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Acidente em Pequim reacende debate sobre censura e controle da informação na China

02 de julho de 202611min
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Em Pelo Mundo, Marcelo Ninio conta que colisão de um avião de pequeno porte contra um arranha-céu evidenciou dificuldades para obter informações em um dos países mais fechados do mundo.

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Participantes neste episódio2
F

Fernando

HostJornalista
M

Marcelo Ninio

ReporterEspecialista em geopolítica
Assuntos3
  • Cultura e Censura na ChinaMídia controlada pelo Estado · Censura oficial intensa · Ausência de imprensa independente · Teorias conspiratórias · Segurança nacional
  • Acidentes AéreosCitic Tower · Falha de segurança · Piloto
  • Incidente Vettel Kvyat GP ChinaAtropelamento em frente à Cidade Proibida (2013) · Atentado terrorista · Xinjiang · Ataque ao complexo de Zhongnanhai (2024) · Xi Jinping
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MNMarcelo Ninio

CDN Pelo Mundo com Marcelo Ninho.

FFernando

Com a gente, diretamente de Pequim, na China, Marcelo Ninho. Oi, Ninho, bem-vindo mais uma vez, tudo bem?

MNMarcelo Ninio

Oi, Fernando, tudo ótimo. Saudações de Pequim para você, para os ouvintes. Pequim com um verão tímido por enquanto.

FFernando

Ah, muito bem. Agora, o Marcelo, nós tivemos um fato na semana passada, foi um avião, um avião de pequeno porte ele se chocou contra um prédio, um prédio importante, o prédio mais alto de Pequim. E aí esse episódio poderia ser algo assim, sabe, bom, vamos lá, a imprensa vai cobrir, saber o que aconteceu, tal, feridos, mortos. Mas esse episódio deixou bem claro a falta de transparência nas coisas que acontecem na China.

MNMarcelo Ninio

Por quê? Exatamente, Fernando, é um prédio mais alto da China e esse episódio foi cercado de nuvens, né, para usar uma metáfora apropriada ao caso. Bom, para começar, é preciso dizer que a falta de transparência não é algo incomum aqui na China, né? A mídia no país é controlada pelo Estado, a censura oficial é intensa e, diga-se de passagem, muito eficiente, e não existe imprensa independente. Então a expectativa é sempre que é muito relativa, é muito baixa, de que o acesso à informação vai ser livre, principalmente em casos assim, né, como esse, como que são considerados mais sensíveis.

E aí, por que que é sensível? Porque primeiro revela uma falha grave de segurança de um episódio como esse no coração da capital chinesa, né? Mesmo que não tenha tido maiores consequências, é grave. Só para recapitular aqui, vamos lá, o que aconteceu no início da noite de sexta, começaram a circular informações entre os correspondentes estrangeiros— não na imprensa oficial— de que um avião se chocou contra o Citic Tower, que é esse prédio mais alto de Pequim.

Tem 108 andares, foi inaugurado em 2018, fica no centro, no coração do Distrito Financeiro da cidade. Quer dizer, é um dos cartões postais da cidade. Parecia uma coisa meio inverossímil, né? Essa área tem um dos espaços aéreos mais controlados do mundo, não fica muito longe do complexo do poder, né, onde fica a liderança chinesa. Então, esse prédio é um dos símbolos de Pequim. É como se, mais ou menos, se no Rio um avião bater-se no Cristo Redentor, ou sei lá, em São Paulo, no Edifício Itália ou no Copan.

E aí a gente começa a ouvir esses rumores, começa a receber imagens assim de destroços caindo do prédio. E aí não aparece nada na mídia oficial, mas a notícia começa a ser noticiada graças a esses correspondentes estrangeiros que foram até o local, inclusive eu, confirmaram o acidente. A polícia cercou o prédio, né, dava para ver o buraco lá neste prédio. E só no dia seguinte é que saiu uma nota oficial muito curta dessa autoridade distrital sobre o incidente.

Diz que um avião pequeno, esportivo, de 2 lugares, se chocou contra o prédio. O piloto, só tinha um ocupante que era o piloto, morreu no acidente, ou no incidente, e 13 pessoas ficaram feridas. Nada além disso. A questão é que esse vácuo de informação, né, Fernanda, é um ambiente fértil para especulações e teorias conspiratórios, né? Nesse caso, comparações meio, nesse caso, estapafúrdias ou não, com choque famoso de aviões que a gente conhece, né, contra prédios altos, né?

Claro que eu tô falando dos atentados de 2001 em Nova York. Então é uma comparação, claro, estapafúrdia, mas seria minimizada se houvesse mais transparência sobre o que aconteceu. E aí vem a outra questão, que é sobre conceito de segurança, né, que aqui na China O governo acredita que o controle máximo de informação é a melhor forma de manter a segurança em todos os sentidos. Estou falando seja segurança alimentar, segurança das fronteiras, segurança cibernética.

A censura na internet, na visão do governo, detém a circulação de rumores, notícias falsas, e evita uma instabilidade social, digamos. E aí eles sempre, o governo faz um contraste contra O Ocidente, né, contra o caos, e é possível admitir até que um sistema mais aberto e democrático de livre circulação de informação tem uma maior propensão à instabilidade, ao risco de abuso. Mas, e aí voltando à China, por outro lado, quando existem, que não é o caso da China, mais fontes de verificação de fatos e mais recursos para cobrar as autoridades, também dá para chegar a um panorama mais próximo da realidade.

