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Flip 2026 resgata a obra da poeta Orides Fontela para uma nova geração

09 de julho de 202610min
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José Godói destacou a escolha de Orides Fontela como autora homenageada da Flip 2026, ressaltando o resgate de uma das maiores vozes da poesia brasileira do século XX.

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Participantes neste episódio1
J

José Godói

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Assuntos4
  • Orides Fontela na Flip 2026Orides Fontela · Flip 2026 · Resgate de poetas
  • Trajetória literária de Orides FontelaOrides Fontela · Reconhecimento crítico · Circulação de autores · Movimento de leitores
  • Relançamento da obra de Orides FontelaOrides Fontela · Editora Hedra · Biografia de Orides Fontela · Poesia brasileira
  • Poesia e LiteraturaOrides Fontela · Poesia breve e enxuta · Influência de Drummond · Influência de João Cabral · Zen Budismo
Transcrição22 segmentosassemblyai/universal-3-5-pro
JGJosé Godói

Clube do Livro CBN com José Godói.

?Voz B

Pois é, boa tarde.

JGJosé Godói

Oi, Tati, boa tarde. Fernando, tá por aí?

?Voz C

Por aqui, boa tarde, Zé.

JGJosé Godói

Fala, Fernando, boa tarde, boa tarde aos ouvintes.

?Voz B

O Zé hoje vai contar um pouco pra gente sobre a escritora, poetisa homenageada da edição 2026 da Flip, a Festa Literária Internacional de Paraty, que é Orídis Fontella. Conta, Zé.

JGJosé Godói

Pois é, né, a Eurídice, acho que para quem não acompanha, né, poesia no Brasil, ou não entende, né, como são as circulações de autores, porque alguns são resgatados e tal, acho que a Fontella, eu acho que é um desses bons exemplos, né. Eu acho que foi muito boa a escolha de tê-la como homenageada. Eu já tenho, é curioso, né, porque a Eurídice Fontella foi uma poeta que teve reconhecimento crítico, foi premiada enquanto esteve viva, né, ela vai morrer no final dos anos 90, teve toda essa repercussão, né, que um poeta espera, embora não tenha tido sucesso popular, né.

E depois disso, acho que ela fica, ela não circula por muito tempo, e agora uns 10 ou 15 anos, para quem vive, né, no ambiente universitário ou frequenta outros poetas contemporâneos, Você vê claramente o nome dela voltando, as pessoas falando de Eurides Fontela, escrevendo a respeito de Eurides Fontela, até que essa massa de leitores, críticos, interessados fazem esse movimento crescer tanto que a gente chega a ter a Eurides como autora homenageada do principal festival literário do país.

Acho esse percurso todo muito interessante. Um dos efeitos de todo esse processo e também dessa escolha é o retorno dos livros dela às livrarias. A editora Edra, que faz um trabalho excelente há muito tempo em literatura aqui no Brasil, tá relançando todos os livros que ela publicou em vida, né? Foram 5 coletâneas de poemas, começam no final dos anos 60, mais especificamente 69, com Transposição, e vai até Alteia, de 96. E além disso, tá relançando a biografia sobre a Eurídice, Que é uma biografia muito legal, porque a Aurídis, além de ser uma excelente poeta, uma das poetas mais importantes que a gente teve na segunda metade do século passado, ela é uma personagem muito, muito interessante, assim, muito diferente do que a gente tá acostumado a ver em escritores nacionais.

Essa biografia foi escrita pelo Gustavo de Castro, professor da UnB, e ela também volta às livrarias. Quem foi a Aurídice, Tati? Fernando, ela, ela foi, ela era uma, ela vem do interior de São Paulo, de São João da Boa Vista. Tem um acaso incrível, uma daquelas grandes histórias literárias do nosso mercado. Ela era uma professora de ensino primário nessa cidade, uma pequena cidade aqui não muito longe de São Paulo, né, São João da Boa Vista.

Nessa cidade Tinha dois jornalizinhos locais ali que publicavam poemas dela. Por coincidência, um dos maiores críticos literários do Brasil, também de São João da Boa Vista, que é o Davi Arriguti Júnior, que estava em São João da Boa Vista num certo dia lá e viu no jornal um dos poemas dela. Ele já a conhecia na cidade desde muito cedo, tinha perdido meio contato com ela e de repente reencontra ela com um poema maravilhoso que ele lê nesse jornal, que é um encontro absurdo, né, inesperado.

E pega, volta a entrar em contato com ela, fala que se interessou muito pelo que ela tinha, que quis ver mais material dela, traz uma pasta de poemas para ele. E ela vai, e ele vai fazer esses poemas chegar à mão primeiro dos editores do suplemento literário do Estadão, que era o grande caderno literário dos anos 60 no Brasil, que publicam esses poemas. E depois vai ajudar na publicação dela em livro. Então, a partida dessa carreira dela como poeta vai nascer muito desse certo acaso ali de um poema chegar nas mãos certas.

Depois disso, ela vai para São Paulo para estudar filosofia na USP, se forma, e a poesia dela vai ficar muito nessa fronteira entre o poético e o filosófico. É uma poesia que também tem muito sobre uma experiência existencial intensa. Para a Eurídice não havia diferenciação entre vida e poesia. A vida era uma experiência radical que era traduzida nos poemas dela, e eu acho que isso aparece muito em cada um dos poemas. Em termos de forma, são poemas, são formas breves, né, versos curtos com poucas sílabas poéticas, com aquela ideia devastada até o limite, assim como se ela tivesse secando a ideia até chegar àquela palavra mínima.

