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Concierge amoroso de IA: a terceirização do desejo e suas implicações

08 de junho de 202619min
0:00 / 19:46
Carol Tilkian comenta sobre as consultorias amorosas feitas por inteligência artificial. A psicanalista destaca os principais impactos desse tipo de utilização da IA para os relacionamentos humanos. Ouça.

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Participantes neste episódio2
C

Carol Tilkian

HostPsicanalista
F

Host
Assuntos3
  • Exposição sobre Jorge AmadoTerceirização do desejo · Implicações para relacionamentos humanos · IA namorando por você · Dating burnout · Medo de não ser suficiente · Lógica do desempenho nos relacionamentos · O encontro com o real vs. repetição calculável · Amor no desencaixe
  • Brasileiros solteirosJovens solteiros usariam IA na vida amorosa · Encontros com IA · Esgotamento com aplicativos de namoro · Apagar faltas nos relacionamentos
  • Psicologia e PsicanáliseO desejo e o gozo no intervalo · A angústia diante da falta da falta · Amor como tolerância à frustração · O milagre de fazer a falta do outro preciosa
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?Voz B

CDN Amores Possíveis com Carol Tilguinha. Oi Carol, boa tarde para você, bem-vinda.

CTCarol Tilkian

Boa tarde, Fê, boa tarde ouvintes, bem-vindo esse nosso apresentador internacional, te queremos. Obrigado.

?Voz B

Obrigado, obrigado, Carol. Bom, hoje a gente vai falar sobre uma— ai, fica também— vamos lá, uma consultoria amorosa feita por inteligência artificial.

CTCarol Tilkian

Existe mais do que consultoria.

?Voz B

Me conte mais então, pode falar.

CTCarol Tilkian

Eu travei para vocês?

?Voz B

Não, não, tá perfeito, tá perfeito.

CTCarol Tilkian

É mais do que consultoria, e nessas horas é me dá um ataque cardíaco. Para o mundo, que eu quero descer essa semana de Dia dos Namorados, que quem tá solteiro tá carente. É um concierge, quer dizer, alguém que faz o recrutamento. É quase como se você contratasse uma empresa de RH e falasse: olha, pega aqui meu aplicativo, recruta aí os homens ou as mulheres, bate papo com eles, Faz a seleção, conversa bastante, e aí quando você fizer essa peneirada toda, me devolve 2 que vale a pena eu tomar um vinho.

?Voz B

Peraí, você tá terceirizando o Xaveco?

CTCarol Tilkian

Terceirizando o Xaveco? A escolha é o Papinho, porque não é só que esse serviço tá dando match para você, ele está conversando com as pessoas. Então já queria saber aqui Abrindo a coluna, quem tá ouvindo a gente, que tá cansado de papo que não vai para frente, de começar se relacionando com gente que achava que era incrível e depois fala: nossa, essa pessoa não tinha nada a ver. Se vocês pagariam para terceirizar, para inteligência artificial encontrar, bater um papo e fazer um primeiro filtro de candidatos a um encontro amoroso E se vocês terceirizariam, em que que vocês acham que a inteligência artificial ajudaria?

Eu tô trazendo isso, e isso não é algo do Black Mirror, aquele seriado da Netflix, ou de um futuro distópico. Isso já é um serviço que vem sendo oferecido por aplicativos de namoro para incentivar os usuários a pagarem assinatura desses aplicativos. Então a gente tem uma pesquisa do Business of Apps que mostra que hoje em dia a gente tem 350 milhões de pessoas usando aplicativos e só 23 milhões, ou seja, menos de 10% dessas pessoas pagam pelos serviços premium.

Então a receita tá caindo nesse ano, agora 2025, recuo $6 bilhões de dólares. A gente tem cada vez mais pessoas vivendo o que a gente chama de dating burnout, do burnout dos aplicativos, pessoas que tendem a entrar e sair dos aplicativos em menos de um mês porque elas ficam cansadas. E para tentar trazer essas pessoas de volta para os aplicativos, O que que esses novos serviços estão oferecendo? Uma IA que namora por você. Então você não precisa mais falar com 600 pessoas.

