Episódios de Comentaristas

Os contorcionismos jurídicos de Gonet e Moraes

09 de julho de 20268min
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Wálter Maierovitch fala sobre a situação de Bolsonaro, que em prisão domiciliar humanitária, mantinha a posse e a guarda de uma pistola automática. Comentarista destaca que, pelo Direito, Bolsonaro violou a lei de forma grave. ‘Em contorcionismos jurídicos, Gonet e Moraes, na cara dura, entenderam não ter Bolsonaro cometido falta alguma. (...) Bolsonaro não foi nem advertido’. Ouça.

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Participantes neste episódio1
W

Wálter Maierovitch

HostJurista e professor
Assuntos3
  • Defesa de Alexandre de MoraesPaulo Gonet · Alexandre de Moraes · Daniel Vorcaro · Supremo Tribunal Federal
  • Porte e Posse de ArmasJair Bolsonaro · Lei de Execução Penal · Prisão domiciliar humanitária
  • Pressão por prisão domiciliarAlexandre de Moraes · Jair Bolsonaro · Medidas cautelares
Transcrição6 segmentosassemblyai/universal-3-5-pro
WMWálter Maierovitch

Conversa de Primeira, Justiça e Cidadania com Walter Fanganiello Mairovic. Muito bom dia, Walter Fanganiello Mairovic. Bom dia, Milton, ouvinte. Boa jornada, Cássia.

?Voz B

Obrigada, Mairovic.

WMWálter Maierovitch

Bom dia, Milton. Um grande jurista italiano deixou como legado pensamento que, pelo seu acerto e até pela contundência, esse pensamento difundiu-se mundo afora. O aforisma desse jurista é o seguinte: Quando pela porta da magistratura, quando pela porta dos tribunais entra a política, a justiça sai pela janela. O ex-presidente Bolsonaro, Milton, em prisão domiciliar humanitária, mantinha a posse e a guarda de uma pistola automática, pronta e em condições de uso, com dois carregadores lotados de balas de projéteis.

Isso é fato, Milton, fato comprovado e admitido até pelo Bolsonaro. Ou seja, um preso armado. Ao elencar os deveres dos presos, e Bolsonaro é um preso, atenção, a Lei de Execução Penal proíbe, veda o porte, a guarda, a manutenção em depósito capaz de ofender a integridade corporal de outrem. Em outras palavras, Milton não admite o crime de porte de arma de fogo. Então, Milton, está claríssimo na lei, ou melhor, a lei é de clareza solar, no sentido de que Bolsonaro não podia ter consigo arma de fogo, e isso em local que tem natureza mista, ou seja, um misto de domicílio e presídio.

Mas tem mais, Milton. A lei de execução diz ainda: cometer o preso, aspas, falta grave. Atenção, o preso comete falta disciplinar grave quando tem à sua disposição arma de fogo ou arma branca. Tá na lei. O direito, a lei vigente, reza também que a ignorância à lei não serve como desculpa. O eu não sabia, eu desconhecia, não se prestam para isentar de responsabilidade. E Milton, até um reprovado em exame da Ordem dos Advogados do Brasil, conhece, porque ouviu muito na faculdade, o brocardo latino a dizer: Ignorantia legis neminem excusanti.

A ignorância da lei não serve de escusa, de desculpa. E o Bolsonaro tentou escusar-se ao dizer que tinha o registro e autorização para ter a arma consigo. Mas ele ignorou a lei, ignorou a proibição. Com a condenação definitiva, o Bolsonaro perdeu a idoneidade para portar armas. E este é um dos requisitos para a autorização. Ou seja, ter idoneidade pelo direito. Bolsonaro violou a lei de forma grave, grave, cometeu falta grave.

Agora, Milton, como as eleições estão próximas e Bolsonaro ainda consegue empolgar no quesito vitimização, e o país está polarizado, ministros do Supremo encontraram uma desculpa sob suspeita, e eles estão, de envolvimento com o Vórcaro e o Master. O procurador-geral Paulo Gonê, que deu goles de uísque oferecido pelo Vórcaro em Boca Livre no exterior, sustentou, como o ministro Alexandre, a ausência de falta grave por parte de Bolsonaro.

E o ministro Alexandre, volta a dizer, também enrolado no caso Vortcaro e visto como julgador parcial por cortes de justiça fora do Brasil, ele não quis se expor ainda mais e nem fermentar a campanha eleitoral que tem bandeira de impeachment de Supremos Ministros. Então também ele não viu falta grave.

?Voz B

Mairovic, trocando em miúdos, Jair Bolsonaro tá numa condição completamente diferente àquela de todos os outros condenados presos no Brasil.

WMWálter Maierovitch

É exatamente isso, Cássia, um bom resumo. E a gente tem que lembrar que em contornismos jurídicos tipo Cirque du Soleil, o Gonê e o Moraes, na cara dura, entenderam não ter Bolsonaro cometido falta grave alguma. A mesma sorte, Cássia, não teria um preso comum em prisão domiciliar aí do Iapoque ao Chuí. A incluir os bairros de Madureira, Cascadura, Irajá e outros. Por não ter feito nada, na visão política e não jurídica de Gonê e do Moraes, o Bolsonaro— atenção, isso é importante— ele não foi nem advertido, nem advertido, Cássia.

E o ministro Moraes, para evitar de ter de fazer novos contorcionismos, determinou ontem uma busca e apreensão na prisão domiciliar onde o golpista do Bolsonaro desconta a pena. De quebra, e ainda no processo de execução, o Moraes prorrogou a medida cautelar humanitária de Bolsonaro e ela passou a ter tempo indeterminado. Cássia, como diz o bom direito, as medidas cautelares têm como regra natureza provisória. Não são por tempo indeterminado.

Bolsonaro está condenado à pena de prisão fechada. Quando se recuperar, deve, pela lei, voltar ao regime fechado. Mas, em tempo de eleições, com ministros do Supremo reprovados pela opinião pública e o tribunal passando por um período de descrédito, atenção. Acochambrou-se para Bolsonaro. Num plano rápido, assistiu-se a um supremo acochambramento político. E aí, Milton e Cássia, aspas: quando pela porta do tribunal entra política, a justiça sai pela janela. Obrigado, Walter Fanganiello Mairovic. Um bom dia. Dia. Tchau, Cássia.

?Voz B

Até mais.

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