Dá para ver bastante de uma influência do Drummond, do João Cabral, tem também uma influência oriental. Ela foi zen budista, se sentou por muito tempo no Templo da Liberdade do Bushinji. Eu me aproximei da poesia dela por esse caminho, pelo interesse no zen e de encontrar uma poeta brasileira que falasse disso. Alguns dos poemas lembra até o haikai, se você for, se você se interessa por esse tipo de forma. É uma poeta interessantíssima, é uma personagem interessantíssima.

Tanto esses 5 livros de poesia quanto a biografia do Gustavo de Castro são excelentes portas de entrada para conhecer uma das autoras mais interessantes que a gente teve aqui nos últimos 50 ou 60 anos no Brasil.

?Voz C

Zé, achei legal porque esse estilo de poesia curta, breve, enxuta que você disse é a cara do dia de hoje, né? É a cara da atualidade, né?

JGJosé Godói

Cabe num Twitter, né?

?Voz C

Eu pensei nisso. Não à toa foi revivida por muitos jovens, né?

JGJosé Godói

Sim, eu acho que ela tem uma capacidade de comunicação muito grande com esse novo leitor, e eu acho que a Flip pode ser muito forte nisso. Assim, eu tô bastante curioso para saber como vai ser a recepção. Só lembrando que na abertura da Flip, né, o Augusto Massi, que é um dos grandes divulgadores da poesia dela, né, foi uma pessoa próxima, ajudou muito na publicação de livros, vai fazer a abertura da Flip, né? E a Marília Garcia, uma das principais poetas contemporâneas do Brasil, vai fazer uma apresentação também.

Então eu tô muito curioso para saber realmente, principalmente entre o público mais novo, como vai reverberar, né? Como vão reverberar esses poemas, né?

?Voz B

E mais uma escritora que é reconhecida depois de morta, né, Zé? Quando a gente fala de poesia, a gente ainda lê pouca poesia, lê mais prosa, né? No Brasil?

JGJosé Godói

Cara, eu diria que não. Não, assim, a gente não fala muito de poesia, por exemplo, aqui no Clube do Livro eu tenho dificuldade de falar de poesia porque eu acho que é mais difícil de eu me comunicar com o nosso ouvinte, entendeu? Sim, mas eu vejo uma quantidade gigantesca de eventos, uma quantidade enorme de gente escrevendo poesia e boa poesia. Tem lá um nicho, a gente tem um festival ótimo de poesia em São Paulo, né? Produzido pela Megafauna, né, Livraria daí, que tem feito Poesia no Centro, já tá na segunda edição, né, fez a segunda edição esse ano.

Tem muita coisa acontecendo em poesia, muita gente publicando poesia. Temos ótimas iniciativas no mercado editorial, como a Círculo de Poemas, né, que é uma editora especializada em poesia. A gente tem livraria especializada em poesia. Eu diria que não, Tati. Eu só acho que talvez a gente não fale disso na grande imprensa, talvez por isso a gente tem essa impressão.

?Voz B

Tá bom. Bom, muito bem. E um dos papéis da Flip é apresentar para os leitores autores que eles não conhecem também, né? Eu me lembro que no anúncio da Eurides Fontella como autora homenageada teve quem torcesse o nariz dizendo, ah, mas ninguém conhece. Mas é por isso mesmo, né? Para que as pessoas passem a conhecer, né?

JGJosé Godói

Não, com certeza. Acho que nisso ela tem esse papel formativo também, né? Nem sempre ela precisa reverberar o óbvio, né, aquilo que já é popular, né. Claro que é uma escolha muito diferente do que foi, por exemplo, um Leminski, né, total, que já é, acho que é o oposto. Eles estão em polos opostos, né. O Leminski já vinha ali de uma coletânea que foi um best-seller no Brasil, na Poltron, uma coletânea recente, né, dessa última década.

Então a escolha dele assim só reverberava uma coisa que já tava acontecendo. A Oryx, eu acho que é algo que um movimento muito assim orgânico mesmo, que nasce dos poetas, nasce dos críticos, e agora tá chegando no festival. E espero que chegue nos leitores, principalmente nos leitores mais jovens que não tiveram contato com a obra dela quando ela saiu, né?

?Voz B

Legal, muito bom. Repete então, Zé, quais foram as suas recomendações de Eurides Fontela hoje?

JGJosé Godói

Ó, tá saindo, tá sendo relançado agora pela Editora Hedra, 5 livros dela, né? Transposição, Elianto, Alba, Osácia e Teia. Esses 5 estão de volta à livraria, todos organizados pela Ieda Lebenstein, crítica, todos com textos críticos, gente, os grandes críticos literários brasileiros: Antônio Cândido, Augusto Masi, Davi Arriguti, alguns poetas contemporâneos também escrevendo a respeito dela. E tem também a biografia O Enigma Orides, uma biografia Do Gustavo de Castro, todos esses estão disponíveis para o ouvinte leitor interessado.

?Voz B

Zé Godoy, toda quinta-feira com a gente no Clube do Livro CBN. Valeu, Zé, beijão, até a semana que vem.

?Voz C

Tchau, Zé.

JGJosé Godói

Até a semana que vem, valeu, tchau, tchau.

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