Isso se chama o dating concierge. E aí, para a gente não achar que isso é só loucura de americano que tem essas ideias doidas, tem dados de Brasil. Então tem uma pesquisa da CNN com a Tec Tudo que foi feita esse ano E 76% dos jovens solteiros, ou seja, gente, 7 em cada 10, quase 8 em cada 10 solteiros, dizem que usariam a inteligência artificial na vida amorosa. E 6 em cada 10 topariam um encontro com uma IA. Quer dizer, a gente junta esses dados com outro dado que mostra 8 em cada 10 brasileiros se diz esgotado dos aplicativos e 3 em cada 4 apagam o aplicativo no primeiro mês.

A gente tá exausto, a gente tá vivendo sozinho, tá se sentindo insuficiente. Eu fiz uma pesquisa, semana que vem eu vou trazer dados exclusivos dela de como brasileiro tá vendo o amor, e já trazendo um dado inédito aqui. Hoje o maior medo do brasileiro em relação às suas relações amorosas não é ser traído, ser largado, é não ser suficiente. Se a gente pensa que o maior medo é não ser suficiente, eu poder ter uma inteligência artificial que vai falar por mim, e aí eu acho que ela vai ter frases mais interessantes do que as que eu falaria, que ela vai saber Ser sexy sem ser vulgar e ser profunda, mas também ser leve e ao mesmo tempo fazer perguntas que já entendam direitinho o que eu quero.

Porque é isso que a IA vende, né? A IA te conhece tão bem que ela vai saber o tipo de homem ou mulher que você está procurando e vai otimizar todo o seu tempo. E aqui, por que eu quis trazer essa pauta? Porque eu acho que esse serviço Ele fala sobre 3 sintomas que a gente precisa trabalhar. Primeiro é a terceirização do desejo, depois é a necessidade de suprimir o mal-estar, e terceiro é a gente viver na lógica do desempenho, onde todo laço amoroso é um projeto a ser otimizado.

Não posso perder tempo, tem que dar certo. E é exatamente isso que o concierge se coloca, né, como uma ferramenta de otimização dos encontros. Só que o que eu quero provocar é: quando eu terceirizo para uma IA a conversa com alguém ou a escolha com alguém, eu não tô potencializando os encontros, eu tô me defendendo. Dos encontros, porque no encontro o outro vai fazer uma pergunta que eu não sei responder direito. E ainda, vamos supor, ainda que esse concierge faça toda a filtragem, aí você vai marcar o vinho com a pessoa, que que você vai fazer?

Ficar com seu celular aqui embaixo da mesa para que o seu IA continue te falando o que perguntar?

?Voz B

O conteúdo que foi discutido não foi você.

CTCarol Tilkian

Exatamente. Ou até talvez você tenha que pagar mais uma coisa que ele vai te dar um sumário. A hora que você vai para o ao vivo, para o beijo, para o encaixe, para amanhã seguinte depois da transa, a gente tá querendo garantia de um encaixe perfeito. E eu acho tão maravilhoso ver como essa nossa busca mostra como a gente ainda tá próximo dos ideais românticos, né, de que vai ter alguém que vai ser a minha metade da laranja, que é exatamente o que eu procuro.

E o amor é exatamente da ordem, né. O Lacan, ele fala de dois registros do encontro que os gregos separavam, como o automaton, que é a repetição calculável, é o que pode ser previsto, e o cliché, que é o encontro com o real, é o encontro que nos desorganiza, é o acaso que nos atravessa. É você tá lá sensualizando e de repente você engasga com vinho e tosse, cospe na camisa do cara, e você acha que você estragou tudo, e de repente aquilo que conecta.

Eu lembro, eu tive um date que a gente tava saindo de um restaurante, indo para um bar, e me deu muita vontade de fazer xixi, muita, muita, muita. A gente tava andando na Paulista e eu falei: "Desculpa, você vai ter que ir um pouco na frente e eu vou fazer xixi atrás da banca de jornal." Eu pensei: "Gente, acabei com meu date", né? Eu fazendo a psicanalista profunda. E foi ali que o humano se conectou na menina que faz xixi escondida atrás da banca, igual fazia no carnaval.

