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Ambivalência relacional: quando ficar dói e terminar também

07 de junho de 202612min
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Medo do vazio, dependência emocional e anos de história compartilhada podem manter pessoas presas a relacionamentos que já se tornaram fonte de sofrimento, diz Rossandro Klinjey.

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Participantes neste episódio2
P

Pétia

Host
R

Rossandro Klinjey

ConvidadoPsicólogo
Assuntos3
  • Relacionamentos DisfuncionaisMedo do vazio · Dependência emocional · História compartilhada · Sofrimento em relacionamentos · Mito de Sísifo
  • Importância de saber sairFicar sufoca · Sair é quase impossível · Medo da ausência · Antes que você me destrua
  • Expressão pessoal e terapiaDiagnóstico do sofrimento · A importância do profissional · Cuidado com falsos terapeutas
Transcrição18 segmentosassemblyai/universal-3-pro-async

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PPétia

O divã de todos nós, com Rossandro Klinger. Meu amigo Rossandro Klinger, boa tarde, Rossandro!

RKRossandro Klinjey

Boa tarde, saudade de você, minha amiga, meu Deus do céu, saudade de você!

PPétia

E me conta, qual que é— temos até trilha sonora—

RKRossandro Klinjey

qual que é o tema do quadro de hoje, querido? O quadro de hoje é esnobe, ele é internacional, é With or Without You, ou com ou sem você. Engraçado, porque essa música escrita pelo U2, né, ela tem 8 palavras que descrevem um dos estados mais exaustivos que existe dentro do relacionamento, né? Que eu não posso viver com ou sem você. É aquele momento em que você fica numa sinuca de bico, né? Que você não tem— é uma coisa que talvez, não sei se você conhecia essa frase na infância, se correr o bicho pega, se ficar o bicho come.

?Voz A

Totalmente.

RKRossandro Klinjey

Como se tivesse uma saída. E isso não é uma fraqueza da pessoa que tá na relação desse jeito. Isso é as armadilhas do mundo, da vida real, das relações como elas são. Na psicologia, a gente vai chamar isso de ambivalência relacional, que é justamente esse estado que tá entre os dois caminhos que doem. São dois caminhos dolorosos: ficar sufoca porque a relação já desgastou, o diálogo cessou, o respeito já se foi. Né, mas ao mesmo tempo a relação é nesse processo, ela foi perdendo o ar, o espaço também deixou de existir, diálogo, a leveza e a alegria, o contentamento que um dia existiu também foram soterrados.

Mas ao mesmo tempo a pessoa pensa que sair é quase impossível, e não porque o amor acabou necessariamente, mas porque a pessoa do outro lado foi ocupando tanto espaço interno dentro de você Que a ideia da ausência dessa pessoa parece muito maior do que a de ficar com ela. Dá para entender? Eu vou repetir para o ouvinte não achar que eu tô viajando aqui, né? Ou seja, a pessoa do outro lado, ela ocupou tanto espaço. Aquela pessoa com quem você casou, tá relacionando-se com ela, ela tem tanto dela dentro de você que a ideia da ausência dela parece, parece doer mais do que ficar com ela.

E você fica nesse momento até que a balança pese para um dos lados. Né? E aí chega um ponto, e é lamentável quando isso acontece, porque o ideal é a gente poder não esperar que esse ponto chegue, porque geralmente esse ponto em que a balança pesa do tipo: tá tão insuportável ficar com você que agora, mesmo com medo de ficar sem você, eu vou sair. Quando chega nesse ponto, gente, aí já tá tendo desrespeito, desgaste. Se tiver filhos no meio, essa relação tá contaminando com metástases e todas as pessoas envolvidas nesse processo.

É um estado que caracteriza, que ela é muito cruel na verdade, porque paralisa justamente quando você mais precisa se mover. Pessoa fica num looping, decide sair, recua, depois fica, sufoca. O tempo desse é como se fosse um intervalo de tempo em que você não tem resolução. Lembra muito, sabe, Pedro, o mito de Sísifo, que tem que rolar pedra lá para cima, chega lá com esforço, a pedra rola para baixo de novo, ele volta novamente, um ciclo vicioso em que algum momento ou ele esmaga a pedra ou a pedra esmaga ele, na metáfora que a gente tá fazendo aqui dessa relação que ficou nesse "shove no more", né?

