Adolescência não é mais sinônimo de rebeldia?
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Fernando
Michel Alcoforado
- Adolescência e Mudanças ComportamentaisVisão tradicional da adolescência · Mudanças no comportamento jovem · Influência cultural na adolescência · Margaret Mead e Samoa · Adolescência como invenção pós-guerra
- Dificuldades econômicas na juventudeInfância cada vez mais curta · Licença poética da adolescência · Mudança de transgressão para desencanto · Cansaço e exaustão geracional · Medo do futuro e do mundo · Tédio e sensação de repetição · Apatia na produção de sentido
- Palantir e o TecnofascismoVigilância total e consequências · Shoshana Zuboff · Capitalismo da Vigilância · Controle de comportamentos · Medo de transgredir
- Desafios da juventude e educaçãoPapel dos pais na adolescência · Importância de colocar limites · Contextualizar erros · Viver é errar · Pequenas transgressões constroem
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Para onde vamos com Michel Alcoforado. Oi, Michel, boa tarde.
Boa tarde, Fernando, tudo bem?
Tudo bem. Você foi um adolescente rebelde?
Mais ou menos, mais ou menos. Era estranho, isso tava garantido. Eu era um adolescente estranho, era um adolescente de onda, sabe? Teve um momento que eu achei, sei lá, que vai virar vegetariano. Tem outro momento que eu achei, será que é virar budista? Eu era assim, um jovem estranho.
Tá, mas é uma característica.
Os meninos em casa, como é que estão? Tão rebeldes?
Tão rebeldes. Tanto é que essa conversa que é fundamental— aumenta o volume aí, Janaína, que a gente precisa falar sobre isso. É, sim, há uma rebeldia. O pai também foi meio rebelde. Aí me ajuda, é característica da juventude uma fase rebelde?
É, é, isso é bem interessante. Eu quis trazer esse tema aqui porque a gente sempre, quando olha para o processo de maternagem, de paternagem, ou seja, a maneira como a gente pensa ou cria as crianças, e quem tem filho aí sabe disso muito bem, a gente gosta de naturalizar algumas coisas que não são naturalizáveis porque são frutos ou produtos da cultura. É bem interessante porque a gente gosta de acreditar que há uma linha muito clara que vai passando de uma fase a outra e automaticamente os nossos filhos vão adotando novos comportamentos a partir da passagem do tempo por si só, como se o reloginho biológico automaticamente cobrasse um novo comportamento.
O que fica muito claro, e vários antropólogos já estudaram isso ao longo da história, é que interessa pra gente pensar essa passagem do tempo sempre através das lentes da cultura. Porque a cultura tem um papel importantíssimo de moldar o que a gente espera do outro, o que cada fase tem de peculiar em relação às outras. Então, adolescência não é fruto só do aparecimento dos hormônios ou da chegada da puberdade. A adolescência é um período onde a gente começou a achar que os jovens podiam fazer determinadas coisas que as crianças não podem, os adultos também não podem mais.
E o que que tem sido observado aqui? Tem um estudo muito legal dos anos de 1950 de uma antropóloga americana chamada Margaret Mead. E a Margaret Mead vai pros Samoa, que era um grupo social muito diferente das sociedades ocidentais, e ela vai reparar que os jovens lá, quando estavam no chamado período da adolescência, eles eram calmos, tranquilos, não tinha nenhuma rebeldia. E a Margaret Mead vai entender que aquilo que a gente pensa como adolescência, como uma fase de transgressão e rebeldia, era fruto da maneira como nós, ocidentais, pensamos esse movimento.
E que essa ideia de juventude e rebeldia, ou a de adolescência colada com transgressão, era uma invenção sobretudo do pós-guerra. A minha avó, que nasceu em 1929, ela, quando tinha, sei lá, 13, 14, 15 anos, ela não teve esse período onde a sociedade achou que ela podia transgredir e tava tudo bem. Essa é uma invenção do pós-guerra. Sobretudo quando esses jovens que vão sair ali daquele período, né, de muita— eu posso dizer de uma perspectiva muito positiva em relação ao futuro, vão começar a contestar todas as formas ou os padrões que estavam dados pelas gerações anteriores.
E aí, se isso está diretamente conectado à cultura, se está diretamente conectado aos nossos valores, o que a gente não pode esquecer é que não tem só um jeito de ser adolescente. Tem jeitos possíveis de ser adolescente.
Agora tem uma questão que é— caiu? Não, não, tá aqui, tá aqui. Não, eu queria te ouvir porque crescer ficou cada vez mais lento, né?
