá tudo muito bom, tudo muito bem, mas a gente tá falando da parte fácil da linguagem, que é como que eu produzo linguagem daqui para lá. E o de lá para cá, como é que eu entendo a linguagem? Então entender a linguagem é muito mais difícil, porque aprender a falar, falar no sentido comunicar usando linguagem, é que nem você falou do cachorro, é um aprendizado que depende muito condicionamento. Então bebê fez um som, a mãe deu mamar para ele, ele aprende que fazer mamamar ganha mamadeira, e daí para frente você sabe como é.
Agora, como é que ele, ele entende quando a mãe fala? A parte difícil é a gente aprender a entender e não a produzir. Como é que eu aprendi a entender o que você tá falando para mim? Como é que eu aprendi a entender o significado a palavra no contexto.
Isso é uma parte interessante, porque quando a gente é criança, é porque assim, a realidade existe, né? Ela tá acontecendo aqui. Aí línguas diferentes fazem aquilo que a gente falou, faz um recorte diferente dessa realidade. Mas no começo, quando a criança tá aprendendo uma linguagem, ela não sabe exatamente onde tá esse limite desse corte. Então quando você fala alguma coisa, ela tem que usar outras pistas para ela descobrir aonde que tá esse corte.
Inclusive tem um filósofo, ele fala, por Por exemplo, se você olha para um coelho correndo, tá uma criança do seu lado, você aponta para o coelho e fala assim: gavagai. Como que a criança que tá ouvindo isso, como que ela vai saber a que que esse gavagai tá se referindo? Ele tá se referindo ao objeto coelho, a ação que o coelho tá fazendo ali na hora, a uma parte do coelho, a pata do coelho, a orelha do coelho? No começo ela vai associar aquela situação, o contexto como um todo, e depois ela vai começar a distinguir.
Olha, na verdade agora o coelho não tá correndo e usou também gavagai, então gavagai não deve ser para significar que ele tá correndo. Agora tá mostrando só a cabeça do coelho e ele falou gavagai. Então eu sei que não é a pata do coelho. E assim com o uso que a criança vai começando a distinguir aonde que tá o corte da língua ou não, aonde que tá a categoria ou não. E por isso que a gente fala que aprender uma segunda língua, por exemplo, se a gente quiser que uma criança seja o que a gente chama de bilíngue simultâneo, é você expor a criança essas várias línguas desde o começo.
Porque aí ela vai, no começo ela vai usar isso como um sistema só, ela vai falar assim, olha, esse barulhinho aqui que o pessoal chama de inglês, o corte é aqui. Existe outro barulhinho aqui que as pessoas chamam de português, o corte em outro lugar. E ela consegue ver essa nuance de uma forma muito mais fluida do que a gente que aprende muito depois, por exemplo, e precisa das exposições sucessivas, né?
É isso. Só que isso não acontece só com a criança aprendendo. Eu lembro minha sobrinha falando: quando é que a gente vai para o Natal? Só que tava tipo em agosto. Não, Isa, não tem Natal. Não, a gente não vai lá para o Natal porque Natal era sempre na casa do meu avô. Eu, quando ela queria falar a casa do avô, era quando é que a gente vai para o Natal, porque o Natal é que era ir para casa do avô. E ela também usava: por favor, por favor, obrigado, tudo junto, assim como se fosse uma palavra só.
Que gracinha!
Era assim: ô Dinda, por favor, obrigado, vamos lá tomar cerveja. Porque ela não conseguia, não tava ainda sabendo aonde, qual era o contexto de um contexto do outro. Mas isso vai se tornando cada vez mais complexo, obviamente. Mas a gente faz isso o tempo inteiro, a gente continua sofrendo esse processo o tempo todo. E aí é que a gente chega na coisa do: mas como é que nós estamos falando a mesma língua, nós estamos falando da mesma coisa e nós estamos conseguindo falar exatamente o contrário do outro.
E aí você fala: não, mas eu vou aqui mostrar para ele por A mais B, dado científico, com a evidência que ele pode ver. E ele fala: sim, exatamente, tá vendo como eu tô certo?
Exato.
Olham para a linha do horizonte, que é o que faz a gente saber que a Terra é redonda, porque se não fosse redonda não tinha linha. E falam: tá vendo, a linha do horizonte prova que o mundo é plano.
Então, mas aí essa que é a parada, como que a gente, sabendo essas distinções e sabendo que apesar da gente compartilhar linguagem, por exemplo português, e a gente fala e as pessoas não entendem. Esse podcast, por exemplo, tem certeza vai ter gente que vai entender plenamente, vai ter gente que vai entender de uma outra forma, né? Tudo que a gente coloca no mundo vai ser reinterpretado, porque isso acontece dentro do cérebro de cada um.
