Episódios de Comentaristas

Poesia musicada

05 de junho de 202619min
0:00 / 19:33
O professor Pasquale fala, diretamente da Feira do Livro no Pacaembu, sobre poemas brasileiros que foram musicados, e sobre o desafio de se fazer esse tipo de produção.

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Participantes neste episódio2
P

Pasquale

HostProfessor
A

Ana Leoni

Co-hostJornalista
Assuntos5
  • Poesia e LiteraturaCarlos Drummond de Andrade · Milton Nascimento · Canção Amiga · Kiko Continentino
  • Mortal LoucuraJosé Miguel Wisnik · Gregório de Matos Guerra · Barroco brasileiro · Usura
  • Imagens de IAMilton Nascimento · Marina Machado · Edu Lobo · Bena Lobo · Pietà (obra de Michelangelo)
  • AzulãoJaime Ovalle · Manuel Bandeira · Maria Lúcia Godói · Murilo Santos · Humberto Werneck
  • Livros banidos nos EUAEscolas cívico-militares
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PPasquale

A nossa língua de todo dia com o Professor Pasquale.

ALAna Leoni

Ele prometeu e ele veio mesmo. Eu gosto assim. Tô falando do Professor Pasquale, que tá aqui com a gente. E a gente tá aqui ao vivo já arrumando. Peraí, já arrumando essa imagem aqui, ó. Pronto, eu tô meio na sombra, mas não, tudo bem, não importa. Vocês têm que ver o professor, não a mim. Oi, professor, boa tarde, tudo bem? Querendo segurar o microfone também pode, fica melhor.

PPasquale

É, tá na altura boa. Tá bom, boa tarde, boa tarde, ouvintes.

ALAna Leoni

Acho que precisa aumentar um pouquinho, professor.

PPasquale

Boa tarde a esse sol horroroso. Que nos mata.

ALAna Leoni

Tá muito, muito quente hoje. Quer dizer, quente não, que o sol vai embora, vai esfriar, né? Sol da Rússia.

PPasquale

Eu vim aqui com um agasalho, eu quero mostrar para vocês.

ALAna Leoni

Levanta mais.

PPasquale

Eu vim com o meu agasalho do Juventus porque estou no— tá aparecendo agora? Mais, mais.

ALAna Leoni

Isso aí.

PPasquale

Eu estou diante do Estádio Municipal Doutor Paulo Machado de Carvalho. Onde meu time brilhou muito nos anos 60, 70, 80, mas não dá para vestir. Vamos lá, tá calor.

ALAna Leoni

Professor Pasquale, hoje vai na mesma toada de ontem, né? Vai falar de língua portuguesa a partir da literatura, traz um pouco de música também, porque senão não é seu quadro, né, professor?

PPasquale

Exatamente, exatamente. E eu quero dizer que eu vinha no carro, que eu vim de carro hoje por causa do horário, vim correndo. E eu vi vocês falando, a Jana falando sobre todas as coisas, proibição de livros e tal. Isso é uma barbaridade. Nós que temos um veículo tão importante, tão fulminante quanto a CBN, nós temos de dizer isso, porque não faz o menor sentido. Em 2000 e quanto que estamos?

ALAna Leoni

26, né? 26 e meio, né?

PPasquale

26 e meio proibir livro. Isso é uma loucura. Ainda por cima, livros brilhantes, né? Por essa coisa doida de escola cívico-militar, essas baboseiras todas. Há um cachorro que faz eco aqui com a gente, mas tudo bem. Vamos lá.

ALAna Leoni

Democrática, né, a feira? Passa todo mundo, todo mundo lê, quase entrevistando o cachorro já, inclusive os cachorros. Exato. Vamos lá, vamos lá, professor. Da onde partimos hoje, hein?

PPasquale

Então, partimos. Deixa eu dizer uma coisa aqui: musicar poema de livro, vamos dizer assim, poema que foi publicado primeiro em livro, poema que não foi feito para ser letra de música, né? Musicar é muito difícil. A poesia tem música, a poesia encerra por si só nos seus versos, no seu ritmo. Eu tive uma professora de literatura na universidade que dizia o seguinte: se vocês quiserem aprender o que é ritmo, vejam o Ademir da Guia jogar. Eu falei dele ontem, né?

?Voz D

Falou, falou.

PPasquale

E ele jogou muito aqui neste estádio. E eu citei um poema do João Cabral chamado justamente Ademir da Guia. O ritmo na poesia tá lá dentro, é só perceber. Muitas vezes o poema tem uma musicalidade que está ali à flor da pele, só que transformar isso em música é difícil. Muita gente tentou e não deu certo. Eu não vou citar exemplos aqui para não ferir suscetibilidades, mas é muito, muito difícil. E eu vou mostrar um caso em que deu muito certo, um poema de Carlos Drummond de Andrade chamado Canção Amiga.

