Por que vitória sobre a Inglaterra vale quase como um título para a Argentina?
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Ariel Palacios
- Rivalidade Brasil x Argentina no futebolGuerra das Malvinas · Copa do Mundo de 1986 · Diego Maradona · Lionel Messi · Copa do Mundo de 1966 · Cartões vermelho e amarelo
- Geopolítica e Segurança RegionalInvasão inglesa de Buenos Aires em 1806 · Ocupação inglesa das Ilhas Malvinas em 1833 · Guerra das Malvinas em 1982 · Leopoldo Fortunato Galtieri · Margaret Thatcher
- Rivalidade Argentina-EspanhaColonização espanhola · Ditadura militar argentina · Crise econômica argentina de 2001
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Hoje não temos Marcelo Ninho da China, mas temos Ariel Palacios de Buenos Aires, que imagino que esteja em festa até agora. Depois da classificação da Argentina para a final da Copa, né, Ariel? Boa tarde, bem-vindo.
Ó, da rua hoje, beleza. Hoje da rua aqui do Obelisco, que foi o point ali das celebrações dos argentinos ontem. Eu não estou em celebração porque eu torço para o Brasil, sou brasileiro, torço pelo Londrina Esporte Clube e pelo Brasil. Aí quando o Brasil sai, eu aprecio o resto da Copa, mas não torço especificamente por alguém. Tampouco torço contra, não perco tempo torcendo contra nem a favor. Desfruto a Copa sem aquelas angústias que a gente tinha quando tava o Brasil.
Mas tá de camisa azul clara, né? Sei, gravatas escuras, gravata azul, né? É lenço azul e um lenço brasileiro. Brasileiro, brasileiro, tá bom.
Conta mais para mim como é que foi a celebração aí.
Londrina, do norte do Paraná, pé vermelho. Ninguém duvide da brasilidade.
Ariel, conta mais pra gente como é que foi a celebração ontem aí dos argentinos.
Bom, foi uma celebração de arromba porque, acho que já comentei isso em outras ocasiões, a torcida contra a seleção inglesa é a principal rivalidade que existe no imaginário coletivo dos argentinos. É muito mais do que, bom, já ouviram ali o caminhão até buzinando em sinal assim de celebração. A celebração continua ao longo do dia. Para os argentinos, a maior rivalidade no planeta é com a seleção da Inglaterra. O Brasil, Uruguai e o Chile, que são os outros, digamos assim, rivais no imaginário coletivo do argentino, ficam num degrau abaixo, né?
Tudo isso dentro daquele contexto da Guerra das Malvinas. Então ontem A celebração foi como se fosse uma final de Copa do Mundo. Eu até suspeito que se eles perderem no domingo não vai ser tão traumático, porque eles já vão ter derrotado a seleção da Inglaterra. É um remake, de certa forma, do jogo de 86 da seleção argentina contra a seleção da Inglaterra na Copa do México em 86, quando Maradona protagonizou os dois famosos gols contra a Inglaterra.
Um gol que era handball, né, com a mão, não com pé. E o outro gol sim ortodoxo, feito com pé. Um gol heterodoxo, um gol ortodoxo. Isso foi uma espécie de revanche em relação à Guerra das Malvinas, que havia sido 4 anos antes, apenas 4 anos antes, e várias outras questões que depois eu explico da relação bélica, inclusive entre Inglaterra e Argentina, e também de uma relação de amor e ódio, né, porque também é uma grande eliminação em outros âmbitos.
Então, foi a última vez que a Argentina ganhou da Inglaterra, foi naquela ocasião, 86. Essa era a chance para eles tentarem isso e conseguiram. E era também a primeira vez que Lionel Messi jogava contra os ingleses, nunca havia acontecido isso antes. Então havia como várias camadas superpostas de interesses, de obsessões e de e de fervor nesse, nesse caso. O assunto até é bom. Um dos cânticos dos argentinos, que cantaram inclusive no estádio lá em Atlanta, é: El que no salta es un inglés.
Aquele que não pula é um inglês, não é? Que você já assistiu a entrevista, que a torcida argentina pula como se fosse uma mola permanentemente. Eu não sei como eles conseguem.