A linguagem que permeia entre nós é um facilitador de comunicação, mas não é, não é um algo certeiro, científico, de que vai sempre. Você falou o negócio, tanto que tá a brincadeira de telefone sem fio, é para provar isso, que a gente vai reinterpretando as mensagens a cada pessoa. E no fim do telefone sem fio, a mensagem original, que é o dado original, se foi, e sobrou uma construção narrativa de algo que foi enraizado naquela informação normal, mas saiu outro bicho.
É, tem muita gente que vai achar que o André tá morando no motel em Dallas.
Exatamente. Ou no Caribe.
Mas o Adriano tá num hotel em Dallas ou no Caribe?
E aí, exatamente isso. Onde é que tá o boi na linha, literalmente? Onde é que tá o telefone sem fio? A gente tá esquecendo de uma variável crítica para compreensão da linguagem, a formação do pensamento, que é linguagem, sentimentos, emoções e sensações. Isso faz parte da linguagem, faz parte daquele contexto de compreensão da linguagem. Então, conforme essas coisas vão se juntando, elas vão se juntando em— a gente fala, o termo técnico é redes relacionais, mas elas vão se juntando em conjuntinhos assim.
Tem coisas que estão todas no mesmo conjuntinho, que todas elas meio que tem o mesmo contexto de sentimento e emoção. Mas aí, se eu falar para você dor, sofrimento, cansaço, desesperança, eu vou falar: como que você me conhece tão bem?
O que você quer dizer com isso?
Por que você está falando diretamente comigo?
Em outra experiência da sua vida, dor estava presente em outro contexto de emoção. A sensação pode ser a mesma. Você sabe que tem gente aí que o contexto de emoção de dor pode ser muito diferente dos demais, entendeu?
A galera que frequenta o Dallas e Caribe, ou a galera que nunca fumou, porque deu uns puxão ali.
Pois é. Eu sempre quis saber exatamente isso, cara. Não dói quando o cara pega ali e puxa para cima?
Tem dor muito pior, aquela fica completamente irreverente.
Tem dor muito pior, foi muito bom.
E aí você tirou daquele bolinho que ele tava ali todo encaraganhado com coisa ruim e botou com coisa boa. Duas coisas podem acontecer, a depender da sua história de vida. As coisas boas imediatamente vão se tornar ruim porque foram relacionadas a uma coisa ruim, e as coisas ruins podem se tornar boas porque foram relacionadas a uma coisa boa. Só que isso acontece bilhões de vezes durante a sua vida inteira, o tempo inteiro.
Você tá falando é mais ou menos aquela parada do divertidamente das memórias ganharem nuances de bom, agridoce, né?
É mais que isso, é a memória, é o contexto inteiro já. Se você for falar da linguagem que descrevendo essa memória. Então isso vai acontecendo de maneira completamente meio aleatória na vida da gente, mas às vezes é recorrente. Eu tenho criança que não pode ouvir falar vamos fazer um desenho.
Você disse seus pacientes, né? Porque você atende criança, né?
Você é psicóloga, você atende criança, principalmente crianças autistas. Quando você fala vamos fazer um desenho, e aí eu tô ali com o tal do autista não verbal, olha como é Né, quando eu disse que não existe ser humano que não tenha linguagem.
Desculpe, o autista não verbal, ele não vai conversar com você?
Não vai conversar com você. Às vezes ele não consegue nem produzir sons. Eu falo: vamos fazer desenho? E aí ele começa a bater o pé, chorar, a tentar bater em você. Eu xinguei ele? Eu produzi? Não, eu só descrevi uma determinada situação que na vida dele significa um monte de coisa ruim, e só de ouvir falar daquilo ele já tá reagindo emocionalmente, que era aquilo que a gente falou no começo da associação.
Esse barulhinho fazer desenho, que eu associo uma coisa positiva, o Alexandre associa alguma coisa específica, ele associa a um contexto muito negativo para ele. E aquilo tudo vem à volta, é acionado quando você repete.
Aí você tem associação direta, mas ainda assim não é direta direta, porque ele não tá reagindo ao papel e lápis que eu botei materialmente na frente dele, numa mesinha com uma carteirinha para ele ficar preso sentado. Ele tá reagindo só às palavras que descrevem isso. Aí agora lembra daquela coisa que às vezes uma palavra se liga na outra palavra com outro significado e ela começa a mudar a direção das coisas? Daqui um tempo, na nossa vida banhada em linguagem, eu vou estar reagindo a alguma coisa que só teve uma relação remota, que entrou numa rede por um acaso, e ela vai provocar em mim a mesma criação de eu estar em contato com aquilo que a palavra descreve.
