Desilusão pós-Copa: como lidar com a frustração sem culpar os outros?
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Carol
Carol Tilkian
Tati
- Rejeição, Frustração e DecepçãoViolência contra a mulher · Neymar
- Estratégia de defesa e transtorno psiquiátricoDeslocamento · Identificação projetiva · Melanie Klein · Nietzsche
- Lidando com a Dor e o TraumaLuto · Autocuidado
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CBN Amores Possíveis com Carol Tioquinha.
Oi, Carol, boa tarde!
Boa tarde, Tati! Boa tarde, Nando! Boa tarde, ouvintes!
Olá, Carol também tá no Brasil Cor, tá de verde. Eu vim de— exatamente, viu?
A gente veio complementar.
Eu vim de amarelo, azul e branco, você veio de verde, eu vim de preto. Tá ótimo. Fernando veio o quê? Luto, né?
De luto. Mas, ó, é melhor entrar no luto do que culpar ou descontar nos outros, hein? É sobre isso que eu quero falar hoje.
A gente tá aqui, eu tô amaciando os nossos ouvintes, fazendo eles buscarem dentro deles se há frustração pela eliminação do Brasil e de que maneira a gente pode lidar com ela sem culpar os outros. E de cara eu me lembrei de uma relação, Carol, que tem se feito muito aqui no Brasil, que é a relação entre dias de jogos e violência contra a mulher. Porque em dias de jogos a violência contra as mulheres aumenta bastante. Por exemplo, casos de lesão corporal sobem quase 21%, ameaças aumentam cerca de 24%.
E segundo o Fórum Brasileiro de Segurança Pública, uma das razões é justamente a frustração com o placar do jogo. Claro que eu tô trazendo aqui situações bastante extremas, apesar de infelizmente comuns no nosso país. A gente não vai chegar tão longe, né? Eu espero.
Mas acho que a gente vai abranger todas as frustrações. Eu acho maravilhoso você ter começado a coluna com essa provocação, porque eu quero partir da forma disfuncional que o Neymar agiu com a frustração dele, que muitas vezes nós brasileiros agimos com a frustração da eliminação da Copa, mas não é sobre eliminação da Copa. Acho que quando você traz o exemplo dos jogos, quero que a gente pense quantas vezes um cara já recebeu um feedback negativo no trabalho E aí voltou para casa e descontou na mulher, ou foi agressivo com os filhos.
O quanto essa mulher daí descontou no filho, o filho bateu no cachorro. O que a psicanálise nomeia esse descontar é um deslocamento. Então a raiva, a dor são afetos legítimos, e o problema não é a gente sentir, é a gente endereçar para alguém muitas vezes mais fraco ou numa posição hierárquica inferior. Então é o chefe que tá tendo uma crise conjugal e aí grita com os funcionários. É a pessoa que trata mal o garçom ou motorista de Uber.
Em geral, esse descontar tem sempre um lugar da dor desce a escada E aqui acho que o Neymar, ele foi o exemplo disfuncional, né, da gente. Eu tô aqui frustrado, aí eu provoco o jogador, aí eu cavo uma briga. E queria até perguntar para os ouvintes: quantas vezes você sente que já descontaram ou culparam você por coisas que você não tinha nada a ver? E se você for corajoso o suficiente para fazer um mea culpa, quantas vezes você já culpou ou descontou alguém, porque muitas vezes a gente faz isso nas amizades.
Então você culpa o marido da amiga por ela não estar mais disponível e vocês estarem jantando pouco, ao invés de só pensar que é uma questão de agendas ou poder conversar com ela e falar: tô sentindo a sua falta. Ou a gente culpa a mãe narcisista por ela não estar presente aqui olhando os meus filhos nesse momento que eu tô passando por um divórcio e eu preciso de ajuda. E na verdade eu estou sofrendo, tô vivendo o luto de um casamento, filhos que estão sofrendo esse final.
E aí eu coloco a culpa na mãe que é narcisista. Aqui me vem muito a frase do Nietzsche, que é: eu sofro Logo alguém deve ser culpado por isso. É sempre a necessidade do culpado. Então, como a dor é insuportável, a gente precisa de um endereço, porque de alguma forma ele alivia quando existe um culpado. E aí no futebol a gente põe a culpa no técnico, no Neymar, no cara que perdeu o pênalti.
Na zaga que não marcou, Haaland.
