Episódios de Outra Visão

No Ar durante o 11 de Setembro: a História do Voo VARIG 830 para Los Angeles no MD-11

02 de maio de 202656min
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Alexandre Cabrera e André Massimino, passageiros do voo, contam nessa conversa com Paulo Cunha e William Bertotti o que viveram naquele dia histórico.O cenário é o voo Varig RG-830, em 10/09/2001, operado por um MD-11, na rota Rio (GIG) / São Paulo (GRU) / Los Angeles (LAX) / Narita (NRT).Esse voo ganha um peso único por causa do que acontece horas depois.A decolagem ocorreu na noite de 10 de setembro de 2001 e seguiu durante a madrugada.A aproximação e a chegada aos Estados Unidos aconteceram na manhã de 11 de setembro de 2001, durante os ataques.A aeronave não foi autorizada a descer em Los Angeles e precisou alternar o pouso para a cidade de Tijuana, no México.Alexandre Cabrera e André Massimino, estudantes brasileiros, eram passageiros desse voo.Nesta conversa, ouvimos os depoimentos de Alexandre e André sobre o que aconteceu nesse voo, sob a perspectiva dos passageiros.Fatos reais de um dia que ficou para a história.
Participantes neste episódio4
P

Paulo Cunha

HostComunicador
W

William Bertotti

HostPiloto de avião
A

Alexandre Cabreira

ConvidadoDiretor de fotografia
A

André Massimino

ConvidadoComerciante
Assuntos4
  • Voo Varig 830 e 11 de SetembroDecolagem e Rota do Voo · Aproximação e Desvio para Tijuana · Impacto dos Ataques de 11 de Setembro · Experiência dos Passageiros · Decisão de Descer em Tijuana · Atravessando a Fronteira · Reação e Consequências
  • Aviacao e Seguranca AereaMudanças na Segurança Aeroportuária · Impacto do 11 de Setembro na Aviação · O MD-11 na Aviação · Comparação com o Acidente de Tenerife
  • Relatos Pessoais e TraumaMedo e Trauma Pós-11 de Setembro · Apoio da Varig aos Passageiros · A Importância da Companhia na Decisão
  • Estadia nos Estados UnidosExperiências de Moradia e Trabalho · Diferenças Culturais e Cotidiano Americano
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Na noite do dia 10 de setembro de 2001, o voo Varig 830 partiu de São Paulo com destino a Los Angeles em um MD-11. O que seria uma travessia rotineira se transformou em uma experiência única, quando já se aproximando de Los Angeles, a aeronave precisou ser desviada e pousou em Tijuana, no México, em meio ao início de um dos momentos mais marcantes da história recente.

o 11 de setembro de 2001. Nesse episódio, vamos registrar os depoimentos dos passageiros Alexandre Cabreira e André Massimino, que estavam a bordo desse voo e viveram essa jornada dentro da cabine. A conversa faz parte de um episódio especial no programa de William Bertotti, no Estúdio Fly, e a íntegra da entrevista também estará disponível no podcast Outra Visão.

Então, boa tarde, bom dia, boa noite a todos. Gostaria de iniciar a nossa conversa pedindo uma breve apresentação de cada um dos participantes. Vai lá, Cabreirão. Meu nome é Alexandre Cabreira, eu sou diretor de fotografia, fotógrafo, e entrei nessa história toda aí porque estava morando nos Estados Unidos, e junto indo com o meu amigo.

Mino, para essa... Que seria uma viagem corriqueira, foi bem diferente o que aconteceu. Mas essa sou eu, Alexandre, moro atualmente aqui no Brasil. E é isso. Vamos lá, Minão. Olá, meu nome é André Massimino, tenho 49 anos, moro em São Paulo também, capital, sou comerciante do Ramo de Tintas.

E embarquei nessa aí também, sem saber, no dia 10 de setembro de 2001, tudo isso aconteceu, era a minha primeira vez que estava indo morar fora, junto com o meu amigo Cabreira, e acabou tornando aí uma aventura, um caos praticamente, foram longas 24, 40 horas, 24, 40 horas de loucura que nós passamos lá. Bom, eu sou o Bertotti, William Bertotti, sou piloto de avião também.

morei e moro há muito tempo nos Estados Unidos, em Nova York estou no momento todo o Brasil aqui, a trabalho também conheço o Paulão faz muito tempo, sou amigo dele também prazer em conhecer vocês dois agora o Cabreira e o Mino e dividir, que vocês vão dividir essa história de vocês aí, nesse dia triste, né?

não só para os americanos, eu digo para a aviação também, muito mudou a partir desse evento, e estou muito curioso para ouvir a história dos dois. A primeira curiosidade que eu tenho tem a ver com antes do embarque, por que foi no começo de setembro, na primeira quinzena de setembro que você...

decidiu ir, precisou ir, era início de aulas. Queria que você contextualizasse o porquê que foi em setembro de 2001 que você estava decolando para os Estados Unidos, Cabreira e André. Eu acho que era isso, né, Mino? Eu acho que ia começar a minha aula, né? Isso, eu estava acompanhando você, né? Como a gente já tinha decidido ir para lá, você tinha aula, estava lá matriculado, eu fui junto com você na sua data da sua volta às aulas, em Santa Bárbara.

A gente escolheu a dedo a data para o Minui, porque eu enchi tanto o saco dele, não que você tem que ir, que eu já estava morando lá, eu falei, não, que você vai lá morar comigo, que vai ser maravilhoso, vai ser fantástico. E aí, bem no dia que a gente foi viajar... Eu acho que a gente chegou a trocar essa passagem no balcão, ou um pouco antes, não foi algo assim que aconteceu?

Era por Lima, no Peru? Não, não era, porque esse voo, esse voo da Varga é aquele que para em Los Angeles e ele continua para o Japão. Então eu voava muito esse voo, porque a gente voava até Los Angeles. Aí em Los Angeles eu pegava um ônibus que chamava Airbus. E aí do ônibus a gente ia até Santa Bárbara, onde eu estudava. Então era um trajeto que eu já estava acostumado a fazer.

E aí tinha esse voo que, tanto que metade do pessoal do avião continuava lá, entrava outros passageiros e ele ia para o Japão, né? O Japão, eu lembro disso também. Exatamente, só para então contextualizar aqui, Cabrera, esse era o voo Varig 830, que ele decolava lá do Galeão, no Rio de Janeiro, parava em Guarulhos, seguia para Los Angeles e depois ia para Narita, em Tóquio. Exatamente isso.

E que algum tempo atrás, até dependendo do modelo de aeronave, ele em alguns casos fazia uma parada, podia ser em Lima, mas era dependendo do avião mais antigo, em outros tempos.

naquela época e pelas pesquisas que eu fiz e identifiquei era realmente o MD-11. Então quer dizer, a decolagem desse voo foi na noite do dia 10 de setembro. Eu queria que você contasse então o que aconteceu aí no decorrer desse voo.

Aconteceu tudo normal, vocês perceberam alguma coisa diferente. Claro, tinha toda a ansiedade, principalmente do André, que estava indo aí num momento novo. E para o Alexandre já era uma coisa mais rotineira, então não tinha tantas novidades. Mas eu queria que você relatasse assim.