Pera aí, me dá um exemplo para eu entender melhor.
Pode pensar um trauma, né?
Trauma é mais fácil de ver porque a reação de trauma ela é muito intensa, então ela é visivelmente identificável. Mas você pode, por exemplo, se você tem uma história muito difícil com, por exemplo, a figura do seu pai, muito difícil, era um pai abusador, fez todo mundo sofrer, a vida inteira você carregou a coisa de meu pai não gostou de mim, eu que não soube. Imaginar essa história bem de filme assim do Hallmark. E aí você se coloca numa situação em que você tem um chefe que tem alguns comportamentos que são paternais.
Muito provavelmente você vai sentir, você vai começar a desenvolver uma relação com esse chefe de tentar provar para ele que você é bom, de se manter sempre emocionalmente distante porque você tem essa história de quando tem, né, um envolvimento emocional, isso vai causar dor. Mas você não sabe de nada disso, sabe que vai acontecer. Isso vai parar lá na terapia porque você tá tendo crise de ansiedade toda vez que senta no seu escritório, ou porque você não consegue entender por que que você não consegue parar em trabalho nenhum, né?
Toda vez que qualquer situação minimamente paternal te deixa desconfortável, incomodado, ansioso.
Esse exemplo que a Aninha deu, ele, eu acho que ele serve para mostrar o seguinte: A gente, como estudioso da linguagem e tal, a gente faz essa divisão do tipo: ah, olha, existe esse componente da linguagem aqui que é a sintaxe, que é assim que a linguagem se organiza. Existe isso aqui que é a semântica, que é como a linguagem significa. Mas na nossa cabeça, a gente recebe estímulo o tempo todo de tudo. Aquilo vai ativar coisas na nossa cabeça e vai espalhar sentimento e emoção de uma forma muito geral.
Então assim, é uma palavra— eu gostei do exemplo que ela deu, quando ela falou assim, colocar o papel e o lápis na frente da criança não vai dar a mesma reação do que você falar vamos desenhar, porque quando você fala, a linguagem ela vai acender certos pontos na cabeça da criança que só a imagem não faz, mas a descrição dela faz. E na nossa cabeça é isso, tipo, o que vai entrar lá vai ser estímulo visual, sensorial, emocional, e a linguagem é só um deles que vai ativar toda essa gama de sentimentos assim.
Mas o que eu acho interessante nisso tudo é que eu acho que é uma coisa igual o Thaís tava falando mais cedo, aprender uma outra língua não é só aprender um código linguístico diferente, é basicamente basicamente aprender uma outra perspectiva de ver o mundo. Você vê o mundo de um jeito diferente. Olha um exemplo muito bobo que eu gosto de dar: qual que é a marcação de plural em português? Quando eu quero marcar um plural de alguma coisa, S no final, vai. É o S no final. No inglês, essa também depende, né?
Tem as suas exceções, mas sim, isso.
Mas no geral é um S. Então, por exemplo, você aprender inglês e português com relação à marcação de plural, basicamente a mesma forma. Em indonesiano, eles não têm marcação de plural fixa. O que que eles fazem? Eles repetem a palavra. Então, se você quer falar assim: eu tenho um livro, livro, você fala eu tenho um livro. Bacana. Se você quer falar assim eu tenho livros, você fala assim eu tenho livro livro. Você fala a palavra livro duas vezes porque isso marca o plural.
Então você quer falar que você tem crianças, você fala anca anca, que são crianças. Você não tem uma marcação específica. Isso é uma forma diferente de ver marcação de plural. Ah, então quer dizer que eles não percebem plural? Quer dizer que eles não percebem número? Não, claro que percebem. Eles só resolveram marcar essa realidade de ter mais coisas gramaticalmente de uma forma diferente. E que para algumas pessoas é mais simplificado, né?
Mas então, mas isso, o ponto aqui é, isso não é só mudanças de representações de coisas em som. Não é só que tem um som diferente na língua diferente. Existe uma percepção, uma forma de descrever diferente que é baseada na experiência daquela sociedade.
Isso, eu tomaria cuidado o seguinte, eu não falaria que é uma forma de percepção diferente, porque a percepção, pelo menos na ciência, a gente trata percepção como aquela coisa muito low level de tipo que meu sistema fisiológico consegue ou não distinguir, certo? E todo mundo vai conseguir distinguir tudo. Aquilo que a Aninha falou no começo, tem uma língua lá que tem 200 palavras para verde e uma língua tem uma só. Todo mundo vai fisiologicamente perceber todas as nuances do verde, eles só vão nomear aquilo diferente.
