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Pesquisa revela maior sobrecarga emocional em casais homoafetivos

13 de julho de 202621min
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Pesquisa sobre a vida afetiva dos brasileiros revela que casais homoafetivos relatam com mais frequência a sensação de dar mais do que recebem e de enfrentar sobrecarga nas tarefas do dia a dia. A psicóloga Carol Tilguían explica que, sem papéis tradicionais predefinidos, a divisão baseada em habilidades pode gerar acúmulo de responsabilidades, rivalidade e frustração.

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Participantes neste episódio3
C

Carol Tilguían

HostPsicóloga
Á

Álvaro Machado Dias

Co-hostEspecialista
C

Carol

Co-hostApresentadora
Assuntos3
  • Casais homoafetivos e reprodução de papéis de gêneroDeslegitimação do vínculo e do direito à relação · Desejo de agradar como prisão
  • Monogamia vs. Não-MonogamiaBusca por relações estáveis · Monogamia em casais homoafetivos · Desacelerando o ritmo em relacionamentos
  • Maturidade EmocionalEgo e a necessidade de ser necessário · Infantilização na relação · Conversa e reconversão sobre tarefas
Transcrição25 segmentosassemblyai/universal-3-5-pro
?Voz A

CBN Amores Possíveis com Carol Tilguian.

CTCarol Tilguían

Carol, boa tarde!

?Voz C

Boa tarde, Tati!

CTCarol Tilguían

Boa tarde, Nando! Boa tarde, ouvintes!

?Voz C

Hoje a gente vai falar, vai falar não, a Carol vai falar e a gente vai aprender um pouco sobre as dores e as delícias da carga mental invisível em relações LGBTQIA+. Espero que eu tenha falado todas as letras corretamente. Tem muita gente que pede para que você fale sobre relações homossexuais aqui, né, Carol?

CTCarol Tilguían

Exatamente. E hoje eu quis trazer um recorte com dados inéditos. Eu já tinha trazido alguns dados dessa pesquisa, o Raio-X da Vida Afetiva. Falei com 1000 brasileiros, país todo, todas as idades, orientações sexuais. E hoje eu trouxe um recorte das principais diferenças dos casais homoafetivos e heteroafetivos, pra gente poder mergulhar aqui nessas dores e delícias. E quero ouvir vocês, casais LGBTQIA+, pra saber se esses dados ressoam com as relações de vocês.

Então, primeiro, eu acho super importante a gente já desmontar um clichê que é de que nas relações homoafetivas é mais difícil se buscar uma relação estável ou se buscar monogamia. Uma das perguntas que eu tinha na minha pesquisa é: que modelo de relação você tá buscando? E 70% das pessoas homoafetivas estão buscando uma relação monogâmica 100% fechada. O número das pessoas héteros é 78%. Então a diferença não é significativa.

Além disso, o Brasil registrou 15.520 casamentos entre pessoas do mesmo sexo em 2025, quase 43 casamentos por dia. Foi uma alta de quase 9% versus 2024. E tem uma outra pesquisa que foi publicada agora em junho do Hinge, que é um aplicativo de relacionamentos, que foi feita com 31 mil usuários. E mostra que 86% das pessoas LGBTQIA+ querem conexões emocionalmente seguras, transparentes, e 52% delas dizem que estão desacelerando o ritmo versus 44% dos héteros.

Quer dizer, já quero começar dizendo Se você fala, tá difícil achar um namorado ou uma namorada porque os gays só querem transar e sexo casual, não é isso que os gays estão falando. Então vá procurar o seu par, porque muitas vezes a gente fica nesse lugar do ninguém quer nada com nada e na verdade só estamos todos com medo. O que que eu acho muito interessante, eu quero trazer aqui para a gente discutir, O maior número da diferença dessa pesquisa tem a ver com a sensação de dar mais do que recebe e a sobrecarga das tarefas do cotidiano.

Então, entre os casais homoafetivos, 35% das pessoas sentem que dão mais do que recebem versus 16% dos casais heterossexuais. E quando a gente fala da sobrecarga cotidiana, então o excesso de tarefas, 41% dos casais homoafetivos relatam esse como principal problema versus 27% dos casais héteros. E a falta de tempo é 10 pontos maior também, 28% dos casais homoafetivos reclamam da falta de tempo versus 19%. Então, o que esse dado traz aqui para a gente discutir?