O que aconteceu ali durante o voo? E em que momento realmente você percebeu que a coisa começou a mudar? Eu não sei se o Mino concorda comigo, mas o que eu lembro, a viagem foi normal. A única coisa que na hora que a gente aterrissar em Los Angeles, que a gente estava cruzando a fronteira mesmo, aí ele começou a fazer rodar.

rodar, rodar, e a gente perguntava o que aconteceu, e aí ninguém respondia, não sabemos ainda, a gente não sabe, e aí começou a rodar, daí passa uma hora, passa duas horas, e aí começa quase um motinho dos passageiros, querendo saber o que estava acontecendo realmente.

O problema é que eles também não sabiam, realmente não sabiam, pelo menos é o que estavam falando para a gente. E aí até o momento, se o Mino lembrar de alguma coisa que eu não lembro, o piloto eu acho que veio falar com a gente, meio assustado, dizendo que ele nunca tinha visto isso antes. Isso, foi isso mesmo. Não foi, Mino?

Foi, porque não tinha informação, né? Não tinha internet, celular, né? Não, porque assim que caiu, bateu, eles cortaram todas as comunicações. Então, não tinha comunicação de jeito nenhum, com nada. A única coisa que o piloto...

Já estava em espaço aéreo americano essa hora que aconteceu, a gente teve que retornar. Foi, retornar e falaram que se a gente não retornasse, depois o piloto falou que eles iam derrubar o avião. Iam derrubar o avião, foi isso que ele falou pra gente. Ele falou, a gente entrou no espaço aéreo americano, eu nunca tinha visto isso na minha vida, em 30 anos de carreira, sei lá, e mandaram a gente retornar, senão eu ia derrubar o avião. Eu lembro de dizer que ele falou isso pra gente também.

Sim. Aí retornou para a Tijuana. Que o avião, ele ficou fazendo... Como é que fala, Bertotti, quando ele ficou em órbita, né? Foi em órbita. Mais de uma hora, duas horas, Cabreira. Não, ficou mais porque o que aconteceu? Eles estavam tentando descobrir o que ia fazer, porque o avião tinha que aterrissar.

porque o combustível ia ter que recarregar, né? E o que aconteceu? O aeroporto que deram para a gente, daí começaram a falar, olha, depois de três horas girando, a gente vai ter que aterrissar em Tijuana. O problema é que é o seguinte, Tijuana não era um aeroporto internacional.

Então, aí que começa... O drama começa a continuar aí, porque ninguém sabe de nada, o avião vai ter que aterrissar em Tijuana. Aí começam a falar que aconteceu talvez alguma coisa de terrorismo, mas até lá a gente não sabia, né, Mino? É. Eu lembro quando a gente foi obrigado a descer Tijuana, porque não tinha mais combustível, o piloto informou para o aeroporto, não era para receber um avião daquele tamanho.

e que não tinha estrutura, mas que ia ter que descer por falta de combustível, pra reabastecer, e ver o que ia fazer. E o cara desceu lá, e viu uma chica lá embaixo um tempão, eu lembro de olhar pela janelinha, e ver um monte de avião, você lembra? Os aéreos de Japão, um avião monstruoso, que a gente falava, meu, um já do lado do outro, começou a encher de avião, né? E a gente trancava o avião. Começou a encher de vários aviões, de outras companhias aéreas que não puderam aterrissar em Los Angeles.

mas só que a gente não podia sair do avião, depois que aterrizou, né, Mino? Porque não tinha alfândega. Não tinha. E a escadinha não alcançava também pra tirar as malas nem tirar a gente, porque não existia avião daquele tamanho naquele aeroporto de Tijuana. É, e a Varig tava assim, ela chegou e falou pra gente, olha, é o seguinte, eu acho que só daqui umas três horas a gente vai conseguir sair do avião, porque eles estão vendo alguém de alfândega.

Eu não tinha alfândio, eu não tinha nada pra receber. E aí falaram, olha, vocês vão ter duas opções. Verdade. Essa foi a decisão da nossa vida. Ou vocês descem em Tijuana, vai ter um ônibusinho que vai levar vocês até a fronteira. Isso aí. Vocês atravessam a pé a fronteira, daí vai ter um outro ônibusinho do outro lado da fronteira. Isso mesmo.

que vai te levar até Los Angeles. Até um hotel. Ah, não, foi. É, foi. Não foi? Eles iam dar um hotel pra gente. Eu não lembro. É, eles iam dar um hotel pra gente em Los Angeles, pra gente ficar em Los Angeles, porque já tinha passado horas e horas. A Varig ia pagar o hotel em Los Angeles, que a gente não conseguiu chegar. É, isso mesmo. É. E a turma que não quisesse ficar nos Estados Unidos, volta com o mesmo piloto.

Uma equipe de bordo e sem comida. Sem comida, já sem banheiro, né? É, porque não tinha comida mais. Vai ter que voltar na Guerreira. E o pessoal voltou pro Brasil? Teve gente que voltou. A gente tava acompanhado de um cara que era o Dorival Caymmi, filho do Dorival Caymmi. Ele tava no voo. E o cara era esperto pra caramba, porque eu era um moleque, eu tinha 21 anos, 22 anos de idade. E quando o piloto falou isso, metade...

quem quiser descer, desce, quem quiser ficar embarcado, volta pro Brasil, o cara levantou e falou, vamos descer, vamos descer, o cara agitou e a gente foi, veio lá do cara, vambora, e o Cabreirão, eu falei, vambora Cabreira. Aí embarcamos no ônibus, aí descemos do avião, que foi uma loucura, a gente desceu, pisou numa caixinha, lembra? Deu os passaportes pro cara e é o nosso ticket de bagagem. Aí a gente não tinha mais nada, a gente tava...

nu e cru, numa salinha com os caras de fuzil do México, olhando pra nossa cara, né? É, e ficamos lá dentro do aeroporto também umas três horas, não foi, Mino? Umas três horas. E aí passou na TV, foi a primeira vez que a gente viu uma imagem.

A gente viu a imagem do avião batendo na torre, na televisão. Foi lá a gente voando, quando a gente desceu. É, aí a gente entendeu o que estava acontecendo. Aí a gente entendeu, que até então era só informação furada, era um atentado, porque não tinha, como disse, um celular para mandar, não tinha, a única opção era a televisão. E quando eles desceram, quando eles fizeram, a gente tinha uma salinha, aí tinha uma TV, né? E aí a gente viu o avião batendo. Aí...

Só que aí já estava espalhado pelo mundo inteiro. Isso daí a gente estava acabando de saber sem comunicação. E assim ficamos por um bom tempo sem comunicação ainda, né? Depois do tio Juan.

E aí depois que liberaram a gente, né? Pra poder pegar as malas e tudo. E aí também foi mó estranho, porque roubaram mala de passageiro ali no México. O cara, esse Doriva Caim, ele tava levando vários discos, CDs, roubaram metade da carga dele. É. Os caras não tinham condição de tirar a mala lá do avião, eles não tinham aparelho. Então ele chegava, eu lembro, a gente olhando os caras jogando as malas, lembra, Cabrinho? Os caras jogando as malas lá de cima pra baixo, do avião? Sim.

