Jogada de Trump no Estreito de Ormuz serviu como forma de reafirmar sua autoridade
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Cristina Pecequillo
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CBN Pelo Mundo com Cristina Oi, Cris, boa tarde! Oi, Tati! Oi, Fê! Oi, ouvintes, boa tarde!
Bom, a gente volta a falar das manobras políticas de Donald Trump. Os últimos dias foram cheios delas e uma delas diz respeito à situação no Estreito de Ormuz e a comunicação ao Congresso de que a guerra recomeçou. Quais são as motivações externas e também as internas para essas novas manobras de Donald Trump em relação ao Oriente Médio, Cris?
Então, tá, de ouvintes, aqui a gente tem um quebra-cabeças muito interessante que o Trump montou para justificar para o Congresso de novo de que a guerra estaria em andamento. Ou seja, toda aquela discussão que nós tivemos sobre o acordo de cessar-fogo, sobre a possibilidade de discussão sobre o acordo nuclear com Irã, ela cai por terra porque os Estados Unidos retomaram os ataques ao território iraniano. Isso mesmo com movimentações no funeral de Khamenei, outras agendas de transição política.
E o Trump utilizou isso para dizer: olha, eu preciso novamente da minha autoridade presidencial. Então, com isso, ele fez essa jogada com o Estreito de Ormuz, primeiro dizendo que ia cobrar o pedágio, depois voltando atrás. Mas para mim, aí, o grande ponto é, primeiro, o bloqueio naval do estreito, ou seja, novamente você ter o controle da passagem dos navios no Estreito de Ormuz. E o segundo ponto, justamente, essa disputa com o Congresso, de dizer, olha, eu preciso dos meus poderes especiais novamente.
Então, para mim, foi basicamente um jogo de política interna para que ele conseguisse renovar sua autoridade presidencial por mais 60 dias. E a gente ainda teve, dentro dessa conjuntura de manobras políticas do Trump, a gente ainda tá aguardando para ver como isso vai se desenvolver, uma notícia no New York Times dizendo que, como parte desse processo de transição no Irã, o antigo presidente Ahmadinejad estaria aliado a Israel para substituir o atual governo.
Então, todo um quebra-cabeça doméstico e internacional muito grande. Isso vai garantindo para o Trump poderes especiais, mais dinheiro e uma continuidade da guerra que a gente não consegue ver quando termina.
Agora, Cris, na semana passada, na reunião da cúpula da OTAN, do Tratado da Organização do Tratado Atlântico Norte, Donald Trump anunciou que iria liberar a produção de mísseis mísseis Patriot pela Ucrânia. Cris, explica para gente por que que esses mísseis são relevantes e quais foram as reações de União Europeia e também da Rússia.
Os mísseis Patriot, eles são conhecidos por formatar aquele sistema de defesa antiaérea. O que que isso significa? Que quando um país ele é atacado, esses mísseis eles formam um escudo impedindo que aquele determinado país seja atingido. A gente tem ouvido muito falar desses desde a guerra, Primeira Guerra do Iraque, 1990, e também Israel. É algo parecido com aquela discussão do Domo de Ferro. Então, o que que o Trump fez? Embora ele sempre diga que ele não apoia o Zelensky, agora ele passou a apoiar o Zelensky, dizendo: olha, você vai produzir mísseis Patriot na Ucrânia.
Agora, o que que isso significa? Que a Ucrânia teria capacidade de construir a sua própria capacidade de defesa antiaérea sem depender dos Estados Unidos e sem depender da União Europeia, o que dificultaria a penetração dos mísseis balísticos em território ucraniano pela Rússia. O que acontece é que isso é basicamente inviável no curto prazo, né? Por quê? Porque para você construir uma base industrial de defesa e produzir um míssil como o Patriot, você precisa de indústrias, de mão de obra, de transferência de tecnologia, de matéria-prima.
Então essa licença que o Trump fornece, ela demoraria para fazer efeito uns 5 anos, tá? Então isso a gente já viu com outros equipamentos militares, como tanques, como outras defesas antiaéreas. Então o impacto para o conflito, ele não seria imediato. Agora, para a Rússia, o que que isso significaria? Significaria um risco, porque efetivamente ela perderia a sua capacidade de atacar a Ucrânia, principalmente com mísseis como o Ourochkin.
