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Com a inteligência artificial, o medo de errar virou o maior obstáculo

03 de junho de 202614min
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Álvaro Machado Dias discute como a inteligência artificial está transformando o processo de iniciar projetos, negócios e ideias.

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Participantes neste episódio1
Á

Álvaro Machado Dias

HostEspecialista
Assuntos2
  • Medo de substituição pela IACusto da primeira versão como filtro de ideias · IA derruba barreiras de custo e habilidade técnica · Disposição para colocar coisas imperfeitas no mundo · Perfeccionismo como estratégia equivocada · Thomas Curran · Carol Dweck · Erro como informação vs. veredito de valor
  • Criatividade e Gênios CriativosIA como ferramenta de sugestão e incorporação · Criatividade baseada em repertório cultural · Autoria e apropriação de ideias geradas por IA · Teresa Amabile · Efeito IKEA · ChatGPT
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?Voz B

Oi, Álvaro, boa tarde!

ÁMÁlvaro Machado Dias

Muito boa tarde!

?Voz B

Hoje com Álvaro a gente vai falar de algo assim bastante simples que a inteligência artificial tá mudando e que a gente vai parar para pensar hoje, que é a nossa existência. A hora de começar, hora de começar um trabalho, hora de começar um negócio, hora de começar um projeto, te desengavetar, dar o primeiro passo numa coisa nova, pode estar sendo bem mais fácil e bem mais estranho ao mesmo tempo. Com a inteligência artificial ficou mais barato e mais rápido É começar, dar esse primeiro passo. Álvaro, como é que isso mexe com quem tem vontade de começar alguma coisa?

ÁMÁlvaro Machado Dias

Olha, eu acho que é o seguinte: primeiramente, a gente tem que entender que algo muda de maneira importante, tá? Então mexe mesmo, não é simplesmente palavras ao vento, esse papo todo que a gente escuta por aí. E eu acho que o que mexe mais é onde está o gargalo. Uma ideia meio estranha, mas eu explico. Durante toda a história, começar um negócio ou uma iniciativa qualquer sempre esbarrava no custo da primeira versão. Ou seja, dinheiro para um protótipo, gente para fazer, sei lá, um website, tempo para descobrir se a ideia poderia valer a pena, se tinha mercado ou recepção, mesmo pensando do ponto de vista daquilo que não se tem caráter comercial, se uma iniciativa ressoaria.

Esse tipo de custo sempre funcionou como verdadeiro filtro, matando as ideias antes delas surgirem. Quer dizer, as ideias até aqui, elas eram muito mais insights divertidos ou então grandes empreendimentos. A IA derruba quase tudo isso. E o recurso escasso deixa de ser esse capital para começar e a própria habilidade técnica. E ele passa a ser uma disposição nova, que é uma disposição para colocar coisas imperfeitas no mundo. Eu acho que esse é o ponto, sabe?

A gente tem que estar confortável com a imperfeição. A Sara Szafrski, que estuda como empreendedor experiente decide, ela mostrou que ninguém que consegue fazer alguma coisa que dá certo no longo prazo começa com um plano perfeito. Sempre rolam muitas camadas de adaptação. E o que acontece? Essas camadas hoje em dia estão muito mais acessíveis. Só que, por outro lado, do ponto de vista psicológico, a coisa acaba sendo um pouco mais solitária, porque justamente você tá fazendo algo com pouca grana, com pouco apoio de outras pessoas, sem time.

Então você tem que, enfim, ter essa autoconfiança, essa capacidade de pegar os cacos no chão e fazer de novo. Eu acho que é isso que mudou. Se antes o Gargalo era muito mais de capital e técnico, hoje ele é muito mais emocional.

?Voz D

E aí justamente muita gente não quer começar porque quer que tudo já esteja perfeito de primeira. Isso a inteligência artificial costuma conseguir resolver bem. Então dá para dizer que a IA muda o tipo de pessoa que se dá bem começando do zero? Floresce um outro perfil nessa fase da IA?

ÁMÁlvaro Machado Dias

Eu acho que sim. Eu vejo o perfeccionismo como assim a pior estratégia possível na nossa época e justamente realmente é o traço que vem mais crescendo. Tem um estudo recente que, aliás, me inspirou até a sugerir esse tema, que é o seguinte: o Thomas Curran, ele reuniu 3 décadas de dados e ele achou um aumento de 33% no perfeccionismo, nas mais variadas áreas. E o que ele mostrou é que, conforme o mercado de trabalho é percebido como mais exigente, conforme a insegurança econômica aumenta, tudo isso que tá ligado hoje em dia à inteligência artificial, mais as pessoas se blindam na perfeição, ou seja, maior o medo de errar.

