‘O afeto programado’
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- Descompasso com a Vida RealRiscos de brinquedos com IA na construção humana · Geração que confunde amor com conveniência · Vínculo não nasce do conforto, mas do atrito · Aprendizado através do conflito e negociação · Diferença entre convívio com humanos e brinquedos de IA · Preferência por afeto programado em detrimento do esforço · Jonathan Haidt
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Jonathan Haidt, autor de A geração ansiosa, voltou a alertar essa semana sobre brinquedos com inteligência artificial. Bonecas, ursinhos, robôs conversacionais. O receio é que esses objetos sempre disponíveis, pacientes e totalmente responsivos virem figuras de apego emocional para crianças e comecem a competir com vínculos reais. Eu acredito que isso pode acontecer, e é aí que mora o perigo. Vínculo não nasce do conforto, nasce do atrito.
A criança se constrói batendo de frente com o outro que tem vontade própria, que se cansa e também diz não, que às vezes erra e depois pede desculpa. É nesse vai e vem que ela aprende a esperar, a negociar, a lidar com a frustração. Tudo isso vira repertório para a vida adulta, o que o homeschooling, ou ensino domiciliar, não oferece, por exemplo, mas isso é outro papo. O Ursinho de Iá não ensina o que só o convívio com outras crianças ensina.
Está sempre disponível, sempre dizendo o que a criança quer ouvir. Vínculo sem fricção não é vínculo. Fica mais parecido com um serviço, um delivery afetivo. O grande risco aqui é formar uma geração que confunde amor com conveniência. Uma criança acostumada a um amigo que nunca se irrita vai achar Que o amigo de carne e osso está com defeito. O de carne e osso frustra, impõe limite, tem dia ruim. Isso não é defeito, é o que faz dele real.
A gente vai criar gente que sabe conversar com robô e não aguenta a imperfeição de um ser humano, que prefere o afeto programado ao afeto que exige esforço. O limite que o brinquedo nunca impõe, o mundo vai impor lá fora. E o mundo não tem a paciência infinita de um ursinho programado para agradar.
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