Porque não tinha como tirar as malas, né? E aí, metade das malas. Meu, quebrou. As nossas vieram inteiras. A nossa veio inteira. Você tem noção, assim, de que qual que era o horário do dia...

Tipo assim Era previsto você pousar em Los Angeles Que horas? Tipo, não sei, 10 da manhã Não, a gente era Posterior em Los Angeles 6 da manhã, 7 da manhã 11 da noite A gente chegou em Los Angeles de noite De noite Chegou de noite, no hotel a gente chegou de noite Tava cercado, a gente não conseguiu chegar no hotel Porque ele tava cercado Tava cercado

pela polícia, sei lá, era noite, era já nove horas da noite. Aí a gente encarou ainda alugar um carro e ir pra Santa Bárbara, né? Foi uma loucura. A gente deu muita sorte, porque a Varig foi muito competente nesse sentido de ver o certo. Eu não sei como eles conseguiram. Porque eles conseguiram realmente o ônibus.

Eu nunca tinha visto isso. A gente foi de ônibus até a fronteira, aí o ônibus não podia atravessar a fronteira, então a gente literalmente atravessou a pé, com o exército lá no lugar do passaporte, e o carro foi super de boa do passaporte. O cara só olhou e carimbou. Acho que eles falaram que a fronteira abriu e fechou. Porque foi alguma negociação da Varig, com certeza, entendeu? A Varig negociou com a fronteira e falou, Pô, eu tenho...

sei lá quantos passageiros aí, a gente desceu, os caras abriram praticamente a fronteira, a gente cruzou a pé, eu ajudei as mulheres a arrastar a mala ainda, lembra? Porque todo mundo arrastando as coisas a pé, aí abriu a fronteira, a gente passou, o cara falou, tem comida? Não tem? Carimbou e mandou a gente pra dentro. Bom, bicho, aí... Aí a gente pegou um outro ônibus do outro lado da fronteira. Aí a Varig, olha, a Varig realmente, ela deu o ônibus.

e Tijuana até a fronteira, e depois, do outro lado da fronteira, até o hotel. Até Los Angeles, no hotel. Porque eles iam dar o hotel pra gente, ainda em Los Angeles, a Varig. Só que a gente não conseguiu chegar, né? A gente atravessou, pegou esse ônibus. Aí, esse ônibus que a gente pegou na fronteira, que a gente começou a andar, quando a gente parou no primeiro posto, foi a primeira tentativa que eu tive de falar com a minha mãe.

Foi o primeiro telefone que a gente viu. Foi só do lado de lá, não tinha do lado de cá ainda.

Quando a gente pegou esse ônibus e o cara fez uma parada, sei lá, depois de quantas horas, eu fui atrás de um orelhão no telefone, mas eu não consegui ligar ainda. Aí, nós fomos embora até Los Angeles. E lá bloqueado, tudo fechado.

Aí você deu a ideia de alugar um carro e ir pra Santa Bárbara? Foi isso? Foi, eu tava numa mesa conversando que eles deram um jantar, né? Que eles não tinham comido. E aí no meio da conversa, alguém falou, meu, eu acho que eu consegui um lugar pra alugar carro. Daí outros caras falaram, não, tá tudo fechado. Falou, meu, eu consegui. Quem quiser vem comigo. E aí eu falei pro Mino, Mino, vamos pra casa, cara. Porque dali de Los Angeles até Santa Bárbara dá uma hora e meia.

E a gente tava acabado, caindo de cansaço, Cabreira... E eu não conhecia nada, não sabia nem onde eu tava, entendeu? Cabreira, vamos alugar um carro, depois desse caos todo, e vamos mais uma hora e meia de estrada. Eu falei, Cabreira, você é louco, cara. A gente vai morrer por aqui mesmo, meu amigo. O bicho tá pegando. Não, vamos pegar, vamos pra lá, vamos pra lá. Vambora, né? Ele que...

Eu nem entendi o que estava acontecendo, eu não sabia falar inglês nessa época, né? É, e a gente estava num... Esse hotel era perto do aeroporto da LAX, estava, meu, polícia pra tudo que é lado, estava uma loucura. Loucura? Estava. E aí, a sorte, a gente conseguiu realmente alugar um carro, até hoje eu não entendo como, mas a gente conseguiu com esses caras, foram até o... Eu não sei se era Hertz ou uma dessas locadoras.

E, meu, a gente pegou o que tinha lá. Quando o cara falou, ó, tem esse, eu falei, tá ótimo. A gente pegou o carro, fomos pra Santa Bárbara,

né? E ainda chegamos em Santa Bárbara, e o menino, meu, vamos sair. Eu falei, meu, mas como? A gente acabou de chegar. Vamos num bar, cara, pelo amor de Deus. A gente ainda chegou num bar. E a gente chegou, a surpresa nossa, a gente chegou no bar. Cara, parecia que nada tinha acontecido. Tava lotado. Todo mundo bebendo, escutando música, cara. A gente chegou em Santa Bárbara, ainda, a gente tava acabado, cansado. Eu, como eles, não sabia nem onde eu tava.

E eu falei, Cabreirão, foi demais. Foi sei lá quantas horas isso durou, acho que mais de 24. Quando a gente chegou no Zambara, eu falei, vamos, vamos. Ele falou, tem o reggae. Vamos no reggae, não sei aonde. Vamos lá tomar cerveja. Falei, vamos embora, Cabreirão. A gente chegou no reggae. O reggae estava lotado, lotado de gente. Cara, nem parecia que tinha acontecido nada. Lotado. A gente encheu a cara lá, se divertiu. E foi legal esse dia. Esse dia foi do caos ao fim. Enfim, cheguei.

E aí já falei com a minha mãe. Quando eu passava por Los Angeles, eu parei e consegui falar com a minha mãe. Era à noite já. Era à noite, com certeza. Dez horas da noite já era. Dez horas. Minha mãe quase teve um treco. Porque ficou sem notícias também, né? Ninguém sabia o que estava acontecendo direito, né? E só tinha dois voos para os Estados Unidos. O nosso e mais um, parece. Que foi o que pousou em Acapulco. E voltou para o Brasil.

Mas o nosso quase não tinha informação, eles não sabiam o que tinha acontecido. Quem tinha descido, quem não tinha descido, imagina. Então até minha mãe saber que eu estava bem, olha, foi bravo. Minha mãe, que eu falo disso até hoje, minha mãe não sai de perto, ela nem gosta de falar sobre isso, ela não gosta. Tão apavorada que ela fica.

Não gosto de lembrar desse dia. Uma pergunta que eu queria saber é o seguinte, quando a Varig deu essa opção de quem quisesse ficar, retornar, e quem quisesse ir para Los Angeles, como é que foi esse momento? A maioria fez qual opção de escolha? Tinha muita gente no ônibus quando vocês foram? Não, a gente deixou em conta da gente.

