Em meio a novo tarifaço dos EUA, Brasil e China reforçam parceria estratégica
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Tatiana
Marcelo Ninio
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CBN Pelo Mundo, quinta-feira. É dia de ir à China conversar com Marcelo Ninho. Oi, Ninho, tudo bem?
Oi Tatiana, tudo bem? Temperatura amena aqui em Pequim, felizmente.
Falava para o Marcelo fora do ar que eu sempre acho mágico conversar com alguém que está no futuro. Vamos ver como é que Marcelo na China está colhendo de informação a respeito dessa nova tarifa imposta, esse novo tarifácio imposto pelos Estados Unidos a produtos brasileiros, porque essa tarifa tem não só O aspecto, o impacto econômico óbvio, mas também uma, também óbvia repercussão na política externa. Uma delas pode ser aproximar o Brasil ainda mais de países que se opõem às medidas americanas, sobretudo a China, né Marcelo?
É isso mesmo, Tatiana, mas só um comentário sobre o futuro aqui na China, o que torna tudo mais complexo e interessante é porque tem aqui o passado, o futuro e o presente tudo ao mesmo tempo, né? Perfeito. Mas olha, é sobre esse novo tarifácio e o aspecto político-econômico. Talvez vocês ouvintes se lembrem, em agosto do ano passado, quando o Brasil foi atingido pelo tarifácio dos Estados Unidos, aquele tarifácio de 50%, um dos primeiros gestos da política externa brasileira foi um telefonema do presidente Lula para o presidente da China, Xi Jinping.
Aquela conversa, que aliás aconteceu a pedido do presidente Lula, foi uma forma, uma primeira forma do Brasil mostrar que tem parceiros poderosos, né, que para enfrentar o protecionismo dos Estados Unidos. Foi esse o relato do Itamaraty na época. E discutir possíveis respostas conjuntas, né. O Brasil tem parceria, não só parceria bilateral, também é integrante do BRICS junto com a China. Então tem esses mecanismos. Agora, dessa vez, por coincidência, o anúncio desse novo tarifácio, né, de 25% dos Estados Unidos sobre produtos brasileiros, aconteceu quando o chanceler do Brasil, Mauro Vieira, tava aqui em Pequim numa visita oficial.
E nas conversas dele com o governo chinês, que eu tentei acompanhar na medida do possível, porque muitas das conversas são fechadas, a maioria, né, a gente tem acesso restrito ali ao começo, ao fim. O tom era esse, né, o tom era o mesmo, de resistir aos ataques ao multilateralismo e combater o protecionismo que eles veem nas ações dos Estados Unidos. E inclusive o ministro de Relações Exteriores da China, Wang Yi, que é uma figura influente por aqui, disse que os dois países devem se unir para rejeitar os desafios externos.
Que não foi citado nominalmente os Estados Unidos, mas é uma referência óbvia aos Estados Unidos. Então, o interessante é que, Tatiana, há pouco tempo, né, o presidente americano Donald Trump teve encontros que foram considerados amistosos e bem-sucedidos, né, tanto com o presidente Lula em Washington quanto com o presidente Xi Jinping aqui recentemente em Pequim. Agora, do ponto de vista de aproximação, de parceria estratégica, claramente Brasil e China neste momento estão na mesma página.
Eles veem essas ações do governo americano como um desafio, talvez o desafio principal da política externa. E nos bastidores, o que eu ouvi ali na conversa com a comitiva do ministro Mauro Vieira era exatamente por aí, assim, como se proteger do unilateralismo americano. E o novo tarifácio americano só aumenta o incentivo e esses pontos em comum para que a China e o Brasil se aproximem ainda mais.
Os Estados Unidos dedicam sessões inteiras daquele documento que lista os países e os motivos pelos quais eles serão tarifados, entre eles o trabalho análogo à escravidão, e cita a China, né, ilustra como os insumos da China entram na cadeia global e segundo o relatório americano acaba driblando a proibição americana por meio de outros países. E aí a China seria punida numa triangulação comercial, por causa da sua triangulação comercial com outros países.