Então ficou. E olha que interessante, ficou mais lento, ficou mais rápido. Por que que ficou mais lento? Ficou lento porque ficou— vou começar pelo rápido primeiro. Ficou rápido porque a infância parece cada vez mais curta. Quem compara, né, por exemplo, hoje os jovens de hoje, as crianças de hoje com crianças do passado, um menino, sei lá, com 8, 9 anos já começa a ter um monte de vontade que as crianças de 8, 9 anos não tinham.
É uma conversa comum entre os pais que as crianças estão cada vez querendo mais coisas ou com mais poder de decisão, ambicionando isso cada vez mais cedo. Por quê? Porque o que vai marcar essa entrada na adolescência são as primeiras tentativas de negociação no campo da autonomia, da liberdade, da independência. É o pessoal que vai começar a achar que só porque cresceu um pouquinho pode decidir que roupa vai usar, o que vai comer, onde vai encontrar com os amigos, o que vai fazer.
Isso só acontecia por volta, sei lá, dos 13, 14, 15 anos. E agora, bem mais jovem, bem mais cedo isso aparece. Só que depois que os jovens entram nessa chamada adolescência, eles não saem nunca mais, né? Eles querem ficar nesse lugar pra muito, pra todo sempre. E o que a adolescência tem de diferente? Ela oferece uma licença quase poética da sociedade pra você fazer coisas sem ter que pagar pelas consequências do jeito que a gente pagava antes.
Ou que você vai pagar, por exemplo, na fase adulta. Então você pode usar uma roupa que ninguém na fase adulta pode usar e a gente aceita porque você é adolescente. Você pode dar um xilique assim, né, que ninguém suportaria numa fase adulta, porque a gente aceita que você tá na adolescência. Você pode fazer uma pequena transgressão, sei lá, na escola, e a gente vai justificar esse comportamento como comportamento da adolescência.
Só que o pessoal tá entrando, sei lá, nos 20 anos aí, na casa dos 20 anos, achando que pode contar ainda com essa licença poética que a gente confere aos adolescentes. Mas o que que tem sido observado também em uma matéria super interessante na BBC de Londres sobre o caso europeu, mas revela aqui alguma semelhança com o caso brasileiro? Mostrou. E a tal da adolescência que tava muito colada com a transgressão agora tem sido mais associada a um certo desencanto que se reflete nos comportamentos, na maneira como lida com o mundo.
Então, sei lá, se adolescente era tentar burlar os horários que os pais colocavam para voltar da balada, os jovens agora dessa adolescência urbana, metropólis, de classe média, de grandes cidades, né, quando a gente tá olhando pro Brasil, o menino tá preferindo e a menina ficar em casa. "Ah, não vou sair pra balada não, vou ficar aqui no meu computador, no meu videogame." Um outro elemento interessante é que se a adolescência tinha uma certa transgressão em termos de uma descoberta do próprio corpo, ou mesmo de uma entrada no campo da sexualidade, agora eles estão retardando cada vez mais a entrada nesse campo.
Então, há uma mudança importante nessa transformação. Então, o que tem se dado aí dentro desse novo campo é adolescência muito colada a um certo desencanto diante do mundo. Por quê? Por causa de 4 fatores. Primeiro é que esses jovens se dizem muito cansados, né? Quem tem aí filho em casa fica chocado, porque você fazia um bocado de coisa, tinha estágio, tinha faculdade, tinha escola, tinha que ajudar o pai e a mãe em casa. E aí você olha pro seu filho que só estuda, E ele diz: "Mãe, pai, tô muito cansado." Então, cansaço e uma certa exaustão é um elemento que atravessa essa geração.
Segundo ponto interessante é um medo, né? Um medo diante desse mundo onde a gente não sabe no que vai dar e nem sabe se vai ter mundo ainda. O terceiro ponto interessante, que é decisivo também nesse certo desencantamento dos jovens, é um tédio, assim, uma sensação de que a vida, ela, apesar de tudo e apesar de todas as novidades, parece a mesma figurinha repetida. E aí isso impacta na relação deles com o mundo. E o quarto, que eu acho que é um atravessador fundamental, é um certo, uma certa apatia diante da produção de sentido da vida.
Assim, sonha um pouco, né, e deseja um pouco diante desse mundo. Então esse negócio tá gerando aí uma reinvenção do que que é adolescência.