A gente desceu em, imagina, menos da metade do voo, com certeza. A grande maioria ficou e voltou para o Brasil. A gente desceu no grupinho... Esse pessoal que voltou para o Brasil, eles estavam com medo de que tivesse mais um ataque massa e alguma coisa assim? Por que eles voltaram? Foi terrorismo. Quando o piloto ficou lá dentro, ele andava para lá, para cá, banheiro interditado, sem comida, sem água, eles abriram a porta do avião para...

pra receber alguma coisa, água, pra dar pra gente. Aí, aí vazou. Aí o piloto veio e falou, olha, ataque terrorista. Aí metade do avião já, porque tinha criança, família, tudo, metade já se arrepiou lá. Como eu disse, a gente era moleque, né, esse cara junto, mas o pessoal não desceu por medo, com certeza.

Eu acho que a dúvida também, eu acho que eles tinham, ainda mais quem ia para o Japão, né? Eu acho que os aeroportos iam ficar fechados ali. Então, e ficou durante um tempo, né? Então, eu acho que a dúvida era quem fosse ia ficar preso lá.

Não ia ter como sair lá, eu acho, também. E também, te falar a verdade, a gente não sabia nem se a gente ia conseguir atravessar a fronteira. A gente foi na sorte, porque a gente falou, né, Mino, a gente não sabia se ia dar certo. Eles não deram garantia, ó, vai, que... A gente falou, meu, vamos tentar. Se não entrar nem pela fronteira normal, descei do diazão, imagina entrar pela fronteira a pé. Eu falei, agora que eu não vou entrar mesmo nos Estados Unidos a pé.

arrastando malas, os caras vão olhar pra minha cara e falar meu filho, volta pra casa, entendeu? A gente achou estranho estar aberta a fronteira a pé, né? Durante uma guerra, seria? A gente não entendeu como é que a gente conseguiu atravessar a pé. Mas a gente sabe que quem recebeu a gente era a roupa militar, era do exército, né? É, foi um tiro no escuro, né? A gente foi, quem quiser desce, desce e vai, ônibus, a gente desceu, a gente acreditou e desceu.

E deu certo também. Fiquei parando hoje pensando surpresa o que a Marig fez. Impressionante mesmo. Mandar um ônibus pra gente em Tijuana. Arrastar a gente até a fronteira a pé, né? De ônibus, fazer a gente atravessar a fronteira a pé e dar outro ônibus pra ir do outro lado. Realmente foi... Tinha alguém da tripulação no ônibus? Alguém da tripulação? Não, né? Não. A tripulação voltou toda.

Não, voltou. Toda, mesmo. Toda a tripulação ficou no voo. Porque tinha muita gente que ia pro Japão, igual o Cabrera falou, que nem podia descer, optar em descer, né? Mas a opção era essa. Eu ficava lá, não se sabia o quanto tempo dentro do avião e retornaria pro Brasil ou desceria. E a gente não aguentava mais ficar dentro do avião. A gente tava há horas e horas e horas no avião já. A gente desceu na...

Na fé mesmo, olha. Quer dizer, esse voo que era pra durar 12 horas, né? Guarulhos, Los Angeles. Vocês ainda ganharam aí mais duas horas orbitando. Ele deve ter sido um voo umas 14 horas, né? Que autonomia também ali, né? Né, Bertotti? Você pode ir. Eu desconfio também que parte dessas três horas também foi pela questão da pista, né? Da pista mais curta, no caso, né?

Então foi queimado um pouco de combustível, pista mais curta, menos combustível, menos pista usada. É uma outra... Acredito que tenha sido também por isso também, né?

E a cena era muito louca, porque o aeroporto, lotado de aviões gigantes, né? Então, todo lado que a gente vinha, tinha avião acomodado de algum jeito, parado atrás. Foi uma maluquice, porque eu acho que foi essa história. A gasolina, eles tinham que aterrissar em algum lugar. E deve ter sido distribuído ali pelo México. E a gente roana desceu vários aviões. Eu lembro que tinha avião da JAL, 747. Meu, tinha de tudo ali.

Eu lembro de olhar pela janelinha e ver que o cara falou esse aeroporto não tem capacidade para receber o nosso avião, que era esse Varig.

tenho muita noção, mas eu lembro de olhar pro lado e ver esse Air Japan, que ele tinha dois andares, ele tinha janelinha embaixo e janelinha em cima eu falei, meu Deus, se o nosso avião desceu por que esse cara desceu do nosso lado? era um baita de um avião enorme, entendeu? se a gente não conseguia descer eu falei, como é que esses caras vão descer desse avião? porque com certeza para para reabastecer e continuar um Air Japan, era alguma coisa assim e

E eu falei, como é que você... Aí havia um avião, um avião, era um estacionamento de avião, começou a parar um do lado do outro e todo mundo dentro dos aviões, ninguém descia. E a gente se olhando, olhando, demorou... Acho que a gente ficou umas três horas dentro do avião, parado, esperando algo acontecer lá. Agora, não era mais fácil esse voo ter continuado para o Japão? Porque o tempo de voo era igual, né?

Voltar para São Paulo. Fechou o espaço aéreo americano, acho. Então não podia passar. Acho que era isso. O Cabreira, pode ser que se reabastecesse em Tijuana, como o Bertotti falou, ele não conseguiria fazer a decolagem com ele lotado. Ah, de combustível. Considerando a pista. Pode ser, né? Não sei afirmar, mas...

ou também que vão hipoteticamente, pode ser que em algum momento depois o avião tenha ido para um aeroporto maior na cidade do México, por exemplo.

e trocado a tripulação, sei lá. Até porque, depois daquele fato, ficou três dias o espaço aéreo na América, posso afirmar, não sei, na Europa. Ficou fechado, né? Que eu também estava viajando e, assim, eu também fiquei lá, eu tinha o voo naquela noite do dia 11 e o cara falou, não precisa nem ir para o aeroporto. Eu falei, mas como assim, né? Então, eu... Isso aí de casa.

Nem saí de casa, é. E eu tava lá no México, né? Que coincidentemente, né? Mas uma coisa que eu tenho dúvida e curiosidade de saber, se o piloto, ele falou literalmente...

atentados terroristas, alguma coisa associada realmente a terrorismo, assim, porque gerenciar uma cabine de um avião tão cheio, né, e você tem que ter muito cuidado com a forma como você fala, o que você fala, né, vocês lembram de algum momento, assim, de uma fala mais que amedrontou um pouco, ou que deu um medo, enfim, teve algumas situações. Essa que o Cabreira falou aí, a Cabreira falou, é,

que o cara falou que ele nunca tinha visto isso na vida dele. Quando ele desceu, ele falou que ele tinha tantos anos de carreira e nunca tinha visto isso na vida dele, ter que voltar. Aí assustou.