Isso o meu "ya" não falaria, porque imagina, não é da ordem do admirável. E o que a gente tá querendo é minimizar a exposição. Voltando para o medo que eu trouxe, né, que a maioria de nós tem medo de não ser suficiente. Quanto mais o concierge garante que ele fez uma boa seleção, mais medo eu tenho, mais medo eu tenho de viver uma síndrome de impostor no amor, porque uma hora Essa pessoa vai ver que eu não sou editada.

?Voz B

Vamos lá, vamos lá, aqui não tem o nome, aparece o nome de uma consultoria, mas a de uma, de uma, a quinta, não sei, é consultoria amorosa, consultoria maravilhosa.

CTCarol Tilkian

Imagina de uma consultoria que já vai vender esse serviço aqui na nossa coluna, vai tá montando já, tá.

?Voz B

Mas ela tá preocupada, olha só, consultoria amorosa feita por IA. Da forma que as IAs estão alucinadas, isso vai dar muito errado. A Tati, que não é nossa Katy diz o seguinte, que logo vai ter IA falando com IA. Porque imagina só, eu pago, a pessoa que eu tô a fim também paga, elas ficam se conversando, e é tudo IA. Imagina todo mundo pagando esse serviço, ninguém fala mais com ninguém, só as IAs se conhecendo. Tem mais, Sônia.

Cara, que maluquice, o xaveco tete a tete não tá dando, quem dirá terceirizando. Rogério: A IA Cupido não poderia, em vez de buscar uma moça real, puxar a sardinha para uma coleguinha de IA com voz de Scarlett Johansson, como a Samanta do filme Ela? Lembrei do filme Ela também. Bom, são algumas daqui das preocupações dos nossos ouvintes, Carol.

CTCarol Tilkian

Eu acho muito bom a gente trazer essas preocupações, porque quando vem toda essa perplexidade, parece que tá distante, né? Mas daí quando a gente vê os números, que 7 em cada 10 brasileiros toparia pagar para o IA fazer essa conversa, que que será que a gente não tá revelando aqui no chat da rádio, mas que a gente tá com medo de se conectar? Eu recentemente fiz um trabalho para o Bumble, que é um grande aplicativo. E a minha provocação para os usuários é: a gente demoniza a ferramenta, mas a questão não é a tecnologia, é a forma como eu uso ela.

Eu querer que um IA converse para mim com outro IA, ou que a plataforma me diga qual é a pergunta correta para eu fazer para enganchar com aquele cara. Eu posso entender o universo do aplicativo como a pista de dança de uma boate onde a gente paquerava. Ali tem pessoas. E assim como eu não vou ficar eternamente naquela balada, eu vou ter um primeiro papo e depois eu vou marcar um jantar, eu vou passar para o WhatsApp. A gente pode fazer a mesma coisa no aplicativo e a gente não tá fazendo e tá culpando a tecnologia.

A gente fica tão preocupado em ser interessante e aí pede para o IA escolher a sua melhor foto, o seu melhor ângulo, a melhor frase, que você esquece que você tem que perguntar do outro, que a conversa também é ser interessado sobre algo específico. E quanto mais a gente entra nessa lógica de economizar tempo e acertar, mas a gente tá vivendo numa sociedade paliativa. Eu penso que o concierge, ele é quase que um analgésico afetivo.

Então ele suprime o sintoma sem tocar a causa. É, ah, tá bom, você fica angustiado com a espera, com a frustração, porque você entra lá no aplicativo, a pessoa não respondeu. Gente, vamos lembrar que o aplicativo A gente usa ele de uma forma assíncrona. Ao contrário do WhatsApp, você não tá online ao mesmo tempo que a pessoa. Só que daí você tá lá numa reunião chata, ou você viu uma foto da sua ex-namorada com o namorado atual, tá carente, entra, manda uma mensagem, o cara ou a mulher não te respondem, você vai para o seu viés de confirmação e fala: tá vendo, ninguém quer nada com nada.

