Quando discordar dói: o cérebro, a polarização e o treino da escuta
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Michel Coforado
Fernando Andrade
- Ceticismo e desconfiançaReação do cérebro à divergência · Polarização na sociedade · Impacto das redes sociais · Encontros presenciais · Tempo de fala em debates
Oi, Michel, boa tarde pra você. Boa tarde, Fernando. Boa tarde, Nadédia. Boa tarde, Michel. Michel, hoje a gente vai falar sobre discordar. Quando discordar dói. Em meio à polarização, esse assunto é ótimo. O que acontece com o meu cérebro quando ele reage a uma divergência? O que acontece?
Então, é bom a gente se acostumando, porque tudo indica que esse ano, em tempos de eleições, isso já acontece, porque as eleições existem em qualquer lugar do mundo para isso. A sociedade temporariamente se divide, a gente discorda em relação ao nosso projeto de país, a percepção de mundo.
E depois, teoricamente, o ideal numa democracia é que a gente volte a repactuar a sociedade, volte a fazer os acordos e aí você vai lidar de alguma forma ou de outra com alguma convergência em termos de visão de mundo, porque a gente precisa aceitar o jogo eleitoral.
Mas olha, o problema não está só no campo das eleições, se acentua nessa época, mas está na vida cotidiana. Cada vez mais a gente tem se sentido mais incômodo em ter que lidar com visões diferentes de mundo. E olha que interessante, saiu uma pesquisa na Universidade Alemã de Freiburg mostrando que dificuldade é essa que nós temos quando nos vemos diante de uma opinião contrária. Os neurocientistas fizeram um levantamento interessante mostrando o seguinte.
Primeiro ponto, quando você se vê diante de uma opinião contrária, você tem um comportamento do teu corpo, do teu cérebro, como se você estivesse numa atividade ou num momento de risco. Então eles botaram eletrodos em vários pesquisados e aí começaram a perceber diante de um debate como é que as pessoas reagiam quando estavam de frente para uma opinião contrária às suas. E aí a sensação era a mesma, era a sensação de risco.
Então, o pedaço do cérebro que se reage mais fortemente quando a gente está diante de uma situação que parece de risco, agia da mesma forma. Se aquela sensação que a gente tem no estômago, quase como se fosse uma angústia ou mal-estar, era fruto também desse funcionamento do nosso comportamento, mesmo corporal, diante de um momento como esse, o corpo reagia como se a gente estivesse em um momento de risco.
Mas tem um segundo elemento interessante também, que eu gostei a beça de ver nessa pesquisa, que falava do esforço cognitivo, que é um esforço energético e até calórico. Toda vez que você se vê diante de uma opinião contrária à sua, você precisa de mais tempo e de mais esforço do teu corpo para entender o argumento do outro.
Porque primeiro você é obrigado a ouvir, depois você analisa o que o outro está falando, depois você pensa ou compara o que aquela opinião está se aproximando da sua, está se distanciando. E aí você tem um esforço enorme para conseguir, mesmo diante de uma visão de mundo diferente da sua, entender o ponto do outro.
E como nós, como animais, somos seres preguiçosos, a gente foge de um negócio do outro, a gente foge de risco e foge também desse esforço para entender o outro. Só que qual é o ponto, Fernando e Nadedja? É que, do mesmo modo que a forma como a gente vive pode reinventar a forma como o nosso corpo se comporta...
a gente pode também acentuar alguns problemas. E isso funciona para exercício, né? A gente tem uma tendência a acumular energia no nosso corpo, a ganhar gordura. Então, toda vez que você sai de casa e pensa em se exercitar, o teu corpo fala, não, vamos dormir mais cinco minutinhos, mais cinco minutinhos.
A mesma coisa se dá nessa questão da opinião diferente do outro. Toda vez que você se vê diante de uma opinião contrária, o teu movimento natural é dizer, não, não, vou ficar aqui na minha. E as redes sociais, elas têm intensificado esse processo de acomodação diante da tua própria visão de mundo, da tua própria forma de pensar. Não é novidade?
que os algoritmos das redes sociais e das plataformas digitais tendem a apresentar para você um conteúdo que você gosta. E o conteúdo que você gosta é o conteúdo que confirma a tua visão de mundo. Então, quanto mais online a gente fica, quanto mais preso às plataformas digitais a gente está, mais reforçando esse lugar de aversão a risco ou de incapacidade de entender o ponto de vista do outro, a gente fica também.
Então, a nossa dificuldade com o outro que pensa diferente da gente é cada vez maior e tem doído muito por conta da acentuação dessa tendência que já era nossa. Mas eu tive agora... Falei no comentário passado, na quinta-feira.
que eu estava nos Estados Unidos, em Harvard, e aí participei de uma série de debates sobre o impacto das tecnologias na nossa vida e todos esses aspectos. E um pesquisador brasileiro, que é até conhecido aqui na CBN, na Globo News, que é o Felipe Nunes, ele vem discutindo muito sobre esse elemento da política, que ele vai chamar do território da calcificação.