PPétia

Totalmente difícil, né, Rossandro? Porque como você falou, né, parece um limbo. E qual é o momento em que, ou como que é o trabalho que se deve fazer internamente nesse limbo para conseguir superar? Porque você vai descrevendo, me parece muito como se fosse quase como uma doença psíquica, né? De uma— é isso, é uma— a gente tem talvez até uma certa, não sei se essa palavra correta, mas uma compulsão pela pessoa, porque a gente não consegue largar, né?

Como se fosse um vício, como se algo que a gente não consegue se desprender, mas a gente sabe que precisa se desprender. Então você fica e amarrado, né, atado a um sentimento.

RKRossandro Klinjey

Exatamente, Petra. Eu acho que um dos primeiros movimentos que a gente tem que fazer, eu acho que isso não somente em relação a isso que a gente tá falando, mas em relação toda carga de dor que a gente vive, é entender que o primeiro movimento é um movimento diagnóstico. Que o que tá prendendo uma pessoa nesse lugar quase nunca é só o amor, é dependência emocional, é um medo danado do vazio, é uma identidade que foi construída dentro de uma relação, às vezes anos de histórias que pesam mais do que a dor do presente, filhos, conexões.

Memórias, sair parece que é um desperdício. Como é que eu vou abrir mão de tudo que a gente construiu até aqui? E você fica naquela conta, né? Aí ficar também é desperdiçar você, é desperdiçar o que você ainda pode viver, porque você pode. Que esse ponto, você chega nesse ponto quando você tentou reverter a crise, você tentou recuperar em nome de tudo que se construiu, mas nada aconteceu. Ou por culpa de um dos lados, ou por culpa de ambos, não é o caso, a conta não vai fechando.

E aí você começa a ficar naquela: mas tem tanta coisa construída, a gente tem tanta história, foi tão bonito, por que que agora eu vou sair? Primeiro passo não é necessariamente então a decisão, então é nomear o que tá acontecendo. Porque enquanto o sofrimento ele não tem nome, ele fica difuso, ele não tem objetividade, você não consegue mover-se, é como se você tivesse numa névoa. Sabe, em que a decolagem para o novo momento não pode acontecer porque o aeroporto fechou e você não consegue ter visibilidade para onde vai.

Também você não pode, você chega num ponto, e fazendo metáfora de quem vem aeroporto, é isso mesmo, né, chega um ponto você não pode nem taxiar, ou seja, não pode nem andar com aeronave porque tá tão, né, com tanto nervoso, você pode bater no outro. E acontece, você bate, a relação vai ficando mais desgastante, e aí O que que acontece? Dói com você, dói sem você também, mas isso não significa que as dores são iguais. Uma passa, que é a de: se não dá mais, eu vou ter que sair, essa dor vai passar.

Agora, a dor de continuar numa relação que tá desgastada, essa permanece, você continua nela. Mas não é uma escolha que eu vou fazer pelo ouvinte, ou terapeuta que tá atendendo você vai fazer por você, ou sua amiga, o seu amigo, não. É uma escolha que você que sabe o quanto você aguenta, em que momento passou do limite e que você tem que sair. Então, às vezes, as pessoas que estão ao nosso redor ouvindo a nossa queixa, esse "chove não molha" que passa a ser irritante para quem tá como telespectador, muitas pessoas perdem a paciência, meio que nos "abandonam", e a gente vai ter que entender que é porque, no fundo, no fundo, é que uma escolha só nossa.

PPétia

E, Rossandro, sabe que eu fico pensando nesse processo? Também tem um outro lado, né? Não é de uma hora para outra, porque a gente— eu lembro até do meu primeiro livro, no Escute o Silêncio, que eu também trago você com uma pensata incrível sobre escuta e silêncio. Mas no primeiro livro tem uma conversa com a Monja Cohen e ela me fala uma coisa tão forte, Rossandro, que é o seguinte, em relação à meditação, tá? Mas eu quero falar em relação à mente, a nossa psique.