E competir com a IA na precisão é tipo competir com a calculadora em fazer conta com a cabeça, entende? Não é a competição mais inteligente. Então eu vejo que assim tem um custo escondido aí no perfeccionismo que é esse que bloqueia as pessoas. Elas empacam na página em branco na expectativa de fazer alguma coisa que vá ser melhor. E aí o que acontece é que esse perfil acaba muito mais travado hoje em dia do que o perfil contrário, que é o que tem menos medo de errar.

Tem uma pensadora muito importante no campo da inteligência artificial chamada Carol Dweck, né, não só da inteligência artificial, em geral da modernidade, e ela faz uma distinção que eu acho que é importante. Ela separa o erro como informação e o erro como veredito de valor. Então assim, o erro hoje em dia ele pode ser usado como informação de maneira muito mais eficiente do que no passado, onde ele era simplesmente aquele carimbo de que você falhou, você deu errado.

E aí tá a história, se você tá preso ao perfeccionismo, o carimbo vem. Se você não tá, tem mais chance de você conseguir dar a volta por cima.

?Voz B

Álvaro, quando a gente fala em criatividade, quando a primeira ideia vem de uma inteligência artificial, uma sugestão da máquina, Bom, ela não dá sugestão sem que a gente peça, certo? Essa sugestão é nossa ou a gente é só um divulgador de uma sugestão que nos foi dada a partir de um comando específico?

ÁMÁlvaro Machado Dias

Essa discussão é muito, muito, muito, muito, muito interessante. Depende, mas não é nada tão relativo assim. Por exemplo, eu tô escrevendo um texto. Nesse texto eu preciso de um conceito para definir alguma coisa. Eu peço para máquina fazer algumas sugestões, eu incorporo e sigo. Isso é meu, não tem a menor dúvida. Até porque, historicamente, a criatividade nunca veio do zero, nunca existiu esse papo de que as ideias surgem porque nós temos inspirações, conexões com o universo.

Não, as ideias vêm porque existe uma base cultural, existem coisas que você leu e eventualmente até esqueceu do ponto de vista consciente, mas que estão formando o repertório e fazem com que as as coisas surjam à mente tal como se elas tivessem vindo dessa conexão holística, né, global. Ou seja, tudo vem de algum lugar. Mas vamos pensar num outro caso: você tá precisando mandar um email para alguém com uma explicação sobre algo, você pede para a IA fazer e joga lá e aperta o botão.

Definitivamente, aquelas ideias, aquela estratégia de comunicação e tudo mais não é sua. Então, as coisas se separam. Como que eu acho que a gente tem que pensar na nossa vida? Em geral, quando a gente está falando de criatividade, a gente está falando das coisas que interessam, não é a respostinha criativa no e-mail, é aquilo que gera uma identificação, que você acha que faz sentido. E aí vale o primeiro modelo, ou seja, de que essa ideia romântica de criatividade vindo do âmago da mente é bobagem.

E aí a máquina não faz com que as ideias deixem de ser nossas. Elas são tão nossas quanto quando a gente lê alguma coisa e repagina, redefine a partir do nosso ângulo, dos nossos interesses. Quer dizer, não creio que a autoria passe do humano para a máquina. Tem uma autora muito bacana chamada Teresa Amabile, que estudou criatividade a vida inteira, tá? E ela define o criativo como a contribuição que a gente faz para tornar uma ideia mais nossa.

Eu gosto dessa ideia, mais ou menos isso, tá? É um pouco mais complexo, mas é isso. Eu gosto da definição porque ela sai da lógica de que você precisa ter um "aha moment", como se fala em inglês, um momento einsteiniano de redefinição de tudo. Não, você pivota um pouquinho e aquilo parece que faz sentido dentro do que você está pensando, do que você está querendo fazer, e a ideia se torna uma ideia sua. É um efeito que na Europa é chamado de efeito IKEA, né?

Porque IKEA sempre, como Tokstok e outras dessas marcas, sempre despachou móveis para você montar em casa com uma certa liberdade. Essa liberdade faz ele ter a tua cara e aquilo ser seu do ponto de vista inclusive contributivo.