Mas aí é aquilo que você falou, é como que a gente resolve descrever aquela realidade. Isso é diferente, e diferentes línguas vai descrever a realidade de uma forma diferente. Eu acho isso fantástico, porque exatamente, porque você vê uma forma diferente, viu, Monta. Um outro exemplo, quando o Alexandre me mandou, quando ele me chamou para esse podcast, ele me mandou um vídeo, eu acho. Qual que foi o vídeo mesmo, Alexandre?
Eu te mandei um vídeo sobre a treta que tava dando com o filme novo do Nolan, né, Odisseia.
Isso, isso mesmo.
Porque num dos trailers tem uma hora que o Tom Holland, que tá falando do pai dele, que é o Ulisses, o Odisseu, né, ele fala: my dad is coming home. Ou seja, né, o meu pai tá voltando pra casa. E aí a treta era o seguinte: caralho, dad? My dad? Tipo assim, dad é um termo muito coloquial e muito recente, moderno, né, na língua inglesa pra se referir. Já que é uma parada antiga, você iria pra um my father, como uma coisa um pouco mais formal, etc., que a gente ouve quando vê Game of Thrones, a gente ouve todo esse inglês mais formal pra meio que tirar você do tempo atual, não ficar estranho, né? E você imaginar que a linguagem era falada de forma diferente no passado, etc.
e tal.
Mas tem uma linguista, né, que fala que ela fez uma tradução da Odisseia e ela defendeu isso dizendo: gente, essa história tem quase 3.000 anos. Qualquer tipo de variação de linguagem, sei lá, do inglês moderno de hoje em dia para o inglês do século 19, é uma coisa um pouco mais pomposa, que todo mundo não arcaico, que ninguém entender nada, mas um pouco mais pomposo, uma coisa assim. É irrisório, é desprezível a diferença linguística entre o inglês de hoje, de 150 anos atrás, para qualquer coisa que foi escrita 3.000 anos atrás.
É claro, é que a pessoa ela só quer achar que o inglês é o que ela quer ouvir.
Isso, exatamente. Aí eu coloco até a gente nessa equação, porque perguntaram para a gente: ah, vocês não fizeram inglês quando vocês fizeram A Própria Carne, o filme de vocês, se passa no século 19 durante a Guerra do Paraguai, não é linguagem antiga. O português dessa época era muito diferente, ninguém falava você, eu ia falar vós, mercê, no mínimo, entendeu?
Mas também a única coisa que a gente sabe.
E assim, mas assim, a nossa escolha, assim como qualquer outra escolha de usar uma linguagem moderna, português moderno, era de não criar distrações para o público. A nossa visão era, nossa escolha era, se o público tivesse vivendo nessa época, eles iriam ouvir transcrever o português da época do século 19 como se fosse o português de hoje em dia, ia ser tão natural quanto português de hoje em dia, entendeu?
O Ian trouxe outro ponto, que é: ele nem saberia dirigir um ator se fosse dessa maneira, porque como é que ele ia saber se o cara tá se expressando e trazendo emoção corretas, já que ele não fala dessa forma? Aí a gente teria que trazer linguista e, puta, sabe, um caminho que a gente não queria percorrer.
Exato. Aliás, a melhor resposta foi a do Tom Holland, né? Mesmo porque não era nem em inglês, né?
É, não era nem em inglês, entendeu? Ainda acabou. Então você tá adaptando já em uma outra língua. Então qual é o momento dessa língua que você vai dizer que é mais parecido com a língua original? Não tem.
É o que a pessoa quer na cabeça dela, é isso.
Então, mas é aí também é a coisa de, sinceramente, se esse fosse o problema do filme do Nolan, o filme seria uma obra-prima. Mas é exatamente isso. Não, não, eu tô só baseado naquele fulano No fantasiado de Batman que apareceu no trailer. Mas assim, é a coisa da linguagem do cinema, que é muito bem usada pelo Nolan, né? Tanto é que ele bota lá todo mundo com aqueles penachos na cabeça, e aquilo só foi acontecer 1500 anos depois, na Roma Antiga.
É cinema.
Mas quando a gente pensa gregos antigos, esse povo da antiguidade, a gente pensa naquele layout do gladiador romano, das tropas romanas, que tem o penacho na cabeça, que tem aquela sainha de fitinha, que tem sandália amarrada na perna. Ele poderia ter adotado, né, a filosofia de ser absolutamente purista e historicamente correto, mas para ele, do ponto de vista de um diretor como o Nolan, é muito mais importante a maneira como o que ele tá botando na tela vai fazer o público se sentir.