Ela fala assim: você Não mergulha numa piscina de 8 metros sozinho, sem um instrutor. A mesma coisa você, você não pode fazer também da mesma forma um processo de mergulhar na tua psique sozinho, né? É importante que você mergulhe com profissional. E quando você tem uma situação como essa, desse limbo psíquico, de não conseguir ficar, mas também não conseguir sair, é claro que você tem uma chave importante que precisa ser talvez olhada de perto, não só com um amigo, mas com profissional, porque é um mergulho na psique muito profundo para você conseguir se libertar de determinado relacionamento.

Então não é de uma hora para outra, não é falência sua se você não consegue sair, não é isso, Rossana?

RKRossandro Klinjey

Não, não, de jeito nenhum. Encontrei uma mulher no aeroporto, ela me contando sobre uma história pessoal da vida dela, e ela falando que depois de 8 anos ela Porque, por exemplo, tem hora que a relação vem uma dor muito grande, uma traição, uma coisa mais significativa. Mas tem relação que ela vai morrendo por pequenos gestos de abandono, e você vai meio que se acostumando como um caranguejo que tá naquela água que vai fervendo, e só quando tenta pular já tá quente demais.

Então às vezes você parece que não tem uma coisa para registrar, mas você soma os registros, é algo mais doloroso do que uma coisa um evento mais cataclísmico no relacionamento. E ela falou disso, eu disse assim, aí eu finalmente consegui sair, Rossandro, antes que algo pior acontecesse. Eu disse assim para ela, você saiu antes que ele te destruísse. E até eu fiquei com essa coisa na cabeça, sabe, Pétrea? Antes que você me destrua.

E eu fiz uma coisa com isso, e breve vou contar aos ouvintes. Guardem essa frase na cabeça: antes que você me destrua. Porque vem uma coisa com isso aí. Baseado no que a gente conversa aqui muito também.

PPétia

Oi, oi, tô te ouvindo, Rossandro, pode falar.

RKRossandro Klinjey

Então, quando você disse que a gente não pode fazer esse mergulho sozinho, eu penso numa outra questão também, Petra, é que muita gente hoje tem se dito terapeuta sem a formação necessária para isso. E, por exemplo, tem uma pessoa que faz um curso de psicologia, ou a psicanálise mesmo, que é um curso de 6 anos diário, E tem muita gente fazendo formação de 1 ano online. E aí você também tem que se perguntar com quem você vai mergulhar, porque senão essa pessoa pode lhe afundar junto com ela.

PPétia

É isso mesmo. Isso é muito importante de ser frisado, Rossandro.

RKRossandro Klinjey

É muito, muito mesmo, porque a gente vive esse movimento das pessoas ficarem buscando uma profissionalização online rápida de processos que levam anos. E que existe um apuro técnico, ético, que as pessoas muitas vezes não têm. Mas é uma escolha que cada um faz da vida, né? Mas pelo menos você do outro lado se pergunte quem você tá indo entregar a sua mente.

PPétia

Muito, muito importante. E saiba, é um mergulho sério, profundo, que precisa ser feito com pessoas capacitadas, como o Rossandro fez aqui pra gente. E é essa a nossa grande bandeira, inclusive no Revista CBN, há tantos e tantos anos trazendo e fazendo essa curadoria de vozes de lucidez, de pessoas que tenham aí um caminho profundo e fidedigno nesse trabalho real da mente, no estudo e no trabalho também com as pessoas, como é o meu querido Rossandro Klinger.

Querido, adorei hoje a nossa reflexão e importante esse tema para quem está passando por essas dificuldades em relação aos seus relacionamentos e conseguir se libertar muitas vezes de relacionamentos não tão saudáveis. Um beijo para você, saudades.

RKRossandro Klinjey

Também beijo, Pétia, beijo, ouvintes.

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