A espetacularização do emagrecimento
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Beatriz Pacheco
Michel Alcoforado
- Ozempic e emagrecimentoCanetas emagrecedoras · Padrão de magreza nas redes sociais · Epidemia mundial de obesidade · Emagrecimento como falha individual · Exposição do esforço individual · Quartéis de emagrecimento na China · Pagamento por perda de peso em redes sociais · Vigilância e punição no comportamento
- Obesidade e SaúdeAcesso a alimentos in natura · Cálculos de IMC e corpo europeu branco · Corpos negros e padrões não europeus
- Copa do MundoDesempenho de seleções europeias · Sul Global no futebol · Colonização e países subdesenvolvidos
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Boa tarde, Tati. Boa tarde, Fernando. Boa tarde, Michel. Bom, vamos falar, vivemos, hein, a esse jogo doido, hein, Brasil-Japão. Nossa, E o Paraguai? Para quem?
Para eliminar os europeus na Copa.
Ué, maravilhoso! Aqui, minha gente, cardiologista tá ganhando uma grana nessa Copa, né?
Ainda vai ter um Bélgica e Senegal para a gente também escolher os nossos favoritos.
Vocês estavam trabalhando, não assistiram Congo e Inglaterra, mas também foi ótimo.
Imagina, não tirava o olho, quase deu um olho na Janaína e outro no jogo.
Mas você veio falar de Copa?
Você quer falar o quê? Você quer analisar o time da República Democrática do Congo? Vai, faça a sua análise.
Eu adoraria. Não, primeiro achei genial o time, assim, eu acho que o que essa Copa tá provando é que a Europa tá sofrendo na vida e dentro de campo também, né? Ninguém tá dando paz não. É o famoso sul global, que para quem nunca ouviu falar é um conceito que dá conta desses países que ali no século 19, no século 20, enfrentaram processos intensos de colonização. E aí, por conta disso, durante muito tempo foram classificados como países de terceiro mundo, subdesenvolvidos.
A gente deu a volta, né? Tá todo mundo ali dando trabalho. A Costa do Marfim deu trabalho também para Noruega, né? Foi fácil não.
Sim. Bom, a gente vai falar sobre algo.
Adoraria falar só disso, mas a gente tem que falar de outros assuntos.
Eu até que tô te ouvindo aqui tentando achar um gancho, mas não há. A gente vai falar sobre um assunto Não tem nada a ver com isso. Pronto, vamos mudar. O espetáculo do emagrecimento, me passam 5 coisas pela cabeça, mas eu vou deixar bem aberto aí para você pegar da onde você quiser e começar, Michel.
Esse é um tema que a gente já tá querendo tratar aqui já há bastante tempo, não só por conta do crescimento vertiginoso da venda e do acesso dos brasileiros e de outras pessoas de outros países também, essas canetas emagrecedoras, como se fosse a última solução para todos os problemas, mas também por conta de uma volta muito forte desse tipo de magreza que a gente achou que tinha ficado para trás. Não sei se os ouvintes aqui se lembram, mas até os anos 90 e o começo dos anos 2000, quando você olhava para as passarelas de moda e para o padrão do que era esperado do corpo belo, do corpo bonito, só tinha uma única linguagem dada, que era a de mulheres muito magras e de homens também que, quando não eram muito magros, tinham todos os músculos ali, né, inventando uma hipertrofia de um corpo que não tinha nenhum espaço pra gordura.
Só que olha que interessante, enquanto as passarelas, as capas das revistas, todos os espaços de protagonismo estavam chamando a atenção pra esses corpos que não eram magros, mas eram magérrimos, né, ao ponto da gente até duvidar da saúde, dessas pessoas, o resto do mundo, os outros 8 bilhões de pessoas que compõem o planeta, estavam enfrentando ou estão enfrentando um desafio enorme, uma batalha muito grande contra a obesidade.
A obesidade é uma epidemia mundial, é uma epidemia que já atinge 1 bilhão de pessoas no planeta, segundo dados da OMS. Quando se compara a quantidade, o IMC, que é aquela proporção entre a sua altura e a quantidade de massa magra e massa gorda que você tem no seu corpo, de gordura, 1 bilhão de pessoas são consideradas como vivendo com sobrepeso ou com obesidade. E, ao mesmo tempo, a gente voltou a ter uma ideia de que o belo, de novo, é estar magro, muito magro, muito magro.
E olha que interessante: as pessoas foram emagrecendo dentro desses espaços de protagonismo, nas capas de revista e por aí vai, mas a humanidade foi engordando. A gente tem o dobro de pessoas obesas do que tinha há 40 anos atrás. Nesse ciclo, o que é interessante da gente trazer aqui pro debate é que, obviamente, quando a ideia de magreza volta à cena e a gente começa a deixar de lado algo que nos acompanhou nos últimos 10 anos, que era uma ideia de que vários corpos eram possíveis, de que você podia ter outros modelos de beleza que não estavam pautados só na magreza.
Dentro desse movimento todo, obviamente, quando a magreza volta à cena, a preocupação com o emagrecimento volta também. Só que ela volta de um outro jeito, né? É interessante que a gente já sabia, né? Ou já tratava há muito tempo magreza ou o sobrepeso como uma falha individual. Então, você abre as capas das revistas, segue os influenciadores, escuta alguns médicos e a ideia de que você é o que você come determina boa parte dessa análise de quem é aquele que tá magro, de quem é aquele que tá gordo.
Então você olha para o indivíduo e diz: olha, a sua situação ou seu corpo é culpa única e exclusivamente sua, então coma mais salada, coma mais proteína, abandone os carboidratos, faça exercício físico.
Autoexploração, né?