Exatamente, né? Quantas vezes a gente não põe a culpa na mulher que tá trabalhando e por isso os filhos estão mal criados? Quando existe um culpado, a gente não precisa sentir duas coisas que são insuportáveis, mas necessárias: a impotência, que é não tem nada que eu pudesse fazer, para a gente sair do e se, e se ele tivesse marcado o gol, e se a gente não tivesse mudado de cidade? E se essa amiga tivesse se separado desse marido que eu não acho legal?
E o luto que o fez estar aqui com a camiseta preta? Porque quando a gente tá no lugar do deslocamento e da culpa, a gente opera pela raiva, mas não sente a tristeza. E a raiva dá uma sensação de potência que muitas vezes, infelizmente, leva pra agressividade. Reforçando os dados que você trouxe no começo da coluna, Tati. Então, a Melanie Klein traz um outro conceito da identificação projetiva. E o que que ela defende? Que o que a gente não suporta sentir dentro da gente, a impotência, o fracasso, a frustração, a gente deposita no outro.
E aí esse homem é violento com a própria mulher. Não é a minha frustração, não é a minha falha, não é a minha falta de controle, né? A gente não controla. Não é culpa do técnico, não é culpa do chefe, não é culpa do sistema que eu não fui promovido. Só que o bode expiatório faz com que eu não lide com o que é insuportável. E a gente tá vivendo uma paranoia cotidiana. Onde ao invés de lidar com esses sentimentos incômodos, a gente tá indo pro ato, sendo agressivo.
O Bion tem uma frase que eu acho muito boa, que é: a incapacidade de tolerar a frustração leva a psique a evacuar aquilo que deveria pensar. Evacuar mesmo. Eu acho que a gente caga na cabeça de todo mundo, é uma descarga. Eu escolhi essa frase propositalmente Porque essa expulsão do desconforto para fora, quantas vezes a gente está jogando no outro, está descarregando no corpo, na ação, no grito? Aí você briga no trânsito e é claro que a gente vai sentir um monte de emoções incômodas.
Como é que a gente pode lidar com elas de outro jeito? Porque também acho que se vendeu a falácia da inteligência emocional, que é não sentir. É, você vai ficar com muita raiva que o Brasil perdeu, que você não foi promovido, que as crianças estão fazendo malcriação agora que vocês separaram e você tem que entregar um relatório, não foi promovido e tem que fazer essas crianças dormirem e a sua companheira já tá namorando e você não.
Primeiro a gente tem que sustentar o tolerar antes do reagir. É não ir para o ato, ficar digerindo e poder nomear o afeto. A gente já teve uma coluna aqui falando sobre a importância do letramento afetivo. Que que você tá sentindo? Tô com raiva, tô frustrado, tô triste.
Só vai saber dali uns dias, né, se se permitir ficar quietinho sem tentar se livrar daquele incômodo, mas lidando com ele para tentar destrinchá-lo, né? Não sei. Se isso faz sentido.
Exatamente, que é para tentar digerir e não querer ter a resposta, é poder sentir. Eu vejo cada vez mais na clínica as pessoas falando, eu quero entender. Primeiro sinta para poder destrinchar, depois elabore como um luto, porque toda frustração é uma pequena morte, é uma perda do que eu queria, do que eu imaginei, do que não vai ser. A gente precisa trabalhar o luto. Chorar, atravessar. O choro é a dor assumida. A provocação, que é o que o Neymar faz, é a dor terceirizada.
O descontar é terceirizar. E o que a gente precisa entender é quando Nietzsche fala, né, alguém deve ser culpado. Na continuação do trecho da Genealogia da Moral, o sacerdote fala: isso mesmo, minha ovelha, alguém deve ser culpado. Mas você mesmo é esse alguém, somente você é culpado de si. E aqui é se responsabilizar sem entrar numa perseguição, mas é se responsabilizar pela dor. Sou eu que estou sentindo essa dor, essa frustração é minha para eu elaborar, não para um outro alguém apagar.
Porque quando a gente puder sustentar a frustração, a gente escolhe não mandar a dor para o outro, não destruir o outro. E a gente também consegue sustentar a possibilidade de falar para o outro: tá doendo, eu tô frustrado, eu tô com raiva, eu tô com ciúme, me ajuda. E não se responsabilize por isso. A gente pode até pedir ajuda para atravessar tudo isso, mas a gente não pode passar para frente essa agressividade, essa dor, como forma de não elaborar.
Carol Chuquinha conosco toda segunda-feira no nosso Amores Possíveis, esse espaço em que a gente fala e faz amor, porque amor é o que a gente faz. Beijão, Carol, boa semana pra gente.
Beijo, boa semana.
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