'Influência é responsabilidade'
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- Opinião sobre apostas esportivasCompra de vozes e credibilidade · Plantar dúvida sobre vícios
- Tomada de decisões e responsabilidadeUso da atenção pública · Valor da palavra
Refletir para Viver com Rosandro Klinger.
Há alguns dias recebi uma proposta de uma empresa de apostas esportivas, valor que passa da dezena de milhões. A missão era simples: dizer publicamente que apostas não necessariamente viciam. Recusei na hora, não porque não preciso do dinheiro, mas porque há coisas que não têm preço de tabela. Minha palavra é uma delas. E vou explicar porque isso precisa ser dito em voz alta. A neurociência não deixa margem para debate aqui. O mecanismo das apostas ativa o mesmo circuito de recompensa de drogas, como o crack.
A variabilidade do resultado, aquele talvez dessa vez, é exatamente o que prende. Robert Sapolsky, neuroendocrinologista de Stanford, mostrou que recompensa incerta libera mais dopamina do que recompensa garantida. O cérebro não resiste a isso, foi feito para não resistir. Sobre isso, a indústria prefere silêncio, então compra vozes e também compra credibilidade de quem tem a atenção de muita gente para dizer o contrário do que a ciência já provou.
Eles não pedem uma mentira descarada, mas querem apenas que você plante dúvida, que você diga não necessariamente, abrindo assim uma fresta onde não deveria haver fresta nenhuma. O Brasil registrou em 2024 mais de 2 milhões de famílias endividadas por apostas, trabalhadores que comprometem o salário inteiro antes do 5º dia do mês. Jovens que entram pelo entretenimento e saem pelo vício sem perceber que foram condicionados a isso.
Influência é responsabilidade. Quando você tem a atenção de muita gente, o que faz com ela define quem você é, não o tamanho do cachê. Recusei. Durmo bem, olho para os meus filhos e sei que não estou ajudando a destruir outras famílias. Isso não tem preço de tabela, pelo menos não para mim.