Episódios de Comentaristas

Alta do petróleo favorece o Brasil no curto prazo, mas aumenta riscos fiscais

08 de julho de 20269min
0:00 / 9:07
Bruno Carazza afirmou que a retomada dos ataques dos Estados Unidos ao Irã elevou o preço do petróleo e reacendeu temores de inflação e desaceleração da economia global. Sobre o tarifaço de Donald Trump, avaliou que é improvável que as sobretaxas contra produtos brasileiros sejam revertidas, restando ao Brasil buscar exceções

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Participantes neste episódio4
C

Carol

HostApresentadora
D

Débora

Host
V

Vera

Host
B

Bruno Carazza

ComentaristaColunista
Assuntos4
  • Preço do petróleoConflito Irã-EUA · Donald Trump · Estreito de Ormuz
  • Tarifas dos Estados UnidosDonald Trump · Brasil · Práticas desleais de comércio
  • Tipos de Impostos no BrasilGoverno brasileiro · Pressão inflacionária · Juros
  • Projeção da economia brasileiraFundo Monetário Internacional · Brasil · PIB
Transcrição13 segmentosassemblyai/universal-3-5-pro
VVera

6:34, o Viva a Voz está de volta e já tá com a gente na linha o Bruno Carazza, nosso colunista comentarista das quartas-feiras. Boa noite, Bruno.

BCBruno Carazza

Ei, Vera, Carol, Débora, tava com saudade de vocês. Boa noite para vocês e para os ouvintes também.

VVera

Boa noite.

DDébora

Ei, Bruno, boa noite. A gente também tava com saudade.

VVera

Ô Bruno, a gente já viu o Trump se meter na Copa do Mundo, os Estados Unidos já foram eliminados, ele parece ter ficado sem muito assunto e voltou a olhar para o lado do Irã, acabou com o cessar-fogo, não tem mais trégua, e isso já deu aquele sacolejão nos mercados, na economia mundial. De que maneira isso nos afeta? De que maneira isso nos leva para mais um período de instabilidade global?

BCBruno Carazza

Pois é, Vera, Trump trouxe de volta a economia para o noticiário depois dessas semanas de Copa e com o futebol dominando tudo. Os ataques são muito sérios, um rompimento do acordo de paz. Esse acordo de paz trazia uma estabilidade não só para os mercados, mas também para a economia mundial na questão da regularização dos fluxos aí de comercialização de petróleo. O mundo é muito dependente ainda de combustíveis fósseis, tanto é que o preço do petróleo ele foi caindo, né?

Só fazendo uma retrospectiva, tava $60 o barril antes da guerra. Durante a guerra, no momento de maior tensão, chegou a quase $120. E aí depois do acordo de paz ele foi caindo, estava indo em direção aos $70. Então sinal de normalização da economia mundial. Mas hoje, com esse anúncio do Trump, com a retomada dos ataques, houve uma forte alta do preço do petróleo, mais de 7%, batendo aí quase em $80 de novo. E aí tem todas as repercussões, né?

A gente acabou, Carol acabou de mencionar, a bolsa caindo não só no Brasil, mas no mundo todo, por causa desse medo de um recrudescimento do conflito, fechamento de novo do Estreito de Ormuz, e num contexto em que o mundo já tem estoques menores de petróleo, né? Os grandes consumidores que são daquela região, né, China, Japão, Coreia, são muito dependentes do petróleo daquela região. Os estoques estratégicos deles já estão no nível mais baixo.

Então a retomada do conflito pode aí sim gerar efeitos mais graves na economia mundial. E esse é o grande temor. É por isso que hoje foi um dia tenso nos mercados e nos ciclos econômicos de uma forma geral.

DDébora

E Bruno, ainda falando de Trump, porque se não for para causar ele nem sai da cama, né? E causa em searas diferentes. Sobre o tarifação, estão rolando as audiências públicas essa semana nos Estados Unidos. O que que a gente pode esperar desse processo?