Eu falei, caramba, deve ser algo diferente. E ele estava com uma cara de assustado. Ele estava assustado de verdade. Tanto que o pessoal começou a tentar ligar a rádio para tentar saber, porque ele também não sabia as notícias ainda. Então, foi... Ele estava bem assustado, o piloto. E aí, o pessoal massacrando ele. Todo mundo queria saber o que estava acontecendo. Como é que a gente estava preso dentro de um avião?

em solo há três horas, que ninguém falava nada para a gente. Ah, já estava a dor do mundo, louco, estressado. Como se não sei o que aconteceu, mas ele realmente não sabia. Só quando ele abriu a porta que ele foi saber também o que aconteceu. Ele foi informado para retornar, para pousar, mas o porquê realmente não estava claro. Ele também estava assustado.

Daí eu lembro que tinha uns caras com rádio, né? Começaram a pegar umas informações pra gente, aí ficou tudo meio doido, porque cada um falava uma coisa, não, que derrubaram não sei o quê, e o cara com radinho de pilha, não sei como que o cara tinha, escutando e falando pra gente o que tava acontecendo. Você sabe que eu sempre viajei nessa época, eu sempre levava também um radinho de pilha. E o cara com radinho, rapaz, no avião, era impressionante. Foi ele que deu a primeira.

Aí ele ouvia e falava, ouvia e falava, mas aí virou um negócio, aí já não acreditava mais em nada, entendeu? Aí já... Tu sabe, Paulo Cabreira e o Mino, que isso me faz lembrar uma história que vocês devem conhecer, que foi aquele acidente, que isso foi, se eu não me engano, foi em Trinidad, um aeroporto na Espanha.

depois daquela ameaça de bomba, que houve uma incursão de pista entre os dois 747s, foi bem similar a isso que vocês estão falando aí. Como a história se repetiu em 2001, essa história de que vocês participaram, é mesmo muito parecida, só que no caso de 2001, se concretizou, e na Espanha foi uma ameaça de bomba. Eu acho que foi... Eu não sei, tu lembra disso? É um aeroporto bem pequeno.

Tenerife, não é? Tenerife. Aquele acidente horroroso. É o que bateram os dois 747.

É o maior acidente da história da aviação, né? E mesma coisa, um aeroporto pequeno não estava preparado para aquele tipo de aeronave, então foram várias aeronaves, não foi uma aeronave como, no caso, foi o da Varig, né? Foi várias aeronaves, né? Incluído a falecida Panam e a KLM, né? Então me faz lembrar a história de vocês desse evento aí de Tenerife, né? Para ver como se repetiu a história, né?

E um radinho, né? Trouxe... Porque a minha... Um radinho que acabou trazendo as informações, porque naquela época não existia o smartphone, existia, assim, a internet, mas era uma internet só discada e pelo computador, pelo PC. E quem a gente imaginar, né? Que ia ter essa internet que a gente tem hoje, o Wi-Fi, a internet voando, né?

Então, assim, o acesso às informações, mesmo do piloto, né? Que tinha contato com a própria empresa, com a Varig, que os caras se falam, né? Quer dizer, é muito complicado. Eu queria saber o seguinte.

Naquele momento ali dentro do avião ainda, né? Sem ter decidido se ia descer, se não ia descer. Em que você pensou, assim? Você pensou, cara, sei lá, teve alguma sensação que você traz até hoje, assim? Quando você voa de novo, tem alguma coisa... Tipo assim, ficou algum tipo de trauma dessa experiência? É meio isso que eu queria saber.

Pesadelo? Alguma coisa do tipo? Olha, pra mim, como era a primeira vez, o papo era o seguinte, minha mãe volta, minha mãe volta, volta, volta pro Brasil. Essa vez eu falei, mãe, eu não entro num avião nem amarrado, falei pra ela, eu volto a pé, eu volto de ônibus, pelo mar, eu volto, mas eu não entro num avião nem ferrando. Derrubaram, três derrubaram, né? Puseram, caiu numa fazenda, né? Umas histórias...

O cara botaram abaixo os aviões. Imagina que eu ia entrar no avião. Nunca. Mas durante um tempo, né? Depois, até surgiram passagens promocionais, né? Porque ninguém queria voar de avião. Foi numa dessas que eu embarquei para o Havaí. Porque ninguém queria voar, ninguém queria voar. Aí tinha passagem barata de avião. Então, depois de um tempo, porque eu falei, não vou, não vou voltar para o Brasil, entrar no avião de jeito nenhum.

Aí, depois de um tempo, acabou. Passou, né? E eu cheguei a voar e fui para o Havaí.

com um amigo meu lá do que o Cabreira me apresentou. Só uma coisa, mas você estava com medo do avião, do voo em si, ou de que alguma situação parecida acontecesse? Com certeza, alguma situação igual que aconteceu, porque tinham caído muitos aviões. Quantos aviões foram naquele dia para o chão? Quantas pessoas foram? Eu não queria sair do chão de jeito nenhum.

por medo de atentado, o que todo mundo esperava, era outro atentado, falavam outro, outro, outro, e é o que a gente estava esperando também, outro atentado, televisão dava, televisão apitava, a televisão ficava vermelha, não entendia nada, e, putz, olha, foi difícil, eu não tinha coragem de entrar por medo de um outro atentado, esse era o medo lá durante os próximos seis meses que duraram ali, mais ou menos, até a coisa acalmada.

foram as boas-vindas para o André aí nos Estados Unidos. Entendeu? Welcome. Mas é engraçado ele falar que os americanos estavam lidando com isso como se não tivesse tido problema. Porque geralmente eles são assim. Porque a gente no Brasil acontece se um artista faleceu ou alguma coisa, todo mundo fala. Nos Estados Unidos, acontecem milhões de coisas no mesmo dia.

Na mesma hora. Então, às vezes, eu estou em Nova York e acontece alguma coisa, mas o taxista vai trabalhar igual, o cara do mercado vai trabalhar e eles estão comentando outra coisa que não é aquela coisa que a gente do Brasil está pensando que eles têm isso aí, o americano, né?

É total verdade, porque no outro dia é como se nada tivesse acontecido. Na TV estava muita coisa acontecendo, mas no cotidiano, normal. Eu queria saber a reação também da sua família, né? O Mino contou da família dele, mas da sua família, que também sempre pegou aquele voo, enfim, conhecia, sabia os cenários ali que você estava...

Ia passar tudo, mas de repente você viveu aquela situação. Como é que foi a reação da sua família, tudo? Como é que você pode contar? Olha, a gente só conseguiu falar muito mais tarde, realmente, porque foram cortadas as comunicações, né? As linhas de celular foram cortadas para impedir algum outro ataque, sei lá. Então a gente ficou sem celular. Eu tinha um celular que funcionava nos Estados Unidos, mas ele não estava funcionando.

Ao mesmo tempo, a gente também tinha um cartão telefônico que na época usava muito, né? Mas também não funcionava, a gente não conseguia. Só depois, que nem o Mino contou, que a gente conseguiu tentar um telefone e o telefone funcionou. Mas até lá, eu acho que eles ficaram numa apreensão, né? Eu não sei se meu pai tentou ligar na Varg pra saber o que aconteceu, né?