Que foi publicado, salvo engano, nos anos 40. E é um poema belíssimo, por si só ele já seria maravilhoso. E o Milton Nascimento, ninguém mais do que Milton Nascimento, um dia pegou e musicou isso. E Drummond ainda estava vivo. Drummond ficou feliz da vida com o trabalho.

ALAna Leoni

Furioso?

PPasquale

Não, Drummond adorou, adorou, ficou Felicíssimo! E a gente vai ouvir então Canção Amiga, poema de Carlos Drummond de Andrade, musicado por Milton Nascimento. Há uma criança que canta junto com ele que se chama Kiko. Pelas minhas pesquisas, é o Kiko Continentino, que depois virou um grande músico, um grande compositor, e a gente vai até ouvir uma coisa dele depois. Vamos ouvir Canção Amiga de Milton Nascimento e Drummond. Ela vai entrar duas vezes, tá? Primeiro trecho Vamo lá!

?Voz E

Oh, eu preparo uma canção que faça acordar os homens e adormecer as crianças. Oh, eu preparo uma canção que faça acordar os E adormecer as crianças.

PPasquale

Então foi ao contrário, esse era o segundo trecho, é o final da, do poema, né? Eu preparo uma canção que faça acordar os homens e adormecer as crianças. Isso é de uma beleza impressionante, e o Milton consegue dar a isso um andamento que faz todo sentido. A melodia dele abraça os versos de Drummond. Como diz o João Marcelo Bôscoli, não há hiperbibasmos, né? O que que é o hiperbibasmo? É a martelada na Quando o sujeito vai musicar alguma coisa, ou ele mesmo, ele fez letra e música e tal, ele força a sílaba tônica, ele muda a sílaba tônica, né? A sílaba tônica.

ALAna Leoni

O João gosta muito.

PPasquale

João adora esses hiperbibasmos, né? E não há, Milton não faz isso no poema de Drummond, é tudo dentro da linha melódica que o próprio poema tem. Nós temos o primeiro trecho?

?Voz E

Eu preparo uma canção em que minha mãe se reconheça, todas as mães se reconheçam, e que fale como dois olhos. Caminho por uma rua que passa em muitos países, se não me veem, eu eu vejo e saúdo velhos amigos. Eu distribuo segredos como quem ama. Sorri no jeito mais natural. Dois carinhos se procuram. Minha vida A vida, nossas vidas formam um só diamante. Aprendi novas palavras e tornei outras mais belas.

PPasquale

Olha aí o Kiko, com essa voz lindíssima, afinado, menino. Nossa Senhora! Eu preparo uma canção em que minha mãe se reconheça. Todas as mães se reconheçam. Eita, nós!

ALAna Leoni

Vamos lá, professor, respira.

PPasquale

E que fale como dois olhos. Caminho por uma rua que passa em muitos países. Isso é bonito demais, né, professor?

ALAna Leoni

Não chora que eu choro também, pô.

PPasquale

Uma rua que passa em muitos países. Se não me vejam, se não me veem, eu vejo e saúdo velhos amigos. É isso, chega que eu não aguento mais.

?Voz E

Meu Deus do céu, tô Muito bom, professor, muito bom.

ALAna Leoni

Você não pode fazer isso comigo, não?

PPasquale

É nas nossas mães que já se foram.

ALAna Leoni

Que devem estar lá agora olhando: "Ai, os dois palhaços ali chorando no rádio, olha lá." Foi isso que elas ensinaram para nós.

PPasquale

Então, esse Kiko Continentino, que é o menino que tá aí, é coautor com Milton Nascimento e Bena Lobo. Bena Lobo é filho do Edu Lobo, é um grande compositor, cantor, de uma canção que está num disco antológico chamado Pietà, de 2002. Pietà é o nome daquela obra de Michelangelo que está lá no Vaticano, né? É uma coisa absurda. Quem já viu, viu. Quem não viu, dê um jeito de ver. É impossível, é proibido morrer sem ver.

ALAna Leoni

Aqui pode não ver o Papa, mas tem que ver a Pietà.

PPasquale

Tem que ver a Pietà. É um negócio assim, meu Deus. Meu Deus, né? E a música se chama Imagem e Semelhança, que não tem a ver com nenhum poeta de livro que virou tal, mas é que é como o coautor é o mesmo, né, o cantor da canção Amiga. Essa canção tem muito a ver com o que tá acontecendo hoje, né, nessa usurpação da figura de Deus, da figura de Jesus, né? Muito diabo falando em nome de Deus, né? Pobre Deus. Então vamos ouvir Imagem e Semelhança com Milton Nascimento e Marina Machado. Vamos lá.

?Voz E

Imagem e semelhança. Não, meu Pai do céu, não posso acreditar. Não dá, não dá. Alguém inventou essa balela. A gente não merece de longe comparar. Falta de respeito no começo, nem se acha um herdeiro na glória de amar. Veio o seu filho, salva a terra. Santo sacrifício, alguém mereceu, será?

PPasquale

O entendedor meia palavra basta.

ALAna Leoni

E bonito também, bonita.

