'A Copa mobiliza mentes, mobiliza corpos', diz Silvio Meira
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Pétrea
Silvio Meira
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Revista CBN Tecnologia com Sílvio Meira.
Sílvio, boa tarde!
Boa tarde, Pétrea! Boa tarde, ouvintes! Aqui com meu novo disfarce porque fiz uma cirurgia de catarata no olho e não posso ver muita luz.
Eu ainda não tô te vendo aqui porque eu tô com delay na transmissão. Agora eu vi, meu Deus! Que high-tech, meu amigo! Adorei esse look, tá? É o look 2026. Achei chique.
Vai virar moda, vai virar moda, vai.
O Silvio, me conta um pouco da tua percepção sobre esse momento que nós vivemos. Foi até impressionante o gancho que deixou para gente, a bola que levantou para gente o Marco Rüdiger antes do nosso, finalizando o nosso quadro da Semana Política, ele falando assim: poxa, é um jogo, a Copa do Mundo une todo mundo, né? E eu tava lendo algumas análises sobre esse evento da Copa do Mundo, como no mundo polarizado, né, de interpretações de mundo polarizadas, no mundo que tá cada vez mais preso às suas bolhas, tem um evento como esse, como a Copa do Mundo, ainda talvez um dos poucos que de certa forma unam a comunidade global numa narrativa.
Que é de ganhar a Copa do Mundo. Então eu queria um pouco da tua análise, porque eu achei tão interessante nesse mundo fragmentado, né, o jogo de futebol ou alguns esportes ainda conseguirem unir a comunidade humana. Como é que você vê isso?
Pétrea, quando a gente olha para redes sociais e quando a gente olha para mercados em plataformas, quando a gente olha o que as plataformas habilitam na realidade, transformando os mercados globais de quase qualquer coisa nos últimos pelo menos 20 anos, ali desde 2005, mais ou menos, tem dois tipos de efeitos que são fundamentais para criar defesas competitivas sustentáveis nesses mercados. Um são os efeitos que a gente chama de efeitos físicos.
Quando você constrói redes físicas, por exemplo, seja de distribuição, seja de lojas, seja pontos físicos de presença nos lugares, é muito difícil para competição deslocar você de um mercado. E o outro efeito, Peter, que é extremamente usado para você popular redes sociais são os efeitos de tribo. Como é que você reúne pessoas que têm, de uma certa forma, a mesma visão de mundo para eles participarem das redes sociais? E quando você olha para Copa do Mundo, são as duas coisas combinadas.
Efeito físico. Você tem que ir para um estádio num certo país, numa certa cidade, e você vai torcer pelo seu time. E o seu time, no caso, é o time do seu país, é o time que unifica todas as torcidas. A tribo, na realidade, é a nação. E a gente vê isso de uma forma mágica, e eu acho que muita gente deve ter visto esse vídeo, na chegada da seleção de Cabo Verde na sua pátria de volta. Que eles fizeram? Eles simplesmente chegaram na fase do mata-mata e numa partida que teve lances extremamente debatíveis contra a Argentina— tem muita gente que acha que certas faltas não foram faltas, certos gols não foram gols— eles chegaram como heróis.
De mais de uma forma, eles unificaram fisicamente a pátria. Cabo Verde tem a população aproximada de Caruaru. É como se Caruaru tivesse ido para Copa do Mundo, cerca de meio milhão de pessoas. E de repente esses corações todos batiam como se fossem um só, representados por um goleiro em fim de carreira, o Rosinha. Uma coisa assim que é um atrator de tanta atenção, que consegue capturar o imaginário de um país inteiro. O que que você vai dizer disso?
Você pode não gostar de futebol, você pode não torcer, você pode achar que a FIFA contaminou a seleção dos grupos nas Copas para que as maiores camisas com os maiores ídolos chegassem na final, porque isso é de interesse mercadológico e de marketing. E é provavelmente verdade, mas no fim, mesmo que Cabo Verde na sua primeira partida de mata-mata tenha voltado para casa, Isso mudou completamente Cabo Verde e de repente o mundo conheceu Cabo Verde.
Imagina o efeito físico que não vai ter de pessoas querendo ir fisicamente, como a gente diria, fisicamente a Cabo Verde para ver o que é que tá acontecendo lá. Imagina o Marrocos, completamente.
Eu vou te dar um exemplo, Silvio, desculpa te interromper, mas é rapidinho assim. Meu filho pequeno, 8 anos, né, ele adora esportes, mas ele nunca foi assim um grande fã do futebol, joga na escola, joga no clube, mas até aí normal. Ele tá fissurado com futebol, ele é, parece assim, despertou para aquilo que eu acho que são os ídolos, a postura dos meninos que jogam, dos jogadores, a comoção. Aquilo me fez pensar, né, porque eu fico pensando o tempo inteiro sobre a vida e sobre as relações das comunidades humanas.