Mas foi total loucura, porque a hora que falou, quem quiser descer vai a pé, na hora eu falei, cara, não vai rolar, cara. Daí o Mino falou, não, vai rolar. E aí eu fui na intuição do Mino, porque o Mino tem uma intuição boa pra caramba, por mais que ele não sabia como era a Tijuana, como era a fronteira, ele falou, Cabreira, vai que é melhor a gente ir do que ficar nesse avião. E aí a gente foi na loucura mesmo.

É, realmente eu não queria voltar de jeito nenhum, eu não queria, eu queria, aí eu me viro, né, vocês sabem, né, eu me viro em qualquer lugar, me largar, eu me viro, eu vou atrás, e o Cabreira falava inglês, entendeu, aí juntou o útil ao agradável, né, ele sabia falar inglês, eu me virava, eu falei, vambora, Cabreirão, vamos descer, vamos se virar, vamos arriscar a sorte do que ficar aqui dentro e voltar ao Brasil, eu não queria voltar, ah, não queria voltar de jeito nenhum, não mesmo, não queria, ainda bem que eu não voltei.

O Bertotti, a gente tem como missão jornalística, quem sabe, até com esse registro deles, a gente precisa identificar quem que era a tripulação desse voo, o piloto, porque Cabreira, Mino, a gente tem amigos que foram comandantes da Vale do MD-11 nessa mesma época, tem um amigo nosso, que é o Rafael Santos, o tiozão,

Ele voava direto essa rota, mas eu já perguntei pra ele diretamente, ele não era ele nesse voo. Mas, Bertotti, eu tenho essa missão jornalística, vamos... Tu quer saber quem vai te contar isso? É o Panda. O Panda? Será que ele vai saber? Tá, o Panda, o Panda, ele sabe, cara. Se ele não sabe, se ele não lembra, ele tem, olha os arquivos dele.

O pana sabe. É, então, a gente vai... Porque a gente tem que achar esse comandante que gerenciou essa super crise a bordo, que está sendo relatada por vocês. Os caras foram bons.

É uma crise sem precedentes naquele momento e que, pô, como vocês relataram, o cara estava andando de um lado para o outro, não sabia, não estava entendendo e uma sequência de decisões que tem que tomar, né, Bertotti, como piloto, como andante, cara...

Tem que tomar muita decisão. Eles voltaram para o Brasil, né? Ele falou que não ia parar em outro aeroporto. Eles iam voltar para o Brasil. Eu não sei como eles fizeram, porque a comida, eles falaram, não vamos conseguir reabastecer a alimentação. A única coisa que eles conseguiam era a água. E assim, o mesmo piloto, o mesmo copiloto, o mesmo aeromoça, quem quiser voltar, volta. E voltaram. Esse voo voltou.

Imagina que eu ia ficar dentro daquele avião. Mas nunca, entendeu? O cara, depois de voar 10 horas, 12 até voltar mais de 10 horas pra trás. Eu falei, imagina. Mas uma coisa, sim, eles foram muito bons. Porque apesar de eles não saberem o que tava acontecendo, aí eles mandaram bem. Porque tinha muita gente, o avião tava lotado. E eles mantiveram o controle, né? Nenhum momento saiu do controle a coisa de pavor, correria. A gente tá lá.

do avião, você vai... Mas vai falando, vai falando, isso é pra dar um chan aqui na conversa. Na hora que eu vi a foto que você me mandou, Paulo, o da Varig, eu juro que eu tomei até um susto, porque fazia muito tempo que eu não via isso. Na hora que você me mandou, não sei o que você me mandou ainda, que tinha o avião da Varig.

de fundo, puta, tomei um bate, tomei até um susto, cara, quando eu vi o avião, tomei, tomei um susto. E o MD-11 é um dos aviões mais bonitos, né, eu apaixonado pelo MD-11, é um avião fantástico, né, na época é um avião da Varg, assim, nossa, maravilhoso, né. E tá ainda voando, ainda voa, né, ainda voa.

Ele voa ainda? Ele tá voando. Aconteceu um acidente meses atrás da UPS até, mas é um avião que ainda voa, principalmente carga, né? Cargueira. É uma máquina. A gente foi muito bem pra lá nesse avião. Nossa senhora, foi uma baita viagem e realmente a chegada lá que mudou tudo, uma baita viagem, um baita serviço. Eu tava feliz na vida. Tava muito bom. O voo top. Os caras muito bons, como eu disse. Mesmo depois de pousar lá, a tripulação, o pessoal é uma baita.

Segurou a bronca, não teve ninguém apavorado, os caras foram bons. Seguraram a barra sem banheiro, se arrumaram água. Fizeram realmente a parte deles lá. Os caras eram bons, muito bons. E aí até eu ia gostar de ver a cara desse cara do piloto, ou da tripulação. Eu ia lá, imagina. Faz 30 anos e 20 e poucos anos que eu não faço ideia de quem seja, né? E ia ser legal ver.

Eu tenho essa missão jornalística de conseguir identificar, tenho meios para achar, espero que esteja ainda entre nós aqui para poder, a gente, né, Bertotti, para a gente poder... Mas é só mais uma coisa. Mais um episódio com eles, Paulão.

Então, exatamente. A gente vai caminhando, vai achando. Eu queria saber, vocês lembram se vocês estavam mais no fundão, no avião? Era da galera do fundão? Estava no meio, lá na frente? Tinha algum lugar? Enfim, que área do avião vocês estavam? E se estava totalmente lotado, assim? Você sabe dizer, sabe lembrar, não? Cabreirão, fala aí.

O voo estava lotado, com certeza. O voo estava lotado. Eu acho que, se não me engano, a gente não estava lá no fundão. A gente estava mais para frente do avião. Então, da asa ali, mais ou menos na altura da asa, um pouco para frente. E... Próximo a asa. É, mas o voo estava bem cheio. Esse voo sempre estava cheio da Varig. Por ser um voo direto, né? Não tinha tantos voos direto São Paulo ou Los Angeles. Então...

É, e depois quando a Varig fechou, né, e tirou esse voo, a gente ficou muito tempo sem esse voo, né, Cabreira? Você que morou bastante tempo lá. É, isso, depois teve um voo, acho que tinha um voo da American Airlines, mas só que parava em Dallas, e depois teve um da United, o 777, que voava direto pra Los Angeles também. Mas ficou ruim desse voo direto, não tinha mais.

E também tinha o da Coreia, né? Que daí você também veio algumas vezes de Coreia, né? Sim, o da Coreia também, que é ótimo, né? Melhor do que as companhias americanas. É, que é o nosso amigo, o comandante Rafael, é comandante da Coreia, entendeu? Ele era da Varig e aí foi pra Coreia. E aí ele fazia esse voo, mas a Coreia, ele fala que hoje eles não querem vir pro Brasil, né? E ele voou pro MD-11 também, o Rafael, cara. Ele voou exatamente o MD-11.

Eu perguntei pra ele aqui, numa entrevista aqui uma vez, perguntei pra ele se ele tava nesse voo, ele tava num outro, não lembro que ele respondeu, mas que não estava nesse daí. A gente achou no Instagram, aqui, pesquisando na internet, né?