PPasquale

Quem inventou essa balela? A gente não merece de longe comparar. Falta de respeito no começo. Nem se acha um herdeiro, embora tantos por aí se digam autodeclarados, se autodeclarem os enviados. E por aí vai. Agora a gente vai passar por uma outra canção e a gente volta. Eu citei essa canção ontem, Azulão. Lembra que eu disse a melodia é do Jaime Ovalle, um grande músico brasileiro, citado, por exemplo, por Bandeira, num poema dele, Bandeira, que se chama Poema Só para Jaime Ovalle.

Esse só com dois sentidos: poema exclusivamente para ele e poema só de solidão. "Hoje quando acordei ainda chovia", e por aí vai, né? Lá pelas tantas ele diz que ele se deita novamente e fica pensando humildemente, pensando na vida e nas mulheres que amei. E ele dedica o poema a esse grande músico biografado pelo grande Humberto Werneck. Maria Lúcia Godói vai cantar pra gente "Azulão", que é do Bandeira a letra, melodia do Jaime Ovalle. Quem tá tocando o piano é Murilo Santos. Vamos lá.

?Voz E

A cunha ingrata diz que sem ela o sertão não é mais sertão. O Ivo Azulão vai contar, companheiro, vá.

PPasquale

A voz da Maria Lúcia Godói é um absurdo. O piano do Murilo, o poema do Bandeira, que retrata uma ave brasileiríssima, o azulão, e pede que esse azulão vá levar para ingrata determinada mensagem. O Jaime Ovalle musica isso lindamente, maravilhosamente, e nós temos Nós temos aí a junção de uma obra-prima musical com uma obra-prima literária. Para encerrar, nós temos tempo?

ALAna Leoni

Temos 2 minutos, professor.

PPasquale

2 minutos. Então, para encerrar, a gente vai ouvir o queridíssimo José Miguel Wisnik, que musicou um texto de ninguém mais, ninguém menos do que Gregório de Matos, Gregório de Matos Guerra, o Boca do Inferno. Poeta do Barroco brasileiro, poeta baiano. O texto se chama Mortal Loucura. Prestem atenção no texto, vejam o trabalho musical do Zé Miguel e o trabalho poético do Gregório com o que ele faz nas estruturas de cada verso. Vamos lá.

?Voz D

Na oração que diz a terra, a terra, quer Deus que a quem está o cuidado dado pregue que a vida é emprestado estado. Mistérios mil que diz um terra, um terra, quem não cuida de si quer terra. Eja, que o alto Rei, por afamado, amado, é quem lhe assiste ao desvelado, lado. A morte ao ar não desaferra, aferra, quem do mundo a mortal loucura cura, a vontade de Deus sagrada, graça.— firmar-lhe a vida em atadura, dura, ó voz zelosa que dobrada, prata, já sei que a flor da formosura, usura, será no fim dessa jornada, nada.

PPasquale

José Miguel Wisnik é professor de literatura da Universidade de São Paulo, é um grande músico, pianista, cantor, letrista. E ele pega esse poema do Gregório. Você percebeu que em todos os versos, né? Na oração que desaterra a terra, quer Deus que a quem está o cuidado dado pregue que a vida é emprestado estado. Mistérios mil que desenterra em terra. Há sempre uma palavra final que está contida na palavra anterior. Quem não cuida de si, que é terra, erra, né?

Que o alto rei, por afamado amado, é quem lhe assiste ao desvelado lado. E por aí vai. E lá pelas tantas já sei que a flor da formosura, usura, que é um tema muito comum na obra do Gregório, ele senta o pau na questão da usura, né? Do usurário, que é o sujeito que se vale da do dinheiro para extorquir outros, né? Empresta e cobra juros extorsivos e tal. Então eu aconselho a audição completa do que tá chegando aqui, o nosso Werneck.

ALAna Leoni

Paulo Werneck apenas trouxe sorvete.

PPasquale

Meu Deus do céu, tá tudo bem nessa feira? Uma delícia, né? Ter esse solzinho gostoso. Vamos tomar um sorvetinho. Trouxe aqui para o professor de crocante de macadâmia, um sorvetinho para você também, Tati.

ALAna Leoni

Obrigada, Paulo.

PPasquale

Obrigado.

ALAna Leoni

Já falamos do seu pai hoje, hoje, e citamos você também.

PPasquale

Citei o Jaime Ovalle, né, cuja biografia seu pai Humberto Werneck fez brilhantemente, e você dirige este evento aqui com brilhantismo de sempre.

ALAna Leoni

Obrigado, Paulo. Assim vou ficar mal acostumado, vou querer voltar ano que vem fazer isso daqui, porque o diretor da feira vem trazer cerveja para a gente.

PPasquale

É mole ou o que mais? É isso.

ALAna Leoni

Muito bem, vamos degustar nosso sorvete agora enquanto a nossa audiência acompanha as notícias mais importantes do dia.

?Voz E

Voltamos já. Rede CBN, top de 5 segundos.

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