China testa nesta semana novo tipo de míssil balístico, deixando EUA e aliados em alerta
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Fernando
Marcelo Ninio
- Militarismo da ChinaMíssil balístico de submarino nuclear · China · Estados Unidos · Japão · Austrália
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Com a gente, diretamente de Pequim, na China, está Marcelo Ninho. Marcelo, bem-vindo mais uma vez, tudo bem?
Tudo bem, Fernando, saudações de Pequim.
Tempo e temperatura em Pequim nesta quinta-feira?
Próximo de 30 graus, verão aqui, calor, calor.
Bom, nós tivemos nessa semana, Nínio, um teste de um novo tipo de míssil balístico pela China, e aí coloca novamente um alerta nos Estados Unidos, nos seus aliados. E nos últimos anos isso tem virado uma rotina, né? Por que que esse tipo de teste causa preocupação, em especial aí aqui na vizinhança, hein?
É, Fernando, é a capacidade militar da China, né, que cresce acima do ritmo de crescimento da economia. Claro que é algo que preocupa não só os Estados Unidos, mas principalmente os vizinhos mais próximos aqui, quase todos com algum tipo de disputa territorial com Pequim. A começar pelo Japão, né, que é o rival histórico e que depende dos Estados Unidos para sua defesa, assim como a maioria dos países aqui pelas redondezas que tem algum tipo de aliança com os Estados Unidos.
Por exemplo, a Austrália. Não é à toa que a cada ano, quando acontece a sessão anual do Parlamento Chinês, que a gente conversou na época em março, um dos temas que mais chamam atenção é justamente o orçamento militar, para ver em que medida as forças armadas da China estão crescendo. E vem aumentando a uma média de 7% ao ano. Se a gente pensar que a economia chinesa está crescendo uma média de 5% ao ano, estão crescendo mais do que a economia.
Ainda assim, é bom lembrar Tá muito abaixo dos Estados Unidos, Fernando. Tem um orçamento, Estados Unidos tem orçamento militar que é maior do que os próximos 6 países juntos: China, Rússia, Alemanha, Índia, Reino Unido e Ucrânia. Então o total dos Estados Unidos de orçamento no ano passado foi quase 1 trilhão de dólares, e a China, pelo que foi divulgado, mais ou menos 270 bilhões pela China. Mas falando desse teste especificamente que foi realizado pela China essa semana, na segunda, chamou atenção por que, por que causou alarme?
Primeiro, a novidade: foi o primeiro teste de míssil conhecido feito pela China de um submarino de propulsão nuclear. Então, pelas informações oficiais, ele foi disparado no mar, do Mar do Sul da China, e de um submarino nuclear, né, de propulsão nuclear, e atingiu um ponto do Oceano Pacífico de águas internacionais, conforme planejado. Tudo, tudo como eles planejavam. Carregava uma inerte, ou seja, não carregada de explosivo nem conteúdo nuclear.
Claro, isso obviamente a China deixou claro. Esse tipo de teste é rotineiro, como você falou, entre potências militares e nucleares. Obviamente os Estados Unidos fazem isso com frequência, e teve um recente, há coisa de um mês, disparado da Califórnia, também aterrizou em ponto do Pacífico. Agora, o que tornou isso alarmante para os outros países é o contexto, né? Primeiro, essa semana, enquanto houve esse teste do novo míssil, a China começava um exercício militar com a Rússia, um exercício conjunto com a Rússia aqui na costa de Qingdao, que não fica muito longe aqui de Pequim.
Segundo, foi na mesma semana da cúpula da OTAN, né, que é a aliança militar do Ocidente, em Âncara, na Turquia. E o secretário-geral da aliança, o Mark Rutte, o holandês Mark Rutte, alertou para o risco do crescimento do orçamento e do crescimento das Forças Armadas da China, e associou a cooperação entre China, Rússia, Coreia do Norte e Irã especificamente ao prolongamento da guerra da Ucrânia, quer dizer, tocando com as preocupações da vida transatlântica, já que esses países apoiam Moscou.
