'Maravilhas' linguísticas em títulos de sites de notícias - parte 2
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Professor Pasquale
Fernando
- Poder das PalavrasDisparada · Geraldo Vandré · Téo de Barros · Jair Rodrigues
- Características da Munich WineTom Jobim · Vinicius de Moraes
- Manipulação de NotíciasSabrina Sato terá reality para resgatar cães abandonados na Globo · Globo
- Anvisa e lote com bactéria· SaudeDiretor-presidente da Anvisa confirma contaminação de produtos por bactérias em reunião · Anvisa
- Punição de soldado por vídeoSoldado é punida com 2 dias de prisão por vídeo lavando viatura da PM do Ceará · PM do Ceará
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A nossa língua de todo dia com o professor Pasquale.
Oi professor, boa tarde.
Buenas tardes Tatiana, boa tarde Fernando, boa tarde ouvintes.
Professor, hoje a gente vai falar mais uma vez sobre maravilhas linguísticas presentes em títulos de sites de notícias. Posso ler uma?
Pode, claro. Mas deixe-me dizer para o ouvinte, porque antes de ontem não deu tempo, né? A gente tava com tempo meio curto, por isso eu achei um desperdício não falar das outras maravilhas e acrescentei uma que eu acho que é a que você vai ler, a primeira. Maravilhosa, genial, é genial. É de uma sardinha. Vamos lá, vamos lá, vamos lá. Leia, Fernando.
Sabrina Sato terá reality para resgatar cães abandonados na Globo. Saiba como será.
Meu Deus, quantos cachorros foram abandonados na Globo?
Pois é, pois é. Isso é de hoje. Isso quem me mandou, como sempre, porque embora eu tenha a minha coleção particular, eu vou pondo de lado. O meu querido amigo Marcão jornalista de mão cheia, trabalhou comigo na Folha 500 anos, e ele sempre me manda essas coisas, né, o Marcos Daniel Cesari. E essa foi ele que me mandou hoje, né. Eu falei para ele, você vai para o ar hoje. Sabrina Sato terá reality para resgatar cães abandonados na Globo.
Quer dizer que o pessoal passa lá pela Globo, ou lá no Rio de Janeiro, ou na Globo São Paulo, achou Cris Aidan e joga cachorro lá dentro, né? E ninguém tá vendo, o sujeito vai, puf, põe o cachorro ali. Eu disse na terça-feira que a ditadura da ordem direta é boba, como qualquer ditadura. Boba porque eu sou bonzinho, né? A palavra é outra, né? E aqui nós temos esse na Globo, que é um adjunto adverbial, se me permitem o palavrão, né?
Adjunto adverbial. Colocado numa posição tal que gera o que nós chamamos de ambiguidade estrutural. Ambiguidade, para quem não sabe, é o duplo sentido, né? Ambiguidade estrutural é porque a estrutura adotada é tal que, ao pé da letra, a frase é ambígua. A gente entende o que quis dizer quem escreveu, mas isso não quer dizer nada, porque em muitos casos não dá para saber. O que a pessoa quis dizer. Então aí, por exemplo, basta deslocar esse na Globo, né?
Sabrina Sato terá reality na Globo, né, para resgatar cães abandonados, né? E por aí vai. Posso, o que que eu faço agora? Leio a segunda, o Fernando lê a segunda, eu vou para o auxílio, vou para o auxílio, primeiro auxílio. Como é que tá o nosso tempo? Deixa eu ver aqui se a Janaína Tá, então tenho 10 minutos. Oba, legal! Dá para— vamos para o primeiro auxílio, que é um clássico da música brasileira que eu já toquei aqui por outras razões.
É um clássico chamado Disparada, que todo mundo diz que é de Geraldo Vandré, e é a letra. A melodia não é do Geraldo Vandré, a melodia é do grande Téo de Barros, que se foi recentemente, grande compositor, grande músico, grande arranjador. E a interpretação marcante, definitiva, monumental de Jair Rodrigues, canção que está no disco O Sorriso do Jair, de 1966, ano do jogo famoso que o nosso Ariel citou o jogo de 66, na Copa de 66, Inglaterra 1, Argentina 0. Jogo em que o grande Ratinho foi expulso sem entender por quê. Vamos ouvir.
Prepare o seu coração para as coisas que eu vou contar. Eu venho lá do sertão, eu venho lá do sertão. Eu venho lá do sertão e posso não lhe agradar. Aprendi a dizer não, ver a morte sem chorar. E a morte, o destino tudo, a morte, o destino tudo estava fora de lugar. Eu vivo para consertar. Na boiada já fui bom, mas um dia me montei não por um motivo meu ou de quem comigo houvesse, que qualquer querer tivesse, porém por necessidade do dom Eita, que lindeza!
Que beleza!
Meu Deus, meu Deus, que lindeza! Eu tinha 11 anos quando isso apareceu no Festival da Record e eu já era doido por música. E quando eu ouvi isso, eu fiquei louco, maluco, maluco de pedra, né? Enlouqueci. Tamanha lindeza do arranjo, tamanha lindeza da interpretação do Jair, a melodia do Téo, a letra do Vandré. E o Vandré é o próprio barroco, né? Se você pega o disco dele Canto Geral, que é um disco absurdamente lindo, você lê a contracapa desse disco, ele, Vandré, dá uma aula, né?