E o Felipe agora está pesquisando, ele é um cientista político, como a gente pode sair disso. E dois elementos são interessantes porque servem aqui para a gente também.
O primeiro que o Felipe falou, e que eu concordo nas suas análises, é que uma saída importante é a gente começar a ter cada vez mais encontros presenciais do que encontros digitalizados. Por quê? Porque quando você está encontrando presencialmente com alguém, tem uma dimensão do empoderável, do empoderável que é fundamental em qualquer encontro.
Então, a chance de você encontrar mais pessoas que discordem de você é maior. E isso vai te mostrando, pouco a pouco, que o fato do outro pensar diferente de você não é risco e vai te dando também uma certa musculatura cognitiva para lidar com opiniões diferentes.
Então, volta a encontrar o pessoal. Eu sei que toda vez que a gente fala disso, o pessoal que adora o home office, eu também adoro, fica chateado pensando, meu Deus, mas por que eu tenho que voltar pra firma? Não tô falando só de voltar pra firma. Tô falando de fazer exercício na academia, que você vai ver o fulano que pensa corpo de um jeito diferente do seu.
fazer, voltar pro trabalho se tiver que voltar, ir no médico, mas ir no médico ao vivo lá no consultório, porque você vai só ver na sala de espera lá do consultório, você vai lidar com outras dimensões de contato. Então, volta pra vida física, pra poder ficar mais aberta a novas visões de mundo.
Mas tem um segundo aspecto interessantíssimo que ele traz, que eu gostei muito, que é a ideia do tempo de fala. Ele mostra que uma das nossas principais sensações em relação a esse risco, ou essa dificuldade de olhar o ponto de vista do outro, é quando você está num debate que só um fala.
Então, se você está num debate que só os homens falam, se você está num debate que só as mulheres falam, se você está num debate que só os velhos falam, se você está num debate que só os novos falam, se você está num debate que só um tipo de gente fala, a sensação de polarização, mas, sobretudo, a nossa dificuldade de entender o ponto de vista do outro, aumenta. Então, vamos controlar aí, parar a beça para falar, mas também para ouvir que o negócio vai melhorando pouco a pouco.
Eu tenho dificuldade, Michel, de manifestar a discordância das pessoas, mais do que o contrário. Por outro lado, eu discordo muito de mim. Eu mesmo penso negócio e eu mesmo penso nosso nada a ver. Que treta. Mas olha, isso não está em você só não, tá, Nadete? Eu acho que isso também, numa cultura como a cultura brasileira...
é mais forte do que em outros lugares. Você vai, sei lá, para a Argentina mesmo, não precisa nem ir longe. Os nossos irmãos têm uma facilidade de discordar e de expor o seu próprio ponto de vista com uma facilidade infinitamente maior do que a gente. Aqui no Brasil, diante de uma opinião contrária, para evitar o conflito e o risco, não que a gente não tenha a capacidade de analisar o ponto de vista do outro, mas para evitar, sobretudo, o conflito e o risco de se ver exposto.
pela discordância, faz com que a gente tenda a ficar quieto. E não resolve não, né? Não se abre nem a escuta. A escuta que é difícil. Queria dar até um passo atrás, porque você falou que a gente acaba fugindo muitas vezes, mas muitas vezes a gente nem sequer escuta. Não abre nem a escuta. E não tem diálogo.
É, e olha que legal, boa parte das vezes, como no ambiente digital, ou mesmo quando você vai participar de um momento de exposição pública das suas ideias, você precisa estar preparado, você acredita que não pode chegar lá só no lugar e contar o que você está pensando, o que o outro está pensando, e expor como a gente faz, sei lá, no avô de domingo de casa, na casa da vovó.
Você está sempre muito preparado, né? Então, quando vocês abrem aí o microfone, vocês sabem muito bem o que vocês vão falar, vocês têm um tópicos que vão ajudar você a contar as histórias. Fale por você, hein? Mas, e aí, ou mesmo quando vocês estão entrevistando esse monte de gente interessante que passa aqui pelo Estúdio CBN, você tem a tua pauta de perguntas. Sim. Não é o caso de vocês dois, que são hábeis, profissionais?
Mas, em geral, quando a gente está muito preparado para uma conversa, a gente está mais preocupado em qual vai ser a minha próxima deixa, ou minha próxima fala, do que escutar o que o outro está falando. Isso é comum. Então, escuta é um ponto importantíssimo, porque permite que a gente analise o outro na sua outra idade. O que eu estou falando com isso? O outro que está falando o que está falando, ele não é estúpido, né? Ele está falando o que está falando porque ele tem suas razões.
E aí isso cobra um desenvolvimento cognitivo um pouco maior, porque você vai ter que olhar nas entrelinhas, vai ter que ler a movimentação corporal, vai ter que ler o tom de voz, vai ter que entender de contexto, vai ter que entender um bocado de coisa a mais do que só aquilo que ele falou.
E aí, treino, treino. E na TED, olha, você não concorda com você sempre, mas eu tô sempre concordando contigo. Então, por favor, você já tem chancela Michel Acoforados, chancela Fernando Andrade, bola pra frente. Ó, um ouvinte aqui, o Manuel é motorista de aplicativo.
