Episódios de Comentaristas

O reconhecimento do Genocídio Armênio por Israel

06 de julho de 20268min
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Filipe Figueiredo contextualiza sobre o Genocídio Armênio, que ocorreu em 1915, e explica a decisão israelense, que não é apenas parte de um processo de reparação, mas sim uma resposta às relações diplomáticas estremecidas com a Turquia. Ouça.

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Participantes neste episódio3
B

Beatriz Pacheco

HostJornalista
C

Carlos Eduardo Éboli

HostJornalista
F

Filipe Figueiredo

ComentaristaEspecialista
Assuntos1
  • Dia da Memória do Genocídio ArmênioGenocídio Armênio · Israel · Turquia · Erdoğan · Azerbaijão
Transcrição11 segmentosassemblyai/universal-3-5-pro
FFFilipe Figueiredo

CBN Pelo Mundo com Felipe Figueiredo.

?Voz B

Felipe Figueiredo, boa tarde.

FFFilipe Figueiredo

Olá, Tati! Olá, Fernando! Boa tarde a vocês, todos os nossos ouvintes, depois de um breve ato causado por razões de Copa do Mundo.

?Voz B

Tá tudo bem com você depois da eliminação do Brasil e tal? Você acordou como hoje?

FFFilipe Figueiredo

Não, tá tudo bem. O meu comentário é que o Brasil precisa marcar um amistoso com a Noruega no verão de Cuiabá para acabar logo com esse tabu, né?

?Voz B

Com essa palhaçada de não ganhar da Noruega.

FFFilipe Figueiredo

Pois é, então a gente tem que marcar um amistoso no verão de Cuiabá e aí tira esse problema da sala e segue a vida.

?Voz B

Muito bem, a gente vai falar de coisas de um país cujo time nem tava na Copa, nem tá na Copa, que é a Armênia. O assunto é sério. Israel reconheceu o genocídio armênio. Quero que você faça um um breve apanhado histórico para situar o nosso ouvinte. E se possível, nos explique, Felipe, o que é que— por que que Israel, depois de tanto tempo, reconheceu finalmente?

FFFilipe Figueiredo

Então, o governo israelense anunciou no fim do mês passado, né, que pretende reconhecer o genocídio armênio oficialmente. O governo vai mandar uma proposta para o parlamento onde ela será votada. Por décadas governos, os governos no plural israelenses não reconheceram o genocídio armênio por vários motivos, especialmente as boas relações com a Turquia e desde o início da década de 1990 a aliança com o Azerbaijão, né, as relações com o Azerbaijão que em meados dos anos 1990 se tornam ali uma aliança.

A gente já fala um pouquinho mais disso. É importante destacar para o nosso ouvinte que o genocídio armênio é um dos marcos, né, para a própria formulação do crime de genocídio, né, da definição do crime de genocídio, melhor dizendo, pelo Raphael Lemkin décadas depois, motivado também pelos genocídios ocorridos durante a Segunda Guerra Mundial, como a Shoá, né, o genocídio de judeus pela Alemanha nazista. Também tivemos genocídios contra eslavos contra povos Roma.

E o genocídio armênio de 1915, eu acho importante a gente mencionar, Tati e Fernando. Fernando, inclusive, assim como eu, já tive o privilégio, já teve o privilégio de ir para Armênia. O genocídio armênio de 1915 é um fato histórico, é amplamente documentado, é amplamente documentada e provada a intenção genocida do Estado Otomano naquele momento governado pelos integrantes que anos depois fundariam a atual República da Turquia.

E esse é um genocídio que ainda é muito negado, seja por razões políticas, por interesses econômicos, por ignorância histórica ou por canalice pura e simples. Mas ele é, repito, um fato histórico muito bem documentado, incluindo a intenção genocida naquele momento. Felipe, um pouco agora sobre as implicações desse reconhecimento, também as reações principalmente de Arábia, por exemplo? Então, Fernando, a grande questão desse reconhecimento é que o reconhecimento de um genocídio, e junto com isso impedir a negação que um genocídio ocorreu, né?

Então a importância não apenas de você reconhecer que o Holocausto, né, a Shoá ocorreu, mas também a importância de você não negar isso está na necessidade de justiça, reparação, reconciliação, inclusive isso é importante, e a prevenção de genocídios posteriores. Esses princípios que norteiam um reconhecimento de genocídio, eles estão com a atual decisão do governo israelense em risco. Por que eu digo isso? Porque o reconhecimento do genocídio armênio por Israel nesse momento, ele não é fruto de um processo histórico, de um processo de reparação.

Ele é fruto do fato de que hoje as relações entre Israel e Turquia estão bastante estremecidas. O governo autoritário da Turquia, do Erdoğan, utiliza uma retórica supostamente pró-palestina como uma ferramenta de arregimentar apoio internacional. Eu digo supostamente, Fernando e Tati, porque a Turquia ao mesmo tempo mantém o petróleo, né, o gás vindo do Azerbaijão fluindo pelo seu território rumo a Israel. Azerbaijão, principal fornecedor de hidrocarbonetos para Israel.

A Turquia expandiu sua presença militar na Síria agora com o novo governo sírio. Turquia e Israel têm tido desavenças diplomáticas. O Erdogan recentemente inclusive disse que um dia sonha, né, que Jerusalém volte a ser governada pelos turcos, etc. Então o governo israelense está tomando essa decisão não como uma maneira de reconhecer o genocídio armênio, Até porque Jerusalém tem uma comunidade armênia histórica desde o século 4º, e essa comunidade é assediada frequentemente pelas suas posses imobiliárias na cidade antiga de Jerusalém por colonos ortodoxos israelenses.

Mas o reconhecimento de Israel não vem desse processo de reparação, ele vem de um processo de antagonismo político, de barganha retórica em um momento de crise E também para apontar os podres do armário da Turquia, os esqueletos no armário da Turquia perante a comunidade internacional, na véspera da Turquia sediar a cúpula da OTAN, em que o Donald Trump promete chegar lá com um pacote de bondades para Turquia. E aí, respondendo sua segunda pergunta sobre a reação turca, a reação turca não foi apenas de negar, né, que existiu um genocídio.

O Erdoğan chegou ao delírio histórico de dizer que a Turquia nunca cometeu nenhum genocídio e um país livre de genocídio ou de colonialismo, quando você tem até hoje a questão curda, por exemplo. Mas a Turquia aponta, não com, não totalmente sem razão, que a ação do governo Netanyahu é para desviar o foco do fato do próprio governo Netanyahu ser acusado de uma política de genocídio em Gaza, e torna então a realização ou não, a execução ou não de um genocídio, seja o genocídio armênio em 1915 seja o genocídio palestino em Gaza em 2026, como uma mera questão de opinião, uma questão de divergência retórica.

Então, no fundo, por isso que esse reconhecimento, que é fruto sim de um momento de conveniência política, no fim das contas acaba enfraquecendo a própria discussão e reconhecimento sobre genocídio.

?Voz B

Muito bem. Felipe Figueiredo, nosso comentarista do CBN Pelo Mundo, toda segunda-feira conosco, historiador, criador do podcast Xadrez Verbal. Obrigada, Fih. Um beijo para você, até semana que vem.

FFFilipe Figueiredo

Eu que agradeço, gente. Um abraço para vocês e para todos os nossos ouvintes da CBN. Valeu, Felipe.