Mas voltando à sintonia política, porque além disso tem o aspecto econômico também, obviamente, da parceria do Brasil com a China ou da parceria com a China que interessa ao Brasil deixar ainda mais forte. Queria te ouvir um pouco disso, sobre isso, Marcelo, como é que a gente pode perceber no Brasil o efeito prático disso?
É, exatamente, Tatiana. Na véspera da chegada do chanceler Mauro Vieira aqui a Pequim, teve um anúncio importante. As autoridades sanitárias da China anunciaram o reconhecimento do Brasil como país livre de febre aftosa, o que permite ampliação da venda de carne para o mercado chinês, de carne brasileira para o mercado chinês. Quer dizer, era uma negociação que já se arrastava há mais de 20 anos. Então, portanto, foi considerada uma grande vitória pelo governo brasileiro.
Claro que em diplomacia nada, e principalmente em se tratando de política externa e de diplomacia chinesa, nada é coincidência. Os chineses calcularam o timing, quer dizer, o momento desse anúncio para que ele fosse vinculado à presença do chanceler brasileiro aqui e para oferecer um resultado favorável da visita, né? Inclusive, o presidente Lula destacou essa gangorra entre a relação com os Estados Unidos, do Brasil com os Estados Unidos, num discurso naquele mesmo dia dizendo que ao mesmo tempo que o governo americano dificultava as exportações brasileiras com esse novo tarifácio, a China tava abrindo mais o seu mercado para carne brasileira.
É claro que há um elemento político aí, e um elemento político oculto, não tão oculto assim, que é a eleição presidencial no Brasil desse ano, né? O governo chinês tá preocupado com uma possível mudança que possa estragar, digamos, a relação no momento excelente que tem com o ao governo brasileiro, se for eleito um candidato de oposição que seja hostil a Pequim. Então, enquanto tenta oferecer alguns resultados que possam ajudar o presidente Lula, ajudar as exportações do Brasil, a economia do Brasil, o governo chinês ao mesmo tempo mantém uma descrição que é típica da diplomacia chinesa, para também não chamar atenção demais.
É, tanto é que uma reunião, a reunião da principal comissão, principal mecanismo de diálogo entre China e Brasil, que deveria acontecer esse ano em Brasília, deve ficar para depois da eleição, deve ficar para o ano que vem talvez, por causa dessa relutância da China em não chamar atenção demais para essa boa relação entre o Brasil e China. Então, jogo duplo. O chanceler Mauro Vieira, inclusive, na visita que ele fez aqui essa semana, convidou o vice-presidente chinês a ir ao Brasil para, ainda esse ano, para esse encontro.
Mas dificilmente isso vai acontecer. Os chineses preferem manter uma posição de cautela, não só pela eleição no Brasil, também para não criar atritos desnecessários com os Estados Unidos, né, que afinal o Brasil é importante, mas a principal preocupação, principal relação da China é com os Estados Unidos. Agora, esse adiamento ou esse cancelamento temporário, suspensão dessa reunião bilateral entre o Brasil e China não quer dizer que a relação entre os dois países esfriou.
Pelo contrário, tá a todo vapor. Toda semana praticamente tem uma delegação brasileira aqui. Um exemplo entre muitos: na terça-feira da semana que vem, Tatiana, acontece uma reunião econômica dessa, justamente dessa comissão bilateral. Então as coisas, o diálogo continua e aliás no mesmo dia vai ser aberta uma super exposição do pintor Cândido Portinari aqui no Museu Nacional em Pequim, que é o museu mais importante da China. Então além do valor cultural tem obviamente um simbolismo político. Tatiana?
Perfeita, perfeitamente. Marcelo Ninho diretamente de Pequim no nosso CBN Pelo Mundo, toda quinta-feira aqui no estúdio do CBN. Obrigada, Ninho. Até a próxima. Até a semana que vem.
Até a próxima.
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