Só que a pessoa, aquela hora, ela é um dentista e ela está obturando a cara de uma pessoa. Ela vai entrar dali a 2 dias e vai falar: tá vendo, aquela mulher já saiu, devia estar conversando com 5 caras. Aposto que parou de falar comigo porque eu tenho menos de 1,70m e as mulheres só gostam de homens altos. E aí a gente vai reforçando a dor, o desamparo, a frustração, ao invés de olhar para esses sintomas e de entender que o amor vai conviver com angústia.

A gente quer negar a angústia do começo dessa relação. Será que dá certo? Será que não dá certo? Ou a gente já quer pular para o 'tenho certeza de que essa é a pessoa'. Hoje de manhã eu tava atendendo uma analisanda que tinha enganchado num papo com um cara no aplicativo, teve dois encontros que foram legais, E depois teve uma conversa onde o cara se mostrou pouco cuidadoso, inadequado. E aí, qual foi a fala? Tá vendo? Mais uma vez, logo quando eu começo a me apaixonar.

E a chamada na sessão dela, que é uma chamada a todos vocês que estão ouvindo, é: você tava se apaixonando mesmo, ou você tava apaixonada pela ideia de estar apaixonada? E na verdade você tinha tido "2 dates legais", ou pode ser que, né, outra pessoa: "Ah, você trocou um nude interessante", ou "Você teve uma boa transa". Agora a gente volta pra essa mesma narrativa do coitado, coitada. Eu sou a pessoa aqui em busca de um amor e tá todo mundo na ordem do descartável.

Então, por favor, suprima minha angústia e já me dê certeza de que esse alguém É exatamente o que eu procuro. E aqui eu quero trazer uma outra camada psicanalítica, que é: angústia vem não só com a falta, mas a angústia vem muitas vezes diante da falta da falta. Quer dizer, a hora que a pessoa é exatamente o que eu procurei, você fala: peraí, Mas cadê a pessoa? Tá faltando ali. Ela, ela tá dando check em todas as suas características, mas é um robô, é um espelho, né?

O desejo, o gozo, ele tá exatamente no intervalo, na alteridade, na distância, nesse não saber. Enquanto a gente quiser construir um amor desconstruído 2026 numa proximidade absoluta, a gente vai seguir solitário, porque a gente tá achando que está encontrando outro, mas o que a gente tá fazendo é operando numa lógica que acelera o desaparecimento do outro. E o nosso desaparecimento, perfeito, porque se é a minha IA que fala por mim, a indústria vende a fantasia de completude.

E vamos lembrar que você precisa ficar lá para seguir pagando. Então uma hora você vai tomar o vinho e não vai ser tão bom, e aí você vai pagar de novo para sua IA falar com outro IA e achar que tem sempre um match que encaixa mais. E se a gente puder amar no desencaixe? E se a gente puder falar não a melhor frase paquerativa, mas a que a gente pode falar? Tem uma frase do Máximo Recalcati que eu acho linda e que tem muito a ver com a nossa pauta, que é: o amor não é encontrar quem complete a minha falta, é o milagre de fazer com que a falta do outro se torne para mim mais preciosa do que qualquer plenitude é a gente poder ser faltante, ser insuficiente, e o outro também entender que exercitar o amor é tolerar frustração, é suportar o silêncio, é sustentar ambiguidade, é se arriscar sem ter certeza.

De que foi a melhor frase, de que a gente tem tudo a ver. Porque enquanto a gente quiser suprimir angústia, a gente vai suprimir os encontros. Então, ainda que para você pareça muito maluco contratar um IA, quais coisas você tá querendo acertar? Quando você quer ter certeza absoluta de que essa é a pessoa que a gente vai namorar, que a gente vai casar, que a gente é muito igual? Talvez você não esteja pagando por esse serviço, mas você esteja querendo apagar as faltas. É o mesmo sintoma.

?Voz B

Economiza o dinheiro e gasta de forma melhor, mais saudável. Carol, muito obrigado mais uma vez. Uma boa semana para você. Até segunda-feira que vem.

CTCarol Tilkian

Um beijo, um beijo.