É, então essa lógica tava totalmente no colo dos indivíduos. Só que um cenário que é recente agora é que agora a gente coloca a culpa no colo do indivíduo, mas a gente acredita que esse indivíduo ele deve sofrer em praça pública. Então a exposição é desse esforço individual para entrar no dentro dos padrões se transformou numa nova linguagem para lidar com o problema da obesidade mundo afora. Em vários países, né, quando a gente olha pro caso chinês, saiu uma matéria super recente na BBC de Londres chamando atenção pra quartéis generais de emagrecimento, que eu diria que seria um jeito chinês de pensar o spa que faz tanto sucesso no Brasil ou faz tanto sucesso em outros países.
E aí tô falando do spa de emagrecimento, né? Os chineses começam a trazer o vocabulário da vigilância para esses espaços de emagrecimento com uma rotina quase militar. Então, a alimentação que você tem, o exercício que você faz, a pesagem, todo esse processo, ele não só é acompanhado pela equipe médica que tá ali no seu dia a dia, mas é publicizado nas suas redes sociais e para todo mundo que quiser acompanhar esse seu processo.
Então, a vigilância tá dada. Mas a vigilância também tá dada em outros países, como o Quigiquistão, que é um país ali próximo da Rússia, né, que todos os tão ali, que tão ali próximo à Rússia, onde a exposição também ganha uma importância enorme e as pessoas, elas vão sendo pagas pela quantidade de pesos, né, dentro das redes sociais, pela quantidade de pesos que elas vão perdendo. Dentro do cenário brasileiro, obviamente, a gente não tá publicizando a rotina dos pais ou dos quartéis generais de emagrecimento.
A gente não tá pagando as pessoas em termos de dinheiro por o quanto elas perderam, mas aqui, de certo modo, isso também tá sendo levado à praça pública como forma de penalização pelo peso que você não perdeu ou de gratificação pelo movimento que você conseguiu fazer pra se enquadrar dentro dos padrões, né? O movimento e redes sociais como o Strava ou como essas outras Que a gente usa pra brincar, né? Quem amanheceu pra ir na academia, ou quem fez a rotina de exercício, ou quem conseguiu perder peso.
E aí todos esses gadgets que aparecem, né? O anel que mede como é que você dormiu, quantas calorias você perdeu, quantos passos você deu. Isso tudo publicizado nas redes sociais revela esse movimento de onde a gente não só banca o sofrimento de não estar fora ou dentro do padrão, ou de estar fora do padrão, mas também precisa desse olhar do outro como um grande vigilante ao seu comportamento. E isso revela também uma forma interessante da gente pensar que tipo de conduta ou que tipo de disciplina é essa, onde eu preciso, para fazer aquilo que eu quero fazer ou que eu acho que precisa fazer, Lidar sempre com um binômio, que é o binômio do vigiar e do punir.
Ter sempre um olho nas minhas costas. E quando eu não consigo cumprir aquilo, tem sempre uma punição que está atrelada a esse jogo. E essas punições são múltiplas. Eu já ouvi aí que você me contou que na redação da rádio tem aí o grupo do pessoal que faz exercício. O dia que você acorda, sei lá, saiu "Uma alma gêmea, bebeu demais, não acordou bem, não foi fazer exercício." Essa pessoa, ela se sente quase na obrigação de dar satisfação porque ela não foi.
Isso é meu caso de hoje, hein? Será que eu devo me justificar com o pessoal?
Eu acho que você deve. Manda aí uma mensagem. Senão será punida.
Ah, que serei punido o quê?
E diz: "Pessoal, eu tava só me divertindo ontem." Às vezes vale a pena a gente No final, perdas e ganhos, né? Eu preferi ganhar outra coisa do que só me preocupar com a perda das calorias e por aí vai, né? Porque esse tipo de cálculo que tava só no nosso colo, agora ele começa a ser calculado junto com o grupo, né? E aí o grupo começa a avaliar: não, ah, é dispensável, não é dispensável, será que vale a pena você fazer o que você fez, né?
Então você transforma o peso da autocobrança em algo que é quase uma cobrança coletiva sobre uma decisão que devia ser meramente individual. Então vamos ficar atento para esse jogo, porque pode causar mais sofrimento do que o sofrimento de estar fora do padrão.
No caso das mulheres, então, eu teria mil camadas ainda acrescentar e a te perguntar, Michel, mas quem sabe a gente pode deixar essa especificidade para um outro dia.
Eu acho que tem uma dimensão, Tati, rapidinho, que a gente fala muito aqui de gênero, mas tem uma dimensão importantíssima que é classe, né?
É, também, também, super. Que se acirrou com as metas agora, né?
Obesidade, ela é, obviamente, ela também revela um problema social, porque as pessoas que moram longe de lugares onde elas conseguem comprar alimentos in natura com facilidade, ou mesmo o custo, né, de conseguir um alimento in natura, elas não são gordas porque querem, são gordas porque comem aquilo que dá para comer, né? E acho que tem uma outra dimensão interessantíssima nessa questão também, que é o debate racial, né? Esses cálculos da medicina para o IMC, para definir quem tá dentro do peso, fora do peso, eles foram estruturados a partir de um corpo europeu branco.
E aí os negros ou outros perfis étnico-raciais que não se enquadram nisso são obrigados a pagar um preço dobrado para entrar num padrão que é um padrão que não é seu. Então acho que tem um debate grande. Então vamos levar esse pote do sofrimento com mais cuidado para não sofrer mais do que precisa.
Sem dúvida. Para onde vamos? Para saber às vezes para onde vamos é bom a gente saber de onde viemos, não é mesmo? Que eu acho que é o caso aqui. Obrigada, Michel. Um beijão para você. Até a semana que vem.
A gente vai voltar depois do estúdio CBN para o jogo, né?
Vai, é isso aí. Vai, Brasil!
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