‘Pedir desculpa com clareza é um dos atos mais maduros que existem’
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- Pedido de desculpas por expressão inadequadaAdmitir erro como fraqueza · Orgulho reescrevendo a memória · Diferença entre pensar e performar
- Comunicação BrasileiraHereditariedade nas serventias · Definição de preços por lei estadual · Monopólio por delegação do Estado
Refletir para Viver com Rosandro Klinger.
Hoje preciso começar por um pedido de desculpas. Na coluna de ontem falei sobre cartórios no Brasil. Errei em dois pontos factuais: a hereditariedade nas serventias foi extinta pela Constituição de 88, e os preços não são definidos pelo próprio setor, mas por lei estadual aprovada pelo Legislativo e sancionada pelo Executivo. Corrijo o que errei, mas mantenho o que é fato: cartório no Brasil é monopólio por delegação do Estado.
E o custo cartorial para o brasileiro comum continua alto demais. Dito isso, quero falar de algo maior do que cartórios. Vivemos num tempo em que admitir erro virou fraqueza, onde corrigir um ponto é lido como capitulação total, e o adversário usa cada correção como prova de que você não sabia nada, e o aliado exige que você defenda o erro até o fim. Para não parecer inconsistente. Essa lógica é doentia, especialmente na política brasileira, e a gente carrega ela não só no debate público, mas dentro de casa, no trabalho, nas relações.
Nietzsche escreveu que a memória diz: eu fiz isso. O orgulho responde: eu não podia ter feito. E acaba vencendo. É isso que acontece quando alguém não consegue pedir desculpa O orgulho reescreve a memória para não ter que se curvar, e a relação paga o preço dessa reescrita. Errar um dado não invalida uma análise, assim como corrigir um ponto não obriga a engolir o argumento inteiro. Duas coisas podem ser verdadeiras ao mesmo tempo: eu errei ali e o que disse além disso permanece de pé.
Essa distinção é o que separa quem pensa de quem performa. Pedir desculpa com clareza é um dos atos mais maduros que existem. Não porque resolve tudo, porque é verdadeiro. E verdade dita em voz alta, mesmo quando custa, tem um peso que nenhuma narrativa protegida pelo orgulho consegue ter. Errei, corrigi, sigo.