Brasileiros afirmam que conversa é melhor forma de educar criança, mas seguem com práticas violentas
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Cássia
Milton
Mário Sérgio Cortella
- A Importância da Disciplina e ConsagraçãoDiferença entre firmeza e rispidez · Violência física como alternativa · Diálogo não é submissão
- Normalização da violênciaTapas e uso de objetos · Diferença de percepção entre adultos e crianças · Hierarquia de poder e submissão
Conversa de Primeira, No Meio do Caminho com Mário Sérgio Cortella. Muito bom dia, professor Mário Sérgio Cortella.
Bom dia, Milton. Bom dia, Cássia.
Bom dia, professor.
Chama atenção reportagem que está publicada hoje no jornal O Globo e traz dados publicados ou divulgados pelo Instituto Quest em parceria com o Instituto Futuro é Infância Saudável e que mostra que a maioria dos brasileiros diz que o diálogo é a melhor forma de educar crianças, mas práticas violentas seguem presentes no cotidiano. 91% das pessoas defendem a conversa como principal estratégia para corrigir comportamentos infantis.
Mas quando perguntados lá se já tomaram alguma atitude assim mais violenta em relação a uma criança, as pessoas dizem que já tomaram, numa contradição de como tratar essa relação com pai, entre pais e filhos, ou adultos e crianças.
Professor, pois é, nós estamos alterando a nossa concepção para melhor até, onde há uma maior não aceitação da brutalidade, da violência, daquilo que é o suplício. Mas do outro lado ainda são modos antigos, né? Há muita gente ainda entende que esse modo de rispidez, não de firmeza, que a firmeza é necessária, mas de rispidez que chega até, né, a forma da brutalidade, da violência física, que ela é uma alternativa. E isso, claro, pouco a pouco vai sendo alterado e precisa sê-lo.
Vontade às vezes de gritar a gente tem, né, Milton de Castro? Até com adulto, e vez ou outra até eu faço. Eu fiz várias vezes na vida, mas nunca fiz aquilo que é o castigo físico ou bater, como se dizia. Isso chega a momentos em que a gente ainda vive uma percepção de que não é correto fazê-lo, mas ainda não tem uma clareza muito forte. Diálogo é bom, mas diálogo não é submissão. Diálogo é importante, mas diálogo não é rendição. É só uma forma de participar, né?
Agora, professora, me chamaram a atenção aqui, ou me chamou a atenção aqui, alguns dados dessa pesquisa, alguns percentuais, para ser mais específica. Na amostra, 49% reconheceram já terem dado tapas em crianças e 27% afirmaram já ter utilizado objetos para bater em uma criança. E a gente não tem percentuais assim quando a gente pensa em agressão entre adultos. Por que que a gente acha normal bater em criança e não acha normal bater em adulto.
É todo o nosso caminho de história de imaginar que o menor de tamanho, o menor de idade, o menor de poder é alguém que seja submisso de qualquer modo. Isso sempre valeu no processo de escravização também, na relação masculino-feminino para muita gente. Portanto, essa ideia de que quem pode, tudo pode, e portanto uso até de objeto, ele será um elemento de instrução e disciplina. Ainda bem que a gente vem alterando. Insisto numa coisa, né, Cássia?
Firmeza, a ideia de responsabilização. Eu não temo nem a palavra castigo, castigo entendido como privação, mas nunca, nunca como uma forma, né, em que se vá usar agressão, porque isso de maneira alguma é educativo. Assim fosse, né, as penitenciárias seriam centros de excelência de educação, né.
Muito obrigado, professor Mário Sérgio Cortella, e um bom dia.
Abraço, abraços.