Exatamente.
Então, para isso, ele precisa usar a linguagem, o significado que este público do ano de 2026 vai sentir como antiguidade.
Não quer dizer que ele possa te falar assim, ah, vou botar tudo que é termo de TikTok aqui, vai dar tudo certo. Exato, porque aí muda mesmo o contexto.
Mesmo porque isso ia quebrar sua suspensão de desbeliche, ia quebrar sua imersão.
Exatamente, né?
Mas para você ver como ele usa, né?
Se fosse usar linguagem de TikTok, o filme ia ter que ter 3 minutos.
Pois é, ia falar, né?
Ia ter que virar a tela na vertical.
É exatamente isso.
3 minutos é longa-metragem, né?
Vem aí o cinema na vertical! Pode escrever o que eu tô falando aqui. Vem aí! Não que eu queira, mas ele vem.
Odisseu ia descer do barquinho em Ítaca. Você lembra que eu vi olhar para a cara dele e falar: aê, paizão, farmando aura, hein?
Esse exemplo trouxe uma coisa assim de vocabulário, que é assim vocabulário que era usado naquela época e como que essa tradução chegou até hoje, essa discussão toda da tradução. Mas a gente tem exemplos, você pegar o original da Bíblia em grego antigo, você vai ver formas verbais lá ou formas gramaticais que não tem uma contrapartida no original, quer dizer, já grego antigo já é traduzido, né? A versão que a gente tem geralmente é tradução da tradução do grego.
Sim, sim, sim, sim, sim. O grego é a base da tradução para a maior parte das línguas.
Isso. No inglês, no português, nessas línguas mais modernas, a gente tem dois tipos de vozes que a gente chama da voz ativa e voz passiva. Vocês se lembram disso? Cachorro mordeu a vizinha e a vizinha foi mordida pelo cachorro. Voz ativa e voz passiva. Em grego antigo a gente tem três vozes: tem a voz ativa, a voz passiva e uma voz que ele chama de voz média. E assim, de novo, você tem marcação diferente, né? Assim, a palavra escrita de forma diferente quando é voz ativa, quando é voz média e quando é voz passiva.
Essa voz média, ela não tem uma contrapartida no inglês ou no português. Então a gente, quando a gente traduziu para cá, a gente escolheu a voz ativa ou a voz passiva.
Puta, mudou o significado já da parada!
Exatamente, essa nuance perde. Então é um exemplo clássico, é na Bíblia lá tem uma parte que fala que Jesus vai voltar. Essa tradução assim, Jesus vai voltar, tá na voz ativa. Jesus vai voltar. No grego antigo tá na voz média. Qual que é a característica da voz média? A voz média é uma, vamos dizer assim, uma voz ativa, mas que ela foi feita porque a pessoa que fez quis fazer. Então, por exemplo, se eu peguei meu carro e fui no supermercado, eu quis pegar o carro e ir no supermercado, eu uso a voz média.
Se minha mãe pediu para eu pegar o carro e ir no supermercado, eu uso a voz ativa. Então assim, é porque eu fui ao supermercado, mas porque eu quis ir, assim, foi uma decisão minha. Na Bíblia, quando que tá lá escrito que Jesus vai voltar, tá na voz média, que é falando assim: ele vai voltar porque ele quer voltar, não é alguém que decidiu por ele. Vai se voltar em si mesmo, ele vai se voltar. Exatamente. E a gente perde essa nuance.
Então assim, quando a gente faz essa tradução, essas pequenas nuances assim que tinha numa outra língua não tem mais, a gente vai perdendo. Aí de novo, quer dizer que isso não tava lá ou que a gente não consegue entender? Não, é só porque como se perdeu, a gente acaba entendendo de uma forma diferente.
Ou seja, então não é que Jesus vai voltar porque isso é uma obrigação contratual com Deus, a humanidade e tal. É Jesus vai voltar quando ele quiser voltar. Isso nos ajuda a interpretar que Jesus nem fodendo vai querer voltar para essa porcinha.
E vai, mas nem por caralho. Já pensou?
Ou seja, Jesus não vai voltar.
Por isso que ele não voltou até hoje.
Exato.
Hoje já voltou, hein? O Ice colocou ele numa prisão lá no deserto do tempo, tá lá até agora, coitado. Exato.
Eu tenho uma gíria para isso que me ajuda, me ajuda muito entendeu a voz média, que é se pá, se pá, se pá, eu volto.
É tipo isso. Mas você sabe que imediatamente eu pensei numa coisa que, pelo menos no interior de São Paulo ali, sul de Minas, interior de São Paulo, a gente ouve muito: eu se esmagreci.