O estádio ontem tremeu, teve teste de resistência, é teste sísmico.
Então, esse cântico, Fernando e Tatiana, é entoado mesmo quando você diz, bom, eles cantam isso quando estão na frente dos ingleses. Não necessariamente. Eles cantam isso em qualquer outra oportunidade. Eles cantam isso num River-Boca, os do River cantam para o do Boca, os do Boca cantam para o do River. Eles cantam isso no jogo contra a seleção do Brasil, da Espanha, da Mongólia, de Burundi, de seja lá o que for. Ou seja, uma demonstração que a obsessão com os ingleses está tão presente mesmo quando os ingleses não estão presentes ali naquele momento. A coisa é bem— Sigmund Freud adoraria analisar isso daí.
Sim, se a gente prestar atenção no fim da partida ontem, os jogadores argentinos abriram uma faixa dizendo que as Malvinas são argentinas. Traz detalhes para gente, Ariel, sobre a situação geopolítica entre Argentina e Inglaterra e mais da Guerra das Malvinas.
A Inglaterra pediu uma manifestação, a investigação da FIFA sobre isso, né?
Exatamente. Inclusive, como foi que levaram a bandeira lá para dentro? Porque foi uma espécie de contrabando dessa faixa, não bandeira, mas essa faixa. Bom, tudo começa em 1806, quando os ingleses invadem Buenos Aires. Nós, Malvinas, mas Buenos Aires, os habitantes de Buenos Aires, os porteiros expulsam os ingleses. Um ano depois, 1807, os ingleses tentam uma nova invasão e os porteiros novamente expulsam as tropas enviadas pelo Rei George.
Qual que era o contexto? Por que invadir Buenos Aires? Porque naquela época a Inglaterra estava em guerra com a França napoleônica e a Espanha era aliada de Napoleão naquela ocasião. Depois acabaram se tornando inimigos, mas naquela ocasião eram aliados. E dessa forma, uma das formas da Inglaterra dar um golpe no Império Espanhol era justamente atacar na periferia da periferia da periferia do império, nos cafundós da periferia, que era justamente Buenos Aires.
Buenos Aires, a Argentina, que ainda não era Argentina, era uma colônia periférica sem grande importância, mas era uma forma de atingir os espanhóis. Aí depois de 1833, os ingleses desembarcam nas Ilhas Malvinas. Os argentinos haviam ocupado as ilhas por pouco tempo, 7 anos. Chegaram lá em 1827 e foram removidos de lá em 1833 pelos ingleses. Em 82, 1882, teve a Guerra das Malvinas. As tropas do ditador Leopoldo Fortunato Galtieri, um general que era ultra chegado no Scotch, foram derrotados em 2 meses e meio de guerra.
E aí houve esse trauma nacional que teve essa espécie de vendeta geopolítica, futebolística, barra futebolística, com Diego Armando Maradona. Há outro incidente, não geopolítico, mas futebolístico, em 66, quando Antônio Rapin, capitão da equipe argentina, da seleção argentina na Copa da Inglaterra em Londres, no estádio de Wembley, foi expulso por um juiz alemão. Ele não entendeu o que estava acontecendo, foi toda uma confusão até que ele saiu de campo.
E aí nesse meio pegou uma bandeirinha inglesa, amarrotou bandeirinha inglesa, o estádio cheio de ingleses gritou: Animals! Argentinian animals! E a partir dali como latim, não falava outro idioma que o espanhol, e o árbitro alemão, que era um alemão, só falava alemão e inglês, então não se entendiam, é que decidiram criar o cartão vermelho e o cartão amarelo, que foi inaugurado na Copa de 70. Então esse sistema, porque com as cores todo mundo ia entender independentemente de idioma.
Então a rivalidade argentino-inglesa também acabou gerando em 66, foi a origem, foi o cerne para a criação do cartão vermelho e do amarelo. Então, como vemos, são múltiplas ramificações dessa questão. Ah, e ontem mesmo houve uma fricção dentro do governo argentino, houve um racha entre a vice-presidente Victoria Villarroel, que é filha de um veterano da Guerra das Malvinas e de um militar golpista, e o presidente Milei. A vice-presidente disse que os ingleses eram uns piratas usurpadores, e que ia ser um jogo que era mais além de um jogo.