Não é o que aconteceu aqui. É um debate que é necessário pelo seguinte: a China cada vez é mais apontada como modelo de desenvolvimento, com razão, né, de pujança econômica e inovação tecnológica. Mas é também preciso falar desse modelo de informação, né, da China, que mantém os cidadãos meio no escuro, né, além do que tá acontecendo. Eu conversei com chineses naquele dia, no dia seguinte, dias depois, até agora Tem chineses que não sabem o que aconteceu.

Claro, para democracias como a nossa parece um falso dilema, né, porque segurança, transparência não deveriam ser incompatíveis. E aqui o problema é que quando a omissão de fatos contribui para segurança geral, pelo menos no conceito do governo, mas reforça uma certa insegurança em relação à veracidade das versões que as autoridades estão relatando à população, aí cria-se uma crise de confiança. E isso acontece aqui muitas vezes, aconteceu durante a pandemia.

E nesse caso, as pessoas que estão começando a saber disso ficam se perguntando. E aí é um risco que o governo chinês corre, tem que lidar com ele, né, Fernando?

FFernando

Perfeito. Agora, Líneo, todo esse tempo que você tá aí, é, só me lembra, são 8 anos em duas etapas na China.

MNMarcelo Ninio

Exatamente, quase 8 anos e meio.

FFernando

Outros episódios com as mesmas características de esconder o que acontece, que você se lembre?

MNMarcelo Ninio

Episódios menores assim são cotidianos, né, Fernando? Assim, a gente é difícil ter acesso à informação em geral porque tem um monopólio da informação da imprensa estatal e tem uma barreira assim, acesso à informação que não é oficial. Agora você perguntou se tem outros eventos. A resposta curta, provavelmente a gente não sabe, porque como eu disse, existe tanto controle sobre a informação que não dá para saber. Agora eu tenho É, eu, só um parênteses aqui, eu tenho aversão a teorias conspiratórias sem fundamento, e como todo jornalista deveria ser, né?

Mas dá para concluir que a gente tá muito longe de saber tudo que acontece. Agora, tem dois incidentes, respondendo a sua pergunta, que me vem à lembrança, que aconteceram enquanto eu tava aqui. Um foi em 2013, na minha primeira passagem aqui, de um carro que foi considerado, e é claro, um episódio grave, um carro que atropelou uma multidão que tava em frente à Cidade Proibida. Cidade Proibida uma das principais atrações turísticas de Pequim, fica no centro, no coração de Pequim, em frente à Praça Tiananmen.

Então é um dos lugares mais policiados da cidade. Deixou 5 mortos. Naquele momento, claro, todo mundo tentou saber, era muito difícil esconder, assim como esse caso do avião, muito difícil esconder. Mas naquele momento ninguém sabia se era acidente, se era atentado. Só muito depois é que as autoridades anunciaram, o governo divulgou que havia sido um ato terrorista e que os responsáveis haviam sido condenados à pena de morte. Só que era uma época de muita tensão, estava ligado ali a Xinjiang, que é a província de maioria muçulmana da China, e o governo usou o caso assim como um exemplo de punição nesse caso.

O segundo caso que eu me lembro foi mais próximo, que foi bem próximo assim geograficamente desse, mas mais recente, foi em 2024. É, nessa minha segunda passagem aqui, quando um carro se chocou ou se jogou contra os dois portões do complexo de Zhongnanhai, que é o quartel-general onde fica o Xi Jinping, toda a liderança chinesa, que é a base, a base da liderança comunista. O motorista foi logo contido, preso. A gente só sabe disso porque um pedestre filmou, né?

Geralmente é assim que a gente sabe, né? Postou o vídeo numa rede social e foi mandado para fora de uma Uma rede social fora da China, e mesmo assim até hoje não se sabe sobre os detalhes daquilo, se foi um acidente, se foi um atentado, o que que tava por trás, se foi atentado. Então, claro, tô falando de dois dos lugares mais sensíveis, centrais aqui no centro da capital chinesa. Mas em casos bem mais triviais, o bloqueio, a informação ficou mais denso nos últimos anos.

Eu lembro assim, na primeira vez que eu passei aqui, a minha primeira passagem sabe que uns 15 anos atrás, um pouco menos, o governo divulgava uma estimativa oficial do número de protestos que havia por ano no país. Era uma estimativa oficial. Então você vê que muita coisa mudou, né? A última estimativa era de— isso tô falando de 2013, 2014— 60 mil protestos por ano. Essa, claro, tô falando de protestos, não protestos contra o governo central necessariamente, mas protestos locais, mas contra desapropriação de terras, coisas assim.

Mas mesmo assim era uma estimativa que o governo divulgava. Hoje essa informação é inacessível, como muitas outras, né? Então a conclusão é a seguinte: o acesso à informação na China não acompanhou o ritmo de crescimento, o ritmo de desenvolvimento e importância do país no mundo, e a importância, né, do país no mundo. E isso é um desafio, né, para a gente acompanhar, né? Porque à medida que a China fica mais importante fica também mais difícil entender o que tá passando aqui.

E esse avião que bateu no prédio na semana passada, na sexta-feira, é mais um lembrete disso, né, Fernando?

FFernando

Perfeito. Bom, Marcelo Nini, mais uma vez obrigado pela conversa aqui na CBN. Bom trabalho na medida do possível e até a semana que vem.

MNMarcelo Ninio

Obrigado, Fernando. Até a próxima.

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