Se esmagreci, verdade, né?
Quando a pessoa faz uma dieta: eu se esmagreci. Então ela se empenhou com vontade, ativamente, para se esmagrecer, entendeu? Ah, sim, é a Exatamente. E é isso que o André falou para mim, é isso. Então quando eu digo que não é que o pensamento molda a linguagem ou a linguagem molda o pensamento, eles são a mesma coisa.
Sim, mas eles variam de acordo com as experiências.
Aí o contexto é que vai moldar literalmente, né, essa como que você significa. E a gente faz isso, né, para manipular os outros. A maneira como você diz uma coisa vai causar diferente para outra pessoa. Uma coisa é você falar filho de médico encontrado em uma lancha com 500 kg de cocaína.
Ah, não é traficante nunca, é estudante, estudante. Qual é a cor da pele? Aí muda a palavra.
Exato. Traficante é preso no hospital enquanto o filho dava à luz. E ali, lá no terceiro parágrafo da notícia, tem lá o suspeito que está sendo investigado. Quer dizer, você já falar, disse para pessoa o que que ela pensa, sim, sim, e o que ela pensa do outro.
A relação entre linguagem e pensamento é tipo um processar, é como a pessoa processa o estar no mundo dela. Então é uma coisa cíclica, contínua, ela tá mudando o tempo todo. Você reconhece as coisas do mundo e você é reconhecido por isso também, né? Tem uma pergunta assim que eu faço para mim mesmo o tempo todo, tá? E é uma pergunta que todo mundo devia pensar assim, não é para chorar, tá? Mas é uma pergunta que eu me faço sempre assim: como eu acho que ela não vai me entender.
Que assim, como construir condições para você desejar ser quem você é? E isso é a relação saudável entre linguagem e pensamento.
Eu tenho a resposta: terapia de aceitação e compromisso. Esse é o meio, mas assim, mas pensando como é a estratégia, porque a ACT vai trabalhar justamente com isso. Vamos entender que porra que você fez aqui nessa falada da sua linguagem, da sua compreensão de significado, e vamos tentar reajustar isso aqui justamente no caminho para aquilo que é valoroso para você. Primeira coisa: o que que você realmente quer ser? Quem é essa pessoa?
Ok, uma vez que eu já fiz isso, agora eu vou rearranjar todas essas outras coisas nessa direção para que eu aprenda a pensar. E aprendendo a pensar nessa outra direção, os meus sentimentos e sensações vão nessa outra direção, ainda que eles sejam desagradáveis, dolorosos, angustiantes, mas eles estão numa direção que é importante. Então eu consigo atravessar isso em vez de ficar apavorada com qualquer coisa e me trancar dentro de casa e nunca mais sofrer por nada, porque também eu não sinto mais nada.
Exatamente. É luta e perda, é indispensável assim. Todo mundo vai passar por luta e perda, mas você pode usar isso como combustível ao invés de usar como peso, né? E é um processo isso. Então, de novo, essa pergunta é importante todo mundo se fazer assim: como você constrói condições para desejar ser quem você é? Isso, isso tem que se pautar assim. Se fosse reduzir isso aqui numa nossa conversa numa mensagem, na minha opinião seria isso.
Essa pergunta: como você processa o estar no mundo a partir da construção condições para desejar ser quem você é? Não tem resposta tão direta, mas é um bom caminho.
Mas eu não sei nem se eu entendi o conceito da pergunta.
É, eu também não, né? Para mim não faz sentido. Como você constrói condições? Então quer dizer que você já sabe quem você é?
Não, como você constrói as condições para ser capaz de desejar ser quem você é? É tipo esse processo entre linguagem e pensamento o tempo inteiro. Só pensando, você tem que saber quem você é, não, não necessariamente tem uma distânciazinha aí.
Como assim? Me explica melhor, porque os psicólogos estão Não tô brigando, gente, presta atenção.
Por exemplo, Alexandre, você é o que é em si mesmo agora, você é o Alexandre agora, certo? Só que entre você agir no mundo e perceber essa ação tem um detalhezinho, tem uma distânciazinha. Para algumas pessoas essa distância gera um gap muito grande. Por quê? Porque qual que é a parte legal e ambivalente da linguagem? A linguagem é uma forma muito interessante de você se projetar no mundo, só que ao mesmo tempo que você se projeta no futuro, você carrega muita coisa do passado.
Sim, então é diferença entre o que você é e o que você deseja ser tem um gap. E é isso que você tem que trabalhar, né, nesse caminho. Porque o seu presente é construído o tempo todo, mas você, o que você acha que você é, você carrega coisas de trás, que a linguagem carrega, a maneira como você usa a linguagem para estruturar o seu pensamento. E a ideia é esse trabalho para diminuir esse gap entre o que você é e o que você deseja ser, sabe?