E aí Milei apareceu dizendo que o jogo era só um jogo e que guerra era uma coisa e que futebol era outra, tentando botar panos quentes. Até porque Milei é um fã declarado de Margaret Thatcher, que foi a que comandou a guerra do lado britânico em 82.
Muito bem. Agora, rivalidade entre Argentina e Espanha, qual é?
Não existe. Isso é muito interessante porque sai desse clímax assim totalmente belo, tem uma tretinha, não é possível, não tem nada, não tem nada.
A gente voltar lá no século 15, 16, não tem.
Bom, Argentina foi colônia da Espanha, justamente, né? Mas há uma relação diferente, não é a relação que existe entre o México e Espanha, que é uma relação de amor e ódio, né? De ódio pelos massacres que os espanhóis protagonizaram especialmente ali, contra a população, contra os povos originários, astecas, maias, toltecas, e ao mesmo tempo uma conexão cultural fortíssima que os mexicanos têm com a Espanha. Entre Argentina e Espanha não há tanto disso.
A independência, embora tenha sido sangrenta, foi, teve outra colonização, não foi tão sangrenta quanto no México. Há uma série de outras questões, e o fato é que a Espanha acolheu milhares de exilados argentinos durante a ditadura militar. E depois disso, mais argentinos que foram para Espanha com a crise de 2001, 2002. Então a Espanha recebeu— se por um lado a Argentina recebeu milhões de imigrantes espanhóis no final do século 19, início do século 20, bem como italianos, né, a Argentina foi— os argentinos foram recebidos na Espanha depois, especialmente na ditadura e com a crise de 2001/2002.
E a Espanha, principal investidora, uma das principais investidoras na Argentina. Então a relação não há cânticos sobre os espanhóis. Havia piadas sobre espanhóis, da mesma forma como antigamente havia piadas sobre portugueses no Brasil. Imagino que no Brasil já terão desaparecido piadas de portugueses, não é? Isso foi se diluindo com o passar das décadas, da mesma forma que na Argentina foram se diluindo com o passar das décadas piadas sobre espanhóis.
Muito bem. Como é que amanheceu?
Resumindo, o principal jogo foi ontem.
É, acabou a Copa. Agora sim, a Copa vai ser lupa.
Para eles acabou a Copa, tá certo.
E amanheceu como Buenos Aires hoje, Ariel? Você que tá aí andando pelas ruas.
Muitos estavam com ressaca, evidentemente, porque ontem o pessoal, especialmente aqui na área do Obelisco, Alguns já estavam bem chumbados antes do jogo, mais ainda durante o jogo e no pós-jogo, nem te conto. Tinha um pessoal ali que inimigos do fim, era como, mas havia um certo problema de equilíbrio vertical.
É o vento, tá frio aí, não tá?
Era o vento.
O Ariel, olha só, a Yene Ribeiro falou assim: nossa, sou de Londrina do Paraná, acabei de ouvir o rapaz dizer que torce para o Londrina. O famoso Tubarão joga amanhã, hein? Tem jogo amanhã, mais importante que a final da Copa.
E Vicente, não tem a menor dúvida, não tem a menor dúvida, tá bom? Londrina é eterno, tá bom?
Ariel tá recebendo uns xavecos aqui no nosso chat. É, Ariel tá sendo aqui cortejado por ouvintes e ouvintas no nosso chat do YouTube.
Sou casado e torço pelo Londrina. Então assim, não, nem adianta chavecar.
Um beijo, Ariel, até a semana que vem.
Tchau, Ariel, obrigado.
Até semana que vem. A semana que vem vamos ter o resultado do Espanha e Argentina. Aí vamos ver o que acontece. Ah, perdão, só para encerrar, esta também é teoricamente a última Copa do Messi, e por isso os torcedores gritavam mais Messi, Messi do que Argentina. É só, mas eu conto isso na semana que vem.
Tá bom, é isso. Até a semana que vem. Que bom ver um pouquinho das ruas de Buenos Aires também, né?
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