?Voz B

Eu tava agora falando aqui com a Nadedja, vai sair hoje a minha coluna na Mina Bem-Estar, em que conecto ali 2 ou 3 pensamentos e faço perguntas para o ChatGPT a respeito de como destruir o marcado. Essas ideias não são minhas, são do ChatGPT, que obviamente é letrado e foi muito bem treinado por mim. Porque aí não tem como, né, Álvaro, dissociar uma coisa da outra, certo?

ÁMÁlvaro Machado Dias

Posso fazer um comentário? Claro. Olha só, eu concordo, mas estruturalmente discordo. As ideias são do ChatGPT e você explicitamente está dizendo— eu faria com o Claudio, tá? Ele é muito melhor em respostas textuais e inteligência emocional muito mais alta, mas Mas isso é um detalhe. As ideias que você está colocando, como assim, as referências da IA, evidentemente são as referências da IA. E nesse caso elas são como citações de autores, não há nenhuma intenção de se apropriar disso.

Mas a ideia mais ampla de colocar em debate o tema a partir da inteligência artificial para trazer um panorama que você possa dizer: olha, não sou eu que que estou dizendo, mas sim essa média do pensamento humano, essa ideia é sua. Então é uma iniciativa autoral? É. Agora ela traz elementos de fora? Sim, como basicamente todas as iniciativas autorais. Que eu acho que é a mensagem que a gente tem que passar para quem está nos escutando.

Essa ideia de que você vai fazer uma coisa com a AI e ela vai deixar de ser genuína, que você vai perder o contato com a autoria, que não é mais seu. Isso daí é um pouco, vamos dizer assim, antiquado e também enviesado, porque desde sempre isso foi feito. A gente tem que se permitir, sabe, arriscar com a IA e se apropriar do que interessa.

?Voz B

Perfeito, perfeito.

?Voz D

E aí, para quem está em casa, no carro, ouvindo a gente—

?Voz B

Ah, desculpa, o realzinho é péssimo.

?Voz D

É porque o AI ficou em inglês, né? English Artificial Intelligence. É, para quem tá nos ouvindo, Álvaro, querendo começar alguma coisa nova, tá com medo, o que que a gente ainda vai aprender sobre começar nessa nova era?

ÁMÁlvaro Machado Dias

Eu acho que a principal coisa é que o medo estava grudado à coisa errada, é tipo, a atribuição do medo tava errada. Acho que esse é o principal ponto, tá? Porque a vida toda a gente foi ensinados a terer o começo imperfeito, achar que o risco era você fazer e dar errado, que um rascunho era no fundo uma obra, não dava para consertar. Ou seja, é aquela lógica da escola, da nota no final, aprovado, reprovado, e assim por diante, né, do fracasso ou do sucesso.

E a gente tem que ser honestos, em muitos domínios da vida é assim mesmo, de fato é assim, inclusive na própria determinação da sua profissão, se você, né, passou no exame pré-vestibular ou não, e assim por diante. As coisas funcionam desse jeito. Mas o que a gente vê hoje em dia é cada vez mais que o medo ligado ao recomeço, ele vai se mostrando no domínio da criatividade, da capacidade de inovar, de empreender e tudo isso, equivocado.

E o verdadeiro medo que a gente precisa ter é de não fazer. Não fazer eventualmente por ter uma barra muito alta, expectativas muito altas em relação a nós mesmos, ou o senso de que a gente não tem como descobrir O que precisa ser feito? Então, na prática, eu quero começar um negóciozinho pessoal, eu não tenho grana, eu estou aqui fazendo freelance, mas eu sinto que tem algo que interessa. Como é que eu faço para saber qual é esse mercado, se tem interesse, se eu devo botar o preço X ou Y, criar um website, arriscar uma primeira ideia, fazer um protótipo?

Tudo isso exigia no passado consultorias, custos altos, etc. e tal, e hoje você pode fazer com inteligência artificial, que não vai tirar a autoria da sua ideia, o medo não vai fazer você amá-la menos. O medo tem que estar em você não fazer. Essa eu acho que tem que ser a verdadeira preocupação na nossa era.

?Voz B

Perfeito. Álvaro Machado Dias está conosco toda quarta-feira em Visões do Futuro. Obrigada, Álvaro, por hoje. Até a semana que vem.

ÁMÁlvaro Machado Dias

Eu agradeço muito vocês duas, todo mundo que nos acompanha. Foi um prazerzão essa conversa.

?Voz D

Até lá.

?Voz A

Até.

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