BCBruno Carazza

Pois é, Débora, tem a guerra do petróleo e tem a guerra comercial, né, que o Trump começou com tarifação. A gente aqui no Brasil, diversos setores são alvo. Principalmente dessa investigação meio maluca, né, que o Trump estabeleceu sobre diversos aspectos da economia brasileira com essa alegação de práticas desleais de comércio. É aquela investigação que atirou para todos os lados, né, em relação ao Pix, a desmatamento, a corrupção, etanol, e impôs uma tarifa de uma sobretaxa de 25% sobre os produtos brasileiros.

Então estão rolando durante essa semana as audiências em que o Brasil e os setores econômicos brasileiros estão ali mostrando as suas alegações, né, as evidências para demonstrar que essa sobretaxa não faz sentido. Mas é muito pouco provável que isso seja revertido, né, como a gente acabou de ver na Copa, né, que o Trump não se contentou ali com a expulsão do jogador dos Estados Unidos e pressionou a FIFA. Tarifa, é muito pouco provável que o Trump vá permitir que o órgão que tá conduzindo isso, que deveria ser um órgão técnico, mas que tá totalmente politizado pelos trumpistas, ele vá reverter.

Então a estratégia inclusive de vários setores da economia brasileira, inclusive do agro, é de contenção de danos, é de tentar obter algum tipo de exceção nessa sobretaxa dado que uma derrota do Brasil é praticamente certa, porque a decisão é uma decisão unilateral do governo americano e nada indica que o Trump vá ceder nesse caso.

DDébora

O Bruno, hoje o Fundo Monetário Internacional publicou novas estimativas de crescimento, né, para 2026 e 2027. O Brasil até que saiu bem na foto, né, com elevação da projeção de alta do PIB. Como é que fica isso agora com esse recrudescimento, retomada da guerra?

BCBruno Carazza

Pois é, Carol, o FMI, ele de tempos em tempos ele atualiza as projeções de crescimento para esse ano e para o próximo. Em relação ao mundo, tá praticamente mantido. Anterior era 3,1% de crescimento do mundo, agora é 3%, então muito, muito próximo. Mas o Brasil foi um dos países que teve uma melhora mais expressiva. O FMI no início, em abril, ele tava prevendo que a gente cresceria 1,9% esse ano, que é uma de reavaliação em relação ao ano passado.

Agora ele subiu para 2,4, que é uma reavaliação muito positiva. E para o ano que vem ele subiu de 2 para 2,2. Então é uma medida positiva. O FMI alega que ele reviu a projeção do Brasil porque a economia brasileira se mostrou mais resiliente em relação à guerra, né? A gente é um exportador líquido de petróleo, então num certo sentido o conflito até faz bem para economia brasileira, né? Porque a alta do preço do petróleo aumenta os lucros da Petrobras.

E como o governo é o maior acionista da Petrobras, ele tem mais recursos fiscais, né, para utilizar nesse ano. E aí essa discussão se conecta com a eleição, porque o governo tá usando todas as armas possíveis para incentivar a economia nesse ano, para o Lula chegar bem e com chances grandes de reeleição no final do ano. Então, de um certo sentido, o recrudescimento aí da guerra, a volta da guerra pressiona o preço do petróleo e vai dar mais, literalmente, né, combustível para o governo brasileiro para continuar incentivando a economia nesse ano.

O grande problema é o que que isso vai gerar para o ano que vem. A grande preocupação dos economistas é que todos esses estímulos fiscais do governo, tanto do governo do Poder Executivo quanto do Legislativo nesse ano, vão ter um impacto fiscal que essa conta vai vir no ano que vem. E inclusive isso gera uma pressão inflacionária que pode exigir do Banco Central manter os juros mais altos por mais tempo. Então é uma medida que, num certo sentido, para o governo traz ganhos no curto prazo, mas seja para uma reeleição do Lula, seja de uma vitória de algum outro candidato, é uma bomba que vai se armando aí para o ano que vem.

VVera

Exatamente. Bruno Carazza com a gente às quartas-feiras. A gente volta a se falar na semana que vem. Obrigada por hoje, Bruno.

BCBruno Carazza

Tá ótimo estar de volta, gente. Um abraço.

VVera

A gente faz agora mais uma rápida pausa. Você fica com o noticiário da sua região e a gente volta falando dos dados do Datafolha aqui para eleição presidencial aqui no estado de São Paulo.