Que teoricamente uma relação entre iguais que poderia ser mais igualitária na divisão de tarefas traz outros problemas da falta de roteiros automáticos. A gente sabe que dentro de um casal heteroafetivo Essa divisão de tarefas por função, a função materna, a função paterna, traz uma sobrecarga enorme e o trabalho invisível para mulheres, que muitas vezes são responsabilizadas pela gestão da casa, pela educação dos filhos, porque isso é algo que a mulher faz com mais naturalidade.

Só que ao mesmo tempo que isso sobrecarrega o indivíduo, ele também alivia, porque não é algo que foi definido por aquele casal, sempre foi assim. Tem algo de uma alienação que a gente está aqui desconstruindo, que é essa função já foi dita, essas coisas são naturalizadas. Mas há algo de um automático. Num casal homoafetivo, a gente não divide por função, divide por habilidade, pela sensação de quem faz melhor. Isso muitas vezes, e é o que o dado da pesquisa traz, sobrecarrega e gera uma sensação de frustração, E muitas vezes de competição, porque a habilidade é da ordem do eu, tem algo do narcísico aqui.

Porque se a divisão se faz por aptidão, se eu acho que eu sou melhor nas finanças, então eu já puxo isso para mim. E aí eu te infantilizo, que é o clássico do quando a gente pensa no casal hétero, a mãe que reclama que o pai não troca a fralda, Mas quando o pai troca a fralda, fala: mas você não sabe fazer.

?Voz C

Então, o que que eu faço? Porque eu faço melhor.

CTCarol Tilguían

Exatamente. E a divisão dos casais homoafetivos se faz por divisão de função. E aí, se eu faço melhor, habilidade vai concentrando. E quem é mais capaz acumula e fala: não, deixa que eu faço melhor. Eu cozinho porque eu cozinho melhor, eu coordeno as compras porque eu coordeno melhor, eu organizo as nossas finanças porque eu coordeno melhor. E aí você vai se tornando responsável por tudo e muitas vezes vai menosprezando o outro, vai diminuindo o outro, e o cuidado vai aos poucos se tornando Rivalidade.

Eu vejo isso muito na clínica. Até quero saber se casais homoafetivos que estão nos ouvindo vivem isso, o quanto essa rivalidade aparece também muitas vezes. Por exemplo, dois homens que estão no mesmo patamar de cargo e de repente um deles vira diretor, o outro ainda gerente, e isso se reflete na dinâmica do casal, da casa. Exatamente. Ou esse lugar do eu sei cozinhar melhor, eu arrumo a casa melhor. Depois vira uma rivalidade de sou eu que cuido mais desta relação, mas você tá sempre criticando aquele que faz as receitas básicas.

?Voz C

Ô Carol, aqui tem um conceito, tô te ouvindo e tô pensando assim, eu, do meu lugar de fala, que aprendemos com a Djamila aqui, né, para não deixar se perder: mulher branca, classe média, heterossexual. Se você faz alguma coisa melhor do que o outro, como por exemplo cozinhar, que é um negócio de que todos os integrantes da sua família vão depender, né, não só o seu cônjuge, enfim, Se isso for uma coisa bem assentada, bem resolvida, não deveria ter problema.

CTCarol Tilguían

Não, não deveria e não precisa ter. Mas quando a gente ouve que 35% das pessoas sentem que dão mais do que recebem, a provocação é: você está fazendo, cozinhando e cuidando da gestão da casa, e quais Qual é a sobreposição de tarefas que você faz melhor que faz com que você se sinta sobrecarregado? Porque o ponto que eu tô trazendo para discutir é: se a pessoa sente que o excesso das tarefas cotidianas e eu dou mais do que eu recebo são os problemas dessa relação, o que que você gostaria de receber que você não está pedindo?

?Voz C

Isso é importante.

