‘Decepção é um sentimento que dificilmente tem retorno’
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Mário Sérgio Cortella
Milton
Nadege
- Violência EscolarCaso de professora com vidro na água · Tentativa de homicídio · Decepção e impacto psicológico · Responsabilização e reflexão
- Devolução de ValoresPapel da escola e família · Crueldade e perigo de atos violentos · Importância da parceria escola-família
Conversa de Primeira, No Meio do Caminho, com Mário Sérgio Cortella. Muito bom dia, professor Mário Sérgio Cortella.
Bom dia, Milton. Bom dia, Nadège.
Bom dia.
Semana passada nós contamos um caso aqui no Jornal da CBN. Este caso repercute até hoje, inclusive com entrevista no jornal O Globo, daquela professora, professora Michele Ramos, de uma escola da Rede Municipal de Ensino de São José dos Campos, interior de São Paulo. Ela chegou na sala de aula e alguns alunos tinham colocado vidro dentro do copo de água dela. Felizmente ela não tomou, mas evidentemente até hoje está chocada, tem falado, conversado com jornalistas, publicado inclusive alguns textos sobre esse assunto, sobre o impacto que isso tá gerando na vida dela. E é um tema que a gente precisa refletir não só na sala de aula, professor.
É verdade, inclusive porque é uma tentativa de homicídio colocada ali, talvez alguns diriam de forma inocente, que é uma brincadeira, mas não é, né? Todas as vezes que se faz uma ameaça dessa natureza sem nenhum tipo de razão, de fundamento, já seria difícil imaginar qual razão se pudesse fazer. Imagine algo nesse campo. Claro que uma professora, uma colega minha, né, como ela, vai demorar bastante tempo para retomar a ideia de que alguém que busca fazer o bem né, para adolescentes que busca no dia a dia formá-los para uma existência mais exitosa, mais decente, né, com maior nível de vitalidade, que ela seja colocada numa situação desse tipo.
A decepção, você aí na DEG já sabe, ela é um sentimento que dificilmente tem retorno. A gente até perdoa, lida bem com outras formas, até né, de desgosto. Mas a decepção, ela é algo que marca fundamente uma questão. Então você já escreveu, né, Milton, livro sobre questão de formação familiar, e eu também. E a frase continua valendo: é o mundo que nós vamos deixar para os nossos filhos depende dos filhos que nós vamos deixar para esse mundo. E essa é uma questão muito preocupante e continua sendo.
Pelo relato da professora, acabou empilhando em cima de um histórico de abalos psicológicos, né, com a experiência experiência de sala de aula. E acho que todo professor tem o objetivo de gerar um impacto positivo na vida dos alunos. Daí a razão de um abalo tão profundo, né?
É essa tristeza, é tristeza, porque é claro que você e eu, em qualquer atividade, eu como docente, ela, a gente também se equivoca em alguns momentos, comete coisas que talvez não devesse fazer, não devesse. Não é o caso, é ao contrário, ela tem uma dedicação no dia a dia, e isso vai trazendo um esgarçamento uma degradação, um apodrecimento até das convivências. Evidente também, de novo, que não se deve ter esse tipo de prática em relação a qualquer pessoa.
Em relação a uma professora em sala de aula, tem que ter a responsabilidade sobre a formação, fica ainda mais complexo. Acho que é um tempo de se fazer algumas parcerias entre a escola, família e outras instituições para a gente ver O que que nós estamos admitindo, né, que possa acontecer? O que é que nos espanta, né, a ponto de supor que um grupo de jovens, com toda a energia que tem de ter para fazer a vida, se dispõe a fazer algo que é não só cruel, perigoso, como é espantoso que se queira fazer isso com outra pessoa?
Por isso a gente compreende sim, né, Milton, o que que essa professora sente. E deseja que isso sirva, usando aí um termo da escola, como lição para todas as pessoas.
E a partir dessa lição, qual o comportamento que a comunidade escolar— e quando eu falo a comunidade escolar, eu estou incluindo a todos nós que estamos em torno da escola, pais inclusive, evidentemente— qual é a discussão que tem de se fazer para tentar reverter um cenário como esse? Considerando que esses jovens que fizeram isso têm uma vida longa pela frente, como se muda a visão destas pessoas e faz com que elas identifiquem a gravidade daquilo que estavam fazendo?
Com exigência, responsabilização e reflexão. Trazer o tema para ser conversado, não deixar apenas o campo punitivo, mas não deixar também de ter o punitivo. Afinal de contas, responsabilizar pessoas pelo que fazem É algo decisivo na vida. Por isso, a comunidade escolar, a comunidade local, né, comunidade da cidade em geral precisa sim trazer esse tema à conversa, como nós estamos fazendo agora, fazer a responsabilização com a punição necessária para dizer que isso é inaceitável, não pode haver impunidade, que do contrário, se a gente deixa passar, na próxima a gravidade é maior.
Professor Mário Sérgio Cortella, muito bom dia e até a próxima. Abraço.
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