Tarifas dos EUA ao Brasil devem ser mantidas, com possível ampliação de exceções
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Bruna Santos
- Tarifas EUA contra BrasilPossível ampliação de exceções setoriais · Pressão de empresas americanas · Investigação de 25% e 12,5%
- Estrategia EUAFoco em exceções setoriais e revisão de alíquotas · Impacto no bolso do americano · Mercados digitais como eixo de negociação
- Tarifas dos Estados UnidosTarifas como instrumento de política econômica · Fortalecimento da indústria americana · Jameson Greer · Robert Lighthizer
- Flávio Bolsonaro e VorcaroFalta de efeito prático · Desconexão com o contexto americano · Flávio Bolsonaro
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Oi, boa tarde, queridos, tudo bem?
Tudo bem?
Bom, por aí as coisas estão quentes, né? Audiências das comissões que vão estudar e analisar a aplicação do tal do Tarifaço. Mais um, mais uma subida de tarifas para produtos brasileiros. E bom, quero começar te pedindo bastidores, né? Afinal de contas, você tá aí, é de bastidores que a gente gosta, né?
E pois é, foi quente e muitos brasileiros aqui, veio muita gente, inclusive o candidato à presidência Flávio Bolsonaro, né? Mas acho que, bom, primeiro a leitura geral de todo mundo que participou, inclusive assim de pessoas de dentro do governo, né, nos bastidores, é de que não há espaço para reversão completa das tarifas. Teremos um tarifaço 2.0 e que o cenário mais provável é a negociação em torno de algumas novas exceções setoriais dentro dessa alíquota que tá colocada na investigação do Brasil de 25%.
O que que acontece? Além dessa— desses 25%, tem uma outra investigação que também toca o Brasil que pode resultar numa alíquota de 12,5%. Então tem produtos que vão ficar com 37,5%. Isso é muita coisa. Então a ideia é que tem aí uma uma recalibragem nessa alíquota para algumas exceções. Mas uma coisa que me chamou muito a atenção foi o quanto as empresas americanas se articularam. A narrativa das empresas brasileiras foi sempre a não taxar porque está jogando o Brasil para cima da China e etc.
Mas eu notei as empresas americanas muito articuladas e não empresas pequenas, empresas muito grandes. Como a Tesla, como o eBay, como Nestlé, Coca-Cola, todas elas ali trabalhando para mobilizar o USTR, que é o escritório do representante de comércio americano, para não aplicar tarifas. O que me chama atenção nisso? O quanto, ao falar com essas empresas e com pessoas que estavam aí por trás dessa negociação junto ao governo americano, o quanto elas estão apagando incêndio.
A gente não tá falando de empresas pequenas que não têm, né, uma empresa pequena lá do interior de Santa Catarina. Não, a gente tá falando, né, da Nestlé, da Coca-Cola. E essas empresas mesmo, com todos os recursos que elas têm, com toda a capacidade de articulação política que elas têm, elas também têm uma dificuldade tremenda hoje de compreender o processo decisório em Washington. Elas também estão, como eu chamo, fritando pastel, assim, no balcão ali de atendimento, atuando de forma muito defensiva, muito fragmentada e muito reativa.
Isso para mim foi um dos principais insights ao longo desse processo. Eu achei isso muito surpreendente.
Bruna, como é que foi recebida, como é que foi a participação do candidato Flávio Bolsonaro nessa comissão? A fala dele teve algum efeito prático?
Nenhum efeito prático, nenhum. De forma geral, destoou completamente do restante da audiência. Eu até acho curioso, assim, outro dia eu tava vendo um CEO de uma empresa de IA falando que a principal competência do século 21 é saber ler o contexto, e ler o contexto tanto mais amplo quanto numa sala de reunião. O candidato Flávio Bolsonaro falhou solenemente nessa competência, assim, ele não conseguiu ler o contexto, ele não conseguiu articular de forma coerente para aqueles interlocutores eleitores o que ele queria.
Ele claramente tava falando com o eleitorado brasileiro. Teve momentos ali em que eles estavam realmente claramente preocupados em tirar foto, em filmar, e todos eles, né, produzir narrativa política. Só que ficou super chato porque não era isso. Eles foram repreendidos por estar fazendo isso, sabe? E literalmente assim, a fala parecia estar num outro idioma. Não houve uma compreensão mútua entre eles. E honestamente, assim, eu acho que o episódio ele falhou não só em ter algum resultado prático aqui, como também no Brasil, porque acho que acabou reforçando a ideia de um pedido de interferência americana na política brasileira, o que é assim uma falha tremenda.
Bom, e agora, Bruna, qual é ou quais são o cenário, as possibilidades, os cenários mais prováveis? Vai vir tarifa? Ainda tem espaço para negociação, para exceção, para redução?
Então, como eu falei, né, vem aí 25% dentro do escopo dessa investigação com o Brasil. Já tem uma lista de exceções que já tinha sido anunciada. Eu entendo que vai haver uma ampliação dessa lista, ainda não sei em que medida. Talvez as alíquotas que forem ficar muito altas, como essas que eu mencionei, que vai ser aplicado 4,25% mais 12,5%, pode haver uma recalibragem. Eu acho que as empresas americanas são, e a construção do caso de explicar para os americanos o impacto que isso vai ter no bolso do americano é ainda a melhor estratégia de negociação.
