Episódios de Comentaristas

'O Brasil hoje é samba, futebol e PIX'

05 de junho de 202610min
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Em Pelo Mundo, Bruna Santos explica qu nova tarifa de 25% imposta pelos Estados Unidos ao Brasil faz parte de uma estratégia de pressão para levar o país à mesa de negociações. Segundo ela, temas como o PIX, propriedade intelectual e barreiras comerciais estão no centro das discussões, mas o governo brasileiro tende a resistir a concessões imediatas.

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Participantes neste episódio2
T

Tati

HostApresentadora
B

Bruna Santos

ReporterDiretora no Inter-American Dialogue
Assuntos3
  • Relação Brasil-EUA e EleiçõesNova tarifa de 25% · Estratégia de pressão para negociações · PIX · Propriedade intelectual · Barreiras comerciais · Governo Trump · Governo brasileiro
  • Plataformas DigitaisInclusão financeira · Comparação com meios de pagamento americanos · Conflitos de interesse · Soberania do dólar · Ativo geopolítico brasileiro · Banco Central
  • Exportações BrasilRisco tarifário · Risco geopolítico · Produtos de alto valor agregado · Cadeias integradas · Perda de margem · Custo de adaptação
Transcrição12 segmentosassemblyai/universal-3-pro-async

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?Voz C

Bruna Santos, diretamente de Washington. Oi, Bruna, boa tarde, bem-vinda.

BSBruna Santos

Boa tarde, Tati, um luxo você aí na Feira do Livro. Adorando, acompanhando.

?Voz C

Legal, você devia estar aqui, viu, dando uma voltinha e tal. A feira é muito legal, muito legal mesmo, tô adorando. Estúdio da CBN tá um sucesso por aqui. Venha, vamos combinar no ano que vem. Vamos falar de tarifácio e negociações, nova tarifa, guerra comercial. E estratégia que o Brasil vai ter que desenvolver para voltar a negociar as mesmas coisas com o governo Trump. Como é que deve ser essa negociação que inclui o PIX, né, Bruna?

BSBruna Santos

Sim, nossa, eu acho que há duas semanas atrás a gente conversou sobre Cuba e você perguntou que ano é hoje, né? Eu acho que realmente a gente está numa toada de intensificação da pressão no Brasil, com o Brasil. E, mas assim, acho que o principal ponto que eu queria trazer é que essa decisão do escritório do representante de comércio dos Estados Unidos, que a gente até já vinha falando a respeito aqui no estúdio, né, quem tava, quem ouve o CBN Pelo Mundo já tava ciente de que essa bomba vinha, ela é, ela tem um fator muito transacional, é uma tática de pressão seletiva para que o Brasil venha para mesa de negociação trazendo uma concessão.

Então acho que um ponto interessante da gente ver é como é, como o Brasil vai querer se tratar daqui para frente. E aí, nesse sentido, eu vejo duas trilhas possíveis. Uma é a trilha político-diplomática, onde o Brasil viria para negociação com o escritório do representante de comércio trazendo uma concessão óbvia dentro daquilo que a investigação tá tratando, né, buscando com isso baixar a alíquota de 25% para um número menor ou incluir uma gama maior de produtos na lista de exceções.

Por que que eu acho que essa possibilidade é pouco factível? Primeiro, porque quando você olha o mérito do relatório, ele tem uma série de falhas. Ele expõe inclusive o teto de vidro americano em várias questões. Por exemplo, quem é os Estados Unidos, que vem tendo resultados muito ruins em combate à inflação, resultados muito ruins em combate ao desmatamento, para olhar para o Brasil e condenar isso aplicar tarifa. Então, primeiro isso, acho que tem um teto de vidro colocado.

Segundo, eu acho que a natureza da tarifa aplicada, por ser 25%, bem menor do que os 50% do ano passado, segundo, deixar de fora uma quantidade muito grande de produtos que são importantes na cesta de exportação brasileira, eu acho que ele gera em Brasília, no governo, uma sensação de menor pressão, menor incentivo para correr para mesa com algum tipo de concessão relacionada à governança do PIX, à questão de propriedade intelectual, que inclusive o relatório ignorou completamente as melhorias que o Brasil fez, e por aí vai.

A outra trilha possível é a que eu venho recomendando assim muito para as empresas que ainda estão afetadas, que são empresas que normalmente produzem maquinário de maior valor agregado, algumas até do agro ainda, né, você tem mel, Você tem o café solúvel, todos os cafés foram isentos exceto o café solúvel. Elas vão precisar fazer o dever de casa e nas próximas semanas, até o dia 1º de julho, olhar e construir um caso para apresentar ao departamento, ao escritório do representante de comércio, dizendo que esse produto é essencial para o mercado americano, esse produto os Estados Unidos não só não tem uma produção suficiente, mas tem um, precisa dos produtos brasileiros.