Aqui uma postagem que mostra... Aqui, durante o 11 de setembro de 2001, quando o governo americano fechou o espaço aéreo, um McDonnell Douglas MD-11 da Varg, que decolou de São Paulo e estava indo para Los Angeles, teve que desviar sua rota e pousar na cidade de Tijuana, no México. Essa foto postada no Reddit, alguns anos atrás, mostra o MD-11 da Varg parado no pátio do aeroporto de Tijuana.

É aí, cara, olha o de vocês aí. É, foi isso daí que eu vi. Foi isso daí, menino. Foi, foi isso aí que eu vi, que eu falei pra você que eu tomei até um susto quando eu vi, porque você me mandou, né? Porque eu tenho uma gaveta aqui de muita coisa desse dia, porque eu comprei jornal, revista, o que tinha, porque não tinha autocomunicação, eu comprei tudo.

E eu nunca mais mexi, nunca mais. Tá lá na gaveta, sei lá quantos anos. E aí vê a foto do avião, desse avião Varig, essa história aí que você me mandou no Instagram, foi até um susto, foi. Não tem um 11 de setembro que eu não me lembro desse dia aí. Não existe. Nunca. Mas então, eu gosto muito... É que nem...

Depois vocês vão ver no Estúdio Flyer. Eu gosto muito dos episódios que a gente faz. A gente mistura muito aviação, que é o que a gente gosta, e história da aviação. Então, como eu falei antes desse voo, desse atentado que aconteceu, o acidente depois do 747, esse voo de vocês, esse evento, no caso, ele lembra muito Port Harbor também, que foi um ataque que aconteceu lá antes da Segunda Guerra Mundial.

E isso foi uma virada de chave, né? Porque não deixa de ser uma inocência essa época de 2000, antes dos atentados de 11 de setembro, né? Como tu imaginaria? Não foi um voo, um avião que atingiu. Foram quatro aviões.

que atingiram os alvos dele, foi o Pentágono, foi uma outra... Eu fui lá até, nesse lugar, é um campo na Pensilvânia e os dois no World Trade Center. E de lá para cá, desse evento que vocês participaram, muitas coisas mudaram.

não só no cockpit, mas também na questão de vistos, na questão de segurança, de aeroporto e tudo mais, foi como se fosse um segundo Pearl Harbor, que aconteceu lá no Havaí, com o Japão atacando os kamikazes e tudo mais. A grandiosidade disso foi uma coisa imensa, tanto que o piloto falou que nunca viu na vida Pearl Harbor eles viram.

E eu estive lá Eu fui pro Havaí ainda Fui lá no Pierre Harbour ainda Quando morei nessa época Eu fui até o Havaí Mas ainda bem que eu tava comendo Porque a gente acabou desenrolando E foi uma história muito maluca mesmo A gente ficou bem preocupado

Mas a gente foi conversando e conseguimos superar. E ainda fomos pro bar na noite, então você vê que a gente conseguiu superar no mesmo dia. E eu acho que... E aí o resto ficou pra história, né? Mas foi maluco demais. É impressionante. Se tivesse que embarcar, voltasse no tempo, e embarcasse de novo, dia 10 de setembro de 2001, você embarcaria?

Eu ia falar isso. Eu tenho duas coisas para falar que você falou. O que mais quer acrescentar? Eu tenho ainda uma lembrança e eu vou comentar isso aí. A lembrança que eu tenho é de estar sobrevoando Tijuana. Tijuana ser uma luzinha bem pequenininha assim. E olhar para o lado e ver Los Angeles.

do lado, e era um tapete de luz, era um negócio impressionante o que eu tava vendo, eu não vou esquecer porque a gente ficou sobrevoando ali, pertinho em cima de Tijuana, então cada vez que o avião passava pra cá, eu via Tijuana, que era uma bolinha assim de luz, e aí eu voava pro outro lado, era um tapete, iluminava o céu, e eu falava, meu Deus do céu olha o tamanho disso, isso eu não vou esquecer também e outra coisa igual eu falei ainda bem que eu não voltei ainda bem que foi do jeito que foi infelizmente

envolveu uma tragédia, a gente não tinha nada a ver, mas se eu faria de novo, nossa, olha, com certeza, pra te falar a verdade, foi o melhor momento da minha vida, acho que eu vivi foi na Califórnia, eu agradeço o Cabreira ter me dado essa chance de ter ido morar, porque eu fui morar com ele, eu não tinha onde morar, eu morei o primeiro ano, oito meses, com o Cabreira, só tenho a agradecer, porque...

Foi incrível, apesar de ter envolvido isso, uma tragédia, foi tudo incrível, desde o momento que a gente saiu, até o momento que a gente chegou, desceu, deu tudo certo pra gente. Foi top, foi perfeito, tudo deu certo, apesar de toda essa tragédia.

Então sim, faria de novo, iria de novo. Foi um dos melhores momentos da minha vida, história pra contar. Realmente foi muito bom, foi muito legal. Iria sim, com certeza. E só tenho a agradecer ao Cabreirão por ter me proporcionado esse momento aí. Acabei ficando quatro anos lá, dois anos ilegal. Naquela época ainda, pedir extensão de visto, correr atrás. Era precário, era difícil naquela época conseguir.

Mas foi o melhor momento da minha vida que eu vivi. Foi lá na Califórnia. Só tenho a agradecer por tudo ter dado certo pra gente. Foi muito bom mesmo. Valeu, Cabreirão. Foi da hora. Imagina. Ainda bem que você tava lá comigo também, viu, meu? Senão eu ia estar lascado. É, a gente se apoiou, né, cara? Porque sozinho eu acho que também não ia saber o que fazer, não. Sozinho. Eu já não sei. A gente um, dois. A gente pensou melhor. Porque cada um queria fazer uma coisa, né? E... E...

A gente tomou nossa decisão e foi, entendeu? Até o fim. A gente foi atrás, cara, e isso que importa, entendeu? Juntamos, falamos, vamos, vamos terminar. E a gente conseguiu, né? Então, valeu. Valeu o esforço conjunto aí. Meu, e conseguimos pegar nossa mala, que foi incrível também, porque várias pessoas não conseguiram pegar a mala. A gente conseguiu pegar nossa mala ainda.

Ainda passamos por trás da fiscalização ainda. Você lembra, não? Você passou por trás do mar, bro. Lembro. A gente estava atendendo um cara, a gente passou por trás do cara. O mexicano estava querendo... Ele estava querendo achar coisa ali, meu. Impressionante. A gente estava morrendo de medo dos mexicanos. Eram os moleques armados, carequinhas, todos armados, com espingalo, fuzil. E abrindo as malas, meu. E reclamando, reclamando.

O Cabreira puxou, a gente passou por trás deles. A gente passou. Eles queriam grana.

É, porque os caras não são de alfândega, então, meu, os caras estavam aproveitando ali, não tinha alfândega. Então, é o que eu falei, teve mala que foi roubada, então foi complicado ali. Desceram no México, cara, não sei como deu certo. A gente conseguiu pegar nossa mala, conseguiu pegar o ônibus. Cara, e a gente ficou horas lá no aeroporto do México ainda, até conseguir alguém pra receber os passaportes, carimbar.