Ele diz que, por causa da profissão, ele conhece, conversa com gente de toda bolha, todo gênero, todo gosto e jeito de pensar. Ele acha uma terapia. E eu gostei que ele falou. Ele tem a oportunidade de saber o que os outros pensam sobre qualquer coisa e dele mesmo conhecer e saber o que ele pensa, né? Porque a partir disso ele tem que pensar o que ele acha disso.
É, então, esse é que é o jogo. Eu adoro conversar com motorista de aplicativo, de táxi, porque a visão, quando eles não estão fechados em si mesmo, a visão de mundo deles é riquíssima, né? E esse é um movimento interessante. O fato de você encontrar várias pessoas ao longo do dia...
não te faz mais cabeça aberta. Agora, você tem que ter uma predisposição e estar ali disponível para entender que aquele outro que está no banco da frente dirigindo ou está no banco de trás sendo levado de um canto a outro, tem de uma outra história de vida, tem uma outra forma de pensar e pode te ensinar algo sobre a vida que você não conhece. Então, o outro pode ser uma escola também, né? Se a gente estiver aberto para a escuta, como o Fernando colocou.
Por que a inteligência artificial que está, digamos assim, por trás das redes sociais não me dá um conteúdo que eu discordo? Por que ela acha que eu vou fugir dela só porque ela me dá um conteúdo que eu discordo? Porque os aplicativos e as plataformas digitais foram pensados basicamente por dois caminhos que são o avesso de todo esse papo que a gente está tendo aqui hoje.
Primeiro ponto é que elas são time consuming, elas são matadoras de tempo. Eu usei a expressão em inglês porque é assim que os aplicativos usam rotineiramente. Elas são matadoras de tempo. Você está lá parado naquele momento de tédio, para que serve um aplicativo? Você abre qualquer coisa para tentar matar o tempo.
E matar o tempo é viver em si mesmado dentro de si mesmo, para ser redundante. É você olhar ali só para você, sem nenhum contato com o outro. Então, dentro desse movimento, por si só, ela já te prende à tua própria visão de mundo.
Mas tem um segundo aspecto importante. Não importa se a gente está falando de um serviço sendo vendido ou dado ou oferecido pelo aplicativo ou na rede social, que é a autoajuda. A gente está ali para resolver ou para confirmar alguma coisa que é do nosso dia a dia.
E aí, a gente, para achar um aplicativo bom, é quando aquele aplicativo corresponde às nossas expectativas. Então, você acha o aplicativo de transporte, né? Motorista aí, de um quanto a outro. Bom, quando ele te oferece um táxi ou te oferece um carro que combina com você. Se ele começar a te mandar um carro que você não gosta...
Você vai lá, dá nota baixa, ele vai dizer Ih, Fernando não gosta desse carro. Aí ele vai confirmar só o tipo de coisa que você gosta. A mesma coisa pro conteúdo nas redes sociais. Quando você curte alguma coisa, compartilha alguma coisa, manda naquele aviãozinho lá do Instagram, alguma coisa pra alguém, a plataforma vai entendendo que aquele é um tipo de conteúdo que você gosta.
O que é interessante, só que reforça, né? Uma única... Estou aberto ao contraditório. A Iá vai muito nessa linha também, né? Se você falar, olha, tô pensando em assaltar um banco, ela vai falar, nossa, que ideia criativa pra angariar mais patrimônio. A Iá é bem burra.
É, ela é. Você sabe que no outro dia vi um teste maravilhoso de alguém perguntando assim pro chat GPT, e o print era lindo. Era, chat GPT, eu tô a 100 metros do lugar onde lava carro. Você acha que eu devo ir de carro a pé? E aí o chat GPT falou, vá a pé, vá a pé, porque vai ser ótimo. 100 metros é pouco. 100 metros é pouco.
Você toma um ar, você não paga de preguiçoso. Então o que eu tenho pra dizer é o seguinte, se ficar só preso dentro da própria bolha, vai ficar burro e colchado GPT. Então se abre, se abre é o novo. Só lendo aqui mais uns ouvintes, mais uns com as profissões que propiciam essa troca de ideias, né? Teve um ouvinte que falou que é técnico em telecom, então ele entra na casa da pessoa, né? E aí são pessoas de várias realidades diferentes. É o Juliano.
E também a Elisabeth falou que se identificou que ela tem amigos que são monólogos. Então, você fala uma coisa, a pessoa nem ouve, já começa a debater com ela mesma, sem interação. E aí, normalmente, é uma pessoa que já tem opinião sobre tudo, enfim.
Aí a gente até dá uma boa vontade no começo. Depois você liga o modo stand-by aí da televisão, sabe? Você fica perto da pessoa fingindo que tá vivo, mas tá morto. Às vezes também vale a pena. Michel, mais uma vez obrigado. Um grande abraço e até a próxima. Um beijo. Beijo na dédia. Beijo, Fernanda. Até quinta. Tchau, tchau.