A negociação no nível técnico já aconteceu recentemente, aconteceu uma reunião por vídeo do grupo técnico dos negociadores brasileiros com os americanos. Tem uma outra reunião mais no nível político, na verdade duas reuniões de maior nível político, que é entre o nosso ministro do MDIC, o Márcio Elias Rosa, com a equipe do escritório do representante de comércio e uma reunião do chanceler Mauro Vieira também. Mas acho que o mais realista nesse momento para o Brasil é não esperar reversão completa, não apostar em nenhuma fórmula mágica para essa reversão.
Mas olhar as exceções setoriais, a inclusão de novos produtos nas isenções e a revisão dessas alíquotas aí que estão realmente, vão ficar realmente muito altas para alguns produtos.
Agora, Bruna, por que que o governo americano insiste tanto nessas tarifas? E negociar minerais críticos de alguma forma contornaria uma situação como essa?
Tá, primeira resposta para sua segunda pergunta: não, não contornaria. Já explico o porquê. Por que que o governo americano insiste tanto nas tarifas? É impressionante, mas esse governo, ele não é um governo libertário, acho que todo mundo já sabe disso, né? O governo americano e o Jameson Greer, que é esse representante de comércio, eles acreditam e eles veem as tarifas como um instrumento aplicável a diferentes problemas econômicos.
E ali eu acho que vale entender também o contexto do Greer, quem ele é e de onde ele vem, né? Ele é um dos sujeitos, eu acho que concorde ou não, mais ideologicamente coerentes do governo Trump. Ele não só executa o que o Trump pede para ele fazer. Ele realmente oferece ali uma estrutura intelectual para transformar essas tarifas numa política permanente. Ele acredita que as tarifas são algo que tornou os Estados Unidos um país excessivamente mais fraco.
Ele não acredita na globalização como algo que fortaleceu os Estados Unidos. Ele acredita que os déficits, que as tarifas, que a que os Estados Unidos acaba tendo com os outros países gerou uma perda de produção. Ele tem uma frase que eu acho que explica muito ele, que ele diz assim: os Estados Unidos não podem mais ser um país aonde a gente só consuma, onde o consumo seja, o nosso mercado consumidor seja o nosso único ativo. Nós temos que nos tornar um país industrial.
E ele foi chefe de gabinete de um cara que chama Robert Lighthizer, que foi o arquiteto da guerra comercial do Trump contra a China no primeiro mandato. Então ele herdou muito essa visão de que as tarifas não são um instrumento temporário, de que elas, de que há uma desconfiança dele com a globalização e de que elas são sim uma forma de fortalecer a indústria americana. O que eu acho curioso, que pouca gente fala a respeito, é que é bem interessante ver os choques entre ele o representante de comércio com outros senadores republicanos libertários e pró-mercado.
Você pega o John Kennedy, da família Kennedy, que é um libertário assim ferrenho, que chama as tarifas de impostos o tempo inteiro e que vai contra o Trump nessa linha. O próprio Rand Paul, que é um outro republicano que inclusive assinou uma carta que foi articulada por senadores democratas para ir contra as tarifas com o Brasil, é uma pessoa que também vai muito, bate muito de frente com o Jameson Greer. Mas é isso, assim, acho que não tem esse, isso é a visão deles, tá colocado, a visão deles é que os países devem, vão continuar recebendo tarifa e para esses países o acesso ao mercado americano é o ativo com maior valor.
Sobre minerais críticos, não adianta imaginar que uma negociação sobre minerais críticos vai resolver o problema. Não vai, gente, é uma expectativa ingênua ou uma expectativa que é parte de setores que tenham muito a ganhar com isso, assim, não vai fazer parte. Eu digo isso por dois motivos: primeiro, porque eu não vejo hoje dentro do governo americano uma visão estratégica sobre como trabalhar com o Brasil nisso. Existe esse desejo, existe esse modelo que eles criaram de parceria, que eles assinaram inclusive com o estado de Goiás, um memorando de entendimento, mas o Brasil não está confortável com os termos que estão propostos e não acho que um acordo nesse sentido vai livrar o Brasil de tarifa.
Acho que seria um erro, um equívoco ir nessa direção. A única temática, de maneira bem objetiva assim, que colocaria, que poderia ser trazida à mesa para negociação e que não é as que já estão listadas como objeto de investigação, é o tema de mercados digitais. E eu já disse isso aqui em alguns momentos, em algumas falas minhas no CBN Pelo Mundo, e reitero: o tema de mercados digitais é um tema que posicionamentos do Brasil recentemente irritaram muito o representante de comércio.
E olhando em retrospecto, os Estados Unidos já fez a mesma coisa que ele está fazendo com o Brasil com outros países. Acho que o melhor exemplo é o precedente da Coreia do Sul. A Coreia do Sul também teve uma ameaça muito forte de tarifa, aonde o que os Estados Unidos fez foi aumentar o custo político do caminho que a regulação coreana tava indo em relação a plataformas digitais. E aí a Coreia acabou não cedendo completamente, mas recuando no desenho do modelo que tava sendo apresentado.
Então esse para mim é o único eixo. Mas no curto prazo a gente sabe que o governo americano americano, ele tá olhando para o Brasil um pouco esperando as eleições, né? Então assim, a gente sabe que qualquer pessoa dentro do governo hoje ligada ao Trump que você converse não quer que o presidente Lula continue e espera sim que o Brasil seja mais um país indo à direita, como o que tá acontecendo no restante da América Latina. Então não acho definitivamente que minerais críticos seja uma forma de derrubar essas tarifas.
Perfeito.
Bruna Santos conosco toda sexta-feira no nosso CBN Pelo Mundo, diretamente de Washington. Obrigada a você, um beijão, até a semana que vem.
Tchau, Bruna, obrigado.
Semana, tchau tchau.