Quando a gente desceu do avião e entregou pro cara um passaporte e os tickets da mala, a gente não tinha mais nada, entendeu? A gente tava no México, numa salinha, trancado, com os caras de fuzil, sem um documento, meu amigo. Sem nada. Se matasse a gente, sumisse com a gente, por ali mesmo a gente ia sumir, porque a gente não era nada ali. Sem documento, sem mala, sem nada. Eu tinha o que eu tinha no bolso, aquela hora. Uma linha trancada, com os caras armados. Olha, impressionante de dar certo tudo mesmo.

Ainda bem que deu. Ah, não, é legal demais esse relato e é por isso que eu queria...

ter esse documento gravado em vídeo aí com vocês contando, porque isso é um registro histórico que vai ficar para o Anthony, filho do Alexandre, poder ouvir um dia essa história contada pelo pai, e para minha filha também, para a sobrinha do André, para todos os familiares, enfim, que...

Enfim, por aí é que essa história, dessa experiência que vocês viveram, associada ao universo da aviação, que é o que a gente está trazendo aqui hoje nessa conversa, não suma que fica esse registro. E eu queria, eu achei muito legal quando vocês falaram dessa coisa da dupla, né? Vocês estavam em dois, realmente, duas cabeças, penso melhor que uma, são decisões distintas, né? Quando a gente está sozinho, tudo.

Alexandre Mino vai para finalizar. Você acha que se estivesse sozinho, você tomaria outra decisão? Ah, eu teria voltado. Eu não saberia o que fazer. Eu não sabia falar inglês nem falar espanhol. Eu não entendia nem o que o piloto estava falando direito. Eu teria que ter voltado. Eu não ia ter condição de descer sozinho ali. Eu não ia ter descido sozinho, eu acho. Por medo e por não ter condições mesmo de me comunicar.

Ele não está acostumado com o avião. O Cabreira já estava. O Cabreira voava, né? Ele vinha para o Brasil, ele morava lá, né? Eu não, né? Eu voava aqui. Eu ia para a história nova. Agora, um gol desse, para mim, era muito novo. Tudo muito novo. Eu acho que eu não teria descido não, sozinho.

Eu também não sei se eu teria ido, porque, assim, quem conhece Tijuana, cara, é, tipo, é um, é bem complicado a fronteira de Tijuana ali. Então, eu acho que, assim, eu queria deixar um depoimento, um agradecimento à Varig, porque, cara, o que eles fizeram, não sei nem até hoje como eles conseguiram. Foi muito impressionante o apoio que eles deram pra gente, numa situação totalmente crítica, assim.

A gente, claro, a gente sentiu umas horas largado, mas na verdade é porque saiu da ordem de todo mundo, até o piloto ficou se sentindo perdido. Mas eu acho que a Varg, eu não sei como eles conseguiram agilizar tudo isso, no meio de uma catástrofe dessa, um ônibus, daí pega outro ônibus, daí chega lá, meu, conseguiram dar alimentação pra gente, conseguiram dar um hotel pra gente. Se a gente quisesse, a gente podia ter dormido lá, sabe? Eles deram um apoio, assim, um...

Então, mas eu acho que eu não sei se eu faria a loucura de ter atravessado. Eu acho que eu fui porque a gente estava em dupla. Um podia cuidar do outro e... Então, eu não sei se eu iria atravessar a fronteira sozinho, não. Em dois, realmente, é... Um dá para o outro a força. Vamos, vamos. Você tem a segunda opinião. Isso foi decisivo. Isso foi decisivo para a gente descer. Vamos, Cabrera, vamos. Vamos, vamos. Isso aí, Tijuana, terror, né?

A fronteira ao que se ouve é as piores notícias possíveis, o pessoal que atravessa a pé, que morre. É uma fronteira das mais perigosas do mundo. Então descer lá realmente sozinho, acho que jamais. Os dois juntos mesmo, a gente não teria feito, acho.

Bertotti, para fechar, se tem alguma coisa que você queira perguntar, mais alguma coisa que a gente pode... Você, Bertotti.

Com certeza, Paulo, com certeza. A gente vai ter esse episódio de 11 de setembro e com certeza vai, com a permissão dos dois, vai ser muito bom, vai ser interessantíssimo, porque eu lembro na época do 11 de setembro, imagino a situação deles, eu lembro o exato momento onde eu cheguei no meu trabalho e comentei com um colega de trabalho o que tinha acontecido e ele me falando que não acreditava.

Então, para ver como foi uma situação marcante. Para mim, que estava lá trabalhando como promotor de vendas da Pepsi, colocando as latinhas da Pepsi na prateleira. Então, imagino a situação deles, estando lá com...

na fronteira, né, porque não é muitas vezes que o espaço aéreo americano é fechado, foi fechado na época do Covid, pouco tempo tal, né, mas é raríssimo às vezes que o espaço aéreo americano é fechado, né, então, pra ter noção do que aconteceu, né, eles foram...

participaram da história da aviação, né, porque vamos olhar lá, quem eram os carros que estavam voando lá em 11 de setembro, vai ter o nome deles lá também, na história da aviação, da Varg, do que aconteceu ali, né, então eu gostaria de agradecer mais uma vez o convite aí, né, pra estar no Outra Visão aí, terceira, pedir gol do Fantástico já, né.

os dois também, o Alexandre e o Mino foi muito legal o episódio com vocês aprendi bastante aqui, coisas que eu não sabia, é uma história bem fascinante a história de vocês, que eu nunca imaginaria

passar por uma situação como essa principalmente na fronteira do México e era uma outra geração, era uma outra época, era uma outra história até engraçado que durante esse episódio o Paulo falou a respeito mas o pessoal veio e falou assim que tinha um atentado

E a gente está falando daquela época, 2000, e são 25 anos atrás. Então, a própria comunicação com os passageiros, olha o que mudou. Hoje, não se imagina um comandante falar isso para a tripulação, ou muitas coisas da época, hoje são inimagináveis. Então, mas agradeço a vocês por dividir essa história com a gente. E muito contente aqui também.

Ah, legal, pessoal. Então, não quero tomar mais muito tempo de vocês. Eu vou só encerrar... Outro programa, eu voei na pandemia também. Se vocês quiserem, tem história também da pandemia. Eu estava lá em Los Angeles, quando a pandemia fecharam os aeroportos e tudo. E no meio da pandemia, a hora que reabriram os aeroportos, eu fui para o Avaí sem vacina, não tinha vacina ainda, não tinha nada. Peguei um voo, tive que ficar de máscara durante horas.

E eu acho que essa história, esse relato deles aí no 11 de setembro é emblemático. Tinha que começar com uma grande história. Agora a responsabilidade é... Então tá bom, vou encerrar aqui agradecendo muito a todos. Não desliguem ainda, só vou acabar a gravação. Um grande abraço pra vocês e bons voos sempre. Tchau!

No Ar durante o 11 de Setembro: a História do Voo VARIG 830 para Los Angeles no MD-11 | Castnews Index — Castnews Index