Então a gente poderia aí ver uma transformação na guerra. Mas poxa, esperar mais 5 anos é complicado. Qual Qual que foi a reação da União Europeia? A União Europeia, sabendo que é muito complicado você desenvolver uma base industrial de defesa tão rapidamente— o drone é mais fácil, né, gente, porque o drone é um equipamento mais simples que demanda menos equipamento, menos tecnologia— mas esse início é muito complicado. Então a União Europeia anunciou no pós-reunião da OTAN que a União Europeia, junto com a Ucrânia, faria uma coalizão estratégica para construção de um sistema de defesa antimísseis próprio europeu, sem depender dos americanos, o que não sei também se é muito viável, mas que esse sistema ele estaria sendo patrocinado pela Ucrânia, também aí pelos países europeus.
Quais basicamente? São 9 países: Dinamarca, Reino Unido, Alemanha, Itália, França, Holanda, dentre os principais. Então essas foram as reações, mas o Trump fez muito para jogar pela plateia E também para pegar dinheiro, porque vender míssil dá dinheiro para os Estados Unidos também.
O Cris, eu me lembro quando ele falou isso na reunião da OTAN, porque na OTAN ele falava uma coisa para o público e outra coisa dentro das reuniões, né? Logo quando ele anunciou, ah, eu vou deixar com que a Ucrânia fabrique Patriots, ele falou assim na sequência, eu não sei nem como, a empresa também não sabe, mas eu vou fazer isso. Não vai dar certo, né? Não ia dar certo.
Ele faz o charme, né?
Tá bom, foi bom você ter explicado isso.
O Cris, internamente, o presidente dos Estados Unidos, em mais uma manifestação de absoluto desprezo pela democracia e pelos ritos e processos que constituem uma democracia, diz que vai gritar sobre fraude nas eleições presidenciais de 2020. E ele marcou um pronunciamento para falar sobre isso para quinta-feira, dia 16. Vou respirar fundo. Quais são as novas alegações?
A gente tem que respirar mesmo, Tati, porque o que ele está alegando é que as urnas eletrônicas que são usadas em alguns estados americanos, elas vêm sendo objeto de hackers, elas vêm sendo objeto de fraude, de manipulação. E uma coisa muito interessante para a gente lembrar para os nossos ouvintes é o seguinte: há alguns dias atrás E aí a gente precisa respirar mais fundo ainda. O presidente Trump desmontou a comissão eleitoral que vai fazer o acompanhamento das eleições de meio de mandato em novembro.
Ou seja, você tem aí uma acusação de fraude e ao mesmo tempo você tem o desmonte de uma comissão independente fiscalizando a lisura do processo.
Quer dizer, já talvez pensando em poder então mais para frente alegar que não foi fiscalizado, teve fraude também. Meu raciocínio é muito catastrófico ou faz sentido?
Não, faz sentido, completo sentido, Tati, porque o que o Trump tem feito é não somente mexer nas instituições americanas, mas no funcionamento das instituições americanas. E isso é uma comissão independente de observadores. Quando ele faz isso, ele pode colocar as pessoas que ele quer. A Suprema Corte, inclusive, Deixou ele fazer essa movimentação. Então você tem uma comissão eleitoral esvaziada e que pode ter nomes apontados pelo Trump para tomar o lugar da fiscalização, ou seja, não vai fiscalizar nada.
Você tem acusações às urnas eletrônicas que não são usadas por todos os estados, ou seja, ele vai gritar e vai espernear bastante nesse pronunciamento. E aí a gente tem que lembrar também que em 2020 uma outra alegação de fraude, o Trump até hoje ele disse que ele não perdeu de 2020 são os votos enviados pelo correio. Então essa eleição de novembro ela fica meio sobre aquela sombra. Poxa, se os republicanos não ganharem, a gente vai ter uma eleição fraudada.