E eu falei, gente, o que que será que pescou ele? Não foi só só o futebol, não foi só alegria de jogar, não foi só— enfim, é uma, é uma comoção humana. E isso me chamou atenção dentro de casa e com outras crianças também. Achei isso muito forte, Sílvio.
Eu concordo plenamente, Pétrea. E tem uma coisa que a gente tem que levar em conta, que certos times e certas nações extremamente competitivas não acontecem por acaso. Uma pergunta que deveria ser feita por todo mundo que gosta de futebol é: como é que há uma seleção tão fantástica na França? Há uma estratégia nacional de futebol, academias de futebol a partir de idades bem jovens, estamos falando no ensino fundamental 1, para que futebol sirva para unificar o país.
Fisicamente, um país que tem muitos imigrantes, um país que tem uma extrema-direita distópica muito forte. A estratégia da França passa por futebol. É extremamente importante lembrar que Mandela usou futebol e a seleção sul-africana de futebol de novo para unificar o país em torno de uma coisa: torcer pela seleção sul-africana de futebol. Isso vem sendo usado há muito tempo por um lado, e por outro, do espectro político. Se a gente voltar para Seleção Brasileira de 1970, né, porque foi que João Saldanha, enfim, caiu?
Porque os militares queriam escalar a seleção. E o hino daquela época, 90 Milhões em Ação, foi criado para unificar o país também. Então a gente tem que ficar esperto e se lembrar que é bom, é fantástico Mas certas horas a gente pode estar sendo usado, a gente pode estar como grupo, nação, como comunidade sendo manipulado. E manipulação no espaço físico tem outros impactos e eles são muito maiores normalmente do que manipulação no espaço digital.
Mas a minha dúvida, Sílvio, era justamente essa: o futebol sempre foi usado, e a gente sabe, né, você coloca aqui Mandela, o que foi o Brasil, outras nações, a própria França, enfim, como uma forma de união nacional. A minha dúvida era no contexto de agora, porque agora tá muito mais difícil você criar um contexto, uma cultura que as pessoas de fato acreditem que há algum elo entre elas para algum objeto como futebol para ter essa comoção.
E é muito legal você trazer o exemplo da França, que é atual, mas também os desafios para a gente continuar usando, né, grandes eventos como esse de forma a unir, sei lá, a comunidade humana. Eventos para o bem, para o mal, isso, né?
Sim, vem. E não é só futebol, Pétrea. Veja, Rush, a banda, vai fazer shows no Brasil no começo do ano que vem. Rush perdeu o baterista Neil Peart e tem uma baterista Anika Nilles, que é talvez o maior exemplo de professora que faz o que ensina. Ela é a diretora do departamento de bateria da Pop Academy Baden-Württemberg, na Alemanha, tá certo? Os ingressos estão todos esgotados, tem show extra planejado. Por quê? Porque é um evento físico, uma banda que para muita gente é uma espécie de um país.
A fidelidade das pessoas ao som daquela banda, e é uma banda histórica, tem décadas, É como se fosse uma coisa— eu conheço muita gente aqui do Recife que no dia que foi anunciado esse show físico comprou o ingresso, vai comprar uma passagem aérea, vai sair daqui às vezes para Porto Alegre porque não conseguiu ingresso mais perto para ver esse show. Da mesma forma que muita gente juntou dinheiro durante muito tempo para ir para os Estados Unidos, para o México e para o Canadá assistir partidas da Copa na sua torcida.
História de gente que desde vender bolo a vender fotos dos pés foi para Copa fazendo um esforço monumental, que podia ter feito para, por exemplo, abrir um negócio. Não, juntou dinheiro para ir para Copa, para participar fisicamente da torcida do seu país na Copa. Você tem toda razão, a Copa mobiliza mentes, e ao mobilizar mentes mobiliza corpos. E mobiliza em volume e vai mobilizar em qualquer lugar do mundo por muito tempo.
Palpite para hoje, tem palpite para hoje? Pode um matemático engenheiro como você fazer um palpite assim?
Pode. Eu não gosto de palpite, eu não trabalho com palpite, eu trabalho com cenários. E eu não trabalho com, não trabalho com expectativas, eu trabalho com cenário. Veja, nós não vamos jogar contra um time normal. É bom a gente ficar esperto. Não é que eu não confio na gente, eu não confio neles.
Então não vai, não vai arriscar nem um a zero?
Não vai arriscar? Eu vou torcer, mas eu não confio neles.
Meu querido Silvio Meira, é sempre aqui um desfile de inteligência e visão de mundo que o Sílvio traz para gente aqui no Revista CBN. Obrigada, querido. Vamos torcer, ficar unidos em torno dessa seleção, e a gente conversa semana que vem.
Um beijo imenso para você, bom jogo, vamos torcer, bom jogo a todos e a todas, em paz e harmonia. Tchau, tchau.