Michel, deixa eu pegar uma questão sobre A rebeldia, quando a gente compara uma rebeldia nesse pós-guerra que você citou, que eu achei bem interessante, você ficava no anonimato, poderia ficar no anonimato. Hoje, qualquer tipo de rebeldia, eu me lembrei porque você falou de questão de escola, então quando você vê um rebelde na escola, faz alguma caca, certeza que a direção vai lá, vai pegar as imagens e tal, e vai denunciar esse cara, e aí vai ter uma baita de uma consequência, etc. e tal. Isso acontece em todo lugar, por causa da vigilância total que a gente tem.
Não à toa, uma—
Pode falar.
Isso é tão importante, Fernando, que você tá trazendo, que não à toa há uma série de estudos sendo produzidos agora para pensar que tipo de vida é essa onde a gente está sendo vigiado a todo momento.
Pois é, como é que eu vou me rebelar se eu vou ser caguetado pela câmera que fica aqui do meu lado?
E tem um, acho que um aspecto interessante que tem transformado também, porque como as crianças estão entrando cada vez mais dentro da mais rápido dentro da adolescência. E a gente tem oferecido mais direitos a esses adolescentes do que a gente não oferecia no passado. E ao mesmo tempo tem cobrado mais responsabilização. O que tem ficado muito claro é que toda vigilância tá diretamente conectada a uma punição de um jeito que a gente não via no passado.
Então, tamo vigiando mais esses jovens e a gente tá lidando com uma falha não só como um erro, mas como algo que fosse capaz de engolir toda a identidade ou toda a trajetória de um jovem num único fato. Então, pra não lidar com o problema de errar, eles estão deixando de agir. E aí, isso tá transformando a forma como a gente pensa adolescência e juventude no Brasil. E no mundo de uma maneira geral. Eu ia citando aqui, né, eu sou incapaz de falar o nome dela porque é um nome dificílimo, mas é Xoxoxoboff, uma coisa parecida com essa.
Mas é uma autora, professora de Harvard, muito importante, que tem um livro que é um livraço assim, um canelá, é quase um livro daqueles que pesa 1kg, que você pode usar como arma se você precisar, se chama Capitalismo da Vigilância, que essa professora, se você for capaz de dizer aí, eu vou te dar o prêmio de voltou de férias mais inteligente do que foi. Eu passo, chama Capitalismo da Vigilância, e ela vai mostrando que inventamos o modelo de sociedade Onde não só a gente tá todo momento olhando para todos os outros e vigilando o comportamento dos outros, mas tanto usando isso também como forma de controlar esses novos comportamentos.
E aí fica com pouco espaço para rebeldia. Que que eu tenho medo? É gente que não transgride na idade que podia transgredir, vai querer transgredir depois, né?
Ah, é verdade, é verdade. Não faz isso na hora certa.
É, e aí a emenda em geral tá ficando pior do que o soneto.
É isso. Ah, Xoxana nos devidos lugares.
É Xoxana. E aí, tranquilo.
A era do capitalismo da vigilância, de vigilância. Aí perdemos o rebelde Michel.
Exatamente. Xoxana Zuboff, gênia.
Então tá bom. Então vamos lá, é para a gente finalizar. Não tem mais espaço para rebeldia na data correta, na era correta, na fase correta?
É essa que é a grande dificuldade. Aí o que eu diria é como a gente fica de olho nesses jovens, obviamente cumprindo o teu papel enquanto pai, enquanto mãe, de colocar limite, de dizer não pode, de colocar gravidade, de cultuar de cada ato, de contextualizar um erro. Mas entendendo também que viver é errar e que bom que tem fases da vida que a gente pode errar, erros que são típicos da nossa idade, que não são graves, mas nos constroem enquanto indivíduos, né?
Dão contorno para nossa subjetividade, inventam quem a gente é. Então vigia, mas vigia entendendo que uma raladinha no joelho nessa hora faz você mais forte do que se não fizer, né? Então não tô falando de nada absurdo, né? Porque os jovens agora estão meio alucinados também. Mas é pequena transgressão, sabe? Fulano marcou 10 horas, chegou 10:30. Faz seu papel de pai dizendo: olha, tem que chegar às 10 horas. Mas entende também que chegar 10:30 faz parte dessa transgressão, né?
Não adianta nada você enfiar um aplicativo no celular da criança, ficar acompanhando cada passo desse garoto, preocupado se ele vai chegar, atazanar a vida dele, não deixar ele chegar meia hora como se fosse um problema gravíssimo, faz só nos entendendo que as coisas vão voltar para o lugar.
Perfeito. Michel Coforado, Michel, mais uma vez obrigado pela participação aqui. Até quarta, um abraço.
Quarta-feira, um beijo, tchau tchau.