Então É isso, Fernanda. Um choque entre alianças políticas, né, e militares. A China rejeitou imediatamente as críticas dos Estados Unidos, da OTAN, da Austrália, do Japão. Disse que foi uma operação de rotina e que eles deveriam deixar de lado a mentalidade da Guerra Fria. Isso é uma frase constante aqui de Pequim, do governo chinês, né, que o Ocidente tem mentalidade de Guerra Fria e procura o confronto. É claro que contexto é muito diferente, incomparável com aquele da Guerra Fria original entre os Estados Unidos e a União Soviética, mas tem um paralelo aí de confronto entre blocos, né? E por isso que alguns também chamam de a Nova Guerra Fria, Fernando.
Perfeito. Agora, Marcelo, como é que tá a corrida armamentista nuclear na Ásia? Como é que um teste com equipamento desse interfere nessa corrida? Qual que é o cenário agora?
A preocupação com a corrida armamentista nuclear é uma das preocupações assim, e não necessariamente por responsabilidade da China unicamente, né? Uma corrida armamentista é um círculo que se alimenta de temores de defesa para prevenir ataques, né? Esse é o perigo. O governo da China não se estendeu em comentários muito extensos sobre o teste, se limitou a dizer que os vizinhos foram avisados e que esse teste cumpriu os requisitos do direito internacional.
Mas como acontece muito por aqui, com frequência, Fernando, o governo deixou para que a imprensa oficial fizesse serviço, ou seja, dessa dimensão da importância e do que, do que foi esse teste, do que aconteceu. Então, um analista militar chinês, por exemplo, na mídia oficial confirmou que foi um teste muito significativo, importante, porque colocou a China no caminho de atingir a chamada tríade nuclear. O que que é tríade nuclear?
É a capacidade de lançar mísseis por terra, ar e mar. Então, confirmando essa capacidade, que é o interesse de uma potência como a China de mostrar o poder de fogo que tem, né? E segundo ele, qual é o significado disso? Submarinos nucleares são reconhecidamente importantes como plataforma mais segura para uma capacidade de um contra-ataque nuclear. Isso aí é muito claro que é um recado indireto ou até direto para os Estados Unidos e os aliados na região, né?
Se atacarem. E aí tem a Austrália, tem outros aliados, né? A Austrália, aliás, tem um acordo bilionário para adquirir submarinos de propulsão nuclear americanos, que a China considera uma iniciativa muito hostil. Então, tudo isso para ficar claro, essa iniciativa chinesa que se houver uma ameaça, a China tem como se preparar. E o ciclo nuclear é aquele, né? Melhor não fazer. A ameaça, ela já faz o serviço, né? Porque não tem sobreviventes, né, num contra-ataque nuclear.
E claro, não dá para deixar de fora a questão de Taiwan, né, Fernando? Porque isso aí tá sempre pairando no ar. Taiwan, que é aquela ilha que é governada de forma autônoma, que é uma democracia apoiada pelos Estados Unidos, mas que a China considera uma província rebelde. Então isso aí é um ponto neurálgico central da atenção por aqui. Agora, o que que torna também essa região aqui na Ásia, e mais especificamente do Indo-Pacífico, um foco de preocupação especial de corrida armamentista nuclear?
E até alguns meses atrás o secretário-geral da ONU, António Guterres, falou sobre isso, disse que o mundo tá dormindo no ponto enquanto caminha numa, na direção de uma nova corrida armamentista nuclear, e segundo ele mais imprevisível, mais perigosa até, é que dos países que têm capacidade nuclear, pelo menos 6 têm território ou alguma presença aqui na região, na Ásia, no Indo-Pacífico. Então isso torna essa região aqui o foco dessa corrida armamentista.
Tem Também a questão da Coreia do Norte, que é uma potência nuclear que tem conflito com o Ocidente. Então, o problema é que o último acordo de não proliferação nuclear que havia, né, entre os Estados Unidos e a Rússia, que durou 50 anos, expirou no início do ano. E desde então não tem uma perspectiva de um novo acordo. Pela nova configuração do poder mundial, deveria incluir pelo menos a China, né, senão todas as outras potências nucleares.
Mas se a gente está vendo as negociações negociações entre os Estados Unidos e Irã já estão tão complicadas, imagina uma negociação que envolvesse todas as potências nucleares. Então, por enquanto, a gente só torce para que essa corrida não chegue a nada muito drástico e não a uma catástrofe.
Fernando, perfeito. Marcelo Nini, Marcelo, mais uma vez obrigado pela conversa, pela participação aqui. Até quinta-feira que vem.
Obrigado, Fernando. Até a próxima.