É um texto antológico, antológico, para ser lido de joelhos. E com uma série, ele como bom nordestino, bom paraibano, usa e abusa do barroquismo, das construções sofisticadas, invertidas e tal, né? E nessa letra, o Lá Pelas Tantas, o Vandré diz: na boiada já fui boi, mas um dia me montei. E por aí vai. Você já pensou se na boiada já fui boi, que está na ordem inversa, porque o sujeito aí está oculto, não é? Eu Eu fui, né? Então, se a ordem é começar pelo verbo, né?
Eu já fui boi na boiada, né? Imaginem o efeito expressivo de na boiada já fui boi e eu já fui boi na boiada. Vocês acham que é a mesma coisa? De jeito nenhum! Com a inversão, com a expressão adverbial na boiada no começo, a expressividade aumenta 30 bilhões por cento, né? De modo que esse negócio da ordem direta obrigatória é uma bobagem do tamanho do mundo, do tamanho do mundo. Na boiada já fui boi, muito mais expressivo do que eu já fui boi na boiada.
Imagine, nada, nada, né? Muxa, como disse o Caetano Veloso uma vez, quando esteve na nossa língua portuguesa, ele se queixou de uma nova tradução da Sombra das Raparigas em Flor, que tinha havido uma nova tradução para A Sombra das Moças em Flor, e ele ficou pê da vida dizendo, mas como, né? Raparigas é um termo, nós estamos falando de língua culta, né? Não é porque rapariga no Nordeste tem um sentido de prostituta Em Portugal não tem, e no português culto também não tem, são moças.
Só que a palavra moças, né, a sombra das moças, e ele fazia moças, perde o ritmo, perde tudo, né. Então língua é ritmo também, né. A ordem também interfere nisso, no ritmo, na melodia, na maneira como se dizem as coisas. Bom, tô olhando para o relógio preocupado, quero ir adiante. Fernando Andrade. Leia a maravilhosa segunda frase aí, o segundo título maravilhosíssimo, Fernando, por favor.
Diretor-presidente da Anvisa confirma contaminação de produtos por bactérias em reunião.
Nossa, que reunião foi essa, hein?
Era uma reunião das bactérias preocupadíssimas ali reunidas, né? O que que a gente vai fazer? Vão querer pegar a gente, vão querer acabar com a gente, e por aí vai. Veja, em reunião, tá na cara, é pegar isso e colocar no começo. Em reunião, diretor-presidente da Anvisa confirma contaminação de produtos por bactérias. Fim, acabou. A frase não vai começar pelo sujeito? Não. E daí, né? E daí? Ela vai começar pela expressão adverbial, né, de situação, de lugar e tal, de meio lugar, meio lugar, né.
Em reunião, diretor-presidente da Anvisa confirma contaminação de produtos por bactérias. E aí eu tenho um tempinho para mostrar um poema que eu já mostrei aqui, mas vou mostrar de novo. Poema Soneto de Fidelidade, que está dentro da canção Eu Sei Que Vou Te Amar. A canção é de Tom Jobim e Vinícius Moraes. O poema é do Vinícius. Vamos ouvir.
Eu sei que vou sofrer a eterna desventura de viver a espera de viver ao lado teu por toda minha vida.
De tudo Ao meu amor serei atento antes, e com tal zelo, e sempre e tanto, que mesmo em face do maior encanto dele se encante mais meu pensamento. Quero vivê-lo em cada bom momento, em seu louvor, e espalhar meu canto. E rir meu riso e derramar meu pranto ao seu pesar, ao seu contentamento. E assim, quando mais tarde me procure, quem sabe a morte, angústia de quem vive, quem sabe a solidão, fim de quem ama, eu possa me dizer do amor que tive Que não seja imortal, posto que é chama, mas que seja infinito enquanto dure.
Eu sei que vou sofrer a eterna desventura de viver à espera de viver ao lado teu por toda a minha vida.
Esse soneto que vocês ouviram no meio, dito pelo Vinícius, né, chama-se Soneto de Fidelidade. Ele escreveu em Portugal, em Estoril, em outubro de 1939. E ele começa, ele exagera até na inversão, né: de tudo ao meu amor serei atento antes. E com tal zelo e sempre tanto que mesmo em face do maior encanto dele se encante mais meu pensamento. Na ordem direta, o começo, vou repetir o começo: de tudo ao meu amor serei atento antes. Serei atento ao meu amor antes de tudo.
Note que o Vinícius quebra o antes de tudo, põe o de tudo lá no começo, antes, depois. Ao meu amor serei atento, ao meu amor antes de tudo. Essa seria a ordem direta. Claro que aqui existe essa inversão como recurso poético para melodia do verso e por aí vai. Mas esse é um exemplo de inversão um tanto exagerada, né? Uma ordem que não se usaria na linguagem do dia a dia e mesmo na linguagem não tão do dia a dia assim. Mas é isso, pelo amor de todos os deuses, redatores, etc., caprichem!
Caprichem um pouquinho. Tinha até mais uma frase, mas essa vai ficar para outro dia. Ou se vocês quiserem ir embora só lendo a frase para a gente dar risada, né? Fernando, quer ler?
Soldado é punida com 2 dias de prisão por vídeo lavando viatura da PM do Ceará.
É punida, é isso aí, Nossa Senhora!
Ela foi punida com 2 dias de prisão por vídeo lavando viatura da PM do Ceará.
O vídeo foi lá e fez o quê? Lavou a viatura. Um horror, um horror. Tava suja a besta.
É isso.
Beijo, professor. Obrigada por hoje. Até amanhã.
Grande beijo para vocês, meus queridos. Até amanhã.