E eu acho que a terceira tarefa também para essas empresas que estão afetadas é pensar uma estratégia de compliance, de conformidade comercial, que precisa virar uma regra, assim. Os Estados Unidos já colocou, já deixou muito claro que as tarifas vieram para ficar, não é algo que, não é pessoal com o Brasil, tá sendo aplicada para muitos países, inclusive aqui no estúdio eu tava ouvindo vocês falando um pouco antes de eu entrar sobre o fato de que a de 12,5%, que foi a tarifa colocada para países acusados de trabalho forçado, é muito pouco provável que ela caia.

Sim, é muito pouco provável, por quê? Porque ela vem para substituir aquela outra de 10% que foi apresentada lá atrás no tarifaço do ano passado. Então a de 25 realmente tem uma possibilidade, mas ainda tem muitas empresas brasileiras sendo afetadas. Agora, em relação ao PIX que você falou, e eu acho que o PIX é uma questão muito interessante porque eu explico muito o PIX aqui para os stakeholders aqui dos Estados Unidos como uma infraestrutura digital, não como um serviço digital.

Ela é uma infraestrutura importante para o Brasil que gerou, trouxe para a inclusão financeira um número imenso de brasileiros. Acho que comparar o Pix com os meios de pagamento americano é praticamente trocar uma Ferrari por um Fuca, não existe essa possibilidade. Mas eu também acho que existe dentro do grupo que lançou essas investigações uma ideia de que o Pix gera, essa visão deles, tá, gente, conflitos de interesse. O Banco Central, ele não pode, na cabeça deles, ser o regulador, o operador, e eles entendem, do meio de pagamento, e também não podem tratar o Pix como um campeão nacional, gerando prejuízos, portanto, para as empresas de cartões americanas.

O que que eu acho importante da gente levar em consideração? Eu acho que existe uma preocupação americana com a soberania do dólar, com a dificuldade que eles terão talvez, uma vez que se o PIX for exportado além das fronteiras brasileiras, isso virar um ativo geopolítico brasileiro, sim. Mas eu acho também que vem uma questão do Brasil também dizer: olha, é um trabalho do Brasil discutir a governança do PIX. Se há um problema, nós vamos discutir internamente, não é uma questão relacionada aos aos Estados Unidos.

E o que eu acho mais assim quase fascinante é como o timing disso tudo, né? A gente veio ali desde semana passada com a designação de organizações terroristas, depois o anúncio de um novo embaixador para o Brasil, uma pessoa intimamente ligada ao grupo dos americanos cubanos da Flórida, em seguida o tarifácio de 25% logo após a visita do filho do ex-presidente Bolsonaro. Você vem aí uma série de pressões, algumas sendo empurradas por pressão política, outras não, outras simplesmente porque estavam lá rodando e a gente já sabia que iam acontecer. E tocou no Pix, tocou no Brasil. Brasil hoje é samba, futebol e Pix, né?

?Voz C

É isso aí. É bom, isso vai obrigar o Brasil a rever suas relações, né? Sobretudo as suas relações bilaterais. O que é que você vislumbra nesse sentido?

BSBruna Santos

Bom, eu acho, o Brasil já vem buscando a diversificação de parceiros, né? Já vem buscando depender menos dos Estados Unidos como um parceiro comercial, haja vista que, e quando eu digo Brasil não estou falando só o governo, estou falando também das empresas, porque acho que hoje, ao contrário de alguns anos atrás, Os empresários olham para os Estados Unidos como um país de onde vem muito risco, risco tarifário, risco geopolítico e por aí vai.

Eu acho que está todo mundo precificando esse risco hoje dentro das empresas e buscando essa diversificação. Mas um ponto importante de a gente notar é que muitos dos produtos que são exportados para os Estados Unidos são muito difíceis de serem redirecionados. Os Estados Unidos é um parceiro comercial que compra produtos de alto valor, de médio e alto valor agregado do Brasil. Então não interessa você redirecionar o volume e não redirecionar o valor.

Os Estados Unidos é um parceiro que paga bem, ele já tem cadeias muito integradas com produtos brasileiros. Você tem, por exemplo, lá na minha região, no Rio Grande do Sul, empresas que fazem a voltinha aí da porta, portas de madeira, que foram produzidas especificamente para dentro da regulação americana, para o mercado americano, com os detalhes que o mercado americano precisa, você não tem como redirecionar isso. Então acho que é uma preocupação hoje das indústrias pensar que essa ideia de vender para outro não é o mais fácil.

Acho que vai haver sim uma perda, uma perda de margem, vai haver um custo de adaptação dessas empresas. A gente não pode levar isso tem que levar isso em consideração e apoiá-las de alguma forma na sua negociação aqui em Washington com o Departamento do Representante de Comércio para que elas consigam participar da isenção, senão vai haver sim um grupo grande de empresas brasileiras que vai sair prejudicada, né.

?Voz C

Muito bem. Bruna Santos, toda sexta-feira conosco em CBN Pelo Mundo, diretamente de Washington. Obrigada a você, um beijão. E bom, eu vou entrar em férias agora, então até a minha volta. Um beijo, Bruna.

BSBruna Santos

Até sua volta, boas férias, tchau tchau.

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