Isso é um processo contínuo, é uma estratégia de aprendizagem para as coisas em geral mesmo.
Eu vou traduzir um vocabulário que eu entendo. Na verdade, esse gap que você tá falando não é quem você é e quem você percebe, é você aqui agora e como você relata você, como você descreve você aqui.
Isso é o é e o desejar.
Ou seja, como você transforma isso que você tá aqui agora em linguagem e reconhece isso também.
O que vem dessa transformação é de você se expor no mundo como você quer.
É isso, você tem um senso de autenticidade. Tipo, por exemplo, você buscar: eu quero ser feliz. É uma coisa muito idealizada. Você consegue perceber a felicidade não como a causa das coisas, mas como uma consequência das coisas. As coisas que eu estou fazendo faz sentido, eu consigo explicar, eu tenho uma capacidade de automonitoramento razoável, parece que o que eu estou fazendo faz sentido. E a felicidade é uma consequência disso e não a causa.
Porque se você coloca a felicidade como causa das coisas, você tá delegando isso para alguma entidade que você não controla. Isso é muito ruim, é muito moderno isso também.
Eu preciso ser isso para ser feliz, ou eu não sou, eu não não tem identidade.
É isso, é isso. Essa condicionalidade é essa condicionalidade forte da vida da gente, porque é isso, a gente tá sempre colocando um si. E veja, isso que é legal da linguagem também, é só a linguagem que é capaz de andar no tempo, porque a gente só existe o agora.
Caraca, Aninha, porra!
O para trás já passou e o para frente não veio.
Sabe aquele meme do nerd?
Mas essa é a beleza e a maldição. A linguagem, que nem a internet, foi a melhor e a pior coisa que a gente inventou. Porque isso é incrível, a gente poder produzir uma realidade que não existe, ou para frente ou para trás, ou lembrar memórias ou projetar no futuro. Isso só pode ser feito com linguagem.
Só linguagem atravessa o tempo.
Porém, se a gente viver só na linguagem, a gente não vai estar vivendo, a gente vai estar só projetando ou remoendo.
Exato isso.
Por isso sai da internet, vai andar, vai dar umas voltas aí.
Aí faz uma hora e touch grass.
Mas essa aqui é a coisa, se eu ficar só no futuro, porque a coisa do quando eu tiver um carro, daí eu vou fazer todas essas coisas que eu sempre quis, e que ia adiar, ou quando eu me formar nisso, tereré, eu vou poder fazer fazer um filme. Não, mas depois que tiver perfeito, porque esse livro que eu escrevi não tá ainda assim perfeito, depois que tiver, você não tá vivendo, você só tá produzindo linguagem, produzindo pensamento.
Como é que você vai desejar ser isso? Agora fez sentido, não vale a pena, entendeu? Então como é que você vai fazer?
Esse é o problema da linguagem, com o agravante de que, a depender do seu contexto social, do as pessoas usam a linguagem para moldar os seus pensamentos, essa falta de touch grass, de sair da realidade e ir para Terra Plana e acreditar que Jesus vira uma coisa insana, gente. A gente tá vivendo isso, né, que é a tal da realidade paralela, da verdade paralela, verdade alternativa. Gente, fala para mim, 20 anos atrás, se eu falasse verdade alternativa, a pessoa ia rir da minha cara e falar: que jeito bonito de falar mentira, né? Que o que que é alternativo da verdade? É mentira.
Esse termo, eu não sei se ele foi cunhado, mas ele imensamente disseminado no primeiro dia da primeira administração Trump em 2016, quando a posse dele teve— primeiro choveu pra caralho e teve pouca gente. E aí a galera na internet imediatamente comparando a posse do Obama, que foi o presidente anterior a ele, com a dele, mostrando que tava mega lotado aquela parada toda e tal, não sei o quê. E aí eles falaram no dia 2 da administração ou seja, no dia depois da posse, que não choveu e choveu, e que tinha mais gente do que o Obama.
E quando a própria imprensa falou não, não foi isso que aconteceu, eles falaram que esses são fatos alternativos. A gente tá vivendo na época dos fatos alternativos.
E não adianta você ir lá e mostrar, que foi o que a repórter fez, né? Não, tá aqui a foto aérea, não tinha. Ele olha para a realidade e diz não. E aí eu produzo outra realidade só com linguagem e ela vira real.