CTCarol Tilguían

E o que que você está fazendo que você faz melhor, mas que talvez você não queira fazer? Porque pode ser que a cozinha você é top, ou pode ser que ainda que você cozinhe melhor, você não queira cozinhar todo dia.

?Voz A

Agora, Carol, não tem uma tendência da gente sempre achar que dá mais do que recebe? Boa. Eu sempre acho que eu dou mais do que recebo.

CTCarol Tilguían

Mas o que eu acho que é, e o que eu quis trazer, é que nos casais homoafetivos isso é quase 20% maior. Então nos casais héteros 16%, 1 a cada 5 acham que dão mais do que recebem. Nos casais homoafetivos, 35%, 1 a cada 3. E aí, o que eu tô trazendo pra gente discutir é que esse número tende a ser maior porque não tem esse algo claro, pré-estabelecido, ainda que seja muito injusto, né, do que o cara deveria fazer, a mulher deveria fazer.

Então a gente está definindo nesse enlace, a partir das nossas habilidades. E aí eu faço para cuidar do outro, mas ao mesmo tempo me sinto sobrecarregado. E aqui acho que tem esse ponto da rivalidade, né, que traz também um pouco o narcisismo das pequenas diferenças, que é um conceito do Freud. Que traz que exatamente em pessoas que são muito, muito parecidas com a gente, aqui eu tô trazendo para o casal homoafetivo, mas isso muitas vezes acontece entre amigos que pensam muito igual ou entre irmãos que são, como a semelhança ameaça a singularidade, aí o que eu sou um pouquinho diferente de você eu vou jogar na sua cara, porque isso faz com que eu seja diferente, porque isso faz com que você precise de mim.

E isso tá trazendo dor nas relações homoafetivas. E aí tem uma outra camada que eu acho importante trazer, que é o quanto o desejo de agradar vai se tornando uma prisão. A gente fala muito isso em todas as relações, mas tem um outro número da pesquisa que traz um dado para a gente complexizar essa discussão, que é— eu até trouxe para discutir aqui com o Fê, né, que uma das— o principal problema, um dos principais problemas nas relações heterossexuais é o excesso de telas.

A presença ausente. E aqui o que a gente vê é que o que incomoda os casais homoafetivos não é a distração, é o outro. E esse outro sendo a família. O que pesa negativamente nos casais homoafetivos é a interferência da família. 22% dos casais homoafetivos se incomodam com a interferência da família versus 12% dos casais heteroafetivos. E por que que isso é importante de trazer nesse contexto dessa sobrecarga? Porque muitas vezes essa família deslegitima quem você é, deslegitima o seu vínculo, seu direito de ter um parceiro, um namorado, um marido, uma mulher, uma namorada.

E aí essa sensação que eu comecei a coluna, né, de que ninguém quer nada com nada, de que é difícil ter um namoro, uma relação estável, faz com que eu me esforce ainda mais para manter esta relação. Então dar cada vez mais é um modo de garantir que o outro fique, de garantir a mim mesmo que eu sou uma pessoa LGBTQIA+ que tem direito a estar numa relação estável. E com isso, esse desejo de agradar vai virando uma prisão. Eu acho que aqui, né, então eu comecei falando das diferenças.

Mas trazendo pra você que é hétero, que tá ouvindo a gente, eu acho que essa pauta também diz sobre nós. Acho que essa diferença e essa sensação de eu dou mais do que recebo e eu tô sobrecarregado torna visível uma verdade que o casal hétero passou a vida encobrindo. Que a divisão de tarefas nunca é natural. Então, voltando pra sua questão, Tati, Não é porque você cozinha melhor que naturalmente você tem que puxar essa função pra você.

Vocês têm que conversar e reconversar, porque pode ser que durante os 5 primeiros anos do seu casamento seja beleza.

?Voz C

E depois eu cansei, eu não quero mais, vamos achar outro jeito.

CTCarol Tilguían

Exatamente. A gente vai pedir comida? A gente vai cozinhar juntos e congelar? A gente vai economizar em outra coisa e chamar alguém que cozinhe pra gente? É a gente poder não se apoiar nem na própria habilidade para ser necessário para o outro e depois se sentir sobrecarregado, e nem nos papéis naturais, porque somos homens ou somos mulheres. Então, é que a gente possa entender as desigualdades Como, não como justificativas, e sim como pontos a serem conversados e até desenvolvidos. Talvez você não saiba fazer isso, vamos fazer um curso de finanças juntos.

