'Seleção nenhuma resolve autoestima de nação'
Learn more about your ad choices. Visit megaphone.fm/adchoices
- Ego e desempenho no futebolCopa de 70 e o Brasil dos anos de chumbo · Glória refletida e o espelho da camisa amarela · O 7 a 1 de 2014 e o luto não elaborado · Complexo de vira-lata · Politização da camisa amarela
- Autoimagem e AutoestimaPaís dando certo no dia a dia · O peso da alma da nação nas costas dos jogadores
- Futebol e FluminenseGanhar e perder: a perspectiva do torcedor · Humor como anestesia para a dor · Cinismo do torcedor pós-7 a 1
— Anúncios inseridos dinamicamente —
Refletir para Viver com Rosandro Klinger. Eu ouvi sobre a seleção de 70 como quem escuta a história de santo. Pelé, Tostão, Rivelino. Mas repara num detalhe: aquele Brasil ganhava dentro de campo num momento em que o brasileiro precisava desesperadamente acreditar que dava certo em alguma coisa. O país vivia anos de chumbo, censura, medo, e aquele time em amarelo dizia para o mundo: a gente também sabe ser grande. O futebol nunca foi só futebol aqui, foi sempre o lugar onde o brasileiro guardou a autoestima que não cabia em outro canto.
A psicologia mostra que parte do que eu penso de mim vem dos grupos a que pertenço. Quando a seleção ganha, quem ganha sou eu. O torcedor diz: a gente ganhou, mesmo tendo passado o jogo inteiro sentado no sofá comendo torresmo. Quando perde, diz: eles perderam. A língua entrega o mecanismo. Isso chama-se brilhar na glória refletida. O brasileiro fez da camisa amarela um espelho. Quando o time é bonito, a gente se acha bonito. Espelho que concentra tudo é espelho perigoso.
O 7 a 1 de 2014 não foi uma derrota esportiva, foi humilhação pública em casa, diante do mundo, transmitida ao vivo. E aquele luto nunca foi elaborado. A gente fez piada. Virou meme antes de virar dor. O humor, que é um recurso lindo do brasileiro, ali funcionou como anestesia. Dor que não é sentida não vai embora. Muda de endereço. O cinismo do torcedor de hoje, aquele que já assiste esperando o pior, nasceu naquela tarde em Belo Horizonte.
Nelson Rodrigues deu nome à camada histórica que ajuda a entender. Complexo de vira-lata. A sensação de que o brasileiro é inferior por natureza, de que a gente só presta quando o estrangeiro confirma. O futebol foi durante décadas o único tribunal onde o Brasil ganhava a causa. Quando esse tribunal também começa a condenar, o vira-lata volta a latir dentro da gente. Agora, a camisa amarela virou território disputado politicamente.
Quando nem o símbolo de união escapa da divisão, é sinal de que a divisão virou o próprio modo de vida. Seleção nenhuma resolve autoestima de nação. O que resolve é o país dar certo no dia comum, na escola, no hospital, no salário. Enquanto isso não vem, a gente segue pedindo a 11 meninos que carreguem nas costas a alma de 200 milhões. Mas vamos combinar, é muito peso para uma camisa, por mais bonita que ela seja.
— Anúncios inseridos dinamicamente —