E aí é isso que eu quero te fazer, eu quero alguma coisa que a gente aprenda assim, né, de cash, é a linguagem ela vai determinar narrativa sempre, entendeu? E como a gente falou aqui das manchetes de jornal, né, se o cara foi pego com droga e é branco, é de classe média, etc., é o estudante, foi pego com droga. Se é preto, periférico, etc., é traficante. Você vê nas manchetes, a gente tem que saber ler as manchetes porque porque elas estão já interpretando, elas estão fazendo o que a paciente da Ana faz.
Em vez de descrever o fato, ela está interpretando, entregando a interpretação do fato. E você acha que você está lendo algo que está entregando os fatos. Não está. Nenhum veículo de imprensa jamais entregará os fatos, nem o que você gosta. Você vai ter que entender que eles estão sendo filtrados, eles estão sendo— a linguagem está sendo usada, empregada de uma forma profissional por profissionais da linguagem para criar a narrativa X ou Y.
E o ideal nesse caso é a diversidade, porque às vezes, às vezes é difícil você chegar nessa, vamos dizer assim, entre aspas, realidade objetiva para você conferir aquela narrativa que você recebeu. Então geralmente o conselho que eu dou é o seguinte: diversidade. E o que quer dizer essa diversidade? Você vai ler o jornal A, B, C, D, EFG, você vai ler a pessoa YK, você vai pegar diferentes narrativas e perspectivas e tentar montar a partir dessas diferentes narrativas e perspectivas uma imagem que vai te dar uma visão um pouquinho mais acurada daquilo que aconteceu de verdade.
Exato, é isso que a ciência tenta fazer, é chegar mais perto de uma verdade objetiva, mas sabendo que ela não é absoluta, ela é objetiva. A gente tá tentando chegar lá perto dela, entendeu? Mais próximo possível com as nossas capacidades atuais.
Mas isso que o André falou é a coisa de quanto mais— lembra lá da coisa das redes relacionais, que uma coisa vai puxando a outra? Quanto mais vasta e complexa é seu repertório de relacionar uma coisa com a outra, uma coisa com a outra, outra com uma, mais flexível você é para considerar todas as opções, para entender as nuances. E é, a gente tem algumas evidências aí, o André que gosta de ficar cutucando artigos, você vai lá ver pra mim se isso é verdade mesmo, mas tem alguns estudos sobre como é que é o funcionamento cognitivo de dois grupos diferentes, que nos Estados Unidos é chamado de liberal e o outro que nos Estados Unidos é chamado de conservador, e me parece que os resultados replicados mostram que conservadores tendem a ser menos flexíveis e ter redes relacionais menos vastas e complexas do que pessoas liberais, porque pra você se dizer liberal, Você precisa ser flexível e ver diferentes perspectivas.
Lembrando que liberal que você tá usando como termo é dos Estados Unidos, não é o mesmo liberal, é um falso cognato com o liberal que a gente usa no Brasil, que é diferente, né? Você tá querendo dizer que é uma pessoa mais progressista, é isso?
Direita, esquerda, isso. Progressista é bom.
Que no Brasil liberal a gente vai usar de liberalismo, neoliberalismo econômico, que é a galera do Partido Novo.
Diferença de visão e linguagem aí, ó.
Total. Essa coisa do conservador e liberal é muito importante porque volta na questão de ser feliz ou não, né? Porque se você é uma pessoa que é aberta ao outro, a variedade, a diversidade, você não vai ser feliz no começo, porque no começo tudo te incomoda, porque você convive com coisas muito diferentes. Você tem que estar confortável com esse desconforto de se abrir ao mundo o tempo todo, né, e tentar entender o diferente. Mas a felicidade vai ser a consequência.
Nossa, entendi um jeito diferente de usar a língua! Nossa, você usa a palavra diferente diferente de mim. Não é que você tá errado, não é que é uma falta nem uma ausência, é uma variação. Isso é muito enriquecedor. E aí eu quero deixar um disclaimer para todos aqui, que é muito importante: a gente não plantou um fato alternativo. O Dallas e Caribe existe, mas não é de fato real.
Existe. Eu quero que põe um bique, que agora vai voltar.
Observação empírica: vai fazer o teste, vai verificar se o Dallas e Caribe existe mesmo. Mas estamos afirmando que existe. Ô André, qual que é o slogan?
O destino de quem ama.
A voz ainda, guia a voz.
Pode contratar o André de garoto propaganda aí porque o garoto tá pronto, a linguagem já está na ponta da língua.
É o embaixador do Dallas e Caribe.
Conta mais uma, conta mais uma, por favor.
Dallas e Caribe, o destino de quem ama.
O coração chegou a bater agora.
Meu Deus.
Este Nerdcast foi editado por Radiofobia Podcast e Multimídia.
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