?Voz C

Tem participação de ouvintes aqui, tem ouvintes muito contentes da sua escolha por abordar esse tema. Vou começar pela Jana, que tá dizendo: você pode fazer tudo melhor e para você não ser um problema, Mas você atinge o outro no ego. Precisa ser emocionalmente maduro para levar isso de boa. E maturidade é algo em escassez, diz aqui a Jana Carvalho. O Esper, que é nosso ouvinte profissional, ele é viúvo e ele tá dizendo: até que meu marido falecesse, esse modelo de habilidades era o que nós adotávamos e era perfeito.

Nunca nos sobrecarregamos nem nunca caímos em rivalidades. As engrenagens rolavam muito bem e por conta disso sobrava muito tempo para a gente se curtir, mesmo não fazendo nada, no sofá vendo uma série e tal. Sabíamos lidar muito bem com a falta de habilidade do outro. Ele é quem cozinhava e cozinhava super bem. Quando eu tava muito cansado e tal, eu cozinhava sem qualquer problema. Ficava horrível a comida, mas a gente ria muito junto.

Acabamos pedindo pizza. Então assim, até o que podia ser um motivo de discordância ali virava algo descontraído, tratado com pouco peso, né? Para não falar tratado com leveza, porque eu também sou da sua opinião que relacionamentos não são leves. Enfim, e o Lucas por fim está aqui nos dizendo que eu voltaria uns passos para perguntar se os solteiros LGBT tão sozinhos por escolherem demais, já que o dado da pesquisa diz que as pessoas querem essas relações monogâmicas e tudo mais? Ele diz, pergunta de uma pessoa solteira há 37 anos.

CTCarol Tilguían

Bom, começando pela Jana, eu queria fazer uma provocação e trazendo até o relato do, do expert, que é quando ela fala atinge o ego do outro e maturidade está em falta. Atingir o ego do outro não é— o outro ter um ego não é necessariamente ruim. Então, por mais que você faça melhor, às vezes a pessoa não cozinha tão bem, mas ela quer poder cozinhar. Que é o exemplo da fralda nos casais heterossexuais. Esse pai não troca a fralda tão bem, mas ele quer poder trocar e errar e aprender.

Então, muitas vezes a pessoa que não tem tanta habilidade é poupada como uma forma de amor, mas ela se sente infantilizada. Então acho que vale perguntar quando a gente tem esse segundo relato, né, de até o meu companheiro morrer a gente dividia e tratava isso super bem. É, conversem sobre isso. É, olha, que bom que você faz isso porque eu realmente não tenho saco. Ou ainda que você faça melhor, eu quero poder fazer. É sobre a gente conversar e reconversar.

E aí, respondendo à última pergunta, acho que isso vale uma próxima pauta. Eu acho que tanto solteiros LGBTQIA+ como solteiros héteros estão escolhendo demais e estão confundindo exigência com intransigência. Tem algo do sempre pode ter alguém melhor. À altura de um novo swipe e não sou obrigado a me contentar com menos. Quero apaixonamentos mágicos. São alguns dos pontos que têm feito a gente esperar sempre o próximo, sempre o próximo, e não ficar um pouquinho mais para ver se vale a pena construir.

?Voz C

Muito bem. Carol Tchukian está conosco toda segunda-feira no nosso Amores Possíveis. Amores possíveis são aqueles que a gente Aqueles que é de que a gente dá conta. Carol, obrigada.

CTCarol Tilguían

Desenvolve habilidade, né?

?Voz C

Isso, exato.

CTCarol Tilguían

Não vai ter habilidade, desenvolve juntos, vai praticando, vai praticando.

?Voz C

Beijo, Carol, boa semana para gente, até a semana que vem.

CTCarol Tilguían

Beijos.

?Voz A

Agora são 13:24, vamos a Brasília, temos informações com João Rosa. João, boa tarde.

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