Ele meio que já tá gritando lobo, já tá gritando incêndio antes mesmo de acontecer. E outra coisa, é uma eleição que vai ser a primeira eleição com redesenho de distritos que favorecem candidatos republicanos, principalmente em zonas mais pobres. Então promete ser uma eleição de bastante surpresa, mas ao mesmo tempo uma eleição onde o presidente ele entra com uma popularidade muito baixa. Então ele tenta equilibrar o jogo dizendo o seguinte: olha, se eu perder é porque estão me roubando, como me roubaram em 2020. Que horror!
Ele que votou pelo correio, né, na última eleição.
Ele votou pelo correio, mas o correio dele parece que funciona melhor.
Cris, vamos agora para o Reino Unido. Teremos Novo primeiro-ministro em breve?
Aparentemente sim, né? A gente tava fazendo aquelas contas, né, para ter um novo primeiro-ministro, e o Andy Burnham do Partido Trabalhista, ele conseguiu, né? Eu até anotei o número aqui. O último número é que dos 403 deputados, ele já tem um apoio de 349 do Partido Trabalhista, né, dentro do Parlamento Britânico, para se tornar primeiro-ministro. Ministro. Então a expectativa é muito grande, né? Não vai ter fumacinha que nem quando a gente tem o Papa, mas a expectativa é muito grande de que pelo menos a partir de segunda-feira, dia 20 de julho, a gente possa já ter no Reino Unido um novo primeiro-ministro.
Por um lado é bom, né, no seguinte sentido de você estabilizar a situação. O Reino Unido nunca foi um país, né, uma, não é bem um país, né, são vários países. Nunca foi uma situação política de muita instabilidade. Agora esse troca-troca de primeiros-ministros tem sido uma tendência, mas ao mesmo tempo você já coloca na mão do Barra no seguinte desafio. Agora você tem que levar esse governo até o fim para que a gente tenha maior estabilidade.
Então, por um lado é bom que garante estabilidade, por outro lado é ruim porque essa mesma estabilidade ela já vai estar atrelada a um nome novo que é o dele, e a responsabilidade será dele de conduzir o Cris, para a gente se despedir, a gente tá um dia da decisão final a respeito do tarifaço ao Brasil.
Os Estados Unidos já reviram algumas posições em relação a outros países, né?
Então, reviram. A questão do tarifaço atual, a gente tem discutido muito isso, é que ele tem um cunho político e ele tem também um cunho estrutural, que é o seguinte: algumas medidas desse tarifaço, algumas acusações, e a gente sempre tem que falar novamente do de Pix, regulamentação de grandes empresas de tecnologias, Big Techs. Tem que falar desses dois temas porque eles são temas que afetam diretamente a soberania nacional brasileira e que o Brasil não vai ceder às pressões dos Estados Unidos.
Então essa questão ela tá fora da negociação. O que a gente tá esperando, né, isso o próprio governo brasileiro tá colocando, é que após aquelas audiências da semana passada que tiveram um tom muito político, muito ideológico da parte de alguns, a gente a gente pode ter a manutenção das tarifas, mas ao mesmo tempo um aumento da lista de exceções. E aí, obviamente, exceções a produtos que beneficiam o mercado americano, não que nos beneficiam, mas que as acusações elas vão continuar acontecendo.
E aí vem uma outra questão, que é o seguinte: hoje o Brasil, ele já é, né, como nossos ouvintes sabem, né, a gente tem conversado muito aqui, outros especialistas têm colocado isso na mesa, Brasil já é um dos países mais tarifados pelos Estados Unidos. Ele está pelo menos entre os 15 países mais tarifados. Se a partir dessa nova decisão do governo americano o Brasil ele vai ter a imposição dessa outra tarifa, o Brasil chegará a 37,5% em alguns setores de tarifaço, isso significa que o Brasil ficaria somente atrás da China como um dos países mais penalizados pelas tarifas americanas.
Então aqui você tem realmente uma disputa que envolve não só o Brasil, mas outros países como a China, como a própria Índia, ou seja, os BRICS. Então a gente tá falando de BRICS, tá falando de Pix, tá falando de desdolarização, tá falando de Big Tech, mineral crítico e terra rara. Então é realmente uma agenda muito complexa. O Brasil em ano eleitoral E o Trump também é no eleitoral. Então é geopolítica, geoeconomia